O escaparate
das revistas chiou quando o forcei a dar meia volta para ver o outro lado. Nada
de interesse, nada de novo nas muitas publicações coloridas que se expunham nos
encaixes metálicos. Depois de um curto passeio pela baixa e antes de ir para
casa, por vezes gostava de entrar naquela pequena loja do centro comercial, um
corredor envidraçado que estreitava para os fundos, onde se vendia imprensa
estrangeira, para espreitar as novidades dos jogos eletrónicos nas revistas da
especialidade.
Na realidade,
não procurava estreias no mundo das consolas e dos computadores. Nessas
revistas reservava-se um espaço para as notícias do Japão, as estreias mais
sensacionais e que haveriam de chegar à Europa e aos Estados Unidos da América
meses depois. Antecipava-se a emoção, criavam-se expetativas. Mas, para além
dos jogos, também havia notícias sobre manga
e anime, traduzindo, banda desenhada
e desenhos animados japoneses e era isso que procurava.
Apaixonara-me
por esse tema quando conhecera a série “Dragon Ball”. Tinha sido transmitida,
alguns anos antes, na televisão espanhola e como em Faro se conseguia ver essa
emissão, nos dias de bom tempo e sem vento, nascera uma legião de fãs de
“Dragon Ball” na cidade, comigo incluída. A série tinha começado a ser
transmitida na televisão portuguesa em abril daquele ano de 1996 e ainda ia nos
primórdios, pelo que não estava ainda muito divulgada e a febre ainda não se
tinha instalado. Mas, pelos meus cálculos, até ao fim do ano, quando começassem
os episódios de cortar a respiração, a loucura haveria de ser nacional.
O criador de
“Dragon Ball” chamava-se Akira Toriyama e passara a ser um nome venerado por
mim, porque fora capaz de criar personagens fantásticos, uma história épica,
que combinava as artes marciais com a busca da perfeição física e espiritual,
tudo entrelaçado com a busca das bolas mágicas do dragão, que concediam desejos
impossíveis, com a constante luta para proteger a Terra e o Universo de
terríveis inimigos. O herói, Son Goku, manteve a sua personalidade simples e
inocente ao longo do enredo, nunca se contaminando com a maldade que foi
encontrando ao longo da sua vida. Pelo contrário, eram os adversários que se
contaminavam com a sua inocência e alguns acabavam por combater o mal ao lado
dele.
- Koniichi-wa, Ana.
A voz sobressaltou-me.
Estava distraída, agarrada ao escaparate, e não contava encontrar ninguém
conhecido. Voltei-me. E fiquei com o coração aos pulos, porque a surpresa de o descobrir
ali foi enorme.
- Tiago. Olá…
- gaguejei.
A loja era
apertada, mal tinha espaço para os escaparates. As revistas mais procuradas,
sobre jogos e sobre música, estavam no fundo e, nesse espaço exíguo e quente,
fechado como uma gaiola de vidro, com o Tiago ao pé de mim, comecei a suar.
Ele estava
irresistível. Na cabeça tinha um boné preto, com a pala voltada para trás, que lhe
escondia os cabelos compridos, como sempre atados num curto rabo-de-cavalo.
Vestia uma t-shirt branca simples,
sem desenhos, e umas calças de ganga pretas, a combinar com as botas de
atacadores, também pretas. Conseguia deixar-me completamente fora de mim. Nas
nuvens. Em órbita.
Tentei
controlar-me.
- O que fazes
por aqui? – Perguntou-me.
- Vim ver as
revistas.
O Tiago olhou
para o escaparate onde me segurava para não cair.
- Gostas de
jogos?
- Gosto… Mas
o que procuro nestas revistas são as novidades sobre manga e anime.
- Manga?
- Lembras-te
de ter falado sobre “Dragon Ball”, na outra noite? Pois, estas revistas sobre
videojogos têm sempre um espaço sobre manga…
Sabes? Banda desenhada japonesa! Tu deves conhecer bem, nasceste no Japão. De
vez em quando, aparece qualquer coisa sobre “Dragon Ball”.
Reparei que o
Tiago desviou imediatamente o olhar das revistas.
- E quando
vejo alguma coisa sobre “Dragon Ball” – continuei animada –, nem que seja meia
dúzia de palavrinhas e uma imagem minúscula, compro a revista. É uma maluquice
mas essa série é uma maluquice! É quase um vício. Quando se começa a ver e se
entra na história, não se consegue parar de ver.
- Queres um
gelado? – Interrompeu.
Tal como na
outra noite, o Tiago não se mostrou minimamente interessado em “Dragon Ball”, o
que era uma pena, porque sempre poderíamos conversar sobre o anime e como ele vinha do Japão poderia
revelar pormenores que não viriam nas revistas.
- O quê?
- Anda, vamos
comer um gelado.
Agarrou-me na
mão e tirou-me da loja, quase a correr, ziguezagueando por entre os
escaparates. Também devia estar com calor, realmente aquilo já se parecia com
uma sauna.
Ele dava-me a mão! O calor da sua pele era tão
delicioso. O meu coração batia e parava de bater, oscilava como a agulha de um
sismógrafo a registar um tremor de terra de grande magnitude. Mas assim que
saímos do centro comercial, uns míseros passos depois, vá-se lá saber porquê,
largou-me a mão e, de repente, senti-me abandonada, o calor esvaía-se e
deixei-me gelar, morrer. Pelo menos, foi o que a minha mão sentiu. Acho que
fiquei com a mão aberta, dedos esticados, paralítica, a emular a lembrança do
toque dele, até entrar na geladaria, o que era conseguido atravessando a rua,
uma porta ligeiramente desviada, perto do centro comercial.
O Tiago
escolheu dois cones com duas bolas de gelado e chantilly regado de topping
de caramelo. Disse-me para indicar os sabores e fez o pedido, deixando a
empregada derretida com o encanto dele, o que me deixou ligeiramente ciumenta,
confesso. Mas ele não passava despercebido a nenhum elemento do sexo feminino,
o poder de encantar era-lhe inato.
Saímos para a
rua e ficámos debaixo do toldo da esplanada, junto à parede da geladaria, a
comer os nossos gelados. Eu estava como a empregada, derretida e mais:
enternecida com aquele gesto e com o facto de ele me ter dado a mão dentro da
loja das revistas.
Era urgente
acalmar.
- Sabes que
já estou a aprender japonês? – Comecei.
- Honto?
Sabia que
aquilo queria dizer, de verdade? Ou, a sério? E sorri. Adorava ouvir o Tiago
falar em japonês comigo.
- Já tive
duas aulas com o professor Gomano. Ele não te disse nada?
- Não… Há
muito tempo que não estou com ele. - E refugiou-se no gelado.
- O professor
é bastante simpático. Agora, a mulher dele não gosta nada de mim.
- Como é que
conheceste a mulher dele?
- As aulas
são na casa do professor.
- Na casa
dele! Masaka! – Riu-se e acrescentou,
olhando para cima, como se falasse com as nuvens: - Afinal, gostas de arriscar e parece que fazemos uma corrida, hum,
Gohan-san? Quem é que interage primeiro com ela?
Engoli um
bocado frio de chocolate e protestei:
- Estou a
aprender japonês, mas ainda estou no início. Não te consigo perceber, Tiago.
- Claro, nena – retorquiu, naquele castelhano que
me punha a cabeça a andar à roda. Nem sabia se gostava mais dele a falar
japonês, ou espanhol. Perguntou: - Já sabes dizer alguma coisa?
Levantei o
gelado e agradeci com um sorriso:
- Arigato gozaimasu!
- Perfeito.
- Achas? O
professor diz que tenho de corrigir a pronúncia. Mas é compreensível, venho com
vícios. É o que ele diz.
- Vícios?
- Já sabia
dizer algumas coisitas em japonês. Palavras soltas, algumas expressões.
- Onde aprendeste?
- Com “Dragon
Ball”!
O Tiago
reagiu como se tivesse sido picado por um bicho venenoso. Ficou cinzento e
voltou a cara, devorando o gelado à pressa. Desconfiei que ele conhecia “Dragon
Ball”, mas que, por algum motivo, detestava o anime. Ou então, devia ser alérgico, causava-lhe algum tipo de
impressão, comichão em sítios críticos e que o levaria até ao hospital para uma
injeção para anular o efeito.
- Porque é
que não gostas de “Dragon Ball”? – Arrisquei perguntar.
- Não
conheço, nena. Já to tinha dito.
- Parece que
conheces…
- Impressão
tua.
Como noutras
ocasiões, sabia que me mentia.
Disse-me,
entre duas lambidelas:
- És uma
rapariga com sorte.
Reparei que
já tinha comido o gelado quase todo, era rápido a comer. Ou então, era guloso.
Gostava de chocolate e de chantilly e
de topping de caramelo.
- Por estar a
comer um gelado contigo?
- Porque tu
és a única pessoa com quem falo em japonês.
- Não
costumas falar? Mas é a tua língua materna.
- Não. Só
contigo.
E
aproximou-se tanto de mim quando me disse aquilo que consegui sentir o seu
hálito doce, com um leve aroma a chocolate. Corei e desviei a cara.
O que é que
ele andava a preparar? Seria algum truque para que caísse no jogo dele e ser
mais uma das suas conquistas fáceis? Para que se fosse vangloriar, mais tarde,
para junto dos amigos palermas que tinha conseguido engatar mais uma? Achei que
seria melhor tomar cuidado e erguer as minhas defesas.
- Deve querer dizer alguma coisa, falar em
japonês contigo. Não te sei esclarecer a dúvida, porque também gostaria de
saber o que é isto que tu me fazes, Ana. Sentir que, depois de ter ficado sem
alma, posso voltar a ser invulnerável.
Franzi a
testa.
- O quê?
Respondeu-me
com um sorriso. O meu forte estava a ser atacado impiedosamente, as defesas
soçobravam, nem sequer eram suficientes para repelir o ataque.
Estava na
altura de mudar de assunto, antes que fosse tarde demais. Havia que salvar a
minha bandeira, pelo menos, naquela tarde quente.
- Estudas? –
Perguntei.
Mastigou a
bolacha do cone, fez uma pausa como que a perceber que, efetivamente, se mudava
de assunto. Aceitou o novo caminho e respondeu:
- Não. Já estudei.
Agora estou a descansar.
- A
descansar?
- Estou de
férias. Durante um ano. Depois, logo se vê.
- E não fazes
nada?
- Não. Nada
do nada.
Papás ricos,
pensei. O pai de certeza ganhava uns cobres valentes a lutar em competições
internacionais, provavelmente clandestinas.
- Se não
estudas, deves trabalhar.
- Não
trabalho, nem estudo. Não faço nada. Nem podia fazer. É proibido!
Mastigou mais
um pouco do cone. Como comia ele tão rápido, era um mistério. Eu ainda tinha muito
que lamber, verifiquei olhando para o meu gelado.
- É proibido?
O que é que é proibido?
- Trabalhar
ou estudar. Fazer alguma coisa aqui!
Também era um
mistério como conseguia passar de uma conversa séria para uma conversa de
loucos. Aquilo descambava a olhos vistos.
- Aqui? Aqui,
onde? Em Portugal? Não estou a perceber…
- É proibido
interagir.
- Interagir?
- Não posso
interagir com ninguém. Por isso não estudo, nem trabalho. Por isso não faço
nada. Nem devia sair à noite… Nem de dia. Não devia conviver com ninguém daqui.
- O que é
isso, interagir?
- Se eu
soubesse… Era contigo que interagia. Agora mesmo!
Exclamei
indignada:
- Ah!
Soara-me a tirada
reles de engate de barzinho de segunda categoria. As defesas foram armadas,
aconteceu o volte-face na invasão e o
forte regressava à sua inexpugnabilidade. Aborrecida, concluí:
- Dispenso.
- Não gostas
de uma aventura, Ana?
Voltei-lhe as
costas, enchendo a boca de gelado.
- Nesses
termos, não – respondi a sentir os dentes estalar com o frio.
- Que termos?
- Para com
isso. Não gosto quando és…
- O quê?
-
Desprezível.
- Desde
aquela noite, não deixei de ser um criminoso.
- E que crime
é esse que cometeste?
Enfiou o fim
pontiagudo do cone na boca, mastigou-o, olhando novamente para as nuvens, como
se procurasse inspiração ou as palavras certas ou o perdão dos seus atos.
Não teve
oportunidade de me responder. Se é que o iria fazer… Ou talvez o fizesse, em
japonês, para que não o entendesse e para me irritar.
Uma voz
longínqua entrou-me pelos ouvidos adentro.
- Espanhol!!
O João descia
a rua na nossa direção, com os braços levantados, acompanhado pelo Luís e pelo
Pedro. Já não me apetecia comer mais gelado.
O Tiago
escondeu as mãos nos bolsos das calças.
- Olá, malta
– cumprimentou.
O meu tempo
ali terminava, no momento em que o Tiago se tinha convertido no habitual
desprezível, no momento em que os seus amigos palermas chegavam para confirmar
o facto. Queria ter-me tornado invisível, queria esgueirar-me dali e evitar a
previsível humilhação, mas o gelado amarrava-me ao meu destino, como uma pesada
grilheta de ferro.
O João
saudou-o com uma ruidosa palmada nas costas.
- Então,
espanhol! Já te esqueceste dos teus amigos?
- Os amigos
são para as ocasiões.
O Luís soltou
uma gargalhada ruidosa.
- As piadas
deste gajo são sempre tão secas.
- Devem ser
piadas espanholas – disse o Pedro. – Os espanhóis não sabem fazer humor.
- Mas segundo
as críticas, sou excelente nisso – replicou o Tiago.
- Nisso, o
quê?.
- A fazer
amor!
- Eu disse…
humor.
- Às vezes,
não vos entendo… portugueses.
- Ui… Que
bicho é que te mordeu hoje, espanhol?
Então, se ele
começasse a falar em japonês, pensei, é que a festa seria completa. Nenhum
deles saberia desse pormenor, que o Tiago tinha nascido no Japão.
O João
mostrou-me aquela careta horrorizada que fazia sempre que olhava para mim, como
se visse uma leprosa:
- Que gaja é
esta? Já não a vi antes?
- Não é
ninguém.
O Tiago
interpôs-se entre mim e o João.
- Ah, bom…
Esta gaja não faz o teu estilo.
Das duas,
uma. Ou protegia-me do desdém do João, ou estava a desprezar-me e a concordar
com o amigo palerma. O rei dos palermas, já agora. O Pedro olhava para mim e
mostrou um sorriso enviesado. Devia ter-se lembrado da Patrícia, apostava.
Tinha sabido pela irmã que a noite do fim-de-semana passado tinha sido tórrida
para a minha amiga Patrícia, mas que nem por isso conseguira ficar mais perto
do Miguel. As prioridades já se tinham baralhado naquela cabecinha de vento da
Patrícia, sabia-o, e agora o palerma número três devia ser o foco das suas
atenções. Aguardava o telefonema dela a confirmar-me isso. Haveria de me
telefonar para sairmos naquela noite de sábado.
- Espanhol,
tens planos para mais logo?
- Não, João.
- ‘Bora para
Albufeira – propôs o Luís.
- Iá, espanhol – acrescentou o João. –
Ontem abriu um bar novo que tem umas gajas muita
boas a servir às mesas. Está lá uma loiraça que tem umas pernas até ao cú que
estão mesmo a pedir para serem abertas.
- E és tu
quem as vai abrir?
- Hoje vais
conhecer os meus truques, espanhol.
- A Manuela
vai estar em Albufeira – disse o Luís.
- Qual
Manuela?
O Luís atirou
a cabeça para trás, numa gargalhada.
- São tantas
que ele já nem se lembra delas!
- A Manuela
do Porto – explicou o João. – Aquela que te apresentei, na noutra noite, no
“Académico”.
- Ah, já me
lembro.
- Tens aí o
teu carro? – Perguntou o Luís.
- Achas que o
gajo vinha a pé para Faro? – Observou o João. – Ele mora em Gambelas.
- Podia vir a
voar.
A tirada
arrancou mais gargalhadas ao Luís.
- Hoje,
estamos inspirados. Hum, espanhol?
O Tiago não
lhe respondeu.
- ‘Bora lá –
insistiu o João. - Jantamos por lá, o que é que acham? O espanhol paga as pizzas, que está cheio de papel e
precisa de dar ar às notas.
- E o que é
que fazemos até à noite?
- Damos um
mergulho na praia.
- Tens fato
de banho?
- Compra-se
lá. Tens aí o teu cartão de crédito, espanhol?
- Nunca saio
sem ele.
- Viram, um
gajo prático.
Senti uma
lesma gelada escorregar-me pelos dedos. O gelado, que eu abandonara,
derretia-se lentamente, pingando lágrimas doces, desfazendo-se numa papa
leitosa, assim como eu me desfazia numa papa leitosa, tão desiludida que todo o
corpo me doía.
O Tiago ia
deixar-me ali, trocava-me sem qualquer hesitação pelos seus amigos palermas.
- Sabes se a
tua amiga vai estar hoje, em Albufeira?
Olhei para o
Pedro.
- Não sei.
Ela ainda não me telefonou hoje.
- Bem, eu vou
estar por lá… Diz-lhe isso.
Resmunguei:
- Se me
apetecer.
Atirei o que
sobrava do gelado no primeiro caixote de lixo que encontrei. O Tiago descia a
rua na direção da doca, com o João pendurado no pescoço como um macaco, chiando
como um macaco, orgulhoso daquela amizade que o fazia sentir o rei do mundo,
seguidos pelo Luís e pelo Pedro.
Quando
cheguei ao carro, que deixara estacionado no parque da Pontinha, agarrei-me ao
volante e gritei:
- És
desprezível e eu odeio-te!
Provavelmente
existiam defeitos que eram tão grandes que não podiam nunca ser corrigidos e eu
era uma parva por acreditar que conseguiria corrigir os defeitos do Tiago, só
porque ele acedia em falar comigo em japonês e era capaz, quando não tinha os
amigos por perto, de me oferecer gelados e de agarrar-me na mão.
Não queria
chorar, mas não pude suster uma lágrima que me escorreu pela face, a deixar um
sulco molhado na pele, a deixar um sulco amargo no coração.
Apesar do
erro monumental que era insistir naquela obsessão, não extraí o Tiago da
cabeça.
E porquê?
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