Depois de
algumas noites a chorar aflita, agarrada ao travesseiro, resolvi esquecer o
Tiago. Era como se dizia, as más notícias chegavam sempre primeiro e se
houvesse más notícias, eu haveria de saber, de alguma maneira. O Tiago estava
em coma e, desde que não piorasse, o seu estado seria sempre igual e sem
grandes novidades a reportar.
Haveria
sempre de saber, convencera-me. As novidades corriam depressa na cidade,
especialmente os acontecimentos estranhos e como exemplo tinha a história recente
e curiosa de um doente em estado crítico que tinha sido raptado do hospital.
Desaparecera simplesmente e nunca mais se soubera o que lhe tinha acontecido. Nem
a polícia, apesar de todas as diligências e de toda a sua autoridade, tinha
conseguido encontrar esse doente.
Ainda
considerara ir bater à porta da vivenda onde tinha visto o pai do Tiago a
conversar irritado com o tal homem vestido de vermelho, a atirar para o
laranja. Passara três vezes pela urbanização de Gambelas, abrandara à porta da
vivenda do professor e não parara, abrandara à porta da vivenda do pai do Tiago
e arrancara. E o que diria eu se o pai do Tiago me fosse abrir a porta?
Resolvi
esquecer o Tiago, mas não consegui arrebitar. Continuava sem apetite, apática,
tão tristonha que começava a dar nas vistas.
Depois, tive
uma visão.
Ele saía da
Reitoria, pela porta mesmo em frente à porta da Escola Superior de Tecnologia,
no campus da Penha da universidade.
Saía nos habituais passos apressados como se quisesse fugir de tudo e de todos.
Chamei por ele num grito, agitando o braço:
- Professor
Gomano!
Ele parou. Descobriu-me,
tive mesmo a sensação que iria escapar-se e aproximei-me numa corrida. Estava
ali a minha oportunidade de recuperar o alento da vida.
Os óculos
dele descaíram para a ponta do nariz, ficou tenso. Uni as mãos ao corpo, fiz
uma vénia.
- Koniichi-wa, Gomano-san.
Ele gaguejou
pouco à vontade, a forçar um sorriso:
- Koniichi-wa, Ana-san.
- Há muito
tempo que não nos víamos.
- Hai… Há algum tempo.
- Já podemos
retomar as aulas de japonês?
Ele aligeirou
o nó da gravata.
- Mas… As
nossas aulas tinham terminado, Ana-san.
- Não, tinham
sido interrompidas. Por causa do Tiago.
- Não foi bem
isso que eu…
- E como é
que está o Tiago?
- Está bem.
- Está bem,
como? Já recuperou do coma?
Notei uma
gota de suor que descia pela testa até à cana do nariz. Ele sentiu-a e limpou-a
com a mão repetindo:
- Está bem.
Haveria que
flanquear o professor.
- No outro
dia desligou-me o telefone. Passa-se alguma coisa?
Mas ele,
astuto, recuperou a postura e também me flanqueou.
- No outro
dia foste apanhada a espreitar uns amigos meus. Eu também estava nessa sala,
sabias? É de má educação andar a escutar as conversas dos outros às escondidas.
Senti a cara
escaldar. Não tinha resposta para aquilo. O professor empurrou os óculos com um
dedo, mas a cana do nariz estava suada e eles voltaram a descair. Tinha uns
olhos bonitos, escondidos atrás daqueles óculos tão feios, uma armação grossa e
preta que já não se usava em lado nenhum.
Não percebi
por que é que continuou a olhar-me com um ar pensativo. Eu aproveitei a sorte
de ele não se ter ido embora e insisti:
- Já se
passaram duas semanas. Podemos retomar as aulas de japonês?
O professor
suspirou.
- Tu não vais
desistir, pois não?
Neguei com a
cabeça.
- Porque é
que insistes?
- Já lhe
expliquei por que é que quero aprender japonês. Tenho de passar outra vez pela
entrevista de admissão?
- Muito bem,
Ana-san. Aparece esta noite na minha casa.
Sorri com a
vitória inesperada. Ele tinha-me deixado ganhar a contenda e eu não entendia
porquê, mas ele lá teria as suas razões. Deu meia-volta, mas lembrou-se de um último
detalhe e encarou-me.
- Quanto ao
Tiago…
O nome provocou-me
um choque elétrico.
- Está bem,
como te disse. Foi transferido do hospital para uma clínica privada e está a
recuperar do acidente.
- Ah! Está a
melhorar?
- Hai.
Sorri,
apertei as mãos no peito.
- Ainda bem!
Tenho estado tão preocupada… Afinal, ele não é aquele doente que foi
misteriosamente raptado do hospital.
O professor
fez um esgar.
- Nani?
- Não soube
da história? Corre pela cidade inteira.
Recuou três
passos.
- Não ligo a
mexericos… Até logo.
Mas também eu
esqueci de pronto o mexerico. Despedi-me do professor e fui caminhando sobre as
nuvens até ao meu automóvel. Tinha sabido notícias do Tiago e as minhas aulas
de japonês iriam recomeçar.
As coisas
compunham-se, lentamente.
A normalidade
haveria de regressar aos meus dias.
Assim
acreditava, depois daquele encontro com o estranho professor Gomano.
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