Na Dimensão Real morava num apartamento agradável, acolhedor e
simpático. Tinha apenas três divisões, um quarto, uma casa de banho e uma sala
com cozinha incorporada. Podia ter tido pior sorte, como Ten Shin Han que, segundo
o que ouvira contar, vivia no meio da serra, numa casa velha e a cair aos
pedaços.
Yamucha atirou a mochila para cima do sofá, foi até à cozinha e abriu
a porta do frigorífico. Agarrou numa lata de Fanta. Empurrou a porta do
frigorífico com o cotovelo, abriu a lata, bebeu um grande gole do refrigerante
e voltou à sala.
- Yamucha-san. Já regressaste?
Puar saiu do quarto a flutuar, a esfregar os olhos ensonado.
- Hai.
- Que horas são?
Yamucha consultou o relógio de pulso.
- São onze e meia da manhã.
- Onze e meia? – O sono de Puar passou-lhe de repente. – Tão tarde?
Yamucha sentou-se no sofá, estendeu as pernas em cima da mesa e
agarrou no comando remoto. Ligou a televisão.
- Tenho de preparar o almoço.
- Não tenhas pressa, Puar. Ainda não tenho fome.
O gato azul tinha um aspeto peculiar na Dimensão Real. As suas características
estavam ampliadas, cada detalhe exagerado – orelhas largas e pontiagudas, cara
gorda, corpo redondo, um rabo grosso e felpudo. Por causa disso, achava que o
companheiro já não possuía os mesmos poderes que tinha na Dimensão Z e gostava
de o testar amiúde. Pedia-lhe que se transformasse em coisas simples. Uma
escova de cabelo, um par de chinelos, um tapete, um jornal. Puar estranhava os
pedidos, mas cumpria-os todos e convertia o corpo azul, sólido e aparentemente
inflexível, nos objetos que Yamucha imaginava. Apesar de peculiar, continuava a
ser o mesmo Puar de sempre. Pelo menos, por mais quatro meses, porque ao fim de
um ano na Dimensão Real haveria de perder as suas faculdades.
Bebeu outro gole do refrigerante. Até ele próprio se classificava como
peculiar, pensou desconsolado. As rugas acentuavam-se no rosto apagado e
envelhecido, as duas cicatrizes sobressaíam demasiado, o que motivava olhares
embasbacados e comentários pouco lisonjeiros das pessoas daquela dimensão.
Mas apesar de se sentir demasiado esquisito dentro daquele corpo que o
estrangulava, Yamucha decidira que não iria ficar encerrado dentro daquele
apartamento minúsculo, à espera do telefonema de Bulma a anunciar que a máquina
das dimensões estava pronta. E por saber que era proibido levar uma vida normal
naquela dimensão, por causa da estúpida regra de não poderem interagir com um
deles, não contara a ninguém o que fazia, dia após dia.
- Correu tudo bem hoje? – Perguntou Puar.
Yamucha acabou de beber a Fanta, esmagou a lata entre os dedos.
- Tudo normal, companheiro. Como nos outros dias.
- Já fizeste amigos?
Notou um certo tom de censura no gato. Deixou a lata amolgada no sofá,
pôs as mãos atrás da cabeça.
- Falo com alguns tipos que também frequentam o ginásio… Até agora,
não aconteceu nada. Falar com eles não é essa coisa de interagir.
Fechou os olhos, sorrindo, inundado de confiança viril. Completou:
- Está tudo sob controlo! Não te preocupes.
Que se danassem as duas cicatrizes! Não havia ninguém mais forte do
que ele naquele ginásio onde treinava os músculos e onde se distraía dos dias
aborrecidos. Era admirado, notava-o, e como era calado, cultivava uma aura
misteriosa que agradava especialmente ao elemento feminino. No ginásio,
sentia-se um rei.
A campainha tocou. Os dois sobressaltaram-se. Yamucha perdeu o ar
pretensioso, Puar olhou assustado para a porta.
A campainha voltou a tocar.
- Estás à espera de visitas, Yamucha-san?
- Não. E tu?
- Eu? Nunca saio de casa! Ninguém sabe que eu existo! Como é que
alguém que não existe pode receber visitas?
- Chiu!
Puar cobriu a boca pequena com as patas.
A campainha tocou pela terceira vez. Yamucha ordenou:
- Esconde-te. Vou ver quem é.
- Vais abrir a porta?
- Até pode ser algum dos nossos.
Puar entrou no quarto, encostou a porta, deixando uma fresta para
espreitar o que se iria passar na sala. Yamucha sacudiu a cabeleira negra e
farta para trás. Apercebeu-se que precisava de tomar banho e de se trocar, cheirava
a suor e as roupas estavam sujas. Abriu a porta de supetão. Ficou sem voz ao
descobrir uma mulher que o cumprimentou com um rasgado sorriso.
- Bom dia. Posso entrar?
Nem esperou a resposta e entrou pelo apartamento adentro, com pequenos
passos, a passar os olhos pelos cantos da casa de uma maneira casual. Yamucha
fechou a porta.
Era uma mulher de meia-idade, com resquícios do antigo fulgor que
exibira na juventude. Penteava-se com estilo, maquilhava-se com um certo
exagero, usava roupas espalhafatosas e coloridas que lhe acentuavam as curvas
ainda bem vincadas. Usava um conjunto de pulseiras douradas que retiniam umas
contra as outras sempre que agitava o braço, nem que fosse ao de leve. Andava
com graciosidade, como uma bailarina a pisar um palco coberto de pétalas de
rosa.
- Tem uma casa muito bonita, senhor Eduardo – disse ela, voltando-se
quando atingiu o extremo da sala. Encostou-se ao balcão da cozinha.
Yamucha lembrou-se com um estremeção que esse era o nome que usava na
Dimensão Real.
- O-obrigado – gaguejou em castelhano.
A mulher percebeu claramente o seu desnorte.
- Não se lembra de mim, senhor Eduardo?
Ele riu-se, negando timidamente, sacudindo a cabeça.
- Sou colega sua no ginásio.
- No… no ginásio?
- Não se lembra de mim?
- Eh… Para dizer a verdade, a sua cara não me é estranha.
A mulher estendeu-lhe a mão direita, as pulseiras tilintaram.
- Sou aquela para quem olha tanto no ginásio que já me sinto gasta… Tanta
olhadela, mas tem medo de se aproximar. Chamo-me Dedé.
- Dedé?
Ele apertou-lhe a mão, as pulseiras tilintaram mais um pouco. A mulher
fez uma careta.
- Não gosto de Odete. Prefiro que me tratem por Dedé… se não se
importa.
- Não, não me imp…
- Vive sozinho? – Cortou ela, num trejeito sedutor.
- Sim, vivo sozinho. Sou… solteiro.
Agora, começava a lembrar-se da mulher. Tinha reparado nela na semana
passada, achara-a parecida a Bulma. Gostava de fazer exercícios nos aparelhos,
exagerando os gestos para captar a atenção dela. Não sabia até que ponto o
havia conseguido, até ela lhe aparecer, naquela manhã, no seu apartamento.
Pelos vistos, resultara.
A Dedé deliciou-se com o que ele lhe dissera. As pulseiras tilintaram.
- Eu também vivo sozinha. Já fui casada, agora estou novamente livre.
- Eu… também estou livre.
- Oh! Mas que interessante!
Um breve silêncio que acentuou o nervosismo de Yamucha. Era essencial
não resvalar para aqueles silêncios que matavam o embrião de qualquer relação
ocasional. Perguntou, tentando acalmar-se:
- Como é que sabia onde morava?
Ela tapou o riso com a mão, fazendo tilintar novamente as pulseiras.
Corou ligeiramente.
- Vai ter de me desculpar, senhor Eduardo, mas… segui-o.
- Seguiu-me?!! – Yamucha esbugalhou os olhos.
- Foi a única forma que encontrei para lhe devolver uma coisa que é
sua. Ainda o chamei, mas saiu tão apressado do ginásio que não me deve ter
ouvido.
Abriu a mala e estendeu uma toalha branca, bordada com duas letras
verdes na ponta. Aparvalhado, Yamucha olhou para a toalha.
- São as suas iniciais, não são? “E.M.”?
Não eram, mas ele não se descoseu. Aquelas toalhas tinham vindo com o
apartamento.
- Eh… É o meu nome.
- E.M.… Eduardo… Eduardo, quê?
- Eduardo… Eduardo… Eduardo Martins! – Inventou à pressa,
recorrendo-se do apelido do treinador do ginásio, o Tó Martins.
A mulher humedeceu os lábios com a ponta da língua, o batom vermelho-perigo brilhou. Yamucha
recebeu a toalha.
- Eduardo Martins… Gosto do nome.
Yamucha sorriu, sabendo que assim acentuava ainda mais as duas
cicatrizes, mas a mulher estava tão embevecida que não deve ter notado nada. Ou
já as tinha notado e considerado que eram um adereço másculo indispensável no
rosto daquele homem que a impressionara a levantar pesos. Ela apontou
discretamente para a mesa onde repousava o telefone, as pulseiras tilintaram.
- Não me quer dar o seu número de telefone, senhor Eduardo? Podemos
combinar um encontro, fora do ginásio, para um cafézinho. O que me diz?
- Ah…
- Está sozinho, eu também estou sozinha… Existe algum problema?
- Não, nenhum.
- Então?
Estava encurralado. Também não desejava espantar o pássaro quando este
já estava a comer na sua mão e a curiosidade sobre como funcionaria uma mulher
da Dimensão Real avolumava-se. Escreveu o número de telefone numa folha branca
que arrancou de um pequeno bloco de papel que se colava, por um íman, à porta
do frigorífico. Entregou a folha à mulher. O sorriso dela mudou de cordial para
triunfante.
- Eu telefono-lhe.
- Fico… à espera.
A mulher encaminhou-se para a porta.
- Entretanto, continuamos a ver-nos no ginásio. Não é, senhor Eduardo?
- Pois… é.
As pulseiras tilintaram quando ela ajeitou uma madeixa de cabelo.
- Costuma ser assim tão tímido quando está ao pé de mulheres, senhor
Eduardo? Prefere contemplá-las de longe?
- Não… Não estava à espera de visitas.
- Ah… Compreendo.
Yamucha abriu-lhe a porta. A mulher despediu-se com um sorriso, ele
murmurou algumas palavras que serviram como resposta à despedida, mas a mulher
não se importou com o murmúrio inteligível, pois já tinha conseguido o que fora
ali buscar.
Quando fechou a porta, encostou-se à parede, suspirando de alívio.
Puar apareceu a flutuar diante dos seus olhos, zangado, de sobrolho franzido e
patas cruzadas.
- Tu deste o nosso número de
telefone à Dedé?!
- O que é que querias que fizesse?
- Vais sair com essa Dedé?
Yamucha minimizou a questão.
- E depois?
Estendeu-se no sofá. Ao alçar os braços, para os colocar atrás da
cabeça, sentiu o odor a suor dos sovacos e lembrou-se que continuava a precisar
de um banho. Completou com alguma sobranceria:
- É só uma mulher desta dimensão.
Puar insistia:
- E se chegares a interagir com ela? Já pensaste bem? Bulma-san vai
ficar furiosa.
- Bulma? E achas que tenho medo de Bulma?
- E de Vegeta-san, não tens medo? Ele também vai ficar furioso.
Yamucha levantou-se do sofá, enfiou-se na casa de banho, batendo com a
porta.
Detestava lembrar-se do saiya-jin.
Ele e Vegeta sempre foram incompatíveis.
Quando se enfiou debaixo do chuveiro, começou a ter dúvidas, a
sentir-se inseguro, a perceber que talvez tivesse feito uma enorme asneira ao
entrar no jogo da Dedé. Ele era tão crédulo com as mulheres. Invariavelmente
acabava sempre por lhes fazer todas as vontades.
A voz de Puar veio da sala, abafada pela porta da casa de banho
fechada e pela água do chuveiro.
- Espero que saibas o que estás a fazer.
Se acontecesse algum acidente e ele chegasse a interagir com a Dedé,
seria uma verdadeira tragédia. Poderia considerar-se um homem morto, pois nada
o iria poupar à fúria de Vegeta. Puar tinha razão.
Debaixo da torrente de água quente, Yamucha arrepiou-se.
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