Aquela noite de finais de setembro estava fria. O céu negro e
silencioso, salpicado de estrelas, estendia-se como um véu distante sobre o
mundo. Trunks aconchegou o blusão ao corpo, enfiou as mãos nos bolsos e começou
a andar.
A urbanização das Gambelas encontrava-se mergulhada na habitual
quietude, tão silenciosa quanto o próprio céu. Ele aceitou aquela calma como
indispensável, naquele momento da sua vida em que tentava afastar de si todo o
ruído.
Aparentemente, nada tinha mudado. Continuava a sair de casa a horas impróprias,
a regressar a horas ainda mais impróprias, a recusar uma conversa, qualquer
tipo de aproximação, a não partilhar nada com a família, nem mesmo uma simples
refeição. No entanto, tudo tinha mudado.
Nos primeiros tempos na Dimensão Real, sentira-se vazio e preenchera
esse vazio com a invenção do Tiago. Agora, o Tiago já não era suficiente e
sempre que ouvia o berro eufórico do João a chamar pelo espanhol, alguma coisa
estalava dentro dele. E Trunks impunha um sorriso, impunha uma atitude, impunha
uma mentira.
O facto é que o Tiago perdera a
piada. As bebedeiras já não o divertiam, muito menos as raparigas fáceis e
estúpidas que lhe arranjava o João. O verão já tinha terminado e tinha havido
um acidente que criara um antes e um depois, uma nova cronologia. Apercebeu-se
que o Tiago morrera nesse acidente, deixara aí a pele e a alma, o que quer que
o tivesse constituído como um ser palpável naquela dimensão, e Trunks sentia-se
cansado por ter de continuar a desempenhar o papel desse personagem.
A porta dos fundos da vivenda de Gohan abriu-se e ele saiu, carregando
um enorme saco preto de plástico, atado na ponta. Trunks parou, fungando,
absorvendo o frio da noite, espreitando o caminho que tinha feito e que o tinha
levado até àquela casa. Gohan acenou-lhe.
- Komba-wa, Trunks-kun!
Trunks sorriu-lhe.
- Um saiya-jin também
despeja o lixo?
- Hai. Quando casares, verás
que existem outras coisas que os saiya-jin
também fazem.
Gohan abriu o contentor do lixo que se disfarçava num recanto da rua,
rodeado de arbustos, e atirou o saco preto de plástico lá para dentro. A tampa
do contentor fechou-se com um baque despropositadamente barulhento. Vinha a
sacudir as mãos, batendo-as uma na outra, como se pudesse assim livrar-se do
cheiro. Trunks disse-lhe:
- Brincas comigo? Eu moro na Capsule Corporation. Tenho robots que tratam do lixo, não preciso
nunca de o despejar. Mesmo depois de me casar.
- Ah, pois… Já me esquecia.
Gohan juntou-se a ele, metendo as mãos nos bolsos das calças para
aquecê-las, ou então, para esconder o cheiro. Olhou para o céu negro e
silencioso.
- Estavas a passear?
- Hai.
- Posso acompanhar-te?
Trunks encolheu os ombros.
- Depois de despejares o lixo, não há mais nada que um saiya-jin deva fazer?
- Não. Depois do lixo, estou livre.
- Não é um passeio muito divertido, aviso-te.
- Não faz mal. Estamos juntos, é o que interessa.
Na outra noite, tinham tido finalmente uma espécie de conversa. Trunks
não falara muito, escutara o que Gohan lhe dissera, enquanto trincava as
bolachas que ele tinha trazido num prato. O barulho dos maxilares a desfazer
cada uma das bolachas ajudava a barrar parte do discurso de Gohan, para que lhe
fosse mais fácil absorvê-lo, em doses não muito letais. Retivera duas frases,
porém, da conversa e um gesto. As bolachas tinham terminado, Gohan pousara-lhe
uma mão no ombro e dissera-lhe:
- Não guardo rancor por aquilo que aconteceu. Nunca guardei.
Limpara os dentes com a ponta da língua, para arrancar pedaços moles e
doces de migalhas misturados com saliva e pedira água. Gohan perguntara-lhe se ele
estava bem e ele respondera que tinha comido um feijão senzu e que não poderia estar mal. Falara-lhe a seguir das bolas de
dragão e que queria que fosse ele a pedir o desejo. Nunca mencionaram o nome de
Son Goten.
Missão cumprida e Trunks regressara a casa menos nervoso.
***
Os passos deles ressoavam na estrada.
- Não tens aulas de japonês hoje?
Gohan negou.
- Não. A aula foi ontem… A segunda aula desta semana foi desmarcada, a
Ana disse-me que depois me telefonava a confirmar a data dessa segunda aula.
Acho que ela se está a desinteressar de aprender japonês.
Trunks fechou os punhos dentro dos bolsos do blusão. Gohan prosseguiu:
- Não percebo aquela rapariga. Praticamente implorou-me que retomasse
as aulas, depois de terem sido canceladas por causa do teu acidente. Não lhe
quis dizer que não, afinal são apenas aulas, afinal estava a implorar-me… Mesmo
que tivesse depois de me justificar perante o teu pai. Mas agora, já não me parece
tão motivada como no início. Ontem nem trouxe o caderno dos apontamentos.
Uma situação inédita. Trunks comentou pensativo:
- Ela está a afastar-se? Não pode ser…
Gohan suspirou.
- Videl acha que vamos interagir com ela.
Trunks riu-se com a observação.
- Eu ou tu?
A tirada espirituosa não foi do agrado de Gohan. Franziu o sobrolho,
olhou-o de esguelha, mas não quis agarrar na deixa, preferindo ignorá-la, não
queria obviamente discutir.
- Por outro lado, o meu pai acha que interagir é uma coisa impossível.
- Essa é nova – disse Trunks ligeiramente espantado. – Goku-san acha
isso?
- O teu pai não está de acordo.
- Vegeta nunca está de acordo com nada.
- Tenho pensado nessas duas possibilidades… Interagir com alguém com
quem convivemos de forma sistemática, como a Ana. A impossibilidade de
interagir, por ser algo tão rebuscado e complicado que não está ao nosso alcance.
Chego sempre à mesma conclusão. É melhor não tentarmos a sorte e devemos evitar
a Ana-san.
Trunks parou. Sentia as faces geladas.
- Porquê?
Gohan também parou. Analisava-o curioso, começando a formar uma ideia
sobre as relações dele com a rapariga da Dimensão Real, como parte do
raciocínio que seguia naquela matéria. Perguntou-lhe:
- O que é que queres da Ana-san?
A resposta haveria de alimentar novas conjeturas. Trunks percebia o
espanto de Gohan, nem ele saberia a solução daquele enigma – o que queria ele,
de facto, da Ana? No âmago, naquele recanto esconso onde ainda se mantinha são
e lúcido, sentiu um repuxão. Teve medo, mergulhava em águas misteriosas, mas
soube que não iria recuar. Nunca medira os seus atos pela razão, lembrou-se. E
respondeu de forma casual:
- É a única pessoa da Dimensão Real com quem falo em japonês.
Gohan rebateu:
- Ela já não quer aprender a falar japonês. O interesse dela pelo
japonês acabou.
Por outras palavras, o interesse da Ana por ele tinha acabado. Percebeu
a indireta, o aviso camuflado. Gohan pedia-lhe que reconsiderasse, que
regressasse à luz, quando ele já caminhava sob essa luminosidade que
correspondia ao caminho certo. E o que havia no fim do caminho? A dimensão onde
ele pertencia? A vitória sobre Zephir? Son Goten?
Trunks olhou para o chão.
- Isso é uma coisa que tenho de esclarecer.
- Se ela quer afastar-se… Deixa-a. Será melhor para todos, até para
ela. O que ganha a Ana em relacionar-se com um grupo estranho de pessoas que,
mais cedo, ou mais tarde, irão abandonar este lugar?
- Mas não faz sentido. – Trunks entremostrou um sorriso apagado. – Ela
gosta de “Dragon Ball”.
- Nani?
- É por esse nome que a Dimensão Real conhece a Dimensão Z. “Dragon
Ball”.
- Bola de dragão? – Traduziu Gohan admirado.
- Hai… O que não deixa de
ser irónico.
Mais dados, que Gohan processava no cérebro, acomodando-os para
analisá-los mais tarde. Haveria de os esquematizar numa bonita equação
matemática e talvez fosse o que Bulma precisasse para pôr finalmente a máquina
das dimensões a funcionar. Gohan olhou-o por cima dos óculos e pediu, sem
qualquer esperança de ser ouvido:
- Trunks-kun, não o faças.
Deixa a Ana-san em paz.
Trunks retomou a caminhada.
- Quero ouvir da boca dela porque é que já não quer aprender japonês.
Fizeram o caminho de volta em silêncio, cada um recolhido nos seus
pensamentos, nas suas ideias, nas suas teimosias.
A noite estava bonita, mas fria e exageradamente quieta. Gohan
despediu-se com um aceno e entrou em casa. Trunks enterrou a cabeça nos ombros,
procurando aquecer-se dentro do blusão. Desceu a rua. Quando chegou perto da
vivenda onde morava, não entrou. Ainda não se sentia preparado. Reuniu energia
e elevou-se nos ares. Olhava para o manto de estrelas distantes enquanto subia,
decidido a deixar-se embalar pelo vento, largando-se sem âncora e saboreando a
última viagem que iria fazer naquela dimensão – que haveria de levá-lo a costas
seguras. Ou àquilo que procurara nos últimos meses: um inferno insuportável.
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