O berro de Piccolo assustou-me.
- Ana! Vem cá.
Levantei-me do colchão onde me tinha sentado. Estava escondida
num canto em que fosse possível ficar invisível com a ajuda da penumbra.
Piccolo aproximou-se tanto de mim que eu recuei de medo.
Apanhou-me o braço direito, puxou-me, apertou tanto que abri a mão. Depositou
nesta uma pequena esfera cor-de-laranja.
- Ana, guarda esta bola de dragão. Agora, vai. Quero que fujas
daqui e que te escondas.
- O que é que está a acontecer? – Gaguejei.
Empurrou-me na direção da floresta, que me pareceu de repente
enorme e assustadora.
- Foge! E não olhes para trás.
O suor perlava-lhe a testa. Parecia mais amedrontado que eu, o
que não era bom augúrio, pois era suposto ele estar ali para me proteger.
Acatei a estranha ordem e corri para as árvores.
O sol baixava no horizonte e as sombras cresciam vagarosamente.
Apertei a bola de dragão, o cérebro vazio, enquanto corria, ignorando que me
estava a enfiar numa floresta com a noite a chegar. Mas quando os pensamentos
tornaram a encher-me a cabeça, como uma torrente ruidosa, abrandei o passo e
acabei por parar. Olhei para trás, para a clareira onde estava a cabana e onde
ficara Piccolo. O namekusei-jin
sentira algum perigo, certamente, e espicaçara a minha curiosidade.
Mordi o lábio inferior. Não o devia fazer, mas queria ver o que é
que estava a acontecer. Fiz o caminho inverso. Próximo da clareira baixei-me e
rastejei até alcançar uns arbustos. Abri uma pequena abertura para espreitar.
Sustive um grito de horror.
Piccolo enfrentava o demónio de Zephir.
- Kumis… – murmurei.
- Está bem, respondo à tua pergunta – concordou o demónio
sorridente. - Não me importo de te contar, já que vais morrer daqui a pouco. Segui-te
desde o Templo da Lua, pois tinhas contigo uma bola de dragão.
- Não vais conseguir levar nada daqui, Julep.
O nome era outro. Olhei para o demónio, admirada. Mas se aquele
era outro demónio, era igualzinho a Kumis. Seriam gémeos? O que os
distinguiria?
Piccolo tirou o turbante e a capa que embateram pesadamente no
chão, levantando uma baforada de pó, junto aos arbustos onde eu estava
escondida. Tapei a boca e o nariz para não tossir.
- Primeiro, terás de passar por cima de mim.
- Seguir-te acabou por ser a tua desgraça e a minha fortuna. – O
demónio soltou uma gargalhada. – Para além da bola de dragão, também escondes a
rapariga da Dimensão Real. Depois de me livrar de ti, levarei ao meu mestre dois presentes.
Encolhi-me. O demónio sabia que eu estava ali. Piccolo rugiu:
- Se pensas que ela está por perto…
- Procurarei por ela. E aposto que foste tão estúpido ao ponto
de lhe entregares a bola de dragão.
Piccolo não lhe respondeu.
O combate começou. Não distingui os primeiros golpes, foram demasiado
velozes para os meus olhos destreinados. O meu coração batia como um tambor, o
meu sangue fluía quente pelas veias. Deveria ir-me embora, fervia de medo e era
fácil encontrar-me no meio da vegetação que arrefecia com o fim da tarde. Seria
um prémio glorioso para o demónio.
Ouvi um estrondo e uma pancada. Os dois lutadores abandonaram a
invisibilidade e vi o namekusei-jin
cair com um pontapé.
Entrei em pânico. Piccolo estava a perder.
Recuei apressadamente do refúgio dos arbustos, resvalei por uma
ladeira, andei agachada alguns passos. Espreitei por cima do ombro, a clareira
ficava do outro lado daquelas árvores altas, troncos estreitos como as barras
de uma cela. Uma luz intensa iluminou tudo, lançando faixas cegantes, como
raios de um sol, por ali adentro. Encontrei-me entre duas faixas,
miraculosamente na sombra.
Não me podia demorar. Havia muita coisa em jogo e não devia
deixar-me apanhar pelo demónio, mesmo que essa ideia fosse hilariante, pois o
que podia eu fazer contra um demónio que conseguia derrotar Piccolo?
Levantei-me com um pulo, voltei-me para a escuridão da floresta e
corri, corri, corri…
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