- Esta situação é completamente intolerável!
Vegeta berrava a plenos pulmões, como se quem estava na sala não o
conseguisse escutar se ele comunicasse num registo normal. Todos faziam um
esforço para não cobrir os ouvidos com as mãos, porque os berros roçavam o
insuportável. Bulma, Gohan, Videl e Kuririn estavam com caras de quem apanhava
uma reprimenda por algo que não tinham feito. Goku sentava-se num cadeirão, a
esperar pacientemente que o príncipe terminasse a verborreia.
- Esta maldita Dimensão Real começa a irritar-me a sério e quando
mexem com os meus nervos, não me conseguem fazer parar a bem. Estou-vos a
avisar! Ninguém respeita o que
combinámos nesta mesma sala, na primeira noite em que chegámos. Se bem me
lembro, tínhamos acordado em não nos misturarmos com esta gente que vive aqui…
Todos concordaram, porque não sabíamos o que era interagir e não queríamos
tornar o feiticeiro mais poderoso do que já é. Só que parece que têm a memória
curta! Agora, é ver quem é que consegue descobrir primeiro o que raio significa
interagir. Eu fico sossegado na minha casa, metido nos meus assuntos, enquanto tu,
Kakaroto, andas metido com os pescadores! Gohan dá aulas na universidade e os
outros andam a fazer sabe-se lá o quê. Existem limites que não podemos
atravessar!
- Mas é impossível ficar fechado em casa durante tanto tempo – alegou
Goku. – Já se passaram sete meses desde que aqui chegamos. Precisamos de comer,
de nos vestir…
- Eu fico fechado em casa!
- Talvez devesses sair mais… Podia ajudar.
- Eu não preciso de ajuda, Kakaroto! Vocês todos é que precisam de uma
trela.
Videl disse, com um toque de cinismo:
- Não sei porque é que estás a berrar connosco, se o principal problema
está na tua casa.
- Nani?
Gohan olhou para ela.
- Hai – prosseguiu Videl sem
se deixar intimidar. – Estás aqui aos gritos connosco, quando o teu próprio
filho faz o que bem entende, pouco se importando se nos coloca a todos em
perigo, ou não.
Vegeta cerrou os dentes.
- Não tolero que me dirijas a palavra nesses modos!
- Videl tem razão – disse Gohan, colocando-se instintivamente à frente
da mulher para protegê-la da fúria de Vegeta. – Trunks foi o primeiro de nós a
conviver abertamente com as pessoas da Dimensão Real.
- Eu não excluí Trunks do problema – contrapôs Vegeta, cruzando os
braços.
- De Trunks, trato eu – interrompeu Bulma apagando o cigarro que
fumava num cinzeiro de vidro. Soprou o fumo para o lado. – Nem mesmo tu,
Vegeta, vais interferir, nesta fase complicada que ele está a atravessar.
- Estou de acordo. Mas aviso-te, Bulma. Não tens margem para falhar.
Senão, o problema de Trunks passa para as minhas mãos. E irei agir sem
contemplações.
- Tens agido nestes últimos meses e não tem resultado.
- Não! – Exclamou o príncipe elevando a voz, voltava a berraria. – Não
tenho agido segundo os meus moldes. Tu tens enfiado o nariz e interferes
indecentemente nos meus planos.
- E como é que Trunks está? – Perguntou Kuririn.
Bulma balançou sobre os calcanhares, suspirou.
- Está a dormir desde ontem à noite. Deixei-o estar. Não descansa por
causa do acidente, o feijão senzu
curou todos os ferimentos e todos os ossos partidos. Descansa do que quer que
seja que aconteceu antes, que provocou o acidente.
- Ah… Não vai ter melhoras pois não? Vai continuar a andar por aí, a
procurar a nossa desgraça, não vai?
- Quando ele despertar, irei falar com ele. – Notou a expressão tensa
de Vegeta e reforçou: – Trunks é assunto meu!
- Continuo sem perceber o que fazemos nós aqui – insistiu Videl.
- Estamos aqui para que, a partir de agora, sejamos mais moderados nas
saídas e para que evitemos exposições necessárias – disse Vegeta. – Enquanto
não poderei tratar de Trunks, terei todo o tempo do mundo para tratar daquele que
desobedecer!
- Tu não nos dás ordens!
Gohan puxou pelo braço de Videl.
- Acalma-te, por favor…
- Cala aquela rapariguinha, Kakaroto! Ou enfio-lhe uma mão na cara.
- Vegeta – pediu Goku levantando-se –, tu também tens de te acalmar.
- Isto está a ficar complicado! Não percebem? É o jogo do feiticeiro.
Aos poucos estamos a terminá-lo. Somos as peças que ele movimenta,
empurrando-nos para concluir o jogo, fazendo-nos progredir no tabuleiro,
saltitando os espaços numerados do caminho desenhado. Chegamos ao fim e não
temos um prémio, temos um castigo! Interagimos com alguém da Dimensão Real e o
maldito transforma-se num deus. Estamos cada vez mais perto desse dia fatídico.
- Não acho que esse dia esteja assim tão próximo. Com a quantidade de
asneiras que Trunks fez nesta dimensão e não aconteceu nada…
Vegeta descruzou os braços, negou furiosamente com a cabeça.
- Não, Kakaroto, não! Estás a dizer que interagir… não existe?
- Provavelmente. Nem o próprio Zephir sabe bem o que isso é.
- Bateste com a cabeça, ou quê? Que ideia estúpida!
- Não é estúpida, é apenas uma ideia.
Goku voltou-se para a porta envidraçada que abria para os jardins da
vivenda.
- Não será possível interagir com alguém da Dimensão Real, porque
alguma coisa nos impede de o fa…
Calou-se. No meio dos arbustos, estava uma rapariga a espreitá-los, a
olhar para ele com uns olhos escancarados de surpresa. Vegeta também a viu e
engasgou-se.
A rapariga levantou-se assustada. Desapareceu numa corrida.
Depois, Vegeta gritou:
- Shimata! É aquela
intrometida!
- Conheces?
Bulma desencostou-se da parede. Kuririn, Gohan e Videl
entreolharam-se.
Vegeta saltou para ir atrás da rapariga, mas Goku puxou-lhe pela roupa.
- Espera! Não vês que ela fugiu cheia de medo?
- Deixa-me! Ela viu-nos!
- E depois? Quem é ela?
- É uma das amigas de Trunks.
- De Trunks?
Goku soltou-lhe a roupa, Vegeta espetou um dedo na direção de Gohan.
- E uma das tuas amigas.
Conta-nos como raio apareceu contigo ontem no hospital.
Gohan gaguejou:
- Ontem, no hospital? A… a Ana-san?
- Ana-san? – Repetiu Goku confuso.
- Como raios conheces essa intrometida?
- Ela é minha aluna – explicou Gohan, percebendo a irritação de Videl.
– Dou-lhe aulas de japonês. Ela vai à minha casa para estudar, algumas noites por
semana.
- De japonês? – Estranhou Goku. – Tu não és professor de matemática?
Vegeta berrou:
- Essas aulas vão terminar imediatamente! E para cúmulo, vai à tua casa? – Dirigiu a ira para Videl. –
Ah, rapariguinha! Com uma grande conversa que os nossos problemas estão todos
na minha casa e, no fim, descubro que a tua casa é muito bem frequentada, por
uma maldita de uma intrometida da Dimensão Real.
- Nunca concordei com essas aulas! – Ripostou Videl.
- Dar aulas não é interagir – refutou Gohan encolhido.
Percebendo a tensão latente, Goku interveio:
- Vegeta tem razão, Gohan. Acaba com essas aulas.
- Hai, ‘tousan…
Kuririn limpou o ouvido direito com um dedo, remoendo:
- Acho que vou sair daqui surdo.
Bulma aproximou-se de Vegeta, colocou-se entre ele e os outros para
serenar os ânimos. Não queria que discutissem entre eles, naquela matéria
deveriam manter-se unidos, laços inquebráveis, sem qualquer dúvida, ressentimento
ou mal-entendido. Começou:
- Apesar de Vegeta estar a expor os seus motivos de um modo
ligeiramente grosseiro, devemos aceitar que ele tem razão. A nossa estadia
aqui, e isso foi combinado desde o primeiro dia, deveria ser discreta e,
sobretudo, rápida. Muito bem, tivemos os nossos percalços… Trunks, a
universidade de Gohan, os pescadores de Goku, as estranhas histórias de
Mutenroshi numa ilha no meio do oceano e sabe-se lá o que mais, pois não
conseguimos controlar o que cada um de nós faz, a todas as horas do dia. Mas
devemos continuar empenhados no que ficou decidido: discrição! As coisas não
estão a correr bem. Quero que saibam que a polícia voltou cá a casa, esta
manhã, o mesmo agente que nos tinha levado ao hospital.
- Nani? – Admirou-se Kuririn.
– E o que veio cá fazer?
- Veio perguntar pelo Tiago, porque ele tinha misteriosamente
desaparecido do hospital, ontem à noite.
- E o que foi que disseste?
- Que não conhecíamos nenhum Tiago, que não sabíamos de acidente
nenhum e que deveriam estar a confundir-nos com alguém.
- E a polícia engoliu essa mentira?
Vegeta disse:
- Será a palavra deles contra a nossa. Se dissermos que não temos nada
a ver com isso, que desconhecemos do que se trata, eles não podem provar nada.
- Mas eles poderão insistir.
- A polícia vai insistir –
retorquiu Bulma. – E não podemos ceder. Nunca!
- E se encontrarem Trunks? – Perguntou Gohan preocupado.
- Como ele estava tão desfigurado pelo acidente, não acredito que o
consigam reconhecer. Apenas temos de ter cuidado para que não o vejam sair de
casa, ou poderão estabelecer alguma ligação, apesar de ser estranho ver um
rapaz a andar como se nada fosse, depois de ter estado em coma há poucos dias.
Até já pensei em dar-lhe outro nome, em vez de Tiago. Telmo, Tomás…
- Quer dizer que Trunks continuará a sair… – observou Videl.
- Não o vou conseguir reter por muito tempo, acredito. Mas desde que
não se meta em grandes aventuras… – Bulma leu desalento nas expressões dos
amigos, à exceção de Goku, pois, para ele, estava sempre tudo resolvido ou
prestes a resolver-se. Invejava-lhe o otimismo, a capacidade de nunca
desesperar. – Se querem que vos diga, concordo com Son-kun. Interagir deve ser
algo de tão complicado, tão inalcançável, tão esquisito, que nenhum de nós vai
chegar a descobrir o que isso é.
- Ou poderá ser algo extremamente simples – discordou Vegeta
aborrecido.
- Poderá ser um feitiço – alegou Kuririn, agarrando-se a essa nova
esperança, de que lhes seria impossível interagir. – E como nenhum de nós tem
conhecimentos suficientes de magia, não vamos conseguir fazer o que o
feiticeiro precisa para se transformar num deus.
- Ainda bem que sou o único lúcido aqui – acrescentou Vegeta. – Porque
quando a catástrofe acontecer, haverão de precisar de alguém que esteja atento
para vos salvar a pele!
- Acreditas mesmo que vamos interagir? – Perguntou-lhe Goku.
- Não tenho a menor dúvida.
Bulma abriu os braços e disse a fingir-se mais entusiasmada do que
realmente se sentia:
- A única solução, meus amigos, é uma e sempre foi só uma. A máquina
das dimensões!
- E como é que está a máquina? – Perguntou Kuririn. Tinha falhado uma
das suas visitas semanais.
Ela fechou os braços.
- Já consegui que o painel eletrónico da máquina corresse o software que faz a distinção entre as
várias dimensões. Foi um progresso muito importante.
- Ah.. Ótimo!
Pelo menos, uma boa notícia, considerou Kuririn, quando já começava a
duvidar que, alguma vez, a máquina fosse funcionar. Mas não resistiu a
observar:
- Só nos restam cinco meses.
- Eu sei! – Respondeu Bulma agastada. – Tenho um calendário na minha
oficina!
Goku riu-se.
- Bem! Acho que estamos todos conversados e podemos regressar às
nossas casas. Calha bem, pois começo a ficar com fome…
- Kakaroto!
Sobressaltou-se. Vegeta tinha aquela mania havia anos, de o chamar com
um vozeirão imperioso, mas nunca se habituara verdadeiramente àquele som seco e
exigente.
- O que foi, Vegeta?
- Também ficarei a vigiar-te.
- Não me importo… Podes ir visitar-me sempre que quiseres. Moro aqui
perto.
- Se fores tu a interagir, terás de te ver comigo!
- Hai.
Vegeta chegava a ser aborrecido de tão paranoico.
Mas, de facto, ele estava com fome. Fechou os olhos e lembrou-se da
saborosa caldeirada. O príncipe olhava para ele zangado. Despediu-se a sorrir,
mas assim que se achou sozinho, a caminhar pela urbanização deserta, ficou
preocupado.
Estavam há demasiado tempo na Dimensão Real. Sete meses. E isso
deixava-lhe os nervos em franja, assim como enervava Vegeta, Bulma, Kuririn, Videl
e Gohan, apesar de o seu filho mais velho se mostrar tão controlado. Gohan sempre
fora perito em ocultar as emoções, recalcando-as, fazendo-as fermentar no
interior, transformando-as num poder imparável. Naqueles dias em que ele era um
guerreiro extraordinário.
Goku estava nervoso, para além de faminto, admitia-o.
E tinha, tal como Vegeta, um mau pressentimento.
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