Não consegui
dormir nada durante a noite, só tinha o Tiago no pensamento. Não consegui
trabalhar em condições, só tinha o Tiago no pensamento. Não me alimentei como
devia, só tinha o Tiago no pensamento. Fraca, aluada, preocupada, passei um dia
de martírio, porque o Tiago teimava em persistir no meu pensamento e eu sem
saber o estado em que continuava internado no hospital.
Quando
cheguei a casa, perguntei à minha mãe se alguém me tinha telefonado. Não, ninguém.
E poderiam telefonar-me? Não me conseguia recordar se tinha dado o meu contacto
ao professor, se ele teria a possibilidade de me telefonar. Por isso, o melhor
seria ir falar diretamente com ele para saber novidades do Tiago.
Nem cheguei a
pousar a mala, saí de casa a correr, enfiei-me no carro e rumei à urbanização
das Gambelas.
Cheguei ao
meu destino rapidamente. Acho que devo ter passado os limites de velocidade,
fiz ultrapassagens que não devia, mas não conseguia desacelerar, pois só tinha
o Tiago no pensamento.
Parei diante
da porta da vivenda do professor, respirei fundo. Contei até dez, para me
acalmar. Ajeitei o cabelo, ajeitei a roupa, abri e fechei as mãos. Estava
pronta e toquei à campainha.
Ninguém.
Insisti. A
campainha buzinou no interior da casa.
Novamente,
ninguém.
Espreitei
pelas pequenas janelas estreitas ao lado da porta, que permitiam ver o átrio da
vivenda. Uma quietude absoluta, uma semi obscuridade, não estava ninguém em
casa.
Só para
descarregar o nervosismo, toquei outra vez a campainha. Deixei lá o dedo, até a
unha ficar branca.
Nada.
Afastei-me da
vivenda, olhei em volta. O lugar estava deserto, silencioso, parecia que não
morava ninguém ali, nem na vivenda, nem nas outras vivendas, em toda a
urbanização, em Gambelas. Um local assombrado, abandonado, deixado sem vivalma
de propósito para me atormentar, para que eu vagueasse por ali sozinha e sem
saber como estava o Tiago.
Desci o
passeio, disposta a quebrar o feitiço e lançar mão a alguém, resgatá-lo para o
mundo onde eu estava a andar, a descer o passeio, e perguntar a essa pessoa
pelo paradeiro do professor e da família. Qualquer pessoa serviria. E se essa
não tivesse a resposta que procurava, largava-a de novo no feitiço e procurava
outra, assim como quem tenta agarrar nozes escondidas dentro de uma tina de
farinha.
O meu olhar
prendeu-se numa vivenda situada na curva do fim da rua. Parei, por instantes. Um
pressentimento estranho assaltou-me a alma. Estacionado junto à entrada estava
um Toyota branco. O Tiago conduzia um Toyota vermelho… O carro pareceu-me
igual, mas com outra cor. Branco, em vez de vermelho.
Foi um
daqueles impulsos estranhos que nos carregam para lugares ligados ao nosso destino.
Aproximei-me
com cautela. Não iria tocar à campainha. E se aquela fosse mesmo a casa do
Tiago e se me aparecesse à porta o trombudo do pai dele? Que diria eu a
semelhante personagem?
Saltei o
pequeno muro branco que cercava o terreno, entrei sorrateiramente nos jardins,
pisando a relva. A andar de cócaras, rente ao chão, rodeei a casa até encontrar
uma porta envidraçada. Pareceu-me ouvir vozes.
Escondida
entre os arbustos, espreitei. Do outro lado do vidro vi uma sala, com estantes
e sofás e uma mesa. A sala tinha gente lá dentro.
O meu coração
disparou, ao mesmo tempo exultei de alegria porque tinha razão – encontrava a
casa do Tiago!
Parado no
meio da sala, de braços cruzados, com uma cara terrivelmente zangada, estava o
pai do Tiago. Falava com alguém que se sentava num cadeirão, de quem só via as
pernas. Vestia umas calças vermelhas, a atirar para o laranja, calçava umas
botas pretas com uma faixa amarela. De vez em quando o pai do Tiago calava-se,
o homem do cadeirão devia estar a responder-lhe. Vi o braço agitar-se, uma mão,
um pulso onde se enrolava uma faixa azul-escura.
O coração
batia-me na cabeça.
Nisto, o
homem das calças vermelhas, a atirar para o laranja, levantou-se. O pai do
Tiago endureceu as feições, disse-lhe qualquer coisa. O homem estava todo
vestido de vermelho, uma cor assim a atirar para o laranja. Todo… Abri muito a
boca. O homem estava de costas para mim, apoiava um punho fechado na cintura, o
pulso também enrolado numa faixa azul-escura. Aliás, tinha ambos os pulsos
enrolados com essas faixas. E o cabelo do homem…
O pai do
Tiago descruzou os braços, abanou a cabeça como se discordasse.
O cabelo do
pai do Tiago era esquisito, isso já eu tinha notado quando o conhecera. Era um
cabelo todo espetado para cima, muito preto. O cabelo do homem vestido de
vermelho, a atirar para o laranja, também era esquisito, mas não era espetado
para cima, era espetado para os lados. Um grande tufo em cima, um grande tufo
para o lado. Cabelos muito pretos, assim como os cabelos do pai do Tiago.
O homem
vestido de vermelho, a atirar para o laranja, voltou-se. Viu-me. Descobriu-me a
espreitá-los escondida nos arbustos
- Goku… -
balbuciei atordoada.
A cara do
homem vestido de vermelho, a atirar para o laranja, era engraçada. Os olhos
negros escancarados, a boca entreaberta. Puro espanto. Igualzinho ao herói de
“Dragon Ball”. Até a roupa… A coincidência deixou-me oca.
O pai do
Tiago também me descobriu. A cara dele não era nada engraçada, longe disso.
Dir-se-ia que iria saltar pela porta envidraçada, atravessar os vidros em
estilhaços e comer-me viva.
Levantei-me,
caí para trás. Saltei, desatei a correr, pulei o muro branco, atravessei a
estrada, atirei-me para dentro do carro. Liguei o motor. As minhas mãos tremiam
agarradas ao volante.
Eu tremia.
Fora até ali para
ter respostas porque o Tiago não me saía do pensamento. Ganhara ainda mais
dúvidas.
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