Esperava pelo André na entrada do centro comercial da rua das
lojas. Tínhamos combinado encontrarmo-nos depois do trabalho para tomar um café,
conversar e trocar alguns beijos para acalmar as saudades, pois os dias eram
demorados quando eu não estava com ele.
Namorávamos há mais de uma semana e estava a ser uma experiência
deliciosa. Talvez não devesse reduzir a coisa a uma mera experiência, mas não
sabia bem como classificar o turbilhão de sensações que me engolia. Ser a
namorada do André completava-me, ocupava-me com distrações válidas,
empurrava-me para descobertas interiores que eu explorava extasiada, acalmava-me,
devolvia-me amor-próprio, segurança e calor.
Consultei o relógio de pulso. Ele estava ligeiramente atrasado.
Trabalhava num banco e, por vezes, o horário de saída era irregular,
contara-me. Eu não me importava de esperar, aumentava a expetativa do
reencontro. Enquanto ele não vinha, distraía-me com o movimento da rua,
pensando nos momentos que já tínhamos colecionado juntos, desde a sexta-feira
em Vilamoura, desde o primeiro beijo.
Tinha contado à Patrícia a novidade no último fim-de-semana,
quando ela me tinha telefonado para convidar-me para uma saída até à discoteca.
Dissera-lhe que já tinha outros planos e explicara que andava com o André. Ela
ficara muito calada e perguntara:
- Ele não era da tua turma na universidade?
- Era.
Perguntara-lhe pelo Miguel. A Patrícia respondera-me que estava
em Lisboa. No fim do verão, regressara à base. Só viria ao Algarve em ocasiões
especiais, com feriados colados a fins-de-semana ou coisa do género. Ela até
estava a considerar ir trabalhar para Lisboa, até começara a enviar currículos
e a responder a anúncios de empregos na capital, para ficar mais perto dele. Eu
não percebera a necessidade, pois parecia-me que o Miguel nunca ligara muito
bem com ela, apesar de a Patrícia ter julgado que sim, mas esse pensamento guardara-o
para mim. Perguntara-lhe pelo Pedro, apesar de me ter amaldiçoado a seguir por
ter feito semelhante pergunta. O Pedro estava bem, respondera-me, com o Pedro
para toda a vida fora divertido, mas não passara de uma aventura de verão, que
já tinha terminado, insistira ela. O verão e a aventura, os dois terminados.
Haveria outros verões, acrescentara com alegria, apesar de entristecer logo a
seguir e confessar que detestava o inverno.
- Olá, Ana.
O Tiago apareceu à minha frente com um dos seus sorrisos
luminosos. Porém, a presença dele já não encontrava eco em mim. Não lhe devolvi
o cumprimento e ele deixou de sorrir.
- Passa-se alguma coisa?
Voltei-lhe a cara. A minha vontade era pregar-lhe uma enorme bofetada,
que deixasse a minha mão marcada na pele.
- Ana?
Tinha de fazer alguma coisa, não o queria comigo quando o André
aparecesse. Consultei outra vez o relógio de pulso e disse-lhe, sem o encarar:
- Não quero falar contigo. Nunca mais quero falar contigo e
agradeço que não me dirijas a palavra. Estás a incomodar-me.
- Nani?
A palavra japonesa irritou-me. Olhei-o e insisti:
- Não quero falar contigo. Não percebes? De ti, quero distância.
E vai-te embora, pois estou à espera de uma pessoa e não quero apresentá-la a
um perfeito idiota desprezível, que sente um especial prazer em espezinhar os
outros.
Ele olhava-me boquiaberto, completamente desnorteado.
Resolvi, por compaixão, esclarecê-lo.
- Não estou disposta a aturar-te as manias, espanhol. Para mim, acabou. Quando estás sem o teu amigo João por
perto, és completamente diferente. Consegues ser… um rapaz normal, com alguma
noção de bom senso. Mas quando estás com o João e com aquelas rapariguinhas que
te abrem as pernas só por causa desses teus lindos olhos azuis, és um autêntico
palerma. E eu fiquei farta de aturar os teus caprichos. Compreendeste-me agora?
Ou queres que te faça um desenho?
Vi o maxilar dele vincar-se quando apertou os dentes. Atrapalhado,
tentou uma explicação:
- Eu… sei que não tenho sido…
Levantei uma mão, travando-o. Não queria saber das suas
explicações. Simplesmente, já não confiava, nem acreditava nele.
- Chega, Tiago… Acabou.
- Estás zangada comigo?
O anjo mentia-me, mais uma vez. Vacilei por um segundo e
irritada por estar a ceder, explodi:
- Não achas que o que me fizeste no kakaroke de Vilamoura é motivo mais do que suficiente para estar
zangada contigo? Humilhaste-me, seu palerma! Humilhaste-me à frente dos meus
amigos! Odeio-te!
Ele tartamudeou qualquer coisa que me recusei a escutar.
- Deixa-me em paz! Não quero ter nada a ver com gente
desprezível. Diz-me: continuas a ser um criminoso, não continuas? O crime que
cometeste ainda está aí dentro, a contaminar-te o carácter e a alma e a
afastar-te de todos aqueles que gostam de ti ou que tentam gostar de ti, de
verdade. Porque os amigos, como o João, só estão contigo porque sabem que
ganham qualquer coisa. Quando deixarem de ganhar, abandonam-te. E entre os
amigos verdadeiros que perdes e os amigos falsos que te deixam, o saldo é
óbvio. Acabas sozinho! Adeus, Tiago.
Fechei os olhos, mas quando os abri o Tiago ainda estava ali,
especado diante de mim, à espera de uma oportunidade para se defender. Mas eu
não o deixei. Já lhe tinha dito tudo e não havia mais nada depois disso. Abandonei
a porta do centro comercial e pus-me a descer a rua, tentando acalmar-me.
Não sei se passou muito ou pouco tempo, mas pareceu-me que o
mundo tinha paralisado e só eu me movia. Olhei para o relógio de pulso e não
consegui ler as horas. Esfreguei os olhos, respirei fundo, endireitei o
pescoço, as costas, o ego. Tinha-me libertado de um peso desnecessário, de uma
ilusão supérflua.
O André encontrou-me. Perguntou-me por que é que eu não estava à
espera dele na porta do centro comercial. Disse-lhe que escolhera ver umas
montras enquanto esperava e que sempre nos tínhamos encontrado e era o que
importava. Sorri, senti nos lábios o sabor molhado do beijo dele e foi como se
a tempestade tivesse ido embora para sempre.
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