Debaixo dos pés dele passou uma aragem fresca que fez ondular as águas
do lago, em cujas margens cresciam plantas aquáticas viçosas. O lago era
bonito, grande, de um azul límpido. Estendia-se como um espelho perto de uma
enorme floresta, colado a um conjunto de edifícios decrépitos, delimitados por
um muro retangular. Pelo aspeto austero e solene, fazia lembrar um templo.
Piccolo estava ali.
Gohan levou uma mão ao peito. Estava cansado. Voara empregando toda a
sua energia e não o devia ter feito. Havia muito tempo que não se treinava e já
não estava habituado a aventuras daquelas. Todavia, não estava arrependido. Se
não se tivesse apressado, podia correr o risco de chegar tarde demais.
Inspirou, tomou ar nos pulmões e absorveu um odor característico a
queimado e a sangue.
Uma explosão. Uma onda de calor aqueceu a atmosfera, chegou até ele. Focou
a sua atenção na floresta, onde se lutava. Três espíritos.
Murmurou:
- Otousan…
Não era o seu pai que combatia. Era Vegeta e o outro saiya-jin estranho que tinha aparecido
no dia anterior. O confronto estava renhido. Sentiu como as duas forças se digladiavam
para se superarem uma à outra, mas o outro saiya-jin
era muito superior a Vegeta. Gohan engoliu em seco. Era um poder estranho, que
vinha de um espírito maligno e negro, alimentado pela magia.
Estava demasiado tenso e resolveu acalmar-se. Muitos anos se tinham
passado desde a última vez que entrara em ação. Lembrou-se e sorriu ligeiramente.
Nessa época o inimigo chamava-se Majin
Bu e ele tinha dezassete anos.
Outra explosão. Algumas árvores desapareceram debaixo de uma bola de
fogo. Teve de proteger a cara das fagulhas e dos ramos.
Quando o alvoroço provocado pelo rebentamento amainou verificou que o espírito
de Vegeta tinha enfraquecido, o que indicava que fora dele o ataque energético.
O ki do outro saiya-jin aumentou, preparava uma resposta. O seu pai continuava à
margem. Susteve a respiração, teve o ímpeto de voar para a floresta, mas
recordou-se do que viera ali fazer.
Piccolo.
Voltou a cabeça para o que lhe parecera um templo. O namekusei-jin continuava imóvel. Estava
rodeado por pequenos espíritos agitados, que não o atacavam, que pareciam
observá-lo.
- Nani?
Eram esquisitos, tal como a aura do saiya-jin. Arrepiou-se. Não eram criaturas terrenas, pareciam
feitas de fumo e de maldade. Havia muitas criaturas daquelas, espalhadas pelos
edifícios, confinadas ao espaço delimitado pelo muro. Encontrou também dois espíritos,
poderosos e perigosos, com o mesmo cunho terrível. E, de seguida, reconheceu
outro par de auras.
- Son Goten!
O seu irmão estava lá dentro, com Trunks.
Estremeceu, com a dúvida. Estaria à altura dos desafios que se lhe
apresentavam? Poderia acabar por ser, e tal como Videl apontara, um empecilho.
Mas nunca abandonaria Piccolo, nem o irmão e apoiaria sempre o seu pai, mesmo
que soubesse que seria inferior ao adversário que enfrentava.
Sem perder mais tempo, mergulhou em direção ao templo. Após um voo
rápido, abrandou por cima de um enorme pátio. Pairou suavemente naquele lugar
deserto e descobriu o corpo de Piccolo estendido nas lajes pretas.
Derramando-se como uma massa negra uniforme, saindo de todos os
buracos e aberturas que conduziam até ao pátio, apareceram centenas de
criaturas. Os bichos disformes cravaram nele os olhos vermelhos, guinchando e
grunhindo, posicionando-se no terreno de molde a cobrir todos os ângulos.
Gohan pousou os pés no chão, aterrando perto do corpo de Piccolo.
Observou as criaturas, que o ameaçavam de garras em riste, nas suas posições,
sem arriscar o ataque. Ele esperava que não o atacassem. Percebia que não eram
muito fortes, mas o seu número era considerável e ele sabia que não conseguiria
combater como antes. Acabaria por errar e qualquer deslize seria fatal.
Voltou-se para Piccolo e, ao fazê-lo, três criaturas mexeram-se atrás
dele, trocando de posição. Procuravam intimidá-lo, distraí-lo.
O namekusei-jin tinha uma
ferida feia na face direita. Agachou-se, tomou o corpo de Piccolo nos braços.
Num só impulso, elevou-se no ar. Um grupo de criaturas atiraram-se para cima
dele, tentando impedir o resgate, mas conseguiu escapar-lhes, subindo um pouco
mais alto. Uma garra roçou a perna esquerda. Verificou aliviado que as
criaturas não voavam e deixou o pátio com Piccolo, a escutar os seus guinchos
irritados. O suor brilhava-lhe na testa.
Aterrou na margem do lago que ficava mais afastada do templo. As
criaturas não o perseguiram. Ficaram no pátio que ele conseguia vislumbrar
através de um grande buraco aberto nos muros, agitando-se de um lado ao outro, uma
dezena de sombras negras passando nervosas.
Começou por lavar a ferida da face de Piccolo, onde o sangue coagulara
e formara uma pasta lilás dura, entremeada de uma matéria viscosa de cor
amarelada. Sentiu vómitos, mas não se acanhou e prosseguiu pacientemente,
tentando desfazer a pasta com a água. O namekusei-jin
estava mais frio do que habitualmente era, mas ainda vivia. Deu-lhe uma
palmada suave na outra face, a chamar por ele. Não obteve resposta. Insistiu:
- Piccolo-san? Estás a ouvir-me? Responde.
Continuava inconsciente e Gohan desejou ter ali um feijão senzu para poder curá-lo. Talvez fosse
essa a solução. Olhou para cima, verificou a posição do sol, calculou
mentalmente onde ficava a torre Karin. A distância era considerável, Piccolo
podia não sobreviver à viagem.
A terra tremeu com novo abalo provocado pelo combate entre Vegeta e o saiya-jin. Gohan apertou os lábios.
Talvez a sua vinda até ali tivesse sido em vão.
- Piccolo-san?...
Uma gota de água escorreu pela face do namekusei-jin e passou-lhe pela boca entreaberta. Bebeu-a, os
lábios mexeram-se, lânguidos. Tinha sede, ou fome, já que os habitantes de
Namek alimentavam-se de água. Gohan mergulhou a mão em concha no lago e
encheu-a. Levou-a à boca de Piccolo com cuidado, amparando-lhe a cabeça e
ajudou-o a beber. Ao princípio, Piccolo não reagiu. Mas, ao sentir a frescura
da água a roçar-lhe a boca, sorveu-a com
sofreguidão.
Gohan esboçou um sorriso por ver que ele parecia estar a recuperar os
sentidos e a melhorar, mesmo sem a ajuda de um senzu. Nisto, abriu os olhos, tão desperto que Gohan estremeceu.
- Piccolo-san?
O namekusei-jin admirou-se
por vê-lo ali.
- Gohan?
Sentou-se, agarrado à cabeça.
- Oh!… Já estou velho para estas coisas – comentou em surdina.
Voltou-se para Gohan e perguntou-lhe: – Como é que sabias que eu precisava de
água?
- Eh… Não sabia.
- Salvaste-me a vida.
Gohan ficou sério e Piccolo explicou:
- O ataque dos kucris é mortal. As feridas que causam com as suas
garras são venenosas e matam ao fim de algumas horas. A não ser que a pessoa
ferida por eles beba água. É o suficiente para neutralizar o veneno.
- Kucris?
- São os bichos negros que guardam o Templo da Lua. Deves tê-los
encontrado quando me foste buscar.
- Hai, encontrei-os. Ah!… Então,
aquilo sempre é um templo. – Gohan volveu o olhar para a margem oposta do lago.
- Chegaste a lutar com os kucris?
- Não – respondeu. Verificou que Piccolo estava totalmente curado, a
face direita tinha agora apenas uma cicatriz que quase nem se notava. – Não me
atacaram, o que foi estranho… O que é que se passa aqui?
A terra tremeu com outro ataque energético que explodiu no meio das
árvores. Piccolo levantou-se e olhou para a floresta. Gohan também se levantou.
Apertou os punhos e perguntou:
- Porque é que vocês estão aqui? E quem é esse saiya-jin com quem Vegeta está a combater? E este Templo da Lua tem
alguma coisa a ver com tudo isto?
Piccolo acenou afirmativamente. Ia responder-lhe às dúvidas quando se ouviu
um grito. Os dois volveram os olhos para o céu e viram Vegeta atravessar o ar e
afundar-se no lago, salpicando água por todo o lado. Perseguindo-o, o predador
a farejar a presa encurralada, vinha o super
saiya-jin.
A superfície do lago borbulhava, Gohan susteve a respiração e então
sentiu um espírito familiar. O seu coração disparou e disse, a ocultar o
entusiasmo atrás de um sorriso:
- Otousan!
Goku apareceu atrás do saiya-jin
e de Vegeta, voando devagar, concentrado no que sucedia no fundo do lago. Também
já tinha combatido, por causa das marcas no corpo e das roupas rasgadas.
Gohan avançou um passo e foi então que o saiya-jin se apercebeu da presença dele e de Piccolo. A pairar por
cima do lago, cruzou os braços e o rosto arrepanhou-se num sorriso pérfido.
- Temos companhia – disse.
As águas do lago agitaram-se e Vegeta saltou, todo molhado, mais irado
que nunca. Keilo voltou-se para Vegeta que vinha, cego de raiva, com o punho em
riste. O saiya-jin desviou-se, a mão
de Vegeta cortou o ar num som sibilante. Agarrou no príncipe pelos cabelos,
despachou-o com dois golpes – uma joelhada no estômago, um murro na cabeça. Rematou-o
com um segundo murro nos queixos e Vegeta atravessou o vazio, indo cair sem
sentidos na margem do lago, aquela que ficava mais próxima do Templo da Lua.
- Vegeta!! – Chamou Goku preocupado.
Ao ver aquilo, Gohan cerrou os dentes e rosnou, o rosto congestionado,
o corpo tenso. Os cabelos da nuca eriçaram-se. Começava a surgir dentro dele
uma cólera que há muito tempo não sentia. Keilo apercebeu-se da mudança.
- Ah! Não gostaste do que fiz ao teu amigo?
Gohan encarou o saiya-jin e Keilo
deixou de sorrir, quando percebeu nele o poder adormecido, uma vaga
avassaladora de energia e de fúria. Depois, deitou a cabeça para trás a rir
como um perdido.
- Muito bem! - Exclamou, contendo o riso. – Tu também és um saiya-jin.
Gohan semicerrou os olhos. O saiya-jin
tentava provocá-lo, desejava provar o poder que, momentaneamente, sentira,
querendo comprovar até onde chegava, excitado com a possibilidade de,
finalmente, ter encontrado um adversário digno da sua lenda.
- Não… não és um saiya-jin.
És apenas meio saiya-jin. Mas não
importa. Não és rival para mim.
Chamou-o com uma das mãos.
- Vamos. Ataca-me. Vinga o teu amigo.
O corpo inconsciente de Vegeta estava caído na margem, com as pernas
imersas na água, a cara enterrada na lama, no meio dos juncos que partira com a
queda. Ao vê-lo, Gohan aumentou a sua cólera. Apertou os punhos com força, inclinou-se
para ir ao encontro do saiya-jin, mas
um braço meteu-se à sua frente.
- Fica quieto – ordenou Piccolo.
Goku colocou-se entre Keilo e o filho.
- É a minha vez – disse.
- Não quero lutar contigo, Kakaroto. Quero lutar com ele!
O dedo apontou para Gohan.
Goku sabia que teria de fazer tudo para impedir que Keilo combatesse
contra Gohan, que não se treinava havia muitos anos e não estava minimamente
preparado para enfrentar o super
saiya-jin lendário que se tinha desembaraçado dele e de Vegeta sem a menor
dificuldade.
- Não. Vais lutar comigo – insistiu.
Keilo perguntou com ar de troça:
- Porquê?
- Porque este combate é entre saiya-jin.
- Ele é meio saiya-jin, mas
serve perfeitamente. Hum… É teu filho, por acaso?
- Porque é que perguntas isso?
- Os dois têm a mesma cara de idiota.
- Queres que eu me zangue?
- Porquê? Ficas mais forte se te zangares?
- Deixa-o em paz. Eu é que sou o teu adversário.
- Por enquanto… Vou livrar-me depressa de ti, Kakaroto, para poder
enfrentar-me a ele. Nunca lutei com um meio saiya-jin.
Deve ser interessante… Eu quero lutar
com ele.
O confronto iria ser duro. Goku preparou-se.
- Como é que ele se chama? – Perguntou Keilo, fazendo estalar os ossos
dos dedos das mãos.
Desconfiado, Goku respondeu:
- Chama-se… Chama-se Gohan.
Keilo afastou-se ligeiramente para a esquerda, para espreitar por cima
do ombro de Goku. Elevou a voz e disse:
- Gohan! Espera só um instantinho que eu já vou ter contigo. É só o
tempo de despachar o idiota do teu pai!
Gohan não respondeu. O braço de Piccolo continuava levantado, a
barreira que o impedia de fazer uma loucura.
Goku atacou o saiya-jin. Os
dois envolveram-se num combate violento, que era tão rápido que não se via mais
do que uma bola amarela de energia, a piscar de tempos a tempos em pontos
diferentes do céu.
- Quem é aquele saiya-jin,
Piccolo? – Perguntou Gohan a seguir o combate do pai.
Piccolo observava o mesmo combate, virando a cabeça de um lado para o
outro, os olhos a girar nas órbitas atrás dos dois lutadores que se
multiplicavam em golpes e contragolpes.
- Foi criado pelo feiticeiro que nos está a ameaçar – respondeu. – Esse
feiticeiro chama-se Zephir e serve-se da magia de Babidi para criar guerreiros
poderosos, como aquele saiya-jin.
Julgo que o teu pai e Vegeta poderão dizer-te quem é ele, parece-me que se
trata de um saiya-jin que já deve ter
existido.
- O que quer esse feiticeiro?
- O que todos os loucos ambiciosos querem. Conquistar o Universo.
- Mas nós estamos aqui.
- Hai.
Contudo, não estavam a ser muito bem-sucedidos a contrariar os planos
de Zephir, pensou Piccolo agoniado. O que estaria a faltar, quando já eram tão
fortes, especialmente Goku e Vegeta? Assentou uma mão no ombro de Gohan e
disse:
- Será melhor irmos ver em que condições está Vegeta.
Os estampidos surdos do embate entre Goku e Keilo soavam na atmosfera.
- Hai – concordou Gohan.
Os dois atravessaram o lago pelo ar, correram para o sítio onde jazia
Vegeta inanimado. Gohan ajoelhou-se junto dele, voltou-o. O príncipe gemeu, a
tentar abrir os olhos. Ao reconhecê-lo, pareceu animar-se. Afastou-o com um
braço trémulo, sentou-se, levou uma mão à testa.
- Sentes-te melhor?
Vegeta olhou Gohan de esguelha, mal-humorado. Tornou a afastá-lo com
um gesto brusco, levantou-se, as pernas vacilaram.
- Não preciso da tua ajuda. Sai daqui – respondeu, cuspindo saliva e
sangue. Limpou parte da lama da cara.
No alto, Keilo tinha acabado de atingir Goku com um murro. Antes de se
estatelar na floresta, Goku conseguiu endireitar-se no último segundo,
disparando uma bola de energia que Keilo recebeu e anulou com as mãos abertas.
Vegeta descobriu Piccolo atrás dele.
- E o que fazes aqui? Não tinhas ido ali dentro, à procura do maldito
feiticeiro?
- Fui atacado pelos kucris.
- E aquelas criaturinhas sem força nenhuma conseguem atacar?
A indireta feriu o orgulho do namekusei-jin.
- Os kucris são muito perigosos. As feridas que infligem com as suas
garras são venenosas. Se não fosse Gohan, a esta hora estaria morto. Fica como
aviso.
- Pff!... Não preciso dos teus avisos patéticos.
O príncipe virou-lhes costas, cruzou os braços e olhou para cima.
Keilo e Kakaroto lutavam animados, a trocar disparos flamejantes que cintilavam
como se minúsculas estrelas estivessem a cair na terra. Utilizavam a técnica de
uma maneira inovadora e curiosa. Cada lutador enviava as suas bolas energéticas
que o outro defendia com as suas próprias bolas. Era um jogo de pontaria. As
explosões sucediam-se brilhantes, sonoras e breves.
Goku parecia estar a sair-se bem e ainda não tinha chegado ao nível
três dos super saiya-jin. Mas Piccolo pressentira as dificuldades
remotas e ocultas daquele combate e ficou tenso, pois Vegeta, ao lado dele,
observava o combate com temor e nervosismo.
Espreitou por cima do ombro, para o Templo da Lua. Uma miríade de
luzinhas vermelhas, os olhos dos kucris, fixava-se neles. Deveria regressar e
completar a sua missão – encontrar e destruir Zephir. Agora, tinha Gohan com
ele e, sendo dois, poderiam conseguir passar pela barreira negra das criaturas
do feiticeiro.
Gohan perguntou:
- Quem é o saiya-jin,
Vegeta-san?
Vegeta respondeu irritado:
- É o nosso maior pesadelo!
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