Engasguei-me com
a risada. Já não aguentava mais, as forças escoavam-se dos braços, das mãos,
dos dedos. Pressionei a cara contra a nuca dele, mas já não conseguia manter-me
agarrada à túnica do dogi por muito
mais tempo.
Corríamos na
floresta, ziguezagueando entre as árvores, num percurso definido antes de cada
estafeta. Claro que eu não corria,
fazia-o às cavalitas de Trunks que se movimentava como se eu não lhe pesasse
nada e não estivesse ali. Os solavancos, as arrancadas e as travagens bruscas,
os saltos e os protestos faziam-me rir. Goten ultrapassava-nos, ficava para
trás, gritava que fazíamos batota. Ao fim de cinco estafetas, em que subimos e
descemos pelos montes, estava quase a cair se não chegássemos depressa ao nosso
destino. Sentia-me na vertigem de uma viagem alucinante de um carrossel de um
exclusivo parque de diversões. E estava a adorar cada segundo.
Regressávamos
dos banhos na cascata, onde passámos a manhã inteira e ainda parte da tarde,
depois de nos termos alimentado com uma refeição frugal de fruta e de termos
conversado. Fiquei a saber que estudavam na universidade e que o filho de Goku
estava a tirar um curso superior por causa de uma aposta.
Quando Goten
chegara à cascata, depois de nos ter dado muito tempo para ficarmos a sós,
voltara a distância controlada e polida entre mim e Trunks. Só que, percebendo
desta vez o motivo, não me incomodara. Para voltar à cabana, os dois combinaram
uma corrida com outra aposta – quem perdesse teria de caçar, acender a fogueira
e preparar a refeição do final da tarde sozinho.
Trunks parou
de repente, derrapando com os pés, levantando uma onda de terra. Eu ia saltando
disparada por cima da cabeça dele. A cabana estava diante de nós, a uns bons
cem metros, mas de Son Goten, nem sinal.
- Ganhámos,
Ana.
- Achas? Isto
parece-me estranho… Onde é que ele se meteu? Esteve sempre ao nosso lado.
- Hum…
Ficou imóvel,
até susteve a respiração. Crispei os dedos, agarrando-me com mais força à
túnica.
A floresta
quedou-se suspensa. O zumbido dos insetos, o restolhar dos esquilos, o fuçar
dos javalis, o marulhar das folhas, todos esses sons tornaram-se enervantes.
Escutou-se um
silvo.
- Trunks…?
Ele girou a
cabeça para a esquerda. Fletiu ligeiramente os joelhos, dobrou os braços pelos
cotovelos, tinha dois punhos bem fechados. Continuava sem respirar.
Nisto,
saltou.
Gritei com o solavanco.
Trunks estava no ar. As minhas mãos abriram-se, caí de costas no chão duro. Vi
duas manchas escuras passarem por cima de mim, chocarem, desaparecerem. Uma
centelha breve estalou no ar.
Levantei-me,
olhei para a cabana no preciso momento em que Goten e Trunks tocavam na porta.
Com a ânsia da competição esqueceram-se de dosear a força e tinham-na desfeito.
- Cheguei
primeiro! – Anunciou Trunks com um grito.
- Eu é que
cheguei!
Aproximei-me,
sacudindo a terra das calças.
- Parece-me
que foi um empate, chegaram ao mesmo tempo.
Olharam os
dois para mim. Tinham o braço alçado, a mão aberta a tocar o vazio, pois a
porta jazia em pedaços aos pés deles.
- Quero
desempatar – disse Trunks com um trejeito mimado.
Goten piscou
os olhos.
- Desempatar?
- Podem fazê-lo…
Janken? – Sugeri.
- Janken? – Indagou Goten.
- Concordo! –
Exclamou Trunks.
Escondeu o
punho atrás de si. Goten imitou-o.
Olhei para a
entrada da cabana, a pensar que o perdedor, para além do jantar daquele dia,
também teria de construir uma porta nova.
Começaram, em
uníssono:
- Jan-ken! Jan-ken!
Mas como se
conheciam tão bem um ao outro, os lançamentos eram idênticos. Pedra, tesoura,
pedra, papel, tesoura, tesoura, papel. Até que Goten lançou pedra e Trunks
lançou tesoura.
Goten elevou
ambos os braços no ar, deu um pulo de alegria, aterrou apenas com uma perna.
- Ga…!
Cortou o
entusiasmo ao olhar para o céu. Congelou a posição.
- Hai, ganhaste – admitiu Trunks
aborrecido. Mas também ele ficou sério e olhou para o céu.
Senti um
arrepio.
- O que é que
se passa? – Perguntei num murmúrio, recuando para entrar na cabana.
- Alguém vem
aí – disse Goten.
- Alguém…? O
quê? Mas este lugar não era secreto?
Aguardaram
calados. E eu cada vez mais apreensiva.
O mistério
foi rapidamente desfeito quando Piccolo aterrou diante de nós. Apesar de saber
que ele fazia parte dos amigos, coloquei-me atrás de Trunks. O tamanho dele
intimidava-me.
Sem qualquer
tipo de introdução, disse:
- Goten. Trunks.
Têm de ir imediatamente para o Templo da Lua.
- O que é que
se está a passar? – Perguntou Goten.
- Zephir
também procura pelas bolas de dragão. Keilo está com ele, os demónios não.
Devem andar pelo planeta a reunir as bolas de dragão. Son está junto ao templo,
à vossa espera para entrar e roubar as bolas de dragão. Precisa de vocês para distrairem
o saiya-jin e o feiticeiro. Devem
partir imediatamente.
- E a Ana? –
Perguntou Trunks.
- Eu fico com
ela.
Engoli em
seco. Fazia parte dos amigos, mas era um gigante carrancudo e assustador. A
ideia de ficar sozinha com Piccolo, numa cabana sem porta numas montanhas
inacessíveis, não me agradava.
Trunks
encarou-me.
- Ana, não te
preocupes. Ficas bem acompanhada.
Gaguejei:
- Eu… sei.
Apertou uma
madeixa do meu cabelo entre os dedos.
- Ei… Vai
correr tudo bem. Sou o filho de Vegeta, lembras-te?
Olhei para
Goten. Pedi:
- Cuida bem
dele, ouviste?
- Hai.
Depois,
partiram os dois. Deixei de os ver em pouco tempo, distanciaram-se tanto que o
céu não guardou qualquer marca da sua passagem.
Piccolo
permanecia no sítio onde aterrara, imperturbável, os grandes braços verdes
cruzados. O olhar dele era intenso e desviei a atenção daquele rosto severo.
- Ana-san, vai
para dentro da cabana.
A voz grave não era ameaçadora, mas tinha um laivo de secura que me arrepiou. Obedeci sem contestar.
A voz grave não era ameaçadora, mas tinha um laivo de secura que me arrepiou. Obedeci sem contestar.
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