Era verão. A estação dos dias soalheiros, das noites agradáveis.
Son Goku sempre gostara muito do verão e agora via-o como era noutra
dimensão. Não era assim tão diferente. O calor, a cor macilenta das paisagens,
os céus muito azuis, o hálito quente do vento a bater nos rostos, a preguiça
contagiante da natureza.
Observava calado o mundo que a janela da casa que habitava deixava
ver. Era uma casa velha, feita de madeira pintada de cores vivas que os ares
fortes do mar tinham desbotado, pequena e nada cómoda, com apenas duas divisões
parcamente mobiladas, situada numa ilhota de areia muito clara e fina. Perto da
casa tinha o mar e o marulhar das ondas distraía-o e punha-se a pensar.
Algum dia iriam regressar à Dimensão Z?
Queria crer que sim. Não desgostava inteiramente da Dimensão Real, mas
saber que ao fim de doze meses naquela dimensão perderia todos os poderes que
tinha como guerreiro angustiavam-no.
O aviso de Zephir cirandava constantemente na sua mente.
“Se ficarem na Dimensão Real mais do que doze meses, ficarão nesse
lugar para sempre. Eu venço. Se quiserem sair da Dimensão Real, terão de
interagir com alguém dessa dimensão e eu transformo-me num deus. Mais uma vez,
eu venço”.
Bom, pelo menos tinham Bulma a trabalhar na máquina das dimensões e
ainda podiam dar-se ao luxo de alimentar alguma esperança. Mas já se tinham
passado seis meses e os progressos eram lentos ou, segundo o que Kuririn lhe
contava, quase nulos. Suspirou. Zephir estava, de facto, a vencer e ele ali,
sem poder fazer nada.
Teria de forçosamente esperar, mas a paciência nunca fora o seu forte.
Não adiantava zangar-se, gastaria energias inutilmente. Iria aproveitar a
estadia na Dimensão Real, conhecer melhor aqueles sítios e prosseguir os
treinos de Ubo.
No entanto, a sua relação com Ubo mudara. Tornara-se pesada, perdera a
naturalidade. Agora, sempre que falava com o seu pupilo, quando o treinava,
todos os momentos que passavam juntos, tinham um toque de artificial.
Há seis meses atrás, saíra da casa de Bulma usando a Shunkan Idou e encontrara Ubo naquela
casa. Os dois tinham-se entreolhado, calados. O rapaz não dissera nada e ele também
não quisera entrar em discussões. Estava triste porque tinha acabado de deixar Chi-Chi
a chorar desconsolada no abraço de Gohan por causa da morte de Goten. Bem que
tentara sossegá-la, mas ela enxotara-o e ele tinha ido embora. Depois, vira-se
diante de Ubo. Sem forças para aguentar mais emoções, com o corpo a
ressentir-se dos ferimentos, dissera que o melhor que faziam era dormir, porque
estava cansado. Ubo nem refilara e também se deitara. E, apesar da fadiga, Goku
não conseguira pregar olho nessa noite.
No dia seguinte, explicara a Ubo onde estavam e apenas isso. Não lhe
mencionara o nome de Zephir, pois não o podia fazer, essas tinham sido as
ordens de Dende, nem lhe contara sobre os combates.
Ubo não lhe perguntara nada, limitara-se a escutá-lo e abrira-se dessa
forma um abismo entre os dois, onde por vezes se estendiam pontes que
possibilitavam o diálogo e os treinos.
A porta da rua abriu-se com a habitual chiadeira. Ubo apareceu.
- Sensei, trouxe-lhe uma
surpresa.
Goku esqueceu a janela e os seus pensamentos.
- Uma surpresa para mim?
A reconciliação era aparente, contudo.
- Hai. Olhe!
Ubo levantou o braço e Goku viu quatro magníficos robalos, com as
escamas a brilhar, ainda a saltitar de vida.
Se havia uma coisa que o fazia deixar para trás todas as preocupações
era comida. Os olhos de Goku brilharam.
- Hum! Onde arranjaste isso, Ubo-kun?
- Foi um dos pescadores que mos deu. Estive a ajudá-lo a pintar o
barco.
- Hai… Muito bem!
Goku esfregou as mãos de contente.
- Vamos fazer um banquete!
- Vamos assá-los, sensei?
- Claro que sim!
Saiu de casa e começou a encher o fogareiro de carvão para preparar o banquete
anunciado. Ubo veio depois com uma vasilha onde colocara os quatro peixes. Com
cuidado tirou-lhes os anzóis. Um pescador que passava por ali no seu barco
acenou-lhes um cumprimento entusiasta. Goku acenou-lhe de volta.
Apesar de tudo, a Dimensão Real tinha o seu quê de simpatia. Goku
pensou que talvez mais tarde iria sentir saudades daquele sítio, daquela gente,
daquele céu. Levantou a cabeça e respirou fundo. E daquele cheiro fresco a
maresia.
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