21 de novembro de 2012

Capítulo IV - IV.7 Porta fechada.


Procurei pelo papel que o professor Gomano me tinha dado com a sua morada, sabia que ele também lá tinha escrito o seu número de telefone. Encontrei-o entalado no caderno das aulas de japonês.
As minhas mãos ainda tremiam quando levantei o auscultador. Marquei o número, esperei, inspirando golfadas de ar, acalmando-me, a tentar varrer da cabeça o som repetitivo do meu coração a bater.
Chamava. Iria insistir de hora a hora… Não, de meia em meia hora, até conseguir falar com o professor. Não aguentaria outra noite como a que tinha passado, nem outro dia igual, só com o Tiago no pensamento.
Uma voz do outro lado da linha. Castelhano.
- Estou?
Engoli a saliva, doeu ao passar na garganta.
- Estou? Professor Gomano?
- Sim. Quem fala?
- Sou a Ana
- Ana-san?
- Sim, professor. Diga-me uma coisa: como é que está o Tiago?
Pausa.
- Estou? Professor?
A pausa continuava.
- Estou?... Mas a chamada caiu, ou quê?
- Como é que soubeste o meu número de telefone?
- Foi o professor que mo deu, juntamente com a sua morada. Lembra-se, quando nos encontrámos, na universidade?
Ouvi um murmúrio em japonês. Praguejava baixinho.
- Professor?
- Ana…
- Como é que está o Tiago? Já pode receber visitas?
- O que é que queres do Tiago?
- Perguntei-lhe se já pode receber visitas.
Outra pausa.
- Estou?
- Ana-san, as nossas aulas de japonês estão canceladas.
Gaguejei:
- Co-como?
- As nossas aulas estão canceladas. Não voltes a procurar por mim.
- Porquê?
Mais uma pausa.
- Porquê, professor?
Escutei claramente um suspiro.
- Ana-san… Onegai shimass.
A mesma súplica do dia anterior. Como se lhe doesse tanto a ele como me estava a doer a mim.
- Professor, não… E o Tiago?
Ouvi o clique do outro lado da linha. O professor Gomano tinha acabado de desligar o telefone.
Fiquei com o auscultador na mão, sem saber o que fazer.
Repeti com as lágrimas a escorrer pelas faces:
- E o Tiago?...

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