Procurei pelo
papel que o professor Gomano me tinha dado com a sua morada, sabia que ele
também lá tinha escrito o seu número de telefone. Encontrei-o entalado no
caderno das aulas de japonês.
As minhas
mãos ainda tremiam quando levantei o auscultador. Marquei o número, esperei,
inspirando golfadas de ar, acalmando-me, a tentar varrer da cabeça o som
repetitivo do meu coração a bater.
Chamava. Iria
insistir de hora a hora… Não, de meia em meia hora, até conseguir falar com o
professor. Não aguentaria outra noite como a que tinha passado, nem outro dia
igual, só com o Tiago no pensamento.
Uma voz do
outro lado da linha. Castelhano.
- Estou?
Engoli a
saliva, doeu ao passar na garganta.
- Estou?
Professor Gomano?
- Sim. Quem
fala?
- Sou a Ana
- Ana-san?
- Sim,
professor. Diga-me uma coisa: como é que está o Tiago?
Pausa.
- Estou?
Professor?
A pausa
continuava.
- Estou?...
Mas a chamada caiu, ou quê?
- Como é que
soubeste o meu número de telefone?
- Foi o
professor que mo deu, juntamente com a sua morada. Lembra-se, quando nos
encontrámos, na universidade?
Ouvi um
murmúrio em japonês. Praguejava baixinho.
- Professor?
- Ana…
- Como é que
está o Tiago? Já pode receber visitas?
- O que é que
queres do Tiago?
-
Perguntei-lhe se já pode receber visitas.
Outra pausa.
- Estou?
- Ana-san, as
nossas aulas de japonês estão canceladas.
Gaguejei:
- Co-como?
- As nossas
aulas estão canceladas. Não voltes a procurar por mim.
- Porquê?
Mais uma
pausa.
- Porquê,
professor?
Escutei
claramente um suspiro.
- Ana-san… Onegai shimass.
A mesma
súplica do dia anterior. Como se lhe doesse tanto a ele como me estava a doer a
mim.
- Professor,
não… E o Tiago?
Ouvi o clique
do outro lado da linha. O professor Gomano tinha acabado de desligar o
telefone.
Fiquei com o auscultador
na mão, sem saber o que fazer.
Repeti com as
lágrimas a escorrer pelas faces:
- E o
Tiago?...
Sem comentários:
Enviar um comentário