A tarde estava agradável e fui dar um passeio até à Rua de Santo
António, na baixa da cidade, depois do trabalho. Passei pelo quiosque para levantar
mais um fascículo de uma coleção que andava a fazer sobre o mundo antigo, dei
uma espreitadela na montra de uma livraria, vi quais eram as últimas modas em
algumas lojas de roupas.
Era terça-feira e as tropelias do fim-de-semana pareciam
incrivelmente longe. No sábado, não conseguira zangar-me com a Patrícia quando
me ligara a contar-me que já estava quase a acertar as coisas com o Miguel.
Mais uma noite e ficaria tudo resolvido, mas quando me disse que ia buscar-me
para mais uma saída, recusei energicamente o convite. Queria descansar. O que
fiz durante um longo domingo modorrento e sem história.
Comecei a descer a rua em direção à doca da cidade, para ir
apanhar o carro que tinha deixado estacionado junto ao Hotel Eva. Passei pela
esplanada do café “Aliança” e olhei de relance para as mesas. Reconheci-o e o coração
quis saltar-me pela boca. Chamei, sem pensar realmente no que estava a fazer:
- Tiago!
Abri um grande sorriso quando se voltou para mim. Tinha acabado
de chegar e escolhia um lugar para se sentar. Tentei moderar a alegria para não
parecer uma idiota.
Naquele fim-de-semana tinha pensado muito nele, preocupada com o
que acontecera a seguir com o pai. E o que teria havido antes para o homem
aparecer de repente, numa praia do fim do mundo, e ter-lhe batido daquela
maneira.
- Olá, Ana.
Uma receção fria, demasiado trivial que ajudou a acalmar o meu
entusiasmo.
- Está tudo bem contigo?
- Sim – respondeu-me.
O interesse dele por mim era nulo.
- Ficou tudo bem com o teu pai?
- Ahn?
Olhou-me como se tivesse falado com ele em chinês. Repeti
devagar, no melhor castelhano que consegui:
- Ficou tudo bem… com o teu pai?
Sorriu-me com uma sinceridade tão crua, que senti as pernas
transformarem-se em esparguete acabadinho de cozer.
- Nada que um bom par de murros não resolva.
A resposta escandalizou-me.
- O teu pai voltou a bater em ti?
- Descansa, que às vezes também consigo bater nele. Naqueles
dias bons…
- O quê?
Não conseguia visualizar a cena corretamente. Pestanejei. E
enquanto tentava perceber, deixámos de estar os dois sozinhos, o João aparecia.
- Eh… espanhol. Já chegaste? Vieste a horas hoje…
- O teu relógio está atrasado.
Percebi que o tempo precioso que os deuses me tinham concedido
com o lindo rapaz dos olhos azuis se tinha esgotado. O João fez um esgar ao
reparar em mim e perguntou:
- Andas a comer esta?
- Não.
- Uf! Que alívio! Por momentos pensei que tivesses perdido o
gosto.
Pestanejei, novamente, pasmada com aquela breve troca de
palavras entre os dois. O Tiago olhou-me a imitar o mesmo esgar.
- Realmente, tenho uma reputação a defender.
O João puxou-o, afastando o amigo de mim, como se fosse
importante mantê-lo longe da minha influência.
- A Dora anda à tua procura – disse.
- E devo preocupar-me?
- Deixaste a gaja pendurada na “Kadoc”, na outra sexta-feira.
- Ela é que fugiu de mim.
- Não é isso que ela conta…
- Quando ela quiser, sabe onde me encontrar.
- Acho que quando ela te encontrar, vai-te ao focinho… - O João
riu-se e então notou que eu não me tinha ido embora. – Oi… Ainda aqui estás?
- Não te lembras dela? Foi connosco para a praia.
- Ah, é essa?
- Eu tenho nome, sabiam?
Parecia que tinha cola na sola dos sapatos. Tentei levantar um
pé para o descolar da calçada e terminar com a humilhação, mas o olhar
profundamente azul do Tiago era um íman que me mantinha ali presa.
O Luís também aparecia.
- Ora… Temos outra gaja, espanhol?
A conversa decompunha-se rapidamente, como um cadáver exposto à
intensa radiação do sol do deserto.
- Esta não é a minha gaja – respondeu o Tiago.
- Mas vê-se que quer molho – observou o João trocista. – Ouve lá,
de certeza que não a comeste?
- Já te disse que não.
- Então, o que é que está aqui a fazer? – Perguntou o Luís com
desdém.
Estava na altura de acabar com aquilo. O Tiago voltava a
desiludir-me. Deixei a esplanada do “Aliança” sentindo-me suja. Mas a culpa era
toda minha, porque tinha ficado e insistia na teimosia de querer encetar amizade
com aquele anjo de alma negra. Mas o rapazinho até tinha sido sincero: ele
queria que eu o odiasse, queria ser desprezível.
Pois tinha-o conseguido e com medalha de ouro!
Nunca mais lhe iria dirigir a palavra. Acabara-se o Tiago
naquela tarde.
Quando cheguei ao carro, suspirei de tristeza. Não me
conformava.
- Porque é que ele é tão estúpido?
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