O mercado da
aldeia tinha terminado e a mulher arrumava na furgoneta as caixas com os
legumes e a fruta que não tinha conseguido vender naquele dia. Estava
satisfeita com o dinheiro que ganhara, tinha sido um excelente dia.
Descansou as
pernas por uns momentos, sentando-se num banco. Limpou o suor da cara com um
lenço e deitou uma olhadela à caixinha de papelão onde guardava o amuleto. Trazia-o
porque lhe dava sorte. Sempre que o deixava em casa, o dia nunca era tão
proveitoso. Arranjara-lhe até um cordão dourado para o pendurar ao pescoço, só
que quando o usara dera tanto nas vistas que preferira, dali em diante,
guardá-lo num sítio mais discreto.
Mas o amuleto
não estava na caixinha de papelão. Abanou-a, entrou em pânico, mas depois
lembrou-se que o filho tinha a mania de surripiar-lhe o amuleto e andar a
exibi-lo aos amigos, distribuindo bênçãos de boa sorte a todos os pirralhos que
conhecia ou que se aproximavam dele. Fungou aborrecida. Não gostava desse tipo
de ostentação, podia secar a boa fortuna que o amuleto carregava. Quando o seu
filho regressasse, iria castigá-lo.
Recomeçou a
arrumar as caixas.
A sombra de
alguém sobre a bancada quase vazia chamou-lhe a atenção. Anunciou sem olhar
para o cliente atrasado:
- Já fechou.
Volte amanhã. Terei legumes frescos.
A sombra não
desmobilizou. A mulher empurrou uma caixa para dentro da furgoneta. Limpou as
mãos no avental, voltou-se,
- Não me
ouviu? Já fe… chou…
As palavras
diluíram-se-lhe na boca desdentada.
A sombra
pertencia a um homem horroroso e a mulher assustou-se. Era alto, musculado,
tinha a pele branca como o leite, cabelo cor-de-laranja, uma argola na orelha
direita e uns olhos vazios e vermelhos.
Num gesto
brusco, o homem levantou a bancada e atirou-a para longe, desfazendo-a em
tábuas. Os olhos viajaram rápidos, perscrutando as caixas fora e dentro da
furgoneta. Pararam, as pupilas minguaram. Lançou uma manápula e agarrou na caixinha
de papelão. Esmagou-a entre os dedos.
- Onde é que
está? – Perguntou.
- Onde está…
o quê? – Gaguejou a mulher.
- A bola de
dragão!
O homem
conhecia a existência do amuleto. A mulher engoliu em seco.
- Eu não
tenho nenhuma bola de…
O homem
puxou-a pelo avental.
- Ouve-me
bem, mulher. Não gosto de me repetir, fico irritado. Volto a perguntar apenas
mais uma vez: onde está a bola de dragão?
A mulher
cerrou os dentes. Teria de proteger o amuleto, que estava com o filho.
Protegia-os aos dois. O homem percebeu a relutância dela, que não nascia do
medo, mas da teimosia. Rugiu:
- Sou um dos
demónios de Dabura, o Príncipe do Mal. Não me queiras enganar, ou levo-te já
esta noite para os Infernos. Eu sei
que guardavas a bola de dragão dentro daquela caixinha de papelão. Onde é que
está?
A mulher
fechou os olhos.
Nisto, ouviu-se
um grito:
- Solta a
minha mãe. Imediatamente!
O filho
chegava, pronto para defendê-la. A mulher estremeceu ao vê-lo, pequeno,
espevitado, descalço, calças desfiadas abaixo do joelho, camisa desfraldada. O
amuleto pendurado ao pescoço. A magnífica bola brilhou quando um raio de sol a
atravessou e o demónio arreganhou os dentes. A mulher gritou:
- Filho,
foge!
Mas o demónio
era rápido. Soltou-a, agarrou no miúdo pela cabeça, puxou pela bola, partindo o
cordão dourado, deixando-lhe um vergão no pescoço. Soltou-o de seguida, o miúdo
caiu no chão duro com um gemido. Mas ainda teve ânimo para exigir furibundo:
- Dá-me o
amuleto. Não é teu!
A mulher
rastejou até ao filho, abraçou-o. Pediu num murmúrio:
- Cala-te,
por favor. Deixa-o ir…
- Mas ele
está a roubar-nos o amuleto!
- E achas que
o podes desafiar, filho? Está calado.
O demónio
soltou uma gargalhada.
O miúdo
debatia-se, tentava soltar-se dos braços cansados, mas firmes, da mãe. Não
compreendia o que estava a acontecer, talvez ela lhe explicasse quando o fosse
deitar naquela noite, a incrível sorte que tinham tido por terem provocado um
demónio e sobrevivido. E isso também viera da proteção do amuleto. A última vez
que os haveria de proteger.
Antes de
partir, o demónio fixou neles os seus terríveis olhos vermelhos. Falou para a
mulher:
- Dá-te por
feliz por tirar-te apenas o precioso amuleto e não tirar a vida a ti e ao
imbecil do teu filho.
Aquele olhar
haveria de lhe causar pesadelos nas noites vindouras.
Depois, Julep
subiu no ar com a bola de dragão de duas estrelas e foi para o Templo da Lua.
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