Com muito cuidado, para não fazer barulho, Trunks esgueirou-se para
dentro do quarto através da janela, que deixou aberta. Deslizou como uma sombra
e foi estender-se silenciosamente na cama.
Estava cansado. Não um cansaço físico, era algo que vinha de dentro e
que lhe roía a alma com persistência. As forças faltavam-lhe, estava farto,
insatisfeito, mas não conseguia parar de fugir. Sabia agora que embarcara numa
viagem alucinante sem retorno e que era tarde demais para voltar atrás.
Falhara redondamente. Deixara-se abater, desistira do combate. Ele,
Trunks, o legítimo herdeiro da Casa Real dos saiya-jin, filho do grande príncipe Vegeta, descendente dos maiores
guerreiros do Universo, não passava agora de um vulgar rapaz sem futuro, sem
rumo e sem valor. Perdera, pura e simplesmente, a alegria de viver desde o tal
dia amaldiçoado.
Contorceu-se incomodado com a lembrança. Queria esquecer! Conseguia-o
quando vestia a pele do Tiago e incarnava esse personagem que todos adoravam
nos bares, nas discotecas e em todos os antros noturnos da região. O deboche
era a máscara definitiva, a espiral destrutiva que o conduziria ao Inferno que
ele buscava, porque sabia ser meritório de um lugar assim, onde o sofrimento
era eterno, onde as trevas eram perpétuas.
Devia ter regressado para junto do João e da morena que vinha de uma
cidade do norte, que não conseguira fixar, e que se chamava Manuela, mas não
lhe apetecia mais colocar a máscara naquela noite depois de ter ido atrás da
Ana.
O que a Ana lhe fazia, confundia-o. Gostara de a ver dançar e cantar do
outro lado do bar, era como o antídoto que o poderia resgatar, se ao menos ele
tivesse a coragem de se entregar. Ela seria uma boa aposta para descobrir o que
era interagir, mas ele não conseguiria usá-la e descartá-la, como fazia com as
outras. Perseguia a condenação final, mas haveria de se danar sozinho, a Ana
não merecia ir para o Inferno com ele. Apesar de ter a sensação de que ela
haveria de o seguir, porque, de algum modo dúbio, ela sentia qualquer coisa por
ele.
E conhecia-o. Conhecia-os a todos. Uma excelente aposta!
Lembrava-se dela e o coração de pedra estalava por breves segundos. Se
lhe perguntassem, não saberia explicar convenientemente porque sentira que ela
estava em perigo e porque correra a salvá-la. Não queria ele ser desprezível?
Depois, a frieza realojou-se no peito e achou uma explicação razoável.
Fora atrás da Ana e salvara-a porque ela também o tinha salvado da fúria de
Vegeta, na praia, no passado fim-de-semana, e assim ficaram quites. Era
importante não deixar dívidas, porque o caminho que percorria não pressupunha
inflexões.
De repente, a luz da culpa acendeu-se no cérebro.
Acontecia, de vez em quando, a lembrança mais dolorosa de todas
materializava-se, acomodava-se no seu interior e esgravatava-o sem piedade.
- Goten – murmurou.
A frase de Vegeta entrou-lhe pelos ouvidos com uma violência
inesperada. “Zephir enviou-nos para a Dimensão Real ao enfeitiçar um tubo de
ensaio cheio do sangue de Son Goten”.
Estavam na Dimensão Real por causa dele. Cobriu os olhos com os
braços, gemendo porque sentiu aquela dor que queria abafar na louca existência
como um rapaz qualquer da Dimensão Real. Mas acabou por sorrir. Era disso que
fugia, da verdade… Do que tinha acontecido naquele dia no Templo da Lua.
Fugir loucamente apenas numa direção. Para a frente, para o abismo.
Uma brisa fresca entrou pela janela. Levantou-se da cama e encostou-se
ao parapeito para ver as estrelas. Gostou de vê-las. Gostou também do vento que
o embalara naquela noite de verão enquanto voara para casa, coisa que deixara
de fazer desde que chegara àquela dimensão. Desistira de voar porque não
suportava fazê-lo sozinho. Tinha a horrível tendência de olhar para o lado e
procurar pelo amigo.
Esmurrou o parapeito, a reter as lágrimas. Não iria chorar, porque os saiya-jin não choram. Suportaria o
amargo daquela derrota pessoal embriagado com a falsa sensação de que pertencia
àquele corpo e àquele nome.
Zephir, entretanto, triunfava algures, num sítio demasiado longe, que ele
não queria reencontrar. Ele não queria voltar para o seu fracasso. A mãe
tentara convencê-lo de que ainda havia esperança e que poderiam ressuscitar
Goten com as bolas de dragão, mas ele perdera a fé e não queria que lha devolvessem,
nem queria que o reconfortassem, nem queria que o despertassem. Zephir vencia e
Trunks não se importava.
Preferiu sentir a dor, em vez de acreditar no futuro em que eles
sairiam vitoriosos. Confuso, meneou a cabeça e murmurou tristemente para as estrelas
que observava:
- Queria que me perdoasses… Son Goten! É que eu não consigo perdoar-me.
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