Os corredores
da Unidade de Ciências Exatas e Humanas da Universidade do Algarve estavam
desertos. Eram grandes e sombrios, com o sol a tentar penetrar pelas janelas
pequenas e retangulares para iluminar a arquitetura moderna, em tons de
vermelho. Era o final da tarde, tempo de férias e não havia alunos, nem
professores e a maioria dos funcionários também já tinha ido embora.
Fora a
Gambelas tratar de alguns assuntos relacionados com o meu trabalho e, antes de
me ir embora, resolvera passar pela secretaria da Unidade. Perguntei pelo
professor Gomano. Por detrás do vidro do balcão do atendimento, a colega disse:
- Estás com
sorte, querida. O professor está cá hoje… Já sabes, neste período de férias,
sem aulas, nem sempre os professores vêm até à universidade. Podes encontrá-lo
na biblioteca.
- Obrigada
pelas indicações. Até amanhã.
- Até amanhã,
querida.
Subi as
escadas que levavam ao piso superior onde se situava a biblioteca da Unidade,
uma sala ampla com portas envidraçadas que abria diretamente para um átrio decorado
com escaparates que exibiam revistas e jornais científicos, ainda uma pequena
secretária normalmente ocupada pela funcionária que ali trabalhava e que
anotava, no computador, as requisições dos livros. Mas antes de alcançar a
biblioteca, vi um homem sair, com uma pasta de cabedal na mão. Cabelos negros,
óculos grandes num rosto redondo de feições bem vincadas, mas agradáveis, corpo
de medidas proporcionais. Chamei-o, enquanto estugava o passo para me juntar a
ele:
- Olhe,
desculpe… Sabe-me dizer onde posso encontrar o professor Gomano?
O homem
encarou-me com um sorriso tranquilo, os óculos descaíram ligeiramente e pude
reparar nos seus enormes olhos negros. Olhando melhor, o homem aparentava ter
cerca de trinta anos e era bastante atraente.
- O que é que
queres do professor Gomano? – Perguntou-me em castelhano.
Estaquei, com
um arrepio, ajeitando o dossier
azul-escuro que levava debaixo do braço, que continha a papelada que me tinha
levado até Gambelas. Aquela coincidência da língua estrangeira levou-me a uma
conclusão óbvia, mas esquisita, e arrisquei perguntar:
- Você é o
professor Gomano?
- Sim.
- Ah… Olá.
Boa tarde, muito prazer.
Estendi-lhe a
mão direita atabalhoadamente. Ele passou a mala de cabedal para o outro braço e
apertou-me a mão, num gesto amigável, imbuído de uma sensualidade camuflada,
com aquele jeito misterioso e doce que eu reconhecia escondido no Tiago, que
acabei por corar e esquecer o que lhe queria dizer a seguir.
- Muito
prazer – disse ele a sorrir, lendo as minhas reações descabidas. – Já sabes o
meu nome, mas eu não sei o teu.
Lembrei-me do
que queria dizer a seguir.
- Chamo-me
Ana e sou amiga do Tiago.
Bem,
provavelmente não deveria juntar as duas coisas na mesma frase, o meu nome e o
meu salvo-conduto para ter acesso ao professor, mas saiu-me tudo de rajada, de
repente, sem que me pudesse controlar.
Ele
estranhou. Ajeitou os óculos na cana do nariz e perguntou:
- Quem é o
Tiago? É meu aluno?
- Não. É seu
amigo.
- Amigo?
E o professor
fez uma cara pensativa, como se fosse a primeira vez que estava a ouvir aquele
nome. Mas depois algo se ligou nos seus neurónios e ele voltou a sorrir com
aquele encanto que o Tiago também tinha mas numa escala mais celestial:
- Ah, o
Tiago! Claro!... O Tiago.
E acrescentou
baixinho, só para ele, mas eu acabei por ouvir:
- O que será que Trunks-kun arranjou desta
vez, para que esta rapariga tenha vindo à minha procura?
O professor
murmurara em japonês e foi meia vitória, afinal a recomendação do Tiago era
válida. Por instantes, no domingo seguinte ao nosso encontro na porta do meu
prédio, começara sinceramente a acreditar que o Tiago me tinha indicado o amigo
professor só para se livrar de mim e da responsabilidade de me ensinar a língua
do seu país natal.
- O Tiago
disse-me que sabe japonês e eu queria saber se não se importava, senhor
professor, de me dar algumas lições nessa língua.
- Queres
aprender japonês? – Perguntou ele, franzindo o sobrolho.
- Quero.
- Porquê?
O professor mostrava-se
desconfiado. Inspirei fundo e respondi com a voz afetada:
- Porque é uma
língua diferente, de um país que admiro muito. Uma forma de enriquecer os meus
conhecimentos, de alargar o meu currículo. É também uma língua difícil, com uma
estrutura tão diferente da nossa, que será um desafio interessante conseguir
dominá-la. Pretendo começar pelo japonês falado.
Uma resposta
digna de uma entrevista para conseguir um lugar num qualquer curso de línguas
com inscrições limitadas e fiquei toda orgulhosa. Só que ele não se
impressionou.
- E queres
que seja eu a ensinar-te japonês? Mas eu sou professor de matemática.
- Existe
algum problema?
- Existe. Eu
não te posso ensinar japonês.
O coração
caiu-me aos pés.
- Porque não?
- Bem… Não
sei se estarei a altura da tarefa.
- Mas o
senhor sabe japonês, não sabe?
- Sei… -
Gaguejou e foi a vez de ele corar.
- Viveu no
Japão?
- Nasci lá.
Pode-se dizer…
- Então, pode
ensinar-me japonês. Prometo que serão poucas lições, só quero aprender o
básico. O suficiente para conversar e compreender o que me dizem nessa língua.
Prometo que não o irei aborrecer com muitas dúvidas. Consigo aprender depressa.
Sempre fui boa aluna, especialmente a línguas.
- Não sei,
Ana-san.
Depois do
Tiago, foi a segunda pessoa que me tratou assim e achei delicioso. Mas a
cortesia de nada servia se ele continuasse a recusar-se ser meu professor.
- Eu pago-lhe
as lições! – Atirei.
- Não quero
que me pagues nada.
- Então, qual
é o problema?
- E onde
teríamos as aulas?
- O senhor
decide.
Olhou-me
entre o aborrecido e o curioso.
- Tu não vais
desistir, pois não?
- Não,
professor.
- Porquê?
- É a minha
oportunidade para aprender japonês.
- Terás mais
oportunidades, acredito.
- Mas ter
aulas particulares não se consegue sempre.
- É,
realmente, um privilégio.
- Senhor
professor…? Posso considerar-me uma aluna sua?
Deu-se por
vencido, concordou com um suspiro muito pouco ortodoxo. Eu sorri, do alto da
minha vitória. Tinha conseguido as aulas, teria, a partir dali, acesso a um dos
amigos do Tiago que não era um palerma e poderia ver o Tiago, se ele algum dia
fosse até à casa do professor Gomano. Oh, que coincidência feliz quando, nesse
mesmo dia, eu estivesse no meio de uma aula de japonês a aprender o nome das
estações do ano, ou como se diziam os números até dez.
Entregou-me
um papel onde rabiscara a morada e pediu-me para aparecer naquela noite, pelas
nove horas, para combinarmos melhor as aulas.
- Hoje? –
Admirei-me.
- Hoje.
Quando mais cedo começarmos, melhor. Não concordas?
- Sim,
concordo.
O professor
despediu-se. Vi-o desaparecer nas escadarias e ainda consegui vê-lo a
ziguezaguear por entre os carros estacionados, fugindo como se fosse perder o
autocarro. Montou-se em cima de uma bicicleta e saiu do campus a pedalar. Gostei dele e prometi ser uma aluna exemplar, da
qual ele se orgulharia e da qual se lembraria sempre, afinal seria a sua
primeira aluna de japonês.
***
O papel
indicava que o professor Gomano morava numa vivenda da urbanização das
Gambelas, perto da universidade. Assim que acabei de jantar, agarrei num
caderno e numa esferográfica e pus-me a caminho. Às nove em ponto estava a
bater na porta da casa.
Uma luz
acendeu-se no vestíbulo. A porta abriu-se e eu demorei algum tempo a perceber
que não se abrira sozinha. Olhei para baixo e descobri que estava a ser
recebida por uma miúda que rondava os oito anos, que me observava com um ar
reprovador, como se eu fosse uma vendedora de enciclopédias.
- Olá – disse
e procurei ser amável. - Boa noite. O teu pai está?
Após mais uns
segundos de dissecação visual, virou-se e anunciou:
- Otousan! Está aqui uma menina à tua procura!
A voz do
professor Gomano surgiu de dentro de casa.
- Ela já chegou? Ah… Sim, já está na hora…
Diz-lhe para entrar. Leva-a para a sala, por favor. Arigato.
A miúda fez-me
um sinal, entrei e deixou-me na sala-de-estar da vivenda, que era enorme e
estava muito bem decorada. Antes de sair, deitou-me outro dos seus olhares
curiosos, que me davam a incómoda sensação de que era algum bicho raro que
nunca vira.
O professor
Gomano apareceu vindo de um corredor onde se via o princípio das escadas que
davam acesso ao segundo piso da vivenda.
- Komba-wa, Ana-san – disse ele.
Respondi em
português, desconfiando do que ele me tinha acabado de dizer, mas que me
parecia um cumprimento:
- Boa noite,
senhor professor.
- Por favor,
não me chames assim. Trata-me pelo nome.
- Pelo nome,
como?
- Por Goh…
Por Gomano.
- Eh… Vai ser
um pouco difícil no início, senhor prof… - Emendei: - Professor.
Uma mulher
apareceu, de mão dada com a miúda que me abrira a porta. O professor mostrou um
sorriso amarelo e apresentou-as:
- São a minha
mulher e a minha filha, Valéria e Paula.
- Boa noite. –
E fiz uma pequena vénia, mas as duas não reagiram.
A mulher disse
em japonês:
- Não me disseste que tinhas visitas.
O professor deixou
de sorrir e respondeu, também em japonês:
- Não… Devo ter-me esquecido de te dizer.
- Quem é ela? É tua aluna?
- Hai. É uma aluna especial.
- Especial? O que é que andas a tramar, desta
vez, Gohan-san? É melhor começares com as explicações.
Falavam em
japonês, porque era suposto eu não entender o que diziam, mas percebia que
discutiam sobre e por causa de mim. O professor gaguejou:
- Ela está aqui para aprender japonês. Logo te
explico, assim que ela se for embora.
- Espero bem que sim.
Atendendo à
linguagem corporal, notei que a mulher do professor não gostava de mim.
- Isso vai demorar muito? – Acrescentou, semicerrando
os olhos.
- Não, não. Uma hora… Talvez menos.
O professor
disse-me, indicando o corredor de onde viera:
- Vamos para
o escritório, ficaremos mais à vontade. – Ainda se virou para a mulher: - Se precisar de alguma coisa, chamo-te. Está
bem?
Mas a mulher
já não lhe respondeu.
Enquanto
entrava para o escritório perguntei:
- A sua filha
Paula… Só fala em japonês, em casa?
- Ela não
sabe falar outra língua.
- Não sabe
falar português? – Admirei-me.
- Não.
- Mas como é
que tem um nome português?
O professor
ficou pouco à vontade.
- Por causa
da escola…
- Da escola?
Ela anda na escola e não sabe falar português?
- É uma
escola… japonesa.
- E para que
precisa de um nome português, numa escola japonesa?
- O nome verdadeiro
dela não é esse – lançou o professor, como uma boia à qual teria de se agarrar
para se salvar do naufrágio.
Igualzinho ao
Tiago… O que era demasiado estranho. A relação era óbvia, mas não consegui
estender o fio de Ariadne de modo a quebrar o enigma do labirinto e conduzir-me
à saída luminosa da verdade.
- E qual é o
seu nome verdadeiro? – Perguntei, à espera da mesma desculpa que o Tiago
invocava.
Mas o
professor concedeu em dar-me uma resposta:
- O nome dela
é Pan.
- Pan? É um
nome invulgar…
Indicou-me uma
das três cadeiras que rodeavam uma mesa posta no centro do escritório, enquanto
fechava a porta com um cuidado extremo, para não fazer barulho e irritar ainda
mais a mulher.
O escritório
do professor Gomano fascinou-me por causa do aspeto imponente que lhe davam as
prateleiras do chão até ao teto, cheias de livros. Nas lombadas que consegui
ler percebi títulos em japonês ou em inglês. Contudo, não era muito espaçoso,
ocupado quase totalmente pelas estantes, por uma secretária e a mesa central.
Sentei-me, retirando
da mala o caderno e a esferográfica que trouxera. O professor afastou alguns
papéis, jornais e livros que cobriam o tampo da mesa, para encontrar um espaço
vazio para começarmos a aula. Ele espreitou por cima dos óculos o caderno que eu
abria diante de mim e sorriu, divertido com a minha demonstração de aluna
aplicada. Pigarreou ligeiramente e disse:
- Espero não
defraudar as tuas expetativas.
- Não se
preocupe. Sempre quis aprender japonês. Gosto de aprender. Devemos estar sempre
dispostos a aprender, não acha?
- Hai, concordo. Eu também gosto muito de aprender. Foi a minha mãe que me ensinou
a gostar de livros e de estudar. – Confidenciou pensativo: – É graças a ela que
hoje sou um académico, um professor de matemática. Mas, o meu pai gostaria mais
que eu fosse…
Deteve-se,
enredado numa memória antiga que lhe iluminou a rosto e os olhos.
- Há muito
tempo que conhece o Tiago? – Perguntei, a ver se o retirava do lugar onde se
enredara.
- Quem?
- O Tiago.
- Ah… O
Tiago. Sim, conheço-o desde que nasceu.
- A sério? –
Sorri, porque imaginei o Tiago bebé, uma criança fofa, bonita, um anjo querido,
nos braços da mãe enlevada no seu precioso tesouro.
O professor
tornou a pigarrear.
- Podemos
começar?
Endireitei as
costas e fiz que sim com a cabeça.
- Muito bem. Primeiro:
sabes dizer alguma coisa em japonês?
- Sim,
palavras simples.
- Podes
começar.
Desatei a
enumerar as palavras e as frases curtas que sabia dizer na língua do país do
sol nascente.
E foi assim
que iniciei a minha primeira lição de japonês com o estranho professor Gomano.
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