A cortina de
água ocultava a minha presença e era aí que me escondia, encharcada e
enregelada, espalmada contra as rochas escorregadias. Tremia sem parar,
agarrando-me ferreamente à bola de dragão de quatro estrelas.
Regressara à
cascata, parecera-me um lugar suficientemente seguro para me esconder,
disfarçado entre a vegetação cerrada. Mas se de manhã parecera um refúgio dos
deuses, ao anoitecer assemelhava-se a uma armadilha do inferno.
Esperava numa
solidão desencorajante.
Tentava ter
pensamentos agradáveis e não sucumbir ao desespero, mas tornava-se cada vez
mais difícil à medida que ficava mais escuro, que os minutos passavam sem que
nada acontecesse, que eu ficava cada vez mais gelada. O ruído da água a cair no
lago começava a cansar-me e a secar os derradeiros restos de esperança.
A vegetação
moveu-se, provocando um restolhar diferente, pesado. Não era um animal, era alguém
a rondar o sítio. Entrevi-lhe a silhueta para além da cascata. O demónio tinha
chegado. Fechei os olhos, sustive a respiração, espalmei-me ainda mais contra
as rochas escorregadias, escondi a bola de dragão atrás das costas.
Ele
procurava, devagar, aumentando a minha tortura. Parou. Via-o como uma imagem
ondulante, filtrado pela água. Estava mesmo à minha frente. Não se mexia, tinha
provavelmente encontrado onde me escondia. Arrepiei-me.
Uma mão
penetrou na cascata, agarrou-me, puxou-me. Um duche gelado molhou-me da cabeça
aos pés, calou-me o grito, engoli água, tossi. Num reflexo sacudi o braço, ele
soltou-me. Estranhei. Na meia-luz reconheci-o. O meu coração deu um salto – de
alegria, de surpresa. Os meus olhos escancararam-se e desatei a chorar de
alívio.
- Go…
Go-Goku?
Abracei-me a
ele, apertei-o contra mim. Estava quente, era saboroso, sólido, real. Um corpo
maravilhosamente esculpido sob uma pele suave, o coração a bater compassado.
Ouvia-lhe o coração e chorei ainda mais com esse milagre. Adorei conhecer-lhe o
cheiro, um suor doce, levemente almiscarado, tentador. Estava a enlouquecer,
ali, nos braços do herói, numa intimidade inusitada…
Ou melhor, era
eu que o abraçava.
Acho que me
concedeu tempo para que me acalmasse.
Depois,
segurou-me pelos ombros e foi só então que me tocou, separou-me dele, inclinou
a cabeça um pouco para a direita, mostrou-me um sorriso sereno.
- Já acabou.
Estás a salvo.
Ficara ligeiramente
confuso com o meu abraço, percebi.
- Estás a
tremer… Espera, vou secar-te para que te sintas melhor.
- Como é que…
vais fazer isso? – Perguntei acanhada.
Não me
importava com novo abraço, mas desta vez que fosse ele a ter a iniciativa.
Agarrava-me, apertava-me, aquecia-me. Mas em vez de me abraçar, estendeu a mão
direita sobre a minha cabeça. Soltou um grito breve, uma onda invisível de
calor desceu por mim e fiquei seca, confortável.
Saímos da
proximidade da cascata. Já não tremia. Goku perguntou-me:
- A bola de
dragão?
- Está aqui.
Quando lha
mostrei, brilhou com intensidade.
- Ah!...
Porque é que está a brilhar assim?
Enfiou a mão
dentro da túnica, exibiu a esfera que guardava aí.
- É por estar
perto de outra bola de dragão.
Riu-se como
um menino. Adorava aqueles detalhes, aqueles mistérios simples que encantavam
as crianças, magia inocente em estado puro. Ri-me com ele.
- Ana-san, com
essa tua bola já temos as sete bolas de dragão e podemos convocar o dragão
sagrado.
- Ah! –
Exclamei. – Vou ver Shenron?
- E vais
falar com ele. Vais ser tu que vais pedir o desejo. Vamos?
- Hai.
Toquei-lhe
nas costas, agora timidamente, sem a ousadia de há pouco, preparando-me para
viajar com ele. Goku inclinou o pescoço, para juntar os dois dedos à testa e no
instante de um piscar de olhos encontrei-me na clareira da cabana. Foi uma
viagem menos agitada do que a primeira vez que experimentara a Shunkan Idou, apenas me causou uma
ligeira impressão na barriga, talvez porque a distância percorrida foi mais
curta.
Os olhos
azuis de Trunks cintilaram quando eu apareci.
Pelos vistos,
estavam à nossa espera com alguma ansiedade. Vegeta, Piccolo, Goten e Trunks. E
também Toynara. A clareira estava esturricada e da cabana, nem sinal. O combate
com o demónio tinha sido duro e reparei que Piccolo estava ferido.
Vegeta abriu
um cofre prateado e despejou três bolas de dragão junto a outras duas que já
estavam no chão. Goku depositou a sua bola de dragão e, por último, também eu
deixei a bola de dragão que guardara comigo na minha fuga atribulada.
Goku reforçou
o que me já tinha dito.
- Ana-san,
vais ser tu que vais pedir a segunda metade do medalhão de Mu a Shenron,
entendido?
Fiz um gesto
afirmativo com a cabeça.
- Acho que
podemos tocar apenas numa das metades do medalhão, só não podemos tocar no
medalhão inteiro. Mas, pelo sim, pelo não, deves ser tu a pedir o desejo e
agarrar no medalhão.
- Certo –
respondi, sem convicção.
O sorriso de
Trunks, tão cintilante quanto os seus olhos, deu-me toda a confiança que
precisava naquele momento em que eu era o centro das atenções.
No chão, as
bolas de dragão brilhavam, como pedras redondas incandescentes. As estrelas
vermelhas no interior apagavam-se com o brilho intenso.
Goku
aproximou-se das sete bolas de dragão, elevou a voz e apelou num tom solene:
- Shenron!
Nós invocamos-te. Vem até nós para que concedas os nossos desejos.
Era estranho
ouvi-lo dizer aquelas palavras complicadas, mas era uma fórmula que repetira
várias vezes ao longo da sua vida que provavelmente já fazia parte dele, da
memória e da matéria.
As bolas de
dragão brilharam com mais intensidade e começaram a soltar pequenos feixes de
luz intermitente. O céu tornou-se abruptamente escuro, mais escuro do que uma
noite normal. O brilho das bolas de dragão aumentou até se formar uma espécie
de neblina amarela por cima do conjunto. Do céu negro vinham grandes relâmpagos
que estalavam por todo o lado.
Então, a neblina engrossou e um dos relâmpagos
do céu caiu sobre as esferas e, como se fizesse ricochete, irrompeu destas
transformado num raio volumoso e muito brilhante, que subiu até furar as nuvens
das alturas. Os relâmpagos prosseguiam, ameaçadores, ensurdecedores.
O raio,
depois de atravessar as nuvens, descreveu uma curva e mergulhou na nossa
direção, começando a ganhar forma. Surgiram patas, uma crista escamosa, a
cabeça de um dragão. Com um rugido aterrador, aquele que nascera do poder das
sete bolas de dragão, aparecia em todo o seu esplendor.
Shenron era
impressionante! Recortado na escuridão da abóbada celeste, tinha a majestade
dos animais míticos.
O dragão
sagrado rugiu uma segunda vez. Encolhi-me com aquele rugido ensurdecedor. Vi
Toynara embasbacado e pálido, de rosto voltado para os céus.
Shenron
disse:
- Reuniram as
sete bolas de dragão e chamaram por mim. Aqui estou, ao vosso serviço. Digam-me:
quais são os dois desejos que querem ver realizados?
Goku deu-me
um leve toque nas costas.
- Ana-san…
O tamanho
descomunal daquele animal que nascia do chão, de uma poça luminosa onde se
juntavam sete esferas brilhantes, intimidava-me, mas não fraquejei e com toda a
coragem pedi:
- Shenron,
queremos a segunda metade do Medalhão de Mu. É esse o nosso desejo… É possível?
O dragão
regougou. As barbas esverdeadas ondulavam, a enorme cabeça vagueava no espaço. Uns
segundos de ansiedade e, depois, Shenron respondeu:
- Fácil. O
vosso primeiro desejo será atendido.
Instintivamente
estendi a mão direita.
Os olhos
vermelhos de Shenron brilharam e um raio desceu dos céus até mim. Desviei a
cara com a aflição, pensei que me iria queimar. Mas ao sentir o toque frio do
metal, olhei sem medo e tinha a segunda metade do Medalhão de Mu a pesar-me na
mão.
- Já o temos!
– Exclamou Goku.
Vegeta sorriu.
Trunks e Goten saltaram e gritaram de alegria. Piccolo sorriu discretamente.
O vozeirão de
Shenron interrompeu a nossa pequena celebração de vitória.
- O vosso
primeiro desejo está cumprido. Qual é o vosso segundo desejo?
Goku
admirou-se:
- Segundo
desejo?
- É verdade,
temos direito a dois desejos - lembrou Piccolo. - Ao criar estas bolas de
dragão, Dende conferiu-lhes mais poder.
- E o que
vamos pedir como segundo desejo? - Perguntou Goku a coçar a cabeça.
- Porque é
que não mandamos Shenron embora? - Opinou Vegeta. - Voltaremos a convocá-lo
daqui a dois meses. É possível e já foi feito.
- Pode ser…
- E o que
vamos pedir daqui a dois meses? – Perguntou Goten.
- Não sei.
Qualquer coisa. O que nos vier à cabeça nessa altura – replicou Vegeta.
- Então…
Vamos mandar Shenron embora? - Perguntou Goku a olhar para cima.
- Não - disse
eu.
Todos olharam
para mim.
- Não, existe
um segundo desejo. – Levantei a cabeça e interroguei o dragão. – Shenron, podes
ressuscitar todos aqueles que perderam a vida quando Zephir conquistou o Templo
da Lua?
- Nani?! – Exclamou Vegeta ao ouvir tal
pedido.
Toynara
reagiu com igual surpresa. Fixou-me uns olhos esgazeados, húmidos.
- Queres
ressuscitar os monges e os sacerdotes do Templo da Lua? - Perguntou Goku. –
Porquê?
- Porque…
Eles são vítimas inocentes de Zephir. – Gaguejei pois Goku tinha uma expressão
intensa e exigente. – Acho que merecem voltar a viver porque morreram
injustamente.
- Todos os sacerdotes
desse maldito templo são feiticeiros, iguais a Zephir – protestou Vegeta.
- Toynara é
também um feiticeiro – defendeu Piccolo. – E está do nosso lado, a combater
Zephir. Os sacerdotes do Templo da Lua não utilizam a magia para fins malignos,
Zephir é uma exceção. O templo existe há muitos anos e nunca causou qualquer
problema.
- Concordo
com Piccolo – disse Goku. – E com a Ana-san. Vamos ressuscitar todos aqueles
que morreram por causa de Zephir. De qualquer modo, haveríamos de o fazer, se o
feiticeiro atacasse alguma cidade do planeta e matasse todos os seus
habitantes.
Vegeta
virou-lhe costas, cruzando os braços.
- Humpf…
O que queria
dizer que estava de acordo. O feitio daquele saiya-jin roçava o insuportável, pensei.
Goku
voltou-se para o dragão e foi ele que pediu o segundo desejo:
- Shenron,
queremos que devolvas a vida a todos aqueles que foram mortos por Zephir.
Como fazia sempre,
Shenron rosnou e demorou alguns segundos antes de responder.
- Não posso
ressuscitar todos.
- Nani?
Porquê? - Perguntou Goku admirado.
- Existem
alguns que já ressuscitei quando, no passado, foram mortos por Cell.
- Mas podes
ressuscitar os outros, não podes?
A cabeça do
dragão oscilou.
- Será muito fácil.
Os olhos
vermelhos de Shenron brilharam pela segunda vez naquela noite, o que
significava que os amigos e companheiros de Toynara viviam novamente. Espreitei-o,
não mostrava o menor indício de emoção, ou sequer de gratidão. Encerrava-se na
redoma do seu mundo interior atormentado. Não me importei, não precisava da sua
admiração. Sentia-me de algum modo feliz por ter contribuído para alguma coisa
de bem, no meio de toda a desgraça que sucedia desde que Zephir se dispusera a
conquistar o Universo.
- Agora que
já vos concedi os dois desejos, devo partir. Até à próxima!
Shenron
soltou um derradeiro rugido. O corpo esguio esticou-se e desfez-se numa
explosão de luz. As sete bolas de dragão seguiram-no. Subiram num círculo
perfeito, juntaram-se uma última vez e, depois, desenharam no céu ainda escuro
sete riscos luminosos. Separaram-se, cada esfera tomou uma direção,
espalharam-se pelo planeta como simples pedras redondas vulgares. Só dali a um
ano recuperariam o seu poder e voltariam a exibir as estrelas vermelhas no seu interior.
Missão
cumprida.
Guardei a
segunda metade do Medalhão de Mu.
Despedimo-nos
e cada um regressou à sua casa. Separámo-nos e fomos como as sete bolas de dragão,
deixámos um rasto no céu em direções diferentes.
Estremeci. Ir
para casa, era sinónimo para mim de franquear, pela primeira vez, os portões da
Capsule Corporation.
Sem comentários:
Enviar um comentário