A conversa daquela tarde não a largava, ressoando na cabeça
repetidamente, até deixá-la nauseada e com vontade de vomitar. Deitada na cama,
Maron tapou a cabeça com os braços.
Procurara por Trunks, disposta a confessar-lhe abertamente que o
amava, expor-lhe o coração, ajoelhar-se vulnerável ante ele, entregar-lhe a
alma e tudo o resto, anular-se e salvá-lo, pois só via essa maneira de o salvar
da espiral suicida em que tinha embarcado. Encontrara-o, começaram a conversar
e Trunks contara-lhe que Son Goten estava apaixonado por ela.
Maron soluçou, deitada na cama.
De corpo despido, descontraído e à disposição de qualquer estocada,
menos daquela. Recolhera-se na carapaça imediatamente, confusa com a revelação.
Há mais de três anos que ela amava Trunks. Acontecera naquele último
torneio de artes marciais, em que se tinham juntado todos pela última vez,
antes daquela confusão provocada por Zephir. Ela só tinha treze anos. Trunks
tinha participado com Goten, com Pan, com Vegeta e com Goku, quando tinham
conhecido Ubo. Trunks tinha dezoito anos e resplandecia encanto por todo o lado
e Maron deixara-se encantar. Trunks tinha luz própria, tinha o toque selvagem
do pai e a beleza da mãe. Era impossível que passasse despercebido a qualquer
rapariga e não lhe passara despercebido.
Maron sentia os olhos a arder, deitada na cama.
Mas Son Goten estava apaixonado por ela, dissera-lhe Trunks enquanto
comia pevides salgadas. E se era assim, Trunks nunca se iria aproximar dela,
mesmo que o amigo estivesse morto, nem que a sua vida dependesse disso. Se
Goten gostava dela, ela estava-lhe vedada, terreno proibido e Trunks nunca iria
trair Son Goten.
Maron arquejou, com o peito esmagado, deitada na cama.
Por momentos, teve o pensamento que deveriam ficar para sempre na
Dimensão Real, sem Son Goten, que estava morto na Dimensão Z. A seguir,
odiou-se por ser tão egoísta e começou a chorar em silêncio, porque também era
amiga de Goten.
Deitada na cama, chorava lágrimas tão salgadas como as pevides.
Começou a lembrar-se dele. Goten era desajeitado, mas talvez isso só
acontecia quando ela aparecia, porque estava apaixonado por ela. Tinha uma
aparência frágil e indefesa, a roçar o infantil. Nem parecia ter sangue saiya-jin nas veias, não o demonstrava
com tanta pujança como Trunks. Mas era um excelente lutador. Apesar de preguiçoso
e pouco inteligente, de se vestir com um péssimo gosto e de ser distraído.
Maron limpou a cara, deitada na cama.
Só lhe encontrava defeitos e isso incomodou-a. Goten também conseguia
ser divertido, simpático, bondoso e era, sobretudo, generoso, capaz de defender
os outros com um altruísmo desconcertante. Tinha um coração sem maldade e um
sorriso sincero, não dissimulava nunca e entregava-se a qualquer causa sem
perguntar qual o preço.
Maron olhava para o teto, deitada na cama.
Talvez conseguisse gostar de Son Goten, da mesma maneira que gostava
de Trunks. Talvez não fosse muito difícil. Seria mais complicado esquecer
Trunks.
Bateram à porta do quarto. Sentou-se, inspirando profundamente. A
cabeça do pai assomou-se à porta entreaberta.
- Maron, posso entrar?
- Hai, papa.
Kuririn entrou a dizer:
- A tua mãe disse-me que estavas aqui fechada e que não foste jantar.
Passa-se alguma coisa?
Ela admirou-se, não se tinha apercebido que tinha passado tanto tempo.
Aclarou a garganta e respondeu com a voz mais normal que conseguiu:
- Não tenho fome.
- Estás doente?
Um coração partido seria uma doença? Como não tinha a certeza,
respondeu:
- Não.
Kuririn franziu a testa.
- Estiveste a chorar?
Ela voltou a cara para a parede.
- Não.
Mas o pai sabia que se passava alguma coisa com a sua menina.
Perguntou com cautela:
- Tu tens saído de casa, não tens?
Mas ela entendeu como se fosse uma censura. E gritou a resposta:
- Estou farta de estar fechada! Eu não moro aqui! Esta não é a minha casa!
Maron desatou a chorar. Kuririn empalideceu ao vê-la chorar tão
desamparada. E ela não sabia como parar as lágrimas que lhe corriam em fios
molhados pelo rosto.
Kuririn abraçou-a. Tentava sossegá-la, acalmá-la, mas ficou com a
sensação que o pai chorava com ela.
Maron pediu, entre soluços:
- Quero ir para a minha casa,
papa! Quero ir para casa!
Kuririn entendeu. Fez que sim com a cabeça, ela sentiu o queixo dele
roçar-lhe nos cabelos.
Pois também o pai queria voltar para casa, compreendeu, só que não
sabia como fazê-lo.
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