A casa de Ten Shin Han erguia-se no meio de nenhures, no fundo de uma
depressão, entalada entre dois outeiros cobertos de vegetação rasteira e de azinheiras
que cresciam selvagens na terra. Era difícil chegar lá porque não havia estrada
alcatroada, apenas um caminho de terra batida, irregular e cheio de buracos.
- Tens a certeza que é por aqui? – Perguntou Bulma.
- Hai.
O automóvel seguia em marcha lenta, quase parado, conduzido por Kuririn.
- Mas o que é que deu ao Ten Shin Han para viver num sítio como este?
- Foi o que lhe calhou na Dimensão Real – respondeu Kuririn guinando o
automóvel para a direita, para escapar de mais um buraco. – E é melhor que ele
viva aqui, no meio da serra, sem muita gente por perto, por causa de Chaozu.
Não te esqueças que o aspeto de Chaozu não é propriamente muito normal para os
padrões da Dimensão Real.
- Provavelmente tens razão.
O automóvel parou finalmente à porta da casa pequena, paredes caiadas,
uma janela de cada lado da porta, um telhado castanho. Necessitava de restauro
e não parecia habitada. As ervas daninhas cresciam junto à casa, rodeando-a
como se a amparasse entre a terra e a primeira fileira de tijolos. Havia um
poço a pouca distância, coberto com uma tampa redonda de madeira, um balde de
lata em cima, preso por uma corda grossa.
Kuririn bateu à porta. Ouviram-se passos arrastados no interior. O
postigo entreabriu-se numa fresta discreta.
- Sou eu, Kuririn. Venho com Bulma-san.
Ten Shin Han fechou o postigo e abriu a porta com prontidão.
- Entrem. – Virou a cabeça para dentro. – Chaozu, podes sair. São amigos.
Não há problema.
Passaram para uma divisão exígua, da largura da casa, decorada de
forma austera por um sofá velho, uma mesa pequena num canto, uma mesa redonda
com duas cadeiras e uma estante estreita vazia. Uma abertura arredondada,
tapada com um reposteiro escuro separava aquela divisão do resto da casa que,
pela amostra daquela entrada, devia ser pequena e acanhada. O chão era de
ladrilhos cor de barro e estava encardido, não por falta de limpeza, mas por
anos de sujidade entranhada.
Kuririn e Bulma sentaram-se no sofá, Ten Shin Han arrastou uma das
duas cadeiras e sentou-se diante deles. Usava um turbante na cabeça.
- Isso é para quê? – Perguntou Bulma.
- Para esconder o meu terceiro olho. Uso-o para sair, às vezes
esqueço-me de tirá-lo em casa.
Chaozu apareceu, afastando o reposteiro. Cumprimentou as visitas com
uma vénia.
- Koniichi-wa! Oh… Que agradável
surpresa.
- Olá, Chaozu – cumprimentou Bulma.
Ten Shin Han pediu ao companheiro que trouxesse chá e ele voltou para
a misteriosa divisão que ficava para lá do reposteiro. Bulma sentiu curiosidade
em conhecer o resto da casa, porque nunca tinha visto nada como aquilo –
pequeno, pobre. Ao menos a ela tinha-lhe saído em sorte uma vivenda num sítio
aprazível, com todas as comodidades, ao qual chamava lar sem qualquer
dificuldade. Ten Shin Han percebeu o incómodo dela.
- A casa é uma ruína, mas já está bastante melhor. Eu e Chaozu
estivemos a fazer alguns arranjos, assim que chegámos, para a tornar mais
habitável. Até chovia aqui dentro. Zephir não foi muito generoso comigo.
- Ora, a casa até não me parece má – disse Kuririn.
Bulma fez uma careta, pois ele estava claramente a ser simpático.
- No entanto, eu e Chaozu não nos importamos, pois a casa é
temporária. Em breve, estaremos de volta à Dimensão Z. Como é que está a
máquina das dimensões?
- Está… Está muito avançada – respondeu Bulma sabendo que mentia. A maldita
máquina era um espinho cravado no seu orgulho. Nunca levara tanto tempo com uma
invenção sua.
- Pensas terminar a máquina quando?
- Talvez… talvez daqui a um mês.
- A máquina tem tido alguns atrasos – explicou Kuririn.
Bulma não gostou daquela observação e fez segunda careta. Kuririn
percebeu que falara demais e acrescentou:
- Mas, agora estão a fazer-se progressos.
- Até parece que trabalhas comigo.
- Eh… Disse alguma coisa que não devia?
Ten Shin Han ficou confuso com a troca de palavras.
- Mas não foi para falar sobre a máquina das dimensões que viemos aqui
– resmungou ela.
- Pois não – Kuririn olhou para ela.
Bulma prendeu uma madeixa de cabelo atrás da orelha, humedeceu os
lábios. Perguntou de chofre, sem introdução prévia:
- Quem era o rapaz que tu e Yamucha encontraram muito ferido?
Caiu o silêncio.
O reposteiro mexeu-se, agitou as partículas de poeira suspensas no ar.
Chaozu pousou o tabuleiro na mesa. Dispôs as quatro taças numa linha perfeita,
serviu um chá fumegante que cheirava a flores e a mel.
Ten Shin Han apertou as calças junto aos joelhos.
- Como é que soubeste desse evento?
- Yamucha contou-me, quando me foi visitar à Capsule Corporation. O
rapaz chegou a salvar-se?
Bulma recebeu a taça, cheirou o aroma delicioso do chá. Kuririn recebeu
a sua taça, depois Ten Shin Han. Chaozu sentou-se na segunda cadeira, com a sua
taça entre as mãos pequenas e brancas.
A abraçar o silêncio estava uma inquietude densa, quase palpável.
Bulma esperava, com a taça quente a queimar-lhe os dedos. Ten Shin Han sorveu
um pouco de chá.
- O rapaz salvou-se, com um feijão senzu.
Chama-se Toynara e é um sacerdote do Templo da Lua.
Kuririn engasgou-se com o gole de chá que tentava beber.
- O Templo da Lua?! – Exclamou Bulma. – O mesmo templo de Zephir? Esse
rapaz conhece Zephir?
- Hai, foi discípulo de
Zephir, na verdade.
- E onde está esse Toynara?
- Deve estar onde o deixei, antes de termos vindo para a Dimensão
Real, no Palácio Celestial. Como ele não está ligado a Son Goku, não veio
connosco.
Kuririn disse:
- É uma grande coincidência teres encontrado um dos discípulos de
Zephir, Ten.
- É uma sorte inesperada – corrigiu Bulma entusiasmada. – Quando
regressarmos à Dimensão Z, esse Toynara saberá como derrotar Zephir.
- Provavelmente. Creio que não se importará de nos ajudar, procura
vingar-se. Foi Zephir que o feriu e que o deixou às portas da morte, que lhe
destruiu a casa e que lhe matou todos os amigos. Está suficientemente motivado…
Além disso, conhece-nos.
Kuririn interrompeu a segunda tentativa de beber o chá de Chaozu que
lhe fervia junto dos olhos.
- Conhece-nos?
- Hai. Conhece a existência
dos saiya-jin.
- Como? – Perguntou Bulma.
- Ao que parece, está escrito num livro da Sala Sagrada, a grande
biblioteca do Templo da Lua.
- Então, Zephir também sabe dos saiya-jin.
- Achas que sim, Bulma?
- Claro, Kuririn. Isso explica a estratégia do feiticeiro. Preparou-se
para se enfrentar a Son-kun e a Vegeta. Criou um saiya-jin para obedecer às suas ordens, pensou numa armadilha
infalível que os enviasse para longe, pois os saiya-jin são o seu maior empecilho para conquistar o Universo. Só
há uma coisa que não encaixa bem…
- O quê, Bulma-san? – Perguntou Chaozu.
- Parece que, para além de estarmos longe, o que serve claramente os
propósitos de Zephir (afastou os maiores inimigos, quem o iria combater e
derrotar), o feiticeiro também pretende que estejamos aqui para o transformamos
num deus e fazê-lo virtualmente invencível. Existe mais qualquer coisa, que nos
escapa.
- Mais qualquer coisa? – Indagou Kuririn arrepiando-se.
- Hai… O feiticeiro não quer
que fiquemos na Dimensão Real. Ele quer que cheguemos a interagir. Quer ganhar
na máxima glória. Ouve, Ten: e o que é que Toynara sabe sobre os planos de
Zephir?
- Não conversámos muito com Toynara. Ele é rapaz de poucas falas.
Bulma arqueou as sobrancelhas.
- Esconde o jogo? Não confia no seu salvador, que conhece os saiya-jin?
- Hai.
- Hum… Interessante. Poderá ser um Zephir em construção…
- E isso é bom? – Perguntou Kuririn.
- Claro! Iremos combater magia com magia, o pupilo a desafiar o
mestre, a suplantá-lo e a derrotá-lo. Perfeito! Não há dúvida que temos um
poderoso aliado contra Zephir, assim que chegarmos à Dimensão Z.
Kuririn conseguiu finalmente provar o chá de Chaozu.
- Gostaria muito de ver esse Toynara – acrescentou Bulma. – Fiquei curiosa…
Assim que regressarmos à Dimensão Z, quero conhecer esse sacerdote do Templo da
Lua.
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