A empregada da loja fez aquela cara de quem analisava a roupa para ver
se combinava com quem a vestia, mas já com a resposta preparada que não tardou:
- Fica-lhe muito bem.
Maron, de mãos apoiadas nas ancas, girou a cintura para a esquerda,
depois para a direita, sem desfitar o espelho. A empregada completou com o
sorriso mil vezes ensaiado:
- Parece que foram feitas
especialmente para si.
Maron admirou um pouco mais as calças pretas e depois anunciou que iria
levá-las. A empregada concordou com a escolha, teceu mais um elogio
pré-fabricado, sorria por ter conseguido subir um pouco mais a sua comissão
naquele mês. Maron entrou na cabina e descerrou as cortinas prateadas para se
despir.
O melhor remédio para um coração partido era ir às compras e gastar
uma quantia indecente de dinheiro. Dissera à mãe que iria até à rua das lojas
da cidade porque queria renovar o guarda-roupa. Não lhe estava a pedir
autorização e esperara o sermão condizente, que haveria de começar e terminar
mencionando que ela só tinha dezasseis anos. No entanto, número 18
entregara-lhe o cartão de crédito dizendo:
- Não tem limite.
Recebera incrédula o cartão de crédito. Número 18 acrescentara:
- Não te demores demasiado. Já sabes que o teu pai fica preocupado.
Guardara o cartão de crédito na mala.
- Isso vai passar.
Olhara para o rosto sereno da mãe.
- Essa dor não dura para sempre.
- Não me dói nada – dissera na defensiva.
Mas a mãe não respondera.
Maron pagou as calças pretas, agarrou no saco de papel reciclado com o
logotipo da loja e saiu para a movimentada ruas das lojas. Já contava com uma
impressionante coleção de sacos na mão esquerda e estava disposta a colecionar
mais. Parou diante de uma montra admirando os vestidos. Gostou principalmente
das cores quentes da nova coleção, dos boleros a condizer, dos cintos e dos
sapatos. Reparou noutro canto da montra, nas blusas e nos casados de malha, que
também eram muito bonitos e aconchegantes.
- Maron?
Ouviu o seu nome e estremeceu, porque ninguém a tratava por aquele
nome ali, a não ser que a conhecessem. Mas ela não tinha reconhecido a voz e
voltou-se rapidamente.
- És tu, não és?
Olhou para o homem que a interpelava. Cabelo preto comprido e liso,
olhos claros rasgados, duas argolas douradas nas orelhas. Em redor do pescoço, tinha
um lenço vermelho. A roupa que usava chamou-lhe a atenção, tudo a combinar num
estilo muito irreverente.
Reconheceu-o de repente, ligando a imagem verdadeira da Dimensão Z
àquela imagem distorcida conferida pela Dimensão Real e exclamou:
- Número 17?!
Ele sorriu.
- Ah, lembraste-te de mim.
Quando ela ia sorrir também, como se um sorriso tivesse o poder de
unir a distância que havia entre eles, apesar de serem tio e sobrinha, ele
ficou sério, agarrou-lhe num braço e perguntou-lhe num sussurro junto ao
ouvido:
- Ouve, Maron… O que raios se passa aqui? Que sítio é este?
A primeira coisa que lhe veio à cabeça foi responder que estavam na
rua das lojas da cidade, mas depois percebeu a profundidade da pergunta. Pensou
em pedir-lhe que a largasse, mas se respondesse talvez surtisse o mesmo efeito
e o afastasse. Não gostava daquela proximidade com um completo desconhecido,
apesar de serem tio e sobrinha.
- Estamos noutra dimensão, chamada Dimensão Real. Fomos enviados para cá
por um feiticeiro louco chamado Zephir, que quer conquistar o Universo. Com um
feitiço, todos aqueles que estão ou estiveram ligados a Son Goku, viajaram da
Dimensão Z para Dimensão Real.
Como esperado, número 17 soltou-lhe o braço, deixando a pele dormente
onde os dedos apertaram. O seu tio era forte, muito mais que a mãe, pensou com
um laivo de curiosidade, a alma de lutadora a espicaçar-se com um possível
desafio.
- Goku… – murmurou número 17.
- Estás aqui durante este tempo todo e ainda não sabias?
Ele inspirou uma grande porção de ar pelo nariz, enfiando as mãos nos
bolsos do casacão.
- Eu não me dou propriamente com os amiguinhos do teu pai. Como
querias que soubesse?
A secura da resposta abalou-a. Apertou as alças dos sacos de papel,
apetecendo-lhe apertar o pescoço dele, em vez das alças dos sacos de papel.
Mas, de seguida, número 17 mostrou-lhe um sorriso enigmático e piscou-lhe o olho,
como se lhe estivesse a pedir desculpa por ter sido tão seco. Maron corou.
- No entanto, não deixa de ser um lugar agradável. Diferente.
Ela pensou em contar-lhe o que não poderiam fazer na Dimensão Real, como
interagir, transformar o feiticeiro num deus, ficar naquela dimensão para
sempre ao fim de doze meses, perder os poderes, mas desistiu da ideia. As regras
só atrapalhavam e ele aparentava ser daqueles que detestava cumprir regras.
- Presumo que seja uma estadia temporária.
Ele inclinou-se para dizer aquilo, aproximando-se do rosto dela. Maron
respondeu, recuando um passo:
- Hai.
- Hum… Poucas palavras. Como a tua mãe. Estou a aborrecer-te, miúda?
- Não.
- Como é que regressamos à nossa dimensão?
- Eh… Está a ser construída uma máquina.
- Quando a máquina estiver acabada e pronta para a viagem, conto
contigo para que me avises. Quero regressar à minha casa, apesar de este lugar
ser agradável. Ouviste, miúda?
- Não tenho nenhum problema de audição. E não gosto que me trates por
miúda. Tenho nome e tu sabes qual é.
Número 17 riu-se.
- Igualzinha à mãe.
Tornou a inclinar-se, perscrutando-lhe o rosto ao perguntar:
- Sabes combater?
Um arrepio fê-la estremecer. Ajeitou os sacos de papel na mão.
- Porque é que queres saber?
- Sabes combater, ou não?
- Sei.
- Tens treinado? – Reparou no que ela segurava e completou com algum
desdém: – Ou preferes andar nas compras, a gastar o dinheiro dos paizinhos?
Ela indignou-se com aquela observação. Tanto parecia aproximar-se
dela, seduzindo-a com os seus modos insinuantes e a sua voz maviosa, como
parecia escorraçá-la com ditos cortantes e ofensivos. Quem é que desejava um
tio instável e louco daqueles?
Rangeu os dentes.
Ele riu-se outra vez.
- És mesmo igualzinha à tua mãe!
- Não me tenho treinado – respondeu numa rajada, para que ele parasse
de rir. – Não me apetece.
Número 17 ficou sério.
- Queres vir treinar comigo?
Nova pergunta desconcertante. Ela olhou-o fixamente.
- Se pensas que te vais divertir à minha custa, estás enganado. Sei
lutar e não me vais conseguir derrotar facilmente.
- Nem eu te quero derrotar. Só quero treinar contigo. Ver se
realmente…
Agarrou-lhe no queixo e completou:
- És igualzinha à tua mãe.
Pediu-lhe um pedaço de papel e uma esferográfica. Maron entregou-lhe
um dos talões das compras da tarde, pediu a uma mulher que passava uma
esferográfica e número 17 anotou o nome do sítio onde morava, um lugarejo
situado na serra, servindo-se de uma montra como apoio para escrever.
Devolveu-lhe o talão das compras escrito, ela devolveu a esferográfica à
mulher.
- Então, está combinado? – Perguntou número 17.
Maron assentiu, sem demonstrar o receio que estava a sentir por estar
a aceitar aquele convite:
- Está combinado.
Número 17 piscou-lhe o olho, despediu-se com um curto aceno e desceu a
rua das lojas, de mãos enfiadas nos bolsos do casacão, num andar que
transpirava segurança e presunção, uma pitada de perigo e doses incomensuráveis
de mistério. O tio que todas as sobrinhas gostariam de ter, pensou.
Olhou para o talão das compras. A morada estava escrita numa letra
irregular. Notava-se que número 17 detestava escrever ou escrevera tão pouco ao
longo da vida que nunca praticara a caligrafia.
Mordeu o lábio inferior. Aquilo era uma loucura, mas não iria recusar
o convite de número 17 e iria lutar com ele, na serra onde morava, a mesma
serra que ela via desde a janela do seu quarto pejada de casas, onde se acendia
um tapete de luzinhas quando anoitecia. Talvez uma dessas luzinhas fosse a casa
de número 17.
Guardou o talão das compras no bolso das calças e deu-se por
satisfeita.
O dia de compras tinha sido proveitoso e o coração partido estava parcialmente
remendado.
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