O professor
já tinha estado sentado, mas levantara-se assim que eu abrira o caderno dos
apontamentos. Não dissera palavra e saíra do escritório e achei que tivesse ido
buscar um prato com bolachas, porque ninguém o chamara.
Naquela
noite, senti receio por estar ali, em forma de um estúpido e singular arrepio.
Tive o pressentimento de que estava a meter-me onde não devia e que me deveria
afastar.
Provavelmente
a minha insistência para recomeçar com as aulas de japonês tinha sido exagerada
e despropositada. Provavelmente duas semanas não tinha sido tempo suficiente.
Mas tempo suficiente para quê?
Resolvi
acalmar-me. Não se passava nada de estranho…
A família do
professor era uma família normal, como tantas que havia por aí – a mãe, o pai,
uma filha. Hoje, só tinha visto o professor, o que até tinha sido melhor,
porque com todos os arrepios que sentia, ser recebida pela antipática da mulher
dele iria arrasar com a pouca autoconfiança que arranjara quando tocara à
campainha da vivenda.
A porta do
escritório abriu-se. Eu estava de costas para a porta. Ouvi o som de passos que
entraram, mas que depois pararam. Seria o professor e o prato de bolachas. Voltei-me,
ainda sentada.
O coração
caiu-me aos pés, fiquei sem voz, o sangue congelou nas veias, todo o meu corpo
reagiu como se tivesse acabado de ser envolvido por uma rede.
Saltei da
cadeira, lancei-me na direção dele. Então, a minha voz regressou.
- Tiago?!!!
Ele estava
parado, agarrado ao puxador da porta do escritório do professor Gomano.
Atirei-me
para cima dele, abracei-me ao pescoço dele. Era sólido e quente, não era nenhum
fantasma. Toquei-lhe no cabelo, que estava curto, na cara, no peito, nos
ombros, nos braços. Fui mais ousada do que contava ser, continuei a tocar nele,
na cara principalmente, naquele rosto de anjo que era tão real e que estava
ali, comigo, no mesmo plano físico, não era uma alucinação.
Ele agarrou-me
nas mãos.
- Ana, calma.
Sou mesmo eu.
Sacudi os
braços e ele soltou-me.
- Mas, tu
estás bem? – Perguntei sem fôlego. – Como é que estás tão bem? Só se passaram
duas semanas! Estás curado? Completamente curado?
Ele franziu
os sobrolhos, apreensivo. Recuou ligeiramente. Eu insisti:
- Ainda hoje
o professor disse-me que tinhas sido transferido para uma clínica privada.
Saíste hoje, foi? Deram-te alta? Já estás completamente curado?
- Do que é
que estás a falar? – Tartamudeou incomodado.
- Mas tu não
tiveste um acidente enorme, há duas semanas? Até eu estive no hospital para
saber qual era o teu estado. Estavas em coma!
- Eu… Não sei
do que é que estás a falar.
A resposta
foi como um soco na testa. Abanei a cabeça, como que a despertar do golpe, mas
continuei zonza.
- Do acidente
– tornei, a sentir a boca seca. – Estou a falar do acidente.
- Eu não tive
nenhum acidente.
- Ahn?
O professor
Gomano entrou com o prato de bolachas. Quando nos viu estacou. Olhei para o
professor, suplicando um esclarecimento. Sorriu para mim, daquela maneira
idiota que lhe fechava os olhos, estendeu-me o prato e fiquei com as mãos
ocupadas.
Começou a
falar com o Tiago em japonês.
- Vieste visitar-me. Eu… não estava à espera.
- Não sabia que estavas com ela. Se soubesse,
não teria vindo. Poupava este aborrecimento. Tem estado muito aflita a
perguntar como é que me curei tão depressa. Pensava que as aulas de japonês
tinham terminado.
- E tinham terminado. Mas hoje encontrou-me na
universidade e não consegui convencê-la que já não havia mais aulas de japonês.
- Bem, se estás ocupado…
- Espera! Queres falar comigo? Eu mando-a
embora.
- Não é preciso, volto noutro dia.
- Não, por favor. Fica. Eu também quero falar
contigo… Há muito tempo que não o fazemos.
O Tiago olhou
para mim. Tirou uma bolacha do prato e disse:
- Estou à espera, na sala.
Enfiei a
cabeça na porta para vê-lo andar pelo corredor, tão saudável e composto, sem o
menor indício de um qualquer grave acidente de viação que o tinha deixado em
coma.
O professor
disse-me:
- Ana-san, se
não te importas, hoje não vamos ter a nossa lição.
Olhei para o
professor. Fechei as pálpebras, abri-as. Fechei-as e abri-as outra vez.
- Como disse?
- Hoje não te
posso dar a aula. Fica para amanhã, pode ser? Como viste, tenho visitas.
- Ele está
curado?
- Está… -
suspirou, revirando os olhos. – Está curado.
Não consegui
perguntar mais nada. O professor tirou-me o prato das bolachas, colocou-o em
cima da mesa, no meio dos papéis e dos livros. Fechou o meu caderno e
entregou-mo, juntamente com a esferográfica. Recebi tudo sonâmbula. Depois,
deu-me a mala e empurrou-me pelo corredor, as mãos sobre as minhas omoplatas e
eu deixei-me empurrar, no mesmo estado apático.
Passei pela
sala, guinei para o vestíbulo da vivenda, consegui ver as botas do Tiago, mais
nada. Ele deitava-se no sofá, provavelmente a comer a bolacha e estava nervoso,
porque não parava com as pernas quietas.
O professor
despediu-se de mim e eu fiquei na porta, do lado de fora, com o caderno, a
esferográfica e a mala colados ao peito, entre os braços cruzados.
Não me mexi
durante alguns segundos, o tempo que o professor levou a voltar-se, sair do
vestíbulo, entrar na sala e começar a falar. Quando ouvi a voz do Tiago a
responder, em japonês, num tom diferente daquele que ele usava, ou que o
professor usava, quando falavam em castelhano, consegui deixar aquele sítio
onde me plantara.
Abri a
cancela, fechei a cancela. Destranquei o carro, abri a porta do carro,
sentei-me, atirei o caderno, a esferográfica e a mala para o assento do
pendura, fechei a porta do carro.
Escuro.
Engoli a
saliva. Soube-me mal e fiz uma careta.
O Tiago
estava curado.
O estranho
pressentimento que me acompanhava naquela noite acentuou-se.
Olhei para a
vivenda do professor Gomano.
Algum dia,
haveria de descobrir o que se passava ali. Não descansaria enquanto não
soubesse a verdade.
Pelo menos,
as aulas de japonês tinham recomeçado.
Algum dia,
sem dúvida… Ou não me chamava Ana Isabel.
Sem comentários:
Enviar um comentário