O professor
Gomano levantou-se da cadeira.
- Já venho,
Ana-san.
Acenei que
sim, vi-o sair do escritório com passadas ágeis. Olhei para o caderno dos
apontamentos. Estava a receber a quarta lição de japonês, naquela segunda-feira
à noite.
A porta do
escritório abriu-se e entrou a filha do professor. Ignorou-me, foi até à
estante e tirou um livro.
Apoiei o
queixo na mão e atirei para o ar:
- É uma pena
que não percebas o que digo, porque senão poderíamos conversar.
A caminho da
porta, a miúda encarou-me.
- Mas eu
percebo o que tu dizes.
A surpresa
foi tão grande que gritei:
- Ahn?!
- Mas eu
percebo o que tu dizes - repetiu ela em castelhano, num tom suave e seguro.
Pestanejei,
atrapalhada.
- Eu não
sabia que falavas espanhol.
- O meu pai
também fala igual a mim.
- Pois fala.
Tens razão…
- Então, por
que é que ficaste tão espantada?
- Porque ele
disse-me… Esquece. – Tentei uma abordagem nova, o cinismo, para tentar perceber
o que é que se passava ali. Perguntei: – Como é que te chamas?
- Paula – respondeu
sem hesitar.
- Paula? Mas
o teu pai disse-me que te chamavas Pan.
Foi a vez de
ela pestanejar. Agarrou no livro com mais força.
- Ele disse-te
isso?
- Então, como
é que te chamas?
Mas a miúda
conseguiu ser mais cínica do que eu.
- Tu já sabes
o meu nome.
Fiz nova
pergunta:
- Quantos
anos tens?
- Oito.
- Nasceste no
Japão, não é assim?
- Hai, venho do Japão. Pode-se dizer…
- Há quanto
tempo estás cá em Portugal? Passaste primeiro por Espanha, não é assim?
Pan correu
para a porta do escritório dizendo:
- O ‘tousan está a chegar. Não posso estar
aqui.
Recostei-me
na cadeira.
O mistério
adensava-se. O Tiago e aquela família não eram normais. Não percebia por que é
que falavam em espanhol e não em português e por que é que tinham nomes
portugueses, em vez de espanhóis? Será que mudavam o nome consoante a terra
onde estavam? No Japão, tinham nomes japoneses. Em Espanha tratavam-se por
nomes espanhóis. Em Portugal, escolhiam nomes portugueses. E isso não seria
confuso, especialmente para uma criança pequena? E o que raio queria dizer que
vinham, “podia-se dizer”, do Japão?
O professor
regressou. Deixou em cima da mesa um prato de bolachas sortidas e sentou-se.
- Estudar
abre o apetite, não concordas?
Concordei,
afirmando com a cabeça.
- Tenho sido
muito mal-educado porque nunca te ofereci nada quando vens cá estudar comigo.
- Ora,
professor, não era preciso.
- Se te
apetecer tirar uma, não tenhas vergonha.
- Arigato gozaimasu, Gomano-san.
Ele riu-se.
- Muito bem. Deves
ir praticando.
- A sua filha
esteve aqui.
- Esteve? – E
arqueou as sobrancelhas, que surgiram por cima dos aros dos óculos.
- Veio buscar
um livro.
- Pan gosta
muito de livros.
Pelo menos,
não utilizou o nome fingido da filha na frase. A curiosidade não me largava.
- Diga-me uma
coisa, professor. Esteve em Espanha, não é assim?
Ele demorou
algum tempo a responder. Ponderava as probabilidades de uma resposta, como um
jogador de xadrez a analisar o tabuleiro. Foi conciso:
- Hai.
- Quanto
tempo?
- O
suficiente para conseguir aprender a falar castelhano.
- E a família
do Tiago, também esteve em Espanha?
Novamente um
conciso:
- Hai.
- Esteve
onde?
- Trabalhei
em Sevilha. – Acrescentou inseguro: - Com o pai do Tiago.
- O pai do
Tiago também é professor?
Um cada vez
mais conciso:
- Hai.
- Ele combate
em torneios, não é assim?
Novamente, o
pai do Tiago era alguém que eu não conseguia encaixar na história. Um professor
universitário a lutar em torneios clandestinos e a ganhar fortunas, que o filho
esbanjava em borgas noturnas?
O professor
suspirou alto.
- Vamos
continuar com a lição?
Ele fugia do
assunto, consegui perceber isso. Então, resolvi não insistir, até porque quando
o pai do Tiago entrava na equação baralhava o meu brilhante raciocínio,
afastando-me sumariamente da solução.
Continuar com
a lição seria também o mais ajuizado. Ainda punha o professor zangado comigo
por querer saber tanto sobre ele e as aulas de japonês terminavam naquela mesma
noite por ser tão intrometida.
O telefone
tocou na sala. O professor fechou a porta para não sermos incomodados.
Recomeçámos.
- Bem,
Ana-san. Estávamos a ver os verbos, certo?
- Certo. – Agarrei
na esferográfica, espreitei o caderno.
- A maioria
dos verbos em japonês termina em “masu”.
- Sim.
- Temos como
exemplos…
- Tabemasu.
- Que significa…?
- Comer.
- E que mais?
- Yomimasu, que significa “ler”; ikimasu, “ir”; kimasu, “vir”; kirimasu,
“cortar”; wakarimasu, que significa
“compreender”. – Respondi, lendo o caderno.
- Muito bem.
Agora: se quisermos perguntar alguma coisa relacionada com esses verbos
adiciona-se a partícula “ka”.
Tirei o
apontamento.
- Se quiser
perguntar-te se já comeste, digo: tabemasu
ka?
- Tabemasu ka… Certo.
- E tu
respondes-me com o verbo. Se já comeste, dizes: tabemasu. Se quiseres negar, ou seja, se ainda não comeste, basta
mudar “masu” para “masen”.
Tornei a
escrever.
- Wakarimasu ka, Ana-san?
- Hai. Wakarimasu.
O professor
reclinou-se na cadeira satisfeito.
- Aprendes
depressa. Estou muito contente contigo. És uma excelente aluna.
- Arigato gozaimasu.
O elogio
envergonhou-me.
A mulher do
professor irrompeu pelo escritório como um furacão.
- Gohan!
Vinha alarmada,
em pânico. O professor levantou-se preocupado.
O diálogo
iria desenrolar-se em japonês, de certeza, para me excluir do assunto que seria
assunto de família, certamente. Concentrei-me no que iriam dizer um ao outro,
para ver se conseguia perceber alguma coisa. Fixara a primeira palavra que ela
dissera. Chamara pelo professor, era lógico. Mas, assim de repente, não me
pareceu Gomano. Pareceu-me…
- Gohan, aconteceu uma coisa horrível!
- Acalma-te. O que foi que aconteceu?
- Recebi agora mesmo um telefonema de Kuririn-san.
Disse-me que Trunks-kun está no hospital, muito ferido.
- Como? Tens a certeza? – E os olhos dele
esbugalharam-se.
- Teve um grande acidente de automóvel na
madrugada deste sábado.
- Sábado? Mas hoje é segunda-feira.
- Só hoje conseguiram localizar os pais dele,
porque, como tu bem sabes, ele não tinha, tal como nenhum de nós tem,
documentos que o pudessem identificar. Bulma-san e Vegeta-san já foram para o
hospital. Kuririn-san vai agora para lá, mas antes quis avisar-te…
- Nós também vamos. Quero saber exatamente qual
é o estado dele.
Os dois
olharam para mim ao mesmo tempo. Apertei a caneta entre os dedos. Tinham falado
muito depressa, não entendera patavina. Mas pelas suas expressões consternadas percebi
que o assunto era sério e um estranho pressentimento causou-me calafrios.
- Videl, já vou ter contigo.
- Hai.
A mulher
saiu, o professor olhou para mim. Saltei da cadeira. Ele mostrava-se tão
preocupado, que fui imediatamente contagiada pela sua preocupação. Disse-me:
- Ana-san, a
nossa aula terminou.
- Porquê? O
que foi que aconteceu?
- Vamos agora
para o hospital, eu e a minha mulher. Se não te importas, as aulas ficam
adiadas até dizer-te alguma coisa.
- Quem é que
está no hospital?
Apertou os
lábios, considerando se deveria contar-me. Percebi-lhe a dúvida, a hesitação, o
medo, um estranho medo a roubar-lhe as cores do rosto.
- Um amigo…
- Qual amigo?
Não queria
parecer um inspetor da Polícia Judiciária, mas não aguantava a expectativa. Por
que é que ele não me contava logo tudo, de rajada, atingir-me com a
metralhadora da verdade, deixar-me furada com milhentos buracos por onde se
escoaria aquela tensão?
Disse-me com
um suspiro:
- O Tiago.
Agora, era eu
que empalidecia.
- O Tiago?!!
- Teve um
grave acidente de automóvel, este fim-de-semana. Não sabemos de mais nada.
- Posso ir
consigo? – Pedi a aguentar as lágrimas.
- Eh… Não
sei, Ana-san… Não sei.
Indicou-me a
porta do escritório.
- Será melhor
não ires, Ana-san.
Mas apesar de
o nosso último encontro se ter saldado num abandono e num gelado derretido, o
Tiago continuava a manter-se na minha cabeça, irredutível, sorrindo para mim do
outro lado do “Académico”. Supliquei:
- Onegai shimass…
E o professor
também aguentou as suas lágrimas.
***
Nas urgências
do hospital da cidade reinava a confusão característica do sítio, onde chegavam
ambulâncias e feridos a precisar de ajuda. Havia correrias, gente a passar de
um lado para o outro, os minutos contados, sem tempo, gente pelos cantos, a
aguardar notícias, rostos marcados pela angústia e pela espera.
Entrei nas
urgências atrás do professor e da mulher, a tremer mais do que já estava a
tremer. Nem sabia como tinha conduzido o carro desde Gambelas até Faro, de
noite, as luzes dos automóveis que se cruzavam com o meu a confundirem-me, a
deixarem-me os olhos a arder, até perceber, a descer a avenida em direção ao
hospital, que também podia ser das lágrimas.
Passavam macas
e enfermeiros, bombeiros cansados. Segui o professor que parou num canto da
sala de espera, onde se foi juntar a cinco pessoas. Familiares, amigos, pensei.
Fiquei ligeiramente afastada, não sabia se me poderia incluir na categoria dos
amigos. Estava lá porque suplicara e pronto.
Havia uma
miúda, aparentemente com a mesma idade da filha do professor, muito loira, o
cabelo apanhado em rabo-de-cavalo com um laço verde a combinar com o vestido da
mesma cor. Dava a mão a uma rapariga, também loira, olhar expressivo, bonita,
com cerca de dezoito anos. Havia uma mulher mais velha, mas muito bonita, com
uma aparência irrepreensível e cativante, com um tom de cabelo esquisito. Pareceu-me
ligeiramente azul, ou loiro, ou uma qualquer cor clara e brilhante. Reconheci-a
como a mãe do Tiago porque os dois partilhavam parecenças e trejeitos, o mesmo
encanto e beleza. O professor aproximou-se dela.
- Ainda bem
que vieste. Agradeço-te.
O professor
pediu:
- Em japonês, Bulma-san. Será melhor.
Vi a mãe do
Tiago inclinar-se e descobrir a minha presença que o corpo do professor
ocultava. Acenou afirmativamente com a cabeça. O professor perguntou:
- Já sabem como é que ele está?
- Disseram-nos para esperar mais um pouco. O
médico virá falar comigo para dar pormenores, daqui a uns minutos, mas já se
passou mais de meia hora.
- Parece-me que estão muito ocupados, esta
noite.
- Parece que sim.
Reparei num
homem baixinho, de cara cheia e engraçada, com um pormenor qualquer que me
chamou a atenção. A sua cara não era como as outras. Faltava alguma coisa… Pelo
menos, assim parecia à primeira vista. Tinha o cabelo negro desgrenhado,
entremeado com madeixas cinzentas. Estava ao lado da rapariga loira e, apesar
de não ser logo evidente, notei parecenças, o que poderia indicar que fossem
pai e filha.
- Está nos cuidados intensivos, desde sábado.
Não pode receber visitas.
- E o estado dele?
- Grave. Está em coma.
Por último, vi-o.
Quase por acaso, estava ligeiramente afastado, como se não fizesse parte do
grupo, mas fazia, de certeza absoluta. Desviei os olhos imediatamente, porque o
pai do Tiago observava-me como se me quisesse comer viva. Tinha o mesmo olhar
que a mulher do professor me lançava quando eu aparecia para as aulas de
japonês.
O professor
aproximou-se de mim.
- Como é que
está o Tiago? – Perguntei.
- Não pode
receber visitas, pelo que não vale a pena estares aqui. Vai para casa, vai
descansar.
- Mas ele
está muito mal?
- Está em
coma.
- Em… coma?
Engoli em
seco. O professor pousou uma mão no meu ombro, tentava tranquilizar-me, mas
senti a mão dele tremer e fiquei ainda mais intranquila. Ia falar, mas o
professor negou com a cabeça, cortando-me a fala, amputando-me a curiosidade:
- É melhor
ires embora. – E pediu como eu o fizera há pouco: - Onegai shimass.
Fui sensível
à súplica dele, pois ele também tinha sido sensível à minha. Contas fechadas,
hora de abandonar aquele reduto, onde estava a família do Tiago e os amigos do
Tiago, provavelmente os amigos verdadeiros. Não fora nada de evidente, ou de
forçado, nem sequer de indelicado, mas o professor conseguira que eu me
sentisse uma intrusa.
Concordei no
preciso momento em que um médico se abeirava da mãe do Tiago e começava a falar
com ela. Mais desalentada com que entrei, saí das urgências, um passo atrás de
outro passo, descendo as escadas como se quisesse sentir a solidez do mármore
de cada degrau, para me certificar que era mesmo mármore, que não era espuma
que me tragava os tornozelos, porque as minhas pernas não tinham consistência e
eu continuava a tremer.
Vi a chegada
de uma ambulância, com as suas sirenes estridentes. Vi a chegada de um homem
grande e gordo, o rosto com uma barba farta a atirar para o branco, acompanhado
de uma mulher franzina, uns olhos vivos e o cabelo negro atado junto ao pescoço,
vestida com um vestido comprido e desengraçado.
O vento frio
da noite bateu-me na cara. Reparei que o céu não tinha estrelas, era negro como
a asa de um corvo. Rezei? Acho que sim… Não me lembro bem.
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