15 de novembro de 2012

Capítulo III - III.5 Ilusões e erros.


O escaparate das revistas chiou quando o forcei a dar meia volta para ver o outro lado. Nada de interesse, nada de novo nas muitas publicações coloridas que se expunham nos encaixes metálicos. Depois de um curto passeio pela baixa e antes de ir para casa, por vezes gostava de entrar naquela pequena loja do centro comercial, um corredor envidraçado que estreitava para os fundos, onde se vendia imprensa estrangeira, para espreitar as novidades dos jogos eletrónicos nas revistas da especialidade.
Na realidade, não procurava estreias no mundo das consolas e dos computadores. Nessas revistas reservava-se um espaço para as notícias do Japão, as estreias mais sensacionais e que haveriam de chegar à Europa e aos Estados Unidos da América meses depois. Antecipava-se a emoção, criavam-se expetativas. Mas, para além dos jogos, também havia notícias sobre manga e anime, traduzindo, banda desenhada e desenhos animados japoneses e era isso que procurava.
Apaixonara-me por esse tema quando conhecera a série “Dragon Ball”. Tinha sido transmitida, alguns anos antes, na televisão espanhola e como em Faro se conseguia ver essa emissão, nos dias de bom tempo e sem vento, nascera uma legião de fãs de “Dragon Ball” na cidade, comigo incluída. A série tinha começado a ser transmitida na televisão portuguesa em abril daquele ano de 1996 e ainda ia nos primórdios, pelo que não estava ainda muito divulgada e a febre ainda não se tinha instalado. Mas, pelos meus cálculos, até ao fim do ano, quando começassem os episódios de cortar a respiração, a loucura haveria de ser nacional.
O criador de “Dragon Ball” chamava-se Akira Toriyama e passara a ser um nome venerado por mim, porque fora capaz de criar personagens fantásticos, uma história épica, que combinava as artes marciais com a busca da perfeição física e espiritual, tudo entrelaçado com a busca das bolas mágicas do dragão, que concediam desejos impossíveis, com a constante luta para proteger a Terra e o Universo de terríveis inimigos. O herói, Son Goku, manteve a sua personalidade simples e inocente ao longo do enredo, nunca se contaminando com a maldade que foi encontrando ao longo da sua vida. Pelo contrário, eram os adversários que se contaminavam com a sua inocência e alguns acabavam por combater o mal ao lado dele.
- Koniichi-wa, Ana.
A voz sobressaltou-me. Estava distraída, agarrada ao escaparate, e não contava encontrar ninguém conhecido. Voltei-me. E fiquei com o coração aos pulos, porque a surpresa de o descobrir ali foi enorme.
- Tiago. Olá… - gaguejei.
A loja era apertada, mal tinha espaço para os escaparates. As revistas mais procuradas, sobre jogos e sobre música, estavam no fundo e, nesse espaço exíguo e quente, fechado como uma gaiola de vidro, com o Tiago ao pé de mim, comecei a suar.
Ele estava irresistível. Na cabeça tinha um boné preto, com a pala voltada para trás, que lhe escondia os cabelos compridos, como sempre atados num curto rabo-de-cavalo. Vestia uma t-shirt branca simples, sem desenhos, e umas calças de ganga pretas, a combinar com as botas de atacadores, também pretas. Conseguia deixar-me completamente fora de mim. Nas nuvens. Em órbita.
Tentei controlar-me.
- O que fazes por aqui? – Perguntou-me.
- Vim ver as revistas.
O Tiago olhou para o escaparate onde me segurava para não cair.
- Gostas de jogos?
- Gosto… Mas o que procuro nestas revistas são as novidades sobre manga e anime.
- Manga?
- Lembras-te de ter falado sobre “Dragon Ball”, na outra noite? Pois, estas revistas sobre videojogos têm sempre um espaço sobre manga… Sabes? Banda desenhada japonesa! Tu deves conhecer bem, nasceste no Japão. De vez em quando, aparece qualquer coisa sobre “Dragon Ball”.
Reparei que o Tiago desviou imediatamente o olhar das revistas.
- E quando vejo alguma coisa sobre “Dragon Ball” – continuei animada –, nem que seja meia dúzia de palavrinhas e uma imagem minúscula, compro a revista. É uma maluquice mas essa série é uma maluquice! É quase um vício. Quando se começa a ver e se entra na história, não se consegue parar de ver.
- Queres um gelado? – Interrompeu.
Tal como na outra noite, o Tiago não se mostrou minimamente interessado em “Dragon Ball”, o que era uma pena, porque sempre poderíamos conversar sobre o anime e como ele vinha do Japão poderia revelar pormenores que não viriam nas revistas.
- O quê?
- Anda, vamos comer um gelado.
Agarrou-me na mão e tirou-me da loja, quase a correr, ziguezagueando por entre os escaparates. Também devia estar com calor, realmente aquilo já se parecia com uma sauna.
 Ele dava-me a mão! O calor da sua pele era tão delicioso. O meu coração batia e parava de bater, oscilava como a agulha de um sismógrafo a registar um tremor de terra de grande magnitude. Mas assim que saímos do centro comercial, uns míseros passos depois, vá-se lá saber porquê, largou-me a mão e, de repente, senti-me abandonada, o calor esvaía-se e deixei-me gelar, morrer. Pelo menos, foi o que a minha mão sentiu. Acho que fiquei com a mão aberta, dedos esticados, paralítica, a emular a lembrança do toque dele, até entrar na geladaria, o que era conseguido atravessando a rua, uma porta ligeiramente desviada, perto do centro comercial.
O Tiago escolheu dois cones com duas bolas de gelado e chantilly regado de topping de caramelo. Disse-me para indicar os sabores e fez o pedido, deixando a empregada derretida com o encanto dele, o que me deixou ligeiramente ciumenta, confesso. Mas ele não passava despercebido a nenhum elemento do sexo feminino, o poder de encantar era-lhe inato.
Saímos para a rua e ficámos debaixo do toldo da esplanada, junto à parede da geladaria, a comer os nossos gelados. Eu estava como a empregada, derretida e mais: enternecida com aquele gesto e com o facto de ele me ter dado a mão dentro da loja das revistas.
Era urgente acalmar.
- Sabes que já estou a aprender japonês? – Comecei.
- Honto?
Sabia que aquilo queria dizer, de verdade? Ou, a sério? E sorri. Adorava ouvir o Tiago falar em japonês comigo.
- Já tive duas aulas com o professor Gomano. Ele não te disse nada?
- Não… Há muito tempo que não estou com ele. - E refugiou-se no gelado.
- O professor é bastante simpático. Agora, a mulher dele não gosta nada de mim.
- Como é que conheceste a mulher dele?
- As aulas são na casa do professor.
- Na casa dele! Masaka! – Riu-se e acrescentou, olhando para cima, como se falasse com as nuvens: - Afinal, gostas de arriscar e parece que fazemos uma corrida, hum, Gohan-san? Quem é que interage primeiro com ela?
Engoli um bocado frio de chocolate e protestei:
- Estou a aprender japonês, mas ainda estou no início. Não te consigo perceber, Tiago.
- Claro, nena – retorquiu, naquele castelhano que me punha a cabeça a andar à roda. Nem sabia se gostava mais dele a falar japonês, ou espanhol. Perguntou: - Já sabes dizer alguma coisa?
Levantei o gelado e agradeci com um sorriso:
- Arigato gozaimasu!
- Perfeito.
- Achas? O professor diz que tenho de corrigir a pronúncia. Mas é compreensível, venho com vícios. É o que ele diz.
- Vícios?
- Já sabia dizer algumas coisitas em japonês. Palavras soltas, algumas expressões.
- Onde aprendeste?
- Com “Dragon Ball”!
O Tiago reagiu como se tivesse sido picado por um bicho venenoso. Ficou cinzento e voltou a cara, devorando o gelado à pressa. Desconfiei que ele conhecia “Dragon Ball”, mas que, por algum motivo, detestava o anime. Ou então, devia ser alérgico, causava-lhe algum tipo de impressão, comichão em sítios críticos e que o levaria até ao hospital para uma injeção para anular o efeito.
- Porque é que não gostas de “Dragon Ball”? – Arrisquei perguntar.
- Não conheço, nena. Já to tinha dito.
- Parece que conheces…
- Impressão tua.
Como noutras ocasiões, sabia que me mentia.
Disse-me, entre duas lambidelas:
- És uma rapariga com sorte.
Reparei que já tinha comido o gelado quase todo, era rápido a comer. Ou então, era guloso. Gostava de chocolate e de chantilly e de topping de caramelo.
- Por estar a comer um gelado contigo?
- Porque tu és a única pessoa com quem falo em japonês.
- Não costumas falar? Mas é a tua língua materna.
- Não. Só contigo.
E aproximou-se tanto de mim quando me disse aquilo que consegui sentir o seu hálito doce, com um leve aroma a chocolate. Corei e desviei a cara.
O que é que ele andava a preparar? Seria algum truque para que caísse no jogo dele e ser mais uma das suas conquistas fáceis? Para que se fosse vangloriar, mais tarde, para junto dos amigos palermas que tinha conseguido engatar mais uma? Achei que seria melhor tomar cuidado e erguer as minhas defesas.
- Deve querer dizer alguma coisa, falar em japonês contigo. Não te sei esclarecer a dúvida, porque também gostaria de saber o que é isto que tu me fazes, Ana. Sentir que, depois de ter ficado sem alma, posso voltar a ser invulnerável.
Franzi a testa.
- O quê?
Respondeu-me com um sorriso. O meu forte estava a ser atacado impiedosamente, as defesas soçobravam, nem sequer eram suficientes para repelir o ataque.
Estava na altura de mudar de assunto, antes que fosse tarde demais. Havia que salvar a minha bandeira, pelo menos, naquela tarde quente.
- Estudas? – Perguntei.
Mastigou a bolacha do cone, fez uma pausa como que a perceber que, efetivamente, se mudava de assunto. Aceitou o novo caminho e respondeu:
- Não. Já estudei. Agora estou a descansar.
- A descansar?
- Estou de férias. Durante um ano. Depois, logo se vê.
- E não fazes nada?
- Não. Nada do nada.
Papás ricos, pensei. O pai de certeza ganhava uns cobres valentes a lutar em competições internacionais, provavelmente clandestinas.
- Se não estudas, deves trabalhar.
- Não trabalho, nem estudo. Não faço nada. Nem podia fazer. É proibido!
Mastigou mais um pouco do cone. Como comia ele tão rápido, era um mistério. Eu ainda tinha muito que lamber, verifiquei olhando para o meu gelado.
- É proibido? O que é que é proibido?
- Trabalhar ou estudar. Fazer alguma coisa aqui!
Também era um mistério como conseguia passar de uma conversa séria para uma conversa de loucos. Aquilo descambava a olhos vistos.
- Aqui? Aqui, onde? Em Portugal? Não estou a perceber…
- É proibido interagir.
- Interagir?
- Não posso interagir com ninguém. Por isso não estudo, nem trabalho. Por isso não faço nada. Nem devia sair à noite… Nem de dia. Não devia conviver com ninguém daqui.
- O que é isso, interagir?
- Se eu soubesse… Era contigo que interagia. Agora mesmo!
Exclamei indignada:
- Ah!
Soara-me a tirada reles de engate de barzinho de segunda categoria. As defesas foram armadas, aconteceu o volte-face na invasão e o forte regressava à sua inexpugnabilidade. Aborrecida, concluí:
- Dispenso.
- Não gostas de uma aventura, Ana?
Voltei-lhe as costas, enchendo a boca de gelado.
- Nesses termos, não – respondi a sentir os dentes estalar com o frio.
- Que termos?
- Para com isso. Não gosto quando és…
- O quê?
- Desprezível.
- Desde aquela noite, não deixei de ser um criminoso.
- E que crime é esse que cometeste?
Enfiou o fim pontiagudo do cone na boca, mastigou-o, olhando novamente para as nuvens, como se procurasse inspiração ou as palavras certas ou o perdão dos seus atos.
Não teve oportunidade de me responder. Se é que o iria fazer… Ou talvez o fizesse, em japonês, para que não o entendesse e para me irritar.
Uma voz longínqua entrou-me pelos ouvidos adentro.
- Espanhol!!
O João descia a rua na nossa direção, com os braços levantados, acompanhado pelo Luís e pelo Pedro. Já não me apetecia comer mais gelado.
O Tiago escondeu as mãos nos bolsos das calças.
- Olá, malta – cumprimentou.
O meu tempo ali terminava, no momento em que o Tiago se tinha convertido no habitual desprezível, no momento em que os seus amigos palermas chegavam para confirmar o facto. Queria ter-me tornado invisível, queria esgueirar-me dali e evitar a previsível humilhação, mas o gelado amarrava-me ao meu destino, como uma pesada grilheta de ferro.
O João saudou-o com uma ruidosa palmada nas costas.
- Então, espanhol! Já te esqueceste dos teus amigos?
- Os amigos são para as ocasiões.
O Luís soltou uma gargalhada ruidosa.
- As piadas deste gajo são sempre tão secas.
- Devem ser piadas espanholas – disse o Pedro. – Os espanhóis não sabem fazer humor.
- Mas segundo as críticas, sou excelente nisso – replicou o Tiago.
- Nisso, o quê?.
- A fazer amor!
- Eu disse… humor.
- Às vezes, não vos entendo… portugueses.
- Ui… Que bicho é que te mordeu hoje, espanhol?
Então, se ele começasse a falar em japonês, pensei, é que a festa seria completa. Nenhum deles saberia desse pormenor, que o Tiago tinha nascido no Japão.
O João mostrou-me aquela careta horrorizada que fazia sempre que olhava para mim, como se visse uma leprosa:
- Que gaja é esta? Já não a vi antes?
- Não é ninguém.
O Tiago interpôs-se entre mim e o João.
- Ah, bom… Esta gaja não faz o teu estilo.
Das duas, uma. Ou protegia-me do desdém do João, ou estava a desprezar-me e a concordar com o amigo palerma. O rei dos palermas, já agora. O Pedro olhava para mim e mostrou um sorriso enviesado. Devia ter-se lembrado da Patrícia, apostava. Tinha sabido pela irmã que a noite do fim-de-semana passado tinha sido tórrida para a minha amiga Patrícia, mas que nem por isso conseguira ficar mais perto do Miguel. As prioridades já se tinham baralhado naquela cabecinha de vento da Patrícia, sabia-o, e agora o palerma número três devia ser o foco das suas atenções. Aguardava o telefonema dela a confirmar-me isso. Haveria de me telefonar para sairmos naquela noite de sábado.
- Espanhol, tens planos para mais logo?
- Não, João.
- ‘Bora para Albufeira – propôs o Luís.
- , espanhol – acrescentou o João. – Ontem abriu um bar novo que tem umas gajas muita boas a servir às mesas. Está lá uma loiraça que tem umas pernas até ao cú que estão mesmo a pedir para serem abertas.
- E és tu quem as vai abrir?
- Hoje vais conhecer os meus truques, espanhol.
- A Manuela vai estar em Albufeira – disse o Luís.
- Qual Manuela?
O Luís atirou a cabeça para trás, numa gargalhada.
- São tantas que ele já nem se lembra delas!
- A Manuela do Porto – explicou o João. – Aquela que te apresentei, na noutra noite, no “Académico”.
- Ah, já me lembro.
- Tens aí o teu carro? – Perguntou o Luís.
- Achas que o gajo vinha a pé para Faro? – Observou o João. – Ele mora em Gambelas.
- Podia vir a voar.
A tirada arrancou mais gargalhadas ao Luís.
- Hoje, estamos inspirados. Hum, espanhol?
O Tiago não lhe respondeu.
- ‘Bora lá – insistiu o João. - Jantamos por lá, o que é que acham? O espanhol paga as pizzas, que está cheio de papel e precisa de dar ar às notas.
- E o que é que fazemos até à noite?
- Damos um mergulho na praia.
- Tens fato de banho?
- Compra-se lá. Tens aí o teu cartão de crédito, espanhol?
- Nunca saio sem ele.
- Viram, um gajo prático.
Senti uma lesma gelada escorregar-me pelos dedos. O gelado, que eu abandonara, derretia-se lentamente, pingando lágrimas doces, desfazendo-se numa papa leitosa, assim como eu me desfazia numa papa leitosa, tão desiludida que todo o corpo me doía.
O Tiago ia deixar-me ali, trocava-me sem qualquer hesitação pelos seus amigos palermas.
- Sabes se a tua amiga vai estar hoje, em Albufeira?
Olhei para o Pedro.
- Não sei. Ela ainda não me telefonou hoje.
- Bem, eu vou estar por lá… Diz-lhe isso.
Resmunguei:
- Se me apetecer.
Atirei o que sobrava do gelado no primeiro caixote de lixo que encontrei. O Tiago descia a rua na direção da doca, com o João pendurado no pescoço como um macaco, chiando como um macaco, orgulhoso daquela amizade que o fazia sentir o rei do mundo, seguidos pelo Luís e pelo Pedro. 
Quando cheguei ao carro, que deixara estacionado no parque da Pontinha, agarrei-me ao volante e gritei:
- És desprezível e eu odeio-te!
Provavelmente existiam defeitos que eram tão grandes que não podiam nunca ser corrigidos e eu era uma parva por acreditar que conseguiria corrigir os defeitos do Tiago, só porque ele acedia em falar comigo em japonês e era capaz, quando não tinha os amigos por perto, de me oferecer gelados e de agarrar-me na mão.
Não queria chorar, mas não pude suster uma lágrima que me escorreu pela face, a deixar um sulco molhado na pele, a deixar um sulco amargo no coração.
Apesar do erro monumental que era insistir naquela obsessão, não extraí o Tiago da cabeça.
E porquê?

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