O bar de
Vilamoura onde se cantava karaoke
estava cheio e muito animado.
A Catarina
agarrou no microfone e preparou-se para cantar “True Colors” da Cindy Lauper.
Todos lhe disseram que era uma canção muito difícil, que tinha muitos agudos,
mas a Catarina já tinha bebido dois gin
tónicos e sentia-se pronta para conquistar os palcos do mundo. Saltou do seu
lugar e postou-se diante da televisão, à espera que aquilo arrancasse, a música
e depois a letra, palavras brancas que se iam colorindo à medida que era
necessário cantar.
- Será que
ela vai conseguir ler? – Perguntou o Mário a fingir-se preocupado.
- Eu ouvi
essa! – Barafustou a Catarina, ajeitando o fio do microfone para não atrapalhar.
- Deixa-a
cantar – disse a Luísa agarrando no copo de whisky-cola.
A música
começou. Eu acabei o resto do meu vodka.
O André disse-me ao ouvido:
- Queres
outro, Ana?
Olhei para
ele.
- Outro? Olha
que já bebi muito esta noite.
- Não estás a
conduzir…
- Mas devo manter
a minha sanidade mental.
- Para que
queres isso?
- Ora… Não
quero sair daqui de gatas.
- Estás com
medo do quê? Solta-te… Vou buscar outro copo.
Não lhe
consegui dizer que não.
A voz da
Catarina encheu o bar. A nossa mesa calou-se para ouvi-la cantar. As outras
mesas, nem por isso.
O espetáculo
começou. Com as duas mãos coladas ao microfone, a Catarina esforçava-se para
acompanhar a letra com a melodia, sem desafinar muito. Mas como estava nervosa
por estar sob os holofotes, acabava a cantar três versos adiantados. Calava-se
quando se apercebia do facto trauteava para não perder totalmente o fio à
meada, arrancava no tom errado e prosseguia a cantoria, a completar o
desempenho com uma mão que subia e descia, ao ritmo da canção.
- “And I see
your true… colors… shinning through”.
A Catarina elevava
a voz como uma profissional.
- “That’s why I
love you, so don’t be afraid”.
Naquela sexta-feira
de meados de setembro alguns colegas da turma da universidade tinham combinado
uma saída noturna, para recordar os bons velhos tempos e pormos a conversa em
dia. A Luísa tinha-me telefonado na tarde e eu não dissera que não, até porque,
mesmo que tivesse dúvidas, a Catarina ligara-me cinco minutos depois da Luísa e
haveria de mas desfazer.
Eu adorava aqueles
jantares, aquelas saídas, rever as antigas amizades universitárias,
especialmente se no grupo estivesse incluído o André. O que era raro não
acontecer, porque o André nunca falhara esses encontros. Sentávamo-nos ao lado
um do outro, conversávamos no restaurante, acabava sempre por ir no carro com
ele, bebíamos juntos na mesa do bar que fechava a noite, o assunto nunca se
esgotava, falávamos de tudo.
O André tinha
sido a minha grande paixão na universidade, mas no fim do curso separámo-nos,
cada um começou a trabalhar e à força de encontros esporádicos nalgumas
sextas-feiras durante o ano, a paixão foi esmorecendo, reacendendo-se
timidamente quando nos voltávamos a ver. Nunca tinha acontecido nada de
substancial. Eu gostara dele, não sabia muito bem se ele gostara de mim. Apesar
de a Catarina afirmar que o André adorava-me, só que tinha medo de dar o último
passo e aquilo acabava sempre numa morna conversa entre dois grandes amigos,
com algumas brincadeiras pelo meio e algum álcool.
Se o André
perdesse o medo, porém, se cruzasse a fronteira e se avançasse no meu
território, eu não fugiria. Havia qualquer coisa que retinia no meu interior
sempre que o reencontrava à sexta-feira à noite, para mais um jantar de turma,
sempre que ele me cumprimentava com dois beijos na face, demasiado junto à
minha boca. Porque o André existia muito antes do bonitinho do Hugo. E muito,
muito antes…
Engoli em
seco, desesperada de repente por uma gota de vodka que me devolvesse ao mundo azul da universidade.
Muito antes do
Tiago.
Os últimos
acordes. A Catarina baixou o microfone, deu dois saltinhos ao som dos
derradeiros batuques.
Irrompemos em
palmas, em assobios, em rasgados elogios. O André pousou um novo copo de vodka na nossa mesa e sentou-se ao meu
lado. A Catarina agradeceu com uma pronunciada vénia. Devolveu o microfone à
animadora do karaoke e atirou-se para
o sofá que ocupávamos. O Mário entregou-lhe o terceiro gin tónico. Começaram os comentários e as piadas, a Catarina
defendendo a sua atuação e incitando o próximo corajoso para agarrar no
microfone e ir cantar também.
- Oh, Ana!
Faltas tu, pá! – Exclamou ela, limpando o suor da testa com os dedos da mão.
Afastei o
copo de vodka dos lábios.
- Eu já vou.
Apanhei um
olhar caloroso do André.
- Vai lá cantar
uma dos anos sessenta, que tu gostas tanto.
Realmente
estava a ficar quente ali dentro. Também já me sentia a suar por todos os lados.
- Uma dos
Beatles – insistiu a Catarina.
- Eu disse
que já vou.
- Não vês que
ela está entretida? – Observou o Mário, piscando o olho ao André.
A Luísa
agarrou na tabela plastificada das canções. A Catarina achou-a com mais
disposição para ir cantar do que eu e concedeu-lhe todas as atenção, escolhendo
também a melhor música para animar o pessoal, que estava tudo muito murcho. Não
notava que era ela quem estava mais acelerada, por causa do gin tónico. E eu por causa do meu vodka.
Saboreei um
pequeno gole da bebida, sentindo-a queimar o palato, o odor quente enchendo-me
as narinas e mergulhei de cabeça no mundo azul da universidade que procurava
emular naquele local de diversão em Vilamoura.
O André colou
o seu copo de imperial ao meu copo.
- Vamos fazer
um brinde.
- Brindamos a
quê?
- Aos
encontros felizes.
Sorri.
- Hum…
Estamos inspirados hoje?
- Desde que
mantenhas a tua sanidade mental.
Lancei uma
risada, que me soou um pouco ébria, mas o vodka
passava rapidamente do estômago para as veias e daí para o coração, que a pizza que tínhamos jantado já não devia
fazer qualquer lastro.
O André
olhava para mim e eu comecei a contar mentalmente os segundos. Oito, nove, dez,
onze, doze. E eu também olhava para ele, sorrindo, querendo encurtar,
finalmente, aquela distância parva que sempre tinha existido. Quinze,
dezasseis, dezassete, dezoito. Começava a ficar tonta de tanto fixar o olhar
dele, mas não seria eu que iria quebrar aquele fio invisível que nos estava a
ligar inexoravelmente. Vinte, vinte e um, vinte e dois e já eram segundos a
mais.
O Mário
lançou mais uma das suas piadas, escutei alguém a rir. O André decidiu que
estava satisfeito, bebeu outro gole de imperial, pousou o copo na mesa e finalmente
apartou o olhar. Tive a impressão que também ele estivera a contar os segundos.
Mais do que dez e era crítico, química certa, como dizia a minha amiga
Patrícia.
A animadora
do karaoke anunciou mais um
participante e passou o microfone a um homem. Começou a tocar “Wonderful
Tonight” do Eric Clapton.
A minha paixão
antiga hoje não me parecia assim tão impossível. Recostei-me no sofá,
embalando-me na tontura do vodka,
recordando os pequenos nadas daquela noite, tentando ler os sinais necessários
para não esbarrar quando chegasse o momento de abrir o território e ir mais
longe do que alguma vez tinha ido com o André.
- “… you look wonderful tonight…”.
Claro que não
era a voz do Eric Clapton, mas o homem cantava bem, com uma voz grossa e
envolvente. Notava-se que conhecia bem a canção e que estava habituado a
cantá-la, porque raramente desafinava.
- Não te vais
deixar dormir aqui, pois não?
Abri os olhos
de repente. O André sorria, debruçado sobre mim.
- Eh… Não,
claro que não.
- Trouxe-te o
vodka para que fiques divertida. Não
era para adormeceres.
- Eu não
estava a dormir – protestei, endireitando as costas.
- “I feel
wonderful because I see the love light in your eyes”.
Por um
instante, parecia que iria beijar-me.
Entrei em
pânico. Estava demasiada gente à volta! E eu não suportaria as piadas do Mário,
haveria de me derreter de vergonha.
- “… you just
don’t realize how much I love you…”
O anúncio da
Luísa interrompeu a cena:
- Já sei o
que vou cantar! Vai ser Tina Turner.
O André
voltou ao seu lugar, bebeu mais um gole de imperial. O Mário perguntou-lhe
qualquer coisa.
- Qual é a
canção? – Perguntou a Catarina.
- “What’s Love Got To Do With It”.
- Boa escolha.
Essa é espetacular!
A Luísa
pousou a tabela plastificada das canções na mesa e agarrou no whisky-cola. A Catarina propôs um
brinde. Eu sei que levantei o copo, fizemos o brinde e bebi uma grande porção
de vodka que me pôs literalmente a
arder.
Teria de me
ir refrescar, acalmar um pouco. Fui até à casa de banho lavar a cara. Quando
saí tropecei num rapaz, pedi desculpa mas reconheci-o e a alegria que senti por
encontrá-lo no mesmo bar que eu frequentava, porque ainda não o tinha descoberto
no meio daquele ambiente cheio de fumo, deixou-me mais quente que o vodka que tinha a circular no sangue.
Sorri para o
Tiago e cumprimentei-o entusiasmada:
- Komba-wa! Genki desu?
O rosto dele contorceu-se
de uma forma estranha, um remoinho a engolir-lhe as feições, a partir da boca e
depois explodiu numa gargalhada alarve.
Só vi cabeças
a girarem na nossa direção.
Quedei-me
varada de espanto com aquela reação. Fora igual a uma bofetada que me tivesse
rebentado a boca.
O Tiago ficou
sério de repente e disse com brusquidão:
- Estou
ocupado, nena. O que é que queres?
Uma rapariga
alta e ruiva enroscou-se no braço esquerdo do Tiago, materializando-se do nada,
uma cobra envolvendo-o lentamente como um pequeno demónio tentador. Olhou para
mim com sobranceria. Tinha a boca entreaberta e vi a língua dela passar pelos
dentes, medindo-me e avaliando-me como qualquer coisa inferior a um inseto.
Ele tinha-me
feito uma pergunta e eu devia responder. Achava eu…
Gaguejei:
- Não quero
nada…
Resposta
errada. Apercebi-me disso tarde demais.
O Tiago mostrou
um sorriso enviesado, apertando a cobra de encontro a si, que continuava de
boca aberta e com a língua cor-de-rosa a passar pelos dentes.
- Queres sim.
Sempre que nos encontramos tens esse…
- Acho melhor
não continuares – murmurei.
- Fogo dentro
de ti.
Inclinou-se,
como se me fosse beijar, arrastando a cobra consigo, que se aproximou demasiado
como se me fosse beijar também, envolvendo-nos numa espécie de casulo.
Encolhi-me.
- E hoje
estamos a experimentar o lado selvagem, nena?
Tens um hálito de quem andou nos copos… O que é que tens estado a beber?
- Não te
interessa!
- Queres vir
comigo? Hum? Fazemos uma festa a três. Aqui a Vânia não se importa…
Importavas-te?
A cobra negou
com a cabeça. Mas por que é que não fechava a boca e insistia em mostrar-me a
língua cor-de-rosa a passar pelos dentes?
Um braço
pesado carregou-se nos meus ombros. Senti-me aprisionada. Olhei para o lado e
descobri o João.
- Espanhol,
engataste mais esta?
O Tiago
disse-me ao ouvido:
- Ou então,
uma festa a quatro. Tu ficas com ele… Ou queres ficar com a Vânia? Seria o
máximo, nena.
Empurrei o
João.
- Eh, lá… Não
gostas?
- Então, não
aceitas o convite? O lado selvagem, nena.
E estás no bom caminho. Uns bons copitos, depois uma aventura na cama. Que
dizes?
- Estou
acompanhada, Tiago.
O João disse:
- Eu não
conheço esta gaja, espanhol? Não é aquela coisinha do outro dia?
- Porra,
estás sempre a vê-la e a dizer a mesma coisa.
- Já a
comeste?
O Tiago
riu-se para mim.
- Tenho de a
comer, sim… Para ver se acabo com esse fogo.
Olhei-o
perplexa e, sobretudo, desiludida. À beira das lágrimas, não fui capaz de lhe
dizer o que estava a sentir naquele momento: um enorme e azedo desprezo. Uma
terrível e infindável desilusão. Pela enésima vez, ele despedaçava a imagem
imaculada que eu tinha dele.
Disse com
tristeza:
- Desculpa se
te incomodei… Adeus, Tiago.
Acabou-se.
Deixei-o para sempre.
Nunca mais
iria insistir… Mesmo que me doesse, que me despedaçasse.
Odiava o
Tiago. E o meu coração morreu com esse ódio.
Porque havia
muito mais no Tiago… Sabia-o.
A animadora
do karaoke anunciou o próximo
artista. A Luísa deixou o seu whisky-cola
na mesa e recebeu o microfone. A música começava, ela gingou as ancas, num
tímido passo de dança. A Catarina bateu palmas, enfiou dois dedos na boca e
assobiou.
Sentei-me. O
André perguntou:
- Quem era?
Corei. Não
queria que nenhum dos meus amigos tivesse presenciado aquele encontro
lamentável, muito menos o André.
- Ninguém. –
Forcei um sorriso. – Um amigo da Patrícia. Uma pessoa sem importância.
- Hum…
Agradeci-lhe
interiormente por não insistir nas perguntas.
A Luísa
cantava bem, no ritmo certo. Ela sempre fora amiga da perfeição, em qualquer
coisa que fizesse. Quando passava a computador os manuscritos dos trabalhos de
grupo, era bem capaz de imprimir dez vezes a mesma página até acertar com a
formatação do texto que mais lhe agradava.
O mundo azul
da universidade regressava para me envolver e acalmar.
Olhei para o
André. Estava farta daquela indecisão. Agarrei na cara dele, puxei-o e beijei-o
na boca. Ele olhou para mim surpreendido.
A Luísa
cantava:
- “What’s love got to do… got to do with it?”.
Soltei-o, recuei
no sofá, atrapalhada. Provavelmente, fora demasiado rápida, quase faminta. Não
queria que também ele me acusasse de ter aquele fogo dentro de mim. Antes que
eu me afastasse demasiado, o André aproximou-se e arrancou-me um segundo beijo.
O meu coração deu um salto.
- “Who needs a
heart, when a heart can be broken?”.
Entreolhámo-nos,
ainda na dúvida. Depois aconteceu um beijo mais caloroso, com muita língua e
muita saliva. Ele abraçou-me, eu abracei-o, acabámos finalmente com a distância
do sofá e de todos aqueles anos em que alimentámos a paixão em lume brando. Ninguém
comentou, nem mesmo o desbocado do Mário, sempre tão disponível para fazer
piadas sobre qualquer situação. A seguir, rimo-nos, nos braços um do outro, os
narizes roçando-se.
Nessa noite
de sexta-feira, o André e eu começámos a namorar.
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