O estômago
doía-lhe. Estava apreensivo, nervoso, com um mal-estar incomodativo a
arrepiar-lhe a pele. Engoliu em seco. A busca das bolas de dragão podia não ser
fácil porque, às vezes, estas encontravam-se nos sítios mais estranhos e
inóspitos, ou à guarda de fanáticos que julgavam-nas como presentes dos deuses,
mas aquilo era a última coisa que lhe passaria pela cabeça.
Goku tentou
acalmar-se. Não seria nada de muito complicado, haveria de correr tudo bem.
Talvez as dificuldades que antecipava não passassem da sua fértil imaginação. Conseguiria
a bola de dragão sem problemas de maior e poderia passar à bola de dragão
seguinte.
O sorriso de número
17 era enigmático e era o bastante para despertar todos aqueles sentimentos de
incerteza. Por que razão lhe sorria daquela maneira, como se entre eles se
erguesse um muro de inimizades impossível de ignorar?
- Son Goku…
Não esperava a tua visita. Deixas-me profundamente… admirado.
Conversar era
uma boa ideia. Goku permitiu-se descontrair.
- Ah, sim?
Bem, não vim visitar-te. Eu…
- Não?
Acabaste de desiludir-me.
- Não. Preciso
de uma coisa que tu tens contigo.
- Pensava que
tinhas vindo para acertar velhas contas.
Número 17
encostou a espingarda caçadeira na parede da casa, junto à ombreira da porta.
Aproximou-se, arregaçando as mangas do casacão que vestia. Parou diante dele,
mãos na cintura, exibindo os pulsos finos, numa pose provocadora.
- Não achas
incrível, Son Goku, que nunca nos tenhamos visto?
- Eh… O que é
que queres dizer?
- Tu e eu
somos inimigos.
O sorriso de
Goku foi azedo.
- Ora… Somos
lá inimigos. A tua irmã vive com o meu melhor amigo. Os dois até têm uma filha.
- Sabes
porque é que eu existo? Para te destruir, Son Goku.
Goku apagou o
sorriso.
- Porque é
que estás a falar disso agora? Isso já se passou há tantos anos…
- Vinte anos.
Apesar de todos os anos passados, tenho dificuldade em esquecer determinadas
coisas. Sabes? Sempre esperei por este momento. Mais cedo ou mais tarde, virias
ter comigo. Para ti pode ter acabado, mas para mim o jogo continua. O jogo
esteve apenas interrompido.
- Jogo?
- Hai, um jogo. – Riu-se. – Era uma
brincadeira, o jogo das escondidas. Eu procurava por ti, tu nem sabias que eu procurava
por ti. Haveria de te encontrar… E o que aconteceria quando te encontrasse?
Goku franziu
a testa. Número 17 prosseguiu consternado:
-
Infelizmente, aconteceram alguns percalços e nunca nos chegámos a encontrar.
Acabei por desistir de te procurar… Mas, hoje, a ordem das coisas foi reposta.
Que importam os anos? O que importa é o destino. Iríamos sempre encontrar-nos.
Já pensaste nisso?
Goku não
respondeu.
- A ironia é
que, em vez de ter sido eu a encontrar-te, foste tu que me encontraste.
- Tens uma
coisa que eu quero.
- Oh?
- Só quero
que me dês essa coisa… Depois, vou-me embora.
- E o que
queres de mim?
- A bola de
dragão.
O espanto de
número 17 foi genuíno. Retirou as mãos da cintura. Goku explicou:
- É uma bola
cor-de-laranja, com quatro estrelas dentro.
- E para que
precisas dessa bola?
- Existe um
novo inimigo e o futuro do Universo depende das bolas de dragão.
- Ah! –
Sorriu com uma soberbia irritante. – Precisas mesmo dessa bola. Eu dou-ta. Mas só depois de lutares comigo, Son
Goku. Terás de ganhar o direito a
possuir a bola de dragão.
Os ombros de
Goku descaíram.
- Mas eu não
quero lutar contigo… Não me parece que tenha que lutar contigo.
- Não? A bola
de dragão não é motivo suficientemente forte, Son Goku?
- Kuso! – Irritou-se. – Por que estúpida
razão queres lutar comigo?
- Se ganhares
o combate, digo-te.
Entreolharam-se
em silêncio.
Não havia
volta a dar, a teimosia daquele humano artificial era difícil de contornar.
Goku concordou.
- Está bem.
Luto contigo.
A terra tremeu
ligeiramente, quando Goku reuniu a energia suficiente para se transformar em super saiya-jin. Sabia que naquele nível
não conseguiria derrotar número 17, mas quis dar-lhe a vantagem inicial.
Atacou
primeiro, um conjunto de socos que número 17 esquivou facilmente. Num movimento
rápido, o androide defendeu-se e atingiu-o na nuca com o braço, derrubando-o.
Goku estatelou-se, enfiando a cara no chão.
- Sou
demasiado rápido para ti?
Enquanto se
levantava, Goku cuspiu saliva com sabor a sangue, limpou a boca.
- Ainda tenho
mais truques.
- Oh, eu sei
que tens. – Rugiu depois, irritado: – Não sejas condescendente, ou rebento com
estas montanhas e tu com elas!
Curiosamente,
Goku não se sentiu ameaçado.
O segundo
ataque também partiu da sua iniciativa. Goku saltou, desde o alto enviou um
raio azul com ambas as mãos. Número 17 desapareceu, o rebentamento abanou os
alicerces da casa próxima. Voltou-se, aparou um raio amarelo lançado pelo
humano artificial. Vinha quente, chamuscou-lhe a palma das mãos. Queixou-se,
mas depois teve de se desviar de um pontapé traiçoeiro. Número 17 tomava a
iniciativa, por fim.
Os golpes do
humano artificial eram poderosos, mortíferos. Número 17 não estava a brincar,
ao contrário dele, que não queria entregar-se a fundo ou derrotava-o
facilmente. Não queria ferir o ego do adversário. Apesar de serem inimigos, não
tinha nada contra ele suficientemente grave que motivasse uma humilhação. Só
queria o raio da bola de dragão!
Combatiam no
ar, numa aguerrida luta corpo-a-corpo. Goku tentou um pontapé. Foi lento. Número
17 ganhou espaço, esquivou-se. Ripostou. O punho enterrou-se no abdómen de Goku
que teve uma súbita falta de ar. Depois afastaram-se um do outro.
Número 17
voltou a atacar, com tal ímpeto e velocidade que surpreendeu Goku, ainda às
voltas com o formigueiro no abdómen. O soco nos queixos fê-lo cair por terra. A
esfera flamejante rebentou em cima dele, o vermelho-vivo da explosão rivalizou
com as cores que o céu ganhava com o pôr-do-sol.
Goku
levantou-se, cambaleante. Um fio de sangue escorria-lhe pelas fontes. Número 17
aterrou junto a ele. O rosto impassível não transparecia qualquer emoção, os
olhos eram gélidos e fitavam-no com desprezo.
Não se podia
demorar mais. Goku transformou-se em super
saiya-jin, nível dois.
Número 17
esboçou um meio sorriso.
As faíscas
estalaram, Goku concentrou mais energia. Atacou sem contemplações. Iria
terminar aquele combate inútil num minuto, talvez menos.
Os socos e os
pontapés assobiavam ao passar perto de número 17, que se desviava com algum
esforço. Já não era fácil desviar-se. Enquanto bailavam naquela dança
irritante, um tentando atingir, outro tentando fugir, Goku observava,
aguentava, esperava o deslize. Sabia que irritava o humano artificial e um lutador
irritado fica vulnerável. Notava a frustração a crescer, fingiu distrair-se.
Número 17 esmurrou-o na cara, afastou-o com uma patada no peito. Antes de cair,
Goku conseguiu equilibrar-se. Impulsionou-se, apoiando a biqueira das botas no
solo, saltou alto. Uniu as mãos, levou-as atrás.
- Kamehame…
A terra
tremeu, pedras pequenas saltitavam como pipocas. Número 17 já tinha certamente
percebido que fora ingénuo. Cruzou os braços sobre a cara, fincou os pés,
endurecendo os músculos, munindo-se de toda a sua energia. Goku enviou o ataque
energético.
- Ha!!!
A onda azul
alcançou número 17. Explodiu. O tremor de terra foi mais intenso.
O sol pôs-se
no horizonte e a escuridão espalhou-se pelas montanhas.
Os efeitos da
explosão diluíam-se na atmosfera. Goku não esperou que a poeira assentasse por
completo. Atirou-se para cima do adversário que, combalido pela ação
devastadora da Kamehame, pelo meio da
nuvem de fumo, tentava aguentar-se de pé. Socou-o. O nariz e a boca de número
17 espirraram sangue.
O humano
artificial ripostou. O pontapé que lançou foi completamente inofensivo. Goku
apanhou-lhe a perna. Rematou-o com um segundo soco. Número 17 caiu de joelhos,
engasgado com a dor. Caiu de borco, tremendo, gemendo. Perdeu a consciência.
A força
brutal de um super saiya-jin era
imensa, até para um androide com energia inesgotável. Mesmo que, noutra linha
temporal, tivesse parecido que não o era. Pelo menos, no início, entre o
desespero das ruínas de um mundo bonito.
Goku expulsou
o ar dos pulmões.
Número 17
esgravatou a terra, enquanto tentava erguer-se. Goku anunciou com a voz seca:
- A vitória é
minha. O combate terminou.
Número 17 encarou-o
com um olho semi aberto, respirando com alguma dificuldade. Concordou, forçando
um sorriso:
- Está bem,
terminou… Fiquei satisfeito.
A capa
dourada que envolvia o corpo de Goku sumiu-se.
- Então,
tenho direito ao meu prémio.
E exibiu um
sorriso franco que atrapalhou o outro. Não o considerava como inimigo,
esquecera a animosidade do combate. Podia ser despeito, mas, provavelmente, não
passava de uma ingénua sinceridade. E número 17 também deveria esquecer o que
tinha acontecido, pois o combate terminara mal para o seu lado e terminaria
pior se insistisse na desforra. Entrou a coxear na casa e voltou, escassos
minutos depois, com a pequena esfera cor-de-laranja numa das mãos. Entregou-a a
Goku.
- Arigato! – Exclamou este com alegria.
-
Mereceste-a. – Perguntou sem qualquer entoação na voz: – Para que a queres? Tem
a ver com aquele feiticeiro que nos enviou para uma dimensão esquisita?
Goku piscou
os olhos, perplexo.
- Também
estiveste na Dimensão Real?
- Hai.
- Faz
sentido, tu também estás ligado à minha vida…
- E essa
bola?
- Ah…
Sozinha, não nos serve de nada. Temos de reunir sete bolas iguais a esta para
pedir um desejo a Shenron.
- Vão pedir
para eliminar o feiticeiro?
- Não. Até
duvido que Shenron tenha o poder suficiente para o eliminar... Vamos pedir-lhe
um objeto que o feiticeiro precisa para se transformar num deus. Não podemos
permitir que se torne mais poderoso do que já é.
Número 17
pareceu satisfeito com a explicação. Cruzou os braços, perdeu o olhar na
floresta que cobria as montanhas. A noite caía.
Goku admirou
a bola de dragão de quatro estrelas. A sua velha bola de dragão. Passou os
dedos pela sua superfície macia e fria. As estrelas vermelhas dançavam no
interior. Era como se fosse um reencontro…
- O combate
foi bom – atirou número 17 com um olhar ausente.
Goku guardou
a bola de dragão dentro da túnica.
- Já me podes
dizer por que é que querias lutar comigo?
- Para saber
se tinha valido a pena – respondeu, ainda sem o encarar.
- Valido a
pena?
E então,
finalmente, olhou-o de frente, olhos nos olhos.
- Esperar
tanto tempo.
A resposta soou-lhe
estranha. Goku franziu um sobrolho.
- És um excelente
adversário, Son Goku.
- Tu também, número
17.
Sorriram um
para o outro. Não podiam ser inimigos, pensou Goku, apesar do humano artificial
acreditar que o eram. Talvez fizesse parte daquilo que o fazia ser quem era,
afinal era uma máquina construída por um cientista louco.
Número 17
completou, a olhar novamente para sítio nenhum:
- Nunca me irei
arrepender de te ter enviado a minha energia durante o combate contra Majin Bu.
- Tu? Tu
também o fizeste?
Quando
combatia Majin Bu e para que
completasse a Genkidama que lhe
permitiria acabar com esse terrível adversário, Goku pedira ajuda a todos os
seus amigos, precisava da energia vital deles, depois de o apelo de Vegeta não
ter sido atendido. E agora Goku admirava-se por número 17 ter feito parte
desses amigos.
Não, não eram
inimigos.
Goku
perguntou-lhe entusiasmado:
- Ei!... Não
te queres juntar a nós e lutar contra o feiticeiro?
- Não posso.
- Nani? Porquê?
- Continuas a
ser o meu inimigo, Son Goku.
O entusiasmo
de Goku esfriou. Número 17 agarrou na espingarda caçadeira.
- Há coisas
que não se conseguem mudar. Estão esculpidas em pedras eternas. Desenhadas em
circuitos inacessíveis, na memória remota de um computador. Nem mesmo tu, super saiya-jin, com todo o teu poder,
conseguirás mudá-las.
Número 17 acenou-lhe
uma despedida, desapareceu no interior da floresta. Goku encostou dois dedos na
testa, também se despediu:
- Djá ná…
Não tinha
percebido nada do que número 17 lhe tinha dito.
Elevou-se nos
ares, agarrou no radar. A bola de dragão mais próxima era a de seis estrelas. O
pontinho branco no mostrador piscava a norte, a alguns quilómetros. Apesar de
começar a ser noite, voou para lá a toda a velocidade.
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