O espectro de
Babidi, com as mãos azuladas e minúsculas coladas no vidro da bola que o
aprisionava, contemplava a explosão de fúria de Zephir.
- Os kucris!
A cena de
histeria contrastava com a atitude imaculada que o feiticeiro gostava de
exibir. Babidi revirou os olhos, aborrecido. Debaixo da capa de uma indiferença
arrogante, Zephir era um desvairado de sangue quente que perdia facilmente o
controlo. Já se tinha arrependido de o ter escolhido como seu instrumento para
a conquista do Universo.
- Roubaram-me
o livro e partiram o vaso dos kucris! Acabaram com os meus preciosos ajudantes…
Já não vão nascer mais kucris. Mas quem ousou entrar sorrateiramente no Templo
da Lua e fazer esses estragos irreparáveis?
Zephir volveu
os olhos inflamados para Babidi, que flutuava dentro da bola. Apontou-lhe um
dedo esquelético, agitando a larga manga do hábito cinzento.
- Foi obra
tua, maldito?
- Não deves
estar a falar a sério, meu caro Zephir. Achas que sou capaz de fazer alguma
coisa dentro desta prisão? Além do mais, pareces esquecer que sou apenas uma
alma do Outro Mundo, sem um corpo palpável. Que posso eu fazer? Se tivesse
esses poderes que tu pensas que tenho, utilizava-os em meu proveito, para sair
desta bola, por exemplo, e não nalgum esquema mirabolante para me vingar de ti.
- O livro
desapareceu do altar. O teu livro! –
Bradou.
- Era o meu
livro, certo, mas és tu quem o usas.
- O livro era
a coisa mais valiosa que possuía. Era o meu passaporte para o trono do
Universo. Tu sabias disso, Babidi! Só
tu conhecias o meu segredo. – E apontou para o espaço vazio do altar, entre as
duas velas.
O espectro
encolheu os ombros.
- Não tenho
nada a ver com o que aconteceu.
Num acesso de
raiva, Zephir atirou a bola à parede. O vidro era especial, criado através da
magia, e não se partiu. Quando esta rebolou pelo chão, Babidi atordoado rebolou
com a bola, aos encontrões dentro desta. Zephir voltava-se para o altar, punhos
apoiados neste.
- Foi aquele
maldito rapaz. Foi ele – disse com uma voz seca, acalmando-se aos poucos. – Ele
é o teu precioso Majin Bu. Entraste
dentro da mente dele, convenceste-o a ajudar-te. Sabotou os kucris, escondeu o
livro. Faz o que tu lhe pedes, não o que eu lhe ordeno. Há quase um dia que o
enviei à procura da rapariga da Dimensão Real e da outra metade do Medalhão de
Mu e ainda não regressou.
Babidi
levantou-se dentro da bola, agarrado à cabeça tonta.
- Estive
sempre contigo, ando sempre contigo. Como podia fazer isso de que me acusas?
- Sabes que
preciso daquele livro. Sem ele, não conseguirei fazer o conjuro para criar o
altar onde se utilizará o Medalhão de Mu que me transformará num deus. Queres
fazer chantagem comigo… – Rosnou furibundo: – A tua liberdade em troca do
livro.
Os olhitos de
Babidi arregalaram-se.
- Pensas
mesmo que fui eu! Admito que seria uma excelente ideia… mas que não me ocorreu.
Juro-te!
Zephir puxou
a bola até à altura do rosto lívido. Desenhou um sorriso pérfido e disse
pausadamente:
- Já nem
quero saber se foste tu, ou não. Vou acabar contigo. Estou farto da tua
presença, Babidi. Não passas de um espírito insignificante. E mais
insignificante ficarás quando eu convocar as trevas dos Infernos para desfazer
essa tua alminha de nada, até que não sobre nada de ti. Nem a recordação! Até
nunca, Babidi!
- Olha que te
podes arrepender – implorou o espectro com um guincho.
- Eu nunca me
arrependo de nada!
Os dedos do
feiticeiro, que alçou sobre a bola, cobriram-se com uma névoa intermitente
avermelhada. O espectro tornou a guinchar, falando muito depressa:
- Lembra-te
que o livro de magia chama-se “Livro de Babidi”. Eu sou Babidi! Sei o meu livro
de cor e salteado. Todos os conjuros e todas as magias foram criados por mim,
foram reunidos por mim. Posso ajudar-te. Não tens o livro, mas tens-me a mim.
Zephir
exclamou siderado:
- Mais
chantagem?!
- É a única
chantagem.
Passos junto
à porta do santuário.
- Sensei?
Kumis
apareceu. Zephir detestou ser interrompido e gritou ao insolente:
- Demónio,
fora daqui! Estou ocupado!
- Mas isto
vai interessar-lhe, sensei.
E entrou no
santuário, empurrando-a, exibindo-a como se fosse um troféu, presa por um
braço. Zephir ficou boquiaberto a olhar atarantado para a miúda que o encarava
sem mostrar uma nesga de medo, apesar dos gritos, do demónio e de ter o braço esmagado.
Respirou fundo, recolheu a energia avermelhada, ocultou as mãos dentro das
mangas do hábito, perguntou sem qualquer emoção:
- E o que vem
a ser isto?
Keilo
postou-se na entrada do santuário, a observar a cena.
- Encontrei-a
no templo, sensei. Vinha com uma
amiga que fugiu. Não sei para onde foi a outra, mas esta foi fácil de agarrar.
Zephir
estreitou os olhos.
- Outra
miúda?
- Hai, sensei. Fugiu… Eh… Atacou-me e
conseguiu fugir.
Keilo desatou
a rir. Mas Zephir continuou sério.
- Hum… Temos
meninas guerreiras no Templo da Lua? – Inclinou-se ameaçador, mas ela continuou
a enfrentá-lo corajosa, sem sequer piscar os olhos azuis. – Não vale a pena
perguntar-te nada, pois não, minha querida? Não me irias responder. Mas não
preciso das tuas respostas para saber quem és, de onde vens e o que queres do
Templo da Lua, menina guerreira.
Num gesto
repentino pousou a mão gelada sobre a testa dela, pressionou ligeiramente e a
miúda reagiu com um gemido e um safanão. Sorriu deliciado. Finalmente,
incutira-lhe medo.
O processo
não foi muito demorado. A mente era simples e pouco treinada. Bastaram duas
palavras, pouco menos de cinco segundos e a excitação da vitória acendeu-lhe o
olhar maléfico. Retirou a mão gelada e a miúda caiu de joelhos desmaiada,
pendurada na manápula de Kumis.
- Foi um
prazer conhecer-te, Bra – disse Zephir calmamente. Voltou-se para o demónio: –
Kumis, leva-a para um sítio seguro, vamos precisar dela nas próximas horas.
Estás proibido de fazer mal à filha de Vegeta.
Surpreendido,
Keilo descruzou os braços. Nunca imaginara que aquela pirralha pudesse ser tão
especial. Ela tinha o sangue real dos saiya-jin
a correr nas veias!
- Hai, sensei.
Kumis fez uma
vénia e foi pelos corredores levando Bra debaixo do braço. Keilo seguiu o
demónio com curiosidade.
Zephir elevou
a bola de vidro e sorriu.
- Agora
entendo que não tiveste nada que ver com os recentes acontecimentos, Babidi.
O espectro não
lhe respondeu. Cruzou os braços, baixou os olhos amuado.
O feiticeiro sentiu-se
triunfante, apesar dos últimos reveses. Permitiu-se um ligeiro suspiro de
alegria. Podia ter perdido o seu precioso livro de magia, podia ter perdido o
vaso dos kucris, mas com a menina guerreira ganhara a imortalidade.
Largou a bola
de vidro e chamou por Ubo.
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