O sol entrava em catadupas de luz pelo escritório adentro, iluminando
as prateleiras repletas de livros de todos os tamanhos e de todas as cores. Um facto
interessante naquela viagem entre dimensões fora a sua biblioteca tê-lo
acompanhado. Os seus livros estavam todos ali e sempre que precisava consultar
algum deles tinha-os perto e não abandonados numa dimensão distante e
inacessível.
Gohan pousou a pasta de cabedal na secretária e mais os dois livros que
levava na mão. Um era dele. O outro era da biblioteca da Universidade do
Algarve.
Fora uma surpresa agradável e complicada descobrir que tinha uma
universidade perto da casa onde morava na Dimensão Real. Tudo tinha acontecido
um mês depois de ter chegado. Resolvera dar um pequeno passeio pelos arredores
e conhecer o sítio onde iria morar durante alguns tempos. Agarrara na bicicleta
e saíra de casa.
Gostara daquele lugar à primeira. Era sossegado, relativamente
afastado do rebuliço da cidade, com um ambiente campestre cativante, apesar de se
situar próximo do aeroporto da cidade. Havia casas, mas afastadas, semeadas por
entre o arvoredo das matas circundantes. Para ele, que fora criado no meio da
natureza, viver num sítio como aquele, ainda que noutra dimensão, não lhe
pareceu tão mau quanto isso.
Nas matas de pinheiros que povoavam o local, Gohan encontrara alguns
edifícios belos e imponentes, com uma arquitetura particular que lhe atraiu a atenção.
Ao entrar no recinto a pé, levando a bicicleta consigo pelo guiador, descobrira
que se tratava de uma universidade. Vira os estudantes, os professores, os investigadores,
os funcionários no típico ambiente académico vibrante e sentira-se,
subitamente, integrado.
Deambulara durante algum tempo, até que decidira visitar um dos
edifícios. Encontrara a biblioteca e entrara. Com muita curiosidade e
excitação, apreciara os livros nas estantes, analisara os temas expostos. Ao
encontrar a secção de matemática, folheara os manuais dessa disciplina, curioso
por perceber que eram exatamente iguais aos que conhecia. Sentara-se, levando
alguns livros, enlevara-se na leitura, escalpelando os exercícios. Agarrara em
folhas em branco e começara a compilar equações, resolvendo-as, embrenhando-se
no desafio. Uma voz aparecera atrás dele:
- Isso é uma forma interessante de resolver esse problema.
Gohan assustara-se. Havia pouco tempo que estava na Dimensão Real e
nunca tinha conversado com ninguém daquela dimensão. Como não sabiam ainda o
que era interagir, tinha combinado evitar as pessoas dali.
- Desculpe – explicara o outro –, mas estava a passar e não pude
evitar deitar uma espreitadela ao problema que estava a resolver. Peço, mais
uma vez, desculpa se o estou a incomodar.
- Não… incomoda nada – arriscara Gohan e convidara o homem a
sentar-se. Mostrara-lhe a folha.
A conversa desenrolara-se a partir daí. Os receios iniciais sumiram-se
quando começaram a discutir matemática. O homem dirigia o departamento da disciplina
numa das faculdades e Gohan acabara por confessar que também era professor de
matemática. Como resultado, recebera um convite para ser assistente, uma
pequena prestação de serviços que cobriria algumas aulas do semestre que tinha
começado havia pouco tempo.
Uma proposta tentadora, mas também demasiado proibida. Gohan pensara
muito sobre esta, falara com Videl. A mulher opusera-se com determinação àquela
ideia disparatada de ser professor de alunos da Dimensão Real. E se isso fosse
sinónimo de interagir? Mas ele, com a curiosidade espicaçada, anunciara-lhe que
iria arriscar, queria ensinar naquela dimensão, saber se seria diferente da
Dimensão Z.
Agora, já o sabia. Não era interagir e não era diferente.
***
O dia estava muito bonito. Gohan admirou-o pela janela do escritório,
lembrando-se do seu primeiro dia de aulas. Fora um desastre, porque estava
nervoso. Gaguejara como um principiante, vira a troça nos olhares dos alunos
perspicazes, notara confusão nos alunos desleixados. Olhara para a plateia,
respirara fundo e tal como o tinha feito quando enfrentara Cell, aceitara o
desafio como inevitável e necessário. A seguir, tudo correra bastante melhor e
no final do semestre sentiu-se especial com a proeza.
Agora, preparava o início de um novo ano letivo e preparava algumas
aulas extra de um curso de verão que propusera ao departamento, revelação dos
mistérios fantásticos da disciplina para alunos de outros cursos. Estava a ser
um sucesso, tinham já quarenta inscrições, o que, para aulas de matemática, era
admirável. Estavam a gostar dele como professor na Universidade do Algarve.
- Já voltaste?
Videl aparecia no escritório.
- Hai. Não tinha muito que
fazer na universidade, apenas verificar as novas turmas e os horários do
próximo ano. – Reparou na cara aborrecida dela. – O que foi?
- Sabes que isso de dares aulas na Universidade do Algarve nunca me
agradou.
- Videl, já tivemos esta conversa antes.
- Irei insistir sempre.
- Dar aulas não é interagir.
- Não te bastaram aqueles quatro meses, antes do verão? Tinhas de
continuar? E quando formos embora, achas que não irão conseguir sobreviver sem
ti? Corta a relação, já!
Gohan suspirou.
- Não posso.
A cara dela torceu-se e desatou aos berros:
- Porque é que te empenhas tanto em seres professor na universidade
deles? Gostas desta dimensão? Queres ficar aqui para sempre?
- Claro que não.
- Pois é o que parece!
A fúria repentina dela desconcertou-o.
- Não poderias comportar-te como os outros e ficares em casa? –
Prosseguiu exaltada, esbracejando, cuspindo as palavras como se fossem dardos.
– Não poderias fazer-me mais companhia? Estou sozinha, passo os dias fechada em
casa, como se estivesse numa prisão. Tenho medo de sair, de encontrar-me com as
pessoas daqui.
- Não é preciso teres medo. As pessoas daqui são muito simpáticas.
Videl apertou os punhos, a suster as lágrimas. Pelos vistos, ele não
estava a acertar com as réplicas e fazia-a cada vez mais furiosa. Fez um olhar
condoído, mas a pena que mostrava naquela expressão, foi como deitar gasolina
para uma fogueira. Ela vociferou:
- Não quero ficar aqui, nesta dimensão estúpida. Eu não pertenço aqui.
Esta não é a minha casa. Isto não sou eu!
Tentou outra abordagem. Cruzou os braços, franziu a testa e foi
incisivo:
- Acalma-te. Nós não vamos ficar aqui para sempre.
Ela rugiu-lhe:
- Hoje não se consegue falar contigo. Baka!
Gohan aproximou-se, queria puxá-la para si, mas Videl esquivou-se.
- Se ficarmos nesta dimensão, significa que Zephir nos venceu – disse.
– Mas isso não vai acontecer, o meu pai não vai deixar.
- Goku-san não controla a situação. Quem nos poderá salvar disto é
Bulma-san que está a construir a máquina das dimensões.
- Então, teremos de confiar em Bulma-san. Não achas, Videl? E não
pensar muito nisso, esperar pacientemente… Tentar viver com alguma normalidade
enquanto aqui estamos.
- Tu vives, eu não.
Limito-me a contar os segundos nos relógios cá de casa, a ver o tempo passar
lentamente, num horrível inferno de tédio!
- Por favor… Prometo-te que te levarei a sair comigo mais vezes. Hum?
– Sorriu com um laivo de entusiasmo. – Não achas boa ideia? Vamos passear!
Pelo descair de ombros e pela palidez que lhe pintou o rosto, ele
percebeu que ela desistira da luta. Continuava, porém, a sentir uma imensa pena
dela e queria muito confortá-la. Ela concluiu num fio de voz:
- Está bem… Tu é que mandas, não é assim?
Gohan negou com a cabeça.
- Não. Estamos juntos nisto e iremos vencer juntos. Como uma equipa.
Tu, eu e Pan-chan.
- Não parece…
Os olhos de Videl fixavam-se na pasta de cabedal. Ele moveu-se de
maneira a tapar o que ela via, sentou-se na secretária, cruzou os braços.
- Zephir é o nosso inimigo. Não me ponhas do lado errado, Videl-chan.
Não me combatas, como se eu fosse o feiticeiro. Aprendi uma coisa, no passado,
quando lutava ao lado do meu pai e de Piccolo-san. Sempre que combatíamos,
tivemos que o fazer como uma equipa. Apenas unindo as nossas forças,
conseguimos derrotar quem nos ameaçava.
Inesperadamente, ela riu-se.
- Da maneira como falas, até parece que também tu vais combater.
Gohan explicou sério:
- Assim que regressarmos à Dimensão Z iremos devolver a vida ao meu
irmão e quero participar na busca das bolas de dragão. Por isso, devo
envolver-me. E se for necessário combater…
Ela continuava a rir-se.
- Passaste mais de dez anos enfiado nos livros e agora deu-te outra
vez vontade de ser um saiya-jin?
- Não é nada disso! – Protestou ele ofendido. – Sempre fui um saiya-jin, isso não é coisa que se deixe
de ser. Só que, por vezes, determinados acontecimentos exigem que esteja à altura
da minha herança.
- Já nem sequer és um super
saiya-jin – alegou ela.
- Mas sou tão forte como um super
saiya-jin.
- Sem treino não serves para nada, mesmo sendo assim tão forte!
Gohan cortou:
- Tens razão. Hoje é impossível conversarmos.
- Não estamos a conversar – cortou ela, por sua vez. – Estamos a
discutir!
- Se assim é…
Voltou-se para a secretária, abriu a pasta de cabedal puxando pelo
fecho com tanta força que acabou por parti-lo, completando:
- Não quero mais conversar contigo.
Pan entrou no escritório com uma folha de papel na mão cheia de
rabiscos coloridos e salvou-os. A batalha terminava sem ter sido declarado um
vencedor.
- Otousan!
- Pan-chan!
Gohan levantou a filha ao colo.
O seu maior tesouro era aquela miúda irrequieta e carinhosa. Quando
pensava nela, de certa forma gostaria de voltar a ser uma criança. Assim,
talvez as coisas fossem mais simples, sem preocupações e complicações
desnecessárias.
Ela escorregou-lhe dos braços, entregou-lhe a folha de papel.
- Estava à tua espera para te oferecer este desenho.
- Para mim? Arigato!
Tentou descortinar o que estava ali desenhado, mas não foi preciso um
grande esforço porque Pan explicou:
- É o tatami do Grande
Torneio das Artes Marciais. És tu e o ojiisan
a lutar pelo prémio principal, ser o maior lutador do mundo. Eu estou aqui de
lado, mas tenho uma medalha ao pescoço porque ganhei o torneio dos mais
pequenos… Vês?
- Está muito bonito.
- Quando voltarmos à Dimensão Z e depois de se derrotar o feiticeiro mau,
vamos participar noutro torneio de artes marciais. Não vamos, ’tousan?
- Hai.
- Gostaste do meu desenho?
- Gostei muito. Vou guardá-lo num sítio especial.
- Amanhã vou fazer outro desenho! Mas esse será para ti, ’kaasan!
Videl sorriu.
- Vais também pôr-me a lutar?
- É uma surpresa.
A miúda girou sobre os calcanhares e saiu do escritório como entrou, a
correr. Gohan e Videl entreolharam-se.
- Não gosto de discutir contigo – disse ele.
E ela acabou por concordar:
- Nem eu. Gomen nasai.
- Shss… Não peças desculpa. Não há nada para perdoar.
Conseguiu aproximar-se dela, desta vez não fugiu, não o evitou, não
armou a carapaça espinhosa para se defender do ataque. Ela perguntou-lhe:
- Vai tudo correr bem, não vai?
- Vai. – Ele acrescentou num sussurro: – Prometo-te!
E num impulso que lhe saiu do fundo do coração, Gohan abraçou Videl
com todas as suas forças.
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