O “Académico”
estava mais cheio naquele sábado à noite do que no fim-de-semana anterior. Havia
mais pessoas de férias e a rua dos bares parecia uma feira. O calor roçava o
insuportável dentro do bar mais popular da cidade, naquele verão. De vez em
quando ouvia-se alguém gritar para ter cuidado e para não empurrar.
A Patrícia,
como sempre, avançou à nossa frente e desapareceu por entre um grupo de
raparigas que tapava a circulação junto ao balcão.
- Já perdi a
tua irmã - disse eu esticando o pescoço para tentar descobri-la por entre a
multidão.
- Ela está ali
à frente – retorquiu a Carla apontando. - Vá, fura por aí para podermos passar.
Fiz o que ela
me pediu, forcei a passagem e conseguimos alcançar a Patrícia que falava com o
Hugo. Cumprimentou-me com dois beijos, que, curiosamente, não tiveram qualquer
efeito em mim. Estranhei, pois até achava o rapaz bonito. Mas era
compreensível, porque havia outro rapaz mais bonito do que o Hugo. Apesar de
ter jurado esquecer-me dele, não tinha cumprido a jura e, em momentos de franqueza,
que eu amaldiçoava no momento seguinte, lembrava-me daquele olhar azul intenso
que era capaz de queimar a alma.
- Olha quem
está ali. O Tiago! – Disse a Patrícia, acenando para o fundo do bar, junto às
mesas de matraquilhos.
O meu coração
disparou e corei.
- Quem?
- O Tiago.
Aquele amigo do Pedro muita querido.
Está a rir para cá.
A Patrícia
fez-lhe adeus, ele levantou o copo de imperial e devolveu o cumprimento com um
piscar de olho. Olhou para mim e deixou-se ficar. Um, dois, dez segundos. Mais
do que dez segundos e a Patrícia dizia sempre que, ultrapassado esse tempo, era
crítico, que havia química e faísca.
A música e a
algazarra do “Académico” diluíram-se e só ficaram eu, o Tiago e a eternidade do
nosso olhar trocado.
Uma mancha escura
passou por mim e saltei assustada. O Miguel aparecia. Cumprimentou-me,
cumprimentou a Patrícia e começou a falar com a Carla. Tínhamos vindo à procura
dele, dissera-me a Patrícia, mas o rapaz, apesar de no fim-de-semana passado
ter havido qualquer coisa entre ele e a minha amiga, não parecia interessado
numa repetição e ignorava-a de propósito. A Patrícia ficou furiosa. Deu
meia-volta e foi até ao bar buscar alguma coisa para beber.
O Miguel
tapava agora o meu campo de visão, mas ainda consegui espreitar por uma fresta,
por cima do ombro dele, e vi o Tiago receber um copo das mãos de uma rapariga
morena muito alta que vinha com o João. Bem, estava acompanhado pelo palerma do
amigo e desviei a cara. Ali estava a razão para esquecê-lo definitivamente e
manter a minha jura.
O Pedro
aproximou-se de nós. Fingiu não me conhecer, a Carla nem se apercebeu que ele
não gostou quando apontou para mim a dizer:
- Conheces? É
a Ana, amiga da minha irmã.
E obrigou-o a
dar-me dois beijos, como se nos estivéssemos a apresentar pela primeira vez. Achei
a cena hilariante. O Pedro evitava-me, porque eu conhecia o segredo dele com a
loira, na praia, arrancados indecentemente do banco traseiro de um Toyota
vermelho por um homem zangado. E já agora com muita força, para conseguir puxar
pelos dois sem ter feito um grande esforço.
A Patrícia voltou
e encetou uma conversa muito animada com o Pedro. Afinal, seria para toda a
vida, segundo as palavras dela…
Pulando ao
ritmo da música, a Carla trouxe-me uma cola, gingando com uma alegria
contagiante. Era o aquecimento para a discoteca, dizia-me ela. O “Académico”
emulava uma fornalha e bebi metade da cola de um trago para refrescar-me. Reparei
num olhar fugidio que me lançara o Tiago.
O Tiago
olhava outra vez para mim?
Voltei costas
ao sítio onde ele estava com o palerma do João, mais a amiga morena. Assim, não
caía em tentações de passar a noite toda a marcar os gestos do Tiago.
A voz rouca
de Cher irrompeu pelo bar adentro, por cima de todas as outras vozes que se
atropelavam umas às outras, a cantar “The
Shoop Shoop Song”. Eu e a Carla adorávamos aquela música, um remake de um tema antigo que fazia parte
da banda sonora de um filme que estivera anos atrás nas salas de cinema. A
Carla virou-se para mim e repetiu comigo os versos iniciais da canção:
“Does he love
me? I wanna know.
How
can I tell if he loves me so?”
Cantámos e
dançámos, fizemos do pouco espaço que tínhamos uma autêntica pista de dança. O
suor molhava-me a testa e a nuca, sentia-me feliz. Não resisti e olhei para o
Tiago. De copo encostado ao queixo, olhava para mim. Mas como tudo não passava
de uma ilusão, ele não estava encantado comigo como me parecia, tornei a
voltar-lhe costas.
Para fazer
ciúmes ao Miguel, a Patrícia namoriscava com o Pedro. Não gostei de ver a minha
amiga atirar-se com tanto descaramento para cima dele. O Pedro fazia parte do
grupo do Tiago, padecia da mesma falta de escrúpulos e não seria muito
recomendável. Não lhe tinha contado a cena no carro com a loira, na praia do
fim do mundo. Por um segundo, considerei contar-lhe, para ver se acabava com
aquele namorico, que iria descambar numa escandalosa curtição no final da noite, pois o Pedro não merecia a Patrícia.
Mas ela não me iria escutar… Estava apostada em captar a atenção do Miguel com
aquele expediente e mesmo que parecesse aceitar o meu conselho, haveria de fazer
pior assim que eu não estivesse presente. Bebi a cola, revirando os olhos.
Ainda troquei
mais um olhar com o Tiago, mas foi uma situação esquisita. Olhava para mim
quando a rapariga morena lhe falava ao ouvido. Sorria e eu não podia precisar
se era para mim, se era devido ao que ela lhe estava a segredar. Foi o momento
que encerrou a minha noite, dei-me por satisfeita, apesar de, em retrospetiva, ter
sido tão pouco. Passado uns minutos, quando voltei a procurar por ele, já tinha
saído e levara o João e a morena. O “Académico” perdeu toda a piada e eu
arrefeci.
A Patrícia
organizava a próxima saída, para a inevitável discoteca “Kadoc”, como sempre
fazia, distribuindo pessoas pelos carros existentes. Dava a mão ao Pedro que se
deixava guiar por ela, com um ar melado. O Miguel dava mostras de não se
importar e a Patrícia apertava mais a mão ao Pedro. Olhei para o relógio,
faltava um quarto para as duas da manhã. Disse à Carla que não iria com eles.
Acrescentei que estava cansada. A verdade era que não estava com paciência para
aturar sítios escuros, com luzes coloridas às voltas, com música aos altos
berros, mais os caprichos da Patrícia que só via o Pedro, as boleias malucas
que ela poderia arranjar para mim. O plano já estava delineado desde o início,
a minha noite terminava na rua dos bares e por isso até tinha trazido o meu
carro. Despedi-me e a Carla fez-me prometer que lhe telefonava no dia seguinte.
A rua onde
tinha deixado o carro era escura e silenciosa. Não me senti confortável ao andar
por ali sozinha, os meus passos ecoavam nas paredes daquele lugar deserto. Agarrei
nervosamente no porta-chaves, preparei-me para abrir a porta e meter-me
depressa dentro do carro, trancando-me de seguida.
Sem querer,
lembrei-me do Tiago. Ele hoje estava mais bonito do que na noite em que o
conhecera. Suspirei enlevada na lembrança dele, naquele encanto a derramar-se e
a atingir-me, a luz intensa, bela, mas mortal, de uma supernova a explodir no
Universo. Abanei a cabeça, rindo-me da minha fraqueza. Escolhi a chave certa,
de entre o conjunto de chaves que segurava, apontei-a para a fechadura da porta
do carro. Estava disposta a esquecer que ele era desprezível se me concedesse a
graça de uma troca de olhares, como tinha acontecido no “Académico”. Mas como
podia ser tão ingénua? Agora, detestava-me por estar a ceder tão facilmente ao
jogo de sedução do Tiago.
- Não me
queres dar uma boleia?
Assustei-me
com a pergunta, feita junto ao meu ouvido direito. Saltei, gritei e larguei o
porta-chaves que caiu no asfalto fazendo um barulho ensurdecedor no meio
daquele silêncio.
Um vulto
tinha surgido das sombras e colava-se a mim. Olhei para as chaves no chão e
depois para o homem. Usava barba num rosto imundo, tinha a roupa numa lástima,
exalava um cheiro nauseabundo, escondia as mãos dentro dos bolsos de um casaco
puído e descosido nas mangas. Tentei manter a calma, embora adivinhasse as
intenções dele.
- Eu… não vou
sair de Faro.
- Não faz
mal.
A minha
garganta secara e comecei a suar. Tornei a olhar para o chão. O homem percebeu
e fez um esgar impaciente.
- Apanha lá a
merda das chaves.
Não me mexi.
- Ouviste, ou
não?
- Ouvi…
- Então,
apanha a merda das chaves.
Decidi
obedecer. Agachei-me e agarrei no porta-chaves. Tive de fazer um esforço
imenso, como se carregasse um pedregulho nos ombros, para me levantar. As
minhas mãos tremiam tanto que eu não tinha qualquer sensibilidade nos dedos,
era como se não segurasse nada. O homem apontou para o porta-chaves.
- Abre o
carro.
Fiquei outra
vez imóvel.
Foi nessa
altura que o homem perdeu a paciência. Tirou a mão direita do bolso e
apontou-me a lâmina afiada de um canivete de ponta-e-mola. Chegou-se a mim,
deu-me um encosto.
- Abre a
merda do carro ou ficas já aqui, sua cabra!
A ameaça
ficou a zunir nos meus ouvidos, longínqua e distorcida. Depois as palavras
escoaram-se e ouvi apenas o zunido persistente que me ensurdecia e me
confundia. Ainda pensei, como que para me distrair daquela situação
inacreditável, que estava assim por causa da música alta do “Académico”. Era
mais do que certo, pois claro, a música estava realmente alta…
Um segundo
encosto fez-me reagir. Mas eu estava uma pilha de nervos e as minhas mãos
pareciam gelatina e não acertava com a fechadura. O homem rugiu.
- Calma… –
murmurei.
Não tinha
muito mais tempo. Forcei a mão, a chave entrou e nem sei por que milagre dei
com a porta aberta. Recuei para lhe dar espaço. Ele que levasse o carro, que
levasse a mala, que levasse tudo o que quisesse, mas que me deixasse em paz. Já
não suportava mais aquilo. Iria fugir dali, assim que tivesse espaço suficiente
e distância daquela lâmina.
Mas o homem
virou-se subitamente.
- Eh!… Tu
vens comigo!
Gritei:
- Não!
- Cala-te,
cabra!
Senti um
puxão nos cabelos. O instinto fez-me tentar correr. A mão porca do homem
enredou-se na minha cabeleira. Puxou outra vez, com tanta força, que parecia
querer arrancar-me o escalpe. Gritei com a dor. A mesma mão e nem soube como o fez,
apanhou-me o pescoço. Fiquei petrificada, à espera de sentir a lâmina cravar-se
em qualquer parte do corpo. Fechei os olhos e esperei. O tempo parara.
Um som seco
cortou o ar. Senti a pressão aliviar-se do pescoço e deixei-me cair para a
frente, joelhos no asfalto. Escutei um urro abafado e outro som seco, como um
soco. De olhos fechados, encostei-me ao carro, tentei respirar. O zunido
voltava e barrou os demais ruídos, isolando-me num casulo invisível e regressei
ao “Académico” onde estava a salvo, rodeada de amigos.
Repentinamente
fui devolvida à realidade, o silêncio da rua, a falta de eco e a ausência de
claridade amedrontaram-me. Pisquei os olhos, num transe de terror. O que vi na
penumbra deixou-me abismada.
O homem que
me assaltava estava inconsciente, caído aos pés de um jovem que o olhava com
desprezo. Naquela posição de ataque, jurava conhecê-lo. As pernas afastadas, o torso
direito, os punhos cerrados, os braços dobrados pelos cotovelos, o cabelo
comprido apanhado num rabo-de-cavalo. Cheio de carisma e poder. Só lhe faltava a
jaqueta azul, as calças pretas e as botas amarelas.
- Trunks? – Balbuciei.
Ele voltou-se
para mim. Deixei-me ficar encolhida, assustada, encostada ao carro, as unhas a
raspar o asfalto.
- Ana estás
bem?
O meu coração
parou.
- Tiago? És
tu, Tiago?
- Sim, sou
eu. Estás bem?
Sustive a respiração,
a acreditar que sonhava. Olhei para o homem. Nem sequer gemia, estava
totalmente apagado e haveria de se levantar só de manhã, se ninguém desse por
aquela coisa ali estendida e o levasse para onde pertencia, um asilo ou a
prisão.
O toque do Tiago
surpreendeu-me e gritei. A mão dele, quente e forte, estava sobre o meu ombro.
- Calma.
Anda, eu ajudo-te.
Levantei-me.
As minhas pernas estavam feitas em papa e continuei encostada ao carro, que me ajudava
a manter de pé. Percebeu a minha confusão e disse:
- Sim, fui eu
que o derrubei. Estava por perto, vi o que estava a acontecer e achei que seria
melhor intervir.
- Fizeste
bem…
Os meus olhos
encheram-se de lágrimas. De repente, o que me tinha acontecido naquela rua
escura desabou numa avalancha e comecei a fungar para não desatar a chorar com
o Tiago a olhar para mim. Senti-me tão estupidamente vulnerável, tão
incrivelmente indefesa, tão massivamente esmagada que só queria enrolar-me e
gritar e chorar até ficar seca e expurgar o terror daquela experiência. O Tiago
sorria-me, como eu nunca o tinha visto sorrir.
- Então? Já
acabou… Eu estou aqui e aquele infeliz já não te vai fazer mal.
Respirei
fundo, a engolir os soluços e as lágrimas.
- Pois… Tens
razão…
- Dá-me as
chaves.
Olhei-o como
se me estivesse a assaltar, como o outro. Continuava com o mesmo sorriso.
- Não estás
em condições de conduzir – explicou condescendente. – Eu levo-te a casa.
Estendi-lhe o
porta-chaves, que chocalhava porque as minhas mãos ainda tremiam. Passei pelo
homem com repulsa, deitando-lhe uma última olhadela. Sentei-me no lugar do
pendura e o Tiago ocupou o lugar do condutor. Fechámos as portas do automóvel
quase ao mesmo tempo.
- Conseguiste
desfazer-te dele facilmente – disse.
O comentário
fora uma constatação minha, eu falando com os meus botões, tentando reorganizar
as ideias e recuperar o sangue-frio, percebendo o que tinha acabado de
acontecer, mas o Tiago entendeu que eu estava a falar com ele e replicou:
- Sei algumas
habilidades.
Resolvi
aproveitar a oportunidade de uma conversa.
- Sabes usar
os punhos?
O automóvel
arrancou suavemente, os braços dele giraram o volante com segurança. Piscou-me
o olho e eu corei.
- Sei –
respondeu-me.
- Onde é que
aprendeste… a lutar?
- Com o meu
pai.
Novamente
aquela imagem descabida do Tiago à pancada com o pai e apaguei-a imediatamente
do pensamento.
- Ele luta
bem? O teu pai…?
- É um grande
lutador.
- Ah… E luta
porquê? Entra em competições ou coisas do género?
- Porque é
que me estás a fazer tantas perguntas?
- Não queres
que te faça perguntas?
- Lembras-te
dos meus segredos?
- Sim.
Matas-me se mos revelares.
-
Precisamente, nena.
- Não é que
te esteja a perguntar pelo teu verdadeiro
nome.
Ele calou-se
e virou a cara para a janela que abrira. O ar fresco da noite agitou as
madeixas de cabelo que lhe caíam compridas sobre a testa.
A conversa
tinha secado.
O cansaço e a
emoção daquela noite juntavam-se numa mistura que drenava rapidamente as minhas
derradeiras reservas de energia. Encostei a cabeça no banco e deixei-me embalar
pela condução dele. Perguntei-lhe, e essa pergunta teria mesmo de a fazer, se
sabia para onde ia, se ainda se lembrava onde eu morava. Respondeu-me com um
simples sim e não disse nem mais uma palavra.
O automóvel
estacionou no pequeno parque que ficava nas traseiras do prédio onde eu morava.
O Tiago entregou-me o porta-chaves e levou-me até à porta de casa.
- Agora, vais
a pé.
- Não te
preocupes. Sei usar os punhos, lembras-te?
Fez-me rir.
E chegava o
momento de nos separarmos, eu sem saber como dizer-lhe adeus, até outro dia ou
coisa parecida e ele parado, a olhar para mim, com a mesma intensidade que me
dispensara no “Académico”. Não podia aguentar mais aquilo e resolvi fazer
alguma coisa. Comecei por agradecer-lhe:
- Obrigada
por me teres ajudado.
- Como te
disse… – Enfiou as mãos nos bolsos, baixou a cabeça e completou num quase
murmúrio: – Estava por perto.
O Tiago
tivera, subitamente, um ataque de timidez. Senti, pela primeira vez, que a alma
dele necessitava desesperadamente de ser alcançada. Mas fiquei atrapalhada por
sabê-lo indefeso. Desatei a falar:
- Nem sei o
que me poderia ter acontecido se não tivesses aparecido. O homem queria
levar-me, não lhe bastava roubar-me o carro… Mas aprendi a lição. Para a
próxima, estaciono num sítio mais iluminado e com gente a passar, mesmo a estas
horas da madrugada. Mas estacionar na baixa é tão difícil, nunca há lugares.
Por isso, tive de deixar o carro naquela rua escura. Ainda bem que estavas por
perto. Foi a minha sorte. Obrigada… Mais uma vez, obrigada.
Olhou-me
atravessado e eu calei-me. Tinha realmente chegado a hora das despedidas, mas
eu, sinceramente, não me queria despedir. Era capaz de passar o resto da noite
a conversar com o Tiago na porta do prédio.
- Não é
preciso agradecer. Fiz o que devia.
- Ah… Pois.
- Djá ná. – Traduziu rapidamente: - Até à
vista.
- Sabes falar
japonês?
Quedou-se
estático, a vacilar entre a dúvida gigantesca que o dividia em duas partes
antagónicas, o anjo e o demónio. Decidia-se se finalmente iria revelar-me os
seus preciosos segredos. Oscilou nos calcanhares, como um miúdo de dez anos a
antecipar a travessura que o expulsaria da escola. Abriu um meio sorriso e
respondeu-me:
- Hai.
- Mas…?
- Eu nasci no
Japão.
- No Japão?
- Pode-se
dizer…
- Eh… Não me
pareces japonês.
Agora, foi a
vez dele se rir.
- Nem toda a
gente que nasce no Japão tem de parecer japonês. Não achas?
- Sim… -
Corei por ter sido apanhada numa asneirada tremenda. – Tens razão. –
Acrescentei para que ele não se arrependesse: - O teu nome é japonês?
- O meu nome?
Tu queres mesmo saber como me chamo.
- Eh… Quero.
- Porquê?
Encolhi os
ombros. E havia uma razão objetiva, válida e inegável, a não ser pelo facto de
o conseguir chamar corretamente em sonhos? Pus-me com rodeios:
- Não gostas
do teu nome? Porque é que sendo japonês, queres que te chamem por um nome
português e falas espanhol?
Inesperadamente,
o Tiago corou.
- Estou a
aprender português. Já sei… Algumas palavras.
Eu gaguejei,
surpreendida com a reação dele.
- Sim? Que
palavras?
- Mas não
gostas do nome Tiago?
- Não tenho
nada contra.
Recuperou a
segurança que lhe era típica, endireitou as costas, continuava com as mãos nos
bolsos.
- Então,
estamos em sintonia. Djá ná, Ana-san –
provocou, coroando a frase com uma piscadela de olho que me deixou a tremer.
Disparei,
porque ele afastava-se do pequeno patamar da entrada do prédio onde
conversávamos:
- Gostaria
muito de aprender japonês.
Conseguira
mais uns segundos da atenção dele. Perguntou admirado:
- Porquê?
- Tenho as
minhas razões.
- Hum… Conheço
alguém que poderá ajudar-te.
Esmoreci.
Contava que fosse ele a ensinar-me, apanhá-lo a sós, sem a companhia dos
palermas dos amigos, porque assim ficava mais civilizado.
- Alguém? Um
amigo teu? – Perguntei desiludida.
- Hai.
Era engraçado
como, de repente, tinha começado a falar comigo atirando algumas palavras em
japonês. Também era engraçado porque tinha a impressão que o timbre da sua voz
mudava ligeiramente sempre que falava nessa língua.
- Ele é
professor. Chama-se Go… - Hesitou. - Chama-se Gomano. Dá aulas de matemática na
Universidade do Algarve.
- Na
Universidade do Algarve? Eu trabalho na Universidade, na secção administrativa
do departamento de Engenharia Mecânica, na Escola Superior de Tecnologia. Mas
acho que não conheço o teu amigo… Dá aulas de matemática? Deve ser em Gambelas…
- Hai. Ele dá aulas na Universidade, em
Gambelas.
- Deve ser
professor nas “Exatas e Humanas”.
- Procura por
ele. Pergunta-lhe se não se importa de te ensinar japonês.
- Achas que
ele vai aceitar?
- Diz-lhe que
vais da minha parte.
- Está bem.
Farei isso.
Ouve um curto
silêncio e ele disse:
- Está a
fazer-se tarde. Devo ir. Já me demorei muito por aqui.
O meu coração
apertou-se. Ele queria voltar para a companhia dos amigos palermas,
possivelmente da morena que lhe contava segredinhos ao ouvido e que se
encostava tanto a ele. O sonho terminava.
- Até amanhã,
Tiago – arrisquei.
- Até amanhã,
nena.
Voltei
costas, agarrei no porta-chaves, ia abrir a porta, fechar aquele capítulo
definitivamente, matutar nele até adormecer, mas ele interrompeu-me o gesto.
- Há pouco,
na rua, quando te salvei do assaltante…
- Sim?
- Chamaste-me
por um nome.
Sustive a
respiração. Ele tinha ouvido aquele disparate? Fora uma alucinação, uma
improbabilidade.
- Ah…
- Que nome
foi?
- Estava
escuro… Naquela posição, a silhueta, o cabelo, fizeste-me lembrar alguém.
Alguém que não existe… - Revelei cheia de vergonha: - Chamei-te Trunks.
Ele também
susteve a respiração.
- Trunks?
Porquê?
- Já te disse,
estava escuro. – Mas acrescentei - Conheces o Trunks?
- Sim… Não –
respondeu nervoso.
- Conheces
“Dragon Ball”?
- Não –
cortou.
Acenou-me uma
despedida e começou a ir embora, desta vez, definitivamente. Fiquei aborrecida,
o Tiago não estava minimamente interessado em conhecer “Dragon Ball”.
Entrei em casa, corri para a janela do meu quarto. Consegui ainda vê-lo a dobrar a esquina e a desaparecer. Mesmo já não o vendo, fiquei à janela, a imaginá-lo a andar, mãos nos bolsos, comigo no pensamento, assim como eu pensava nele. Aquela noite seria longa, não iria dormir porque iria sonhar de olhos abertos com um autêntico príncipe encantado, estrangulando a almofada, pedindo aos deuses outro encontro daqueles, em que ele se tinha esquecido de ser desprezível.
Entrei em casa, corri para a janela do meu quarto. Consegui ainda vê-lo a dobrar a esquina e a desaparecer. Mesmo já não o vendo, fiquei à janela, a imaginá-lo a andar, mãos nos bolsos, comigo no pensamento, assim como eu pensava nele. Aquela noite seria longa, não iria dormir porque iria sonhar de olhos abertos com um autêntico príncipe encantado, estrangulando a almofada, pedindo aos deuses outro encontro daqueles, em que ele se tinha esquecido de ser desprezível.
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