Camuflado pela escuridão da noite, um vulto agitava-se em movimentos
estudados e repetidamente treinados até à exaustão. Suspenso no vazio, a
desafiar a lei da gravidade, multiplicava-se em golpes que despejava com os
braços e com as pernas. Parou de repente, desligando-se como uma máquina à qual
se carregou no botão vermelho. Permaneceu no ar, a respirar ofegante.
Sentiu uma presença. Alguém chegava àquele lugar inacessível, onde não
queria ser incomodado. Iria recebê-lo à sua maneira. Gritou e disparou um raio
vermelho-vivo.
Com pouco esforço, Goku desfez o raio na palma da mão. Enquanto
baixava o braço, perguntou:
- Estamos em guerra, Vegeta?
Vegeta via-o pelo canto do olho. Respondeu:
- Estamos.
- Desde quando?
- Estamos em guerra com Zephir!
Goku sorriu.
- Ah, bom!... Assim está bem. Quando perguntei se estávamos em guerra,
quis dizer um com o outro…
- O que é que queres, Kakaroto?
Habituado ao temperamento irascível do príncipe dos saiya-jin, Goku não se incomodou muito.
- Vim treinar contigo.
Vegeta encarou-o, cruzando os braços. Entreabriu um sorriso.
- Queres treinar comigo? Ótimo! Já estava a ficar aborrecido de
destruir apenas árvores. Já me apetecia destruir algo… feito de carne e osso.
- Eu também estava a aborrecer-me. Treinar com Ubo não é a mesma coisa
que treinar-me com um verdadeiro saiya-jin…
- Elogios, Kakaroto?
- …quando temos de enfrentar um saiya-jin
tão ou mais poderoso do que nós.
Vegeta perdeu o sorriso, o rosto crispou-se.
Goku assentou os punhos fechados na cintura, inclinou a cabeça
ligeiramente para a direita, adotou uma expressão pensativa, que chegava a ser
cómica por ser, ao mesmo tempo, tão transparente e inocente.
- Temos um grande problema com Keilo. Quando regressarmos à Dimensão Z
iremos enfrentá-lo outra vez e ainda não descobri uma maneira de o derrotar.
Temos de estar na nossa máxima força e com uma técnica sem falhas para o
conseguirmos.
- Eu sei! – Virou-lhe costas e confessou com relutância: – É por isso
que continuo a treinar-me, mesmo estando nesta maldita dimensão! Mesmo tendo
este maldito corpo!
- Pode ser uma vantagem. Temos um aspeto esquisito e sentimo-nos
esquisitos. No início, foi um bocadinho difícil adaptar-me a este corpo.
Sufocava-me. A ti também deve ter acontecido o mesmo, não? Bom, o que eu quero
dizer é que este corpo é muito pesado e pouco flexível.
Vegeta encarou Goku, que prosseguiu:
- Mas é útil para nos treinamos. Será parecido a treinar com a força
da gravidade. Quando começámos a treinar com a gravidade, foi importante para
nós, ajudou a aumentar os nossos poderes. Foi assim que alcancei o nível do super saiya-jin e tu também… E acho que,
para aumentar os nossos poderes agora, nada melhor do que coisas novas e diferentes.
Como este corpo pesado e diferente.
Vegeta levantou um sobrolho.
- Se conseguirmos fazer na Dimensão Real o mesmo que fazemos na
Dimensão Z, com este corpo, ficaremos mais fortes – concluiu Goku.
Vegeta ensaiou um pontapé. Girou sobre si próprio, a perna atingiu o
ar.
- Estamos mais lentos – observou Goku.
- E menos resistentes.
- É verdade. Basta um simples soco e começo logo a sangrar. Agora
tenho mais cuidado quando estou a combater com Ubo. Nos primeiros tempos
ficávamos os dois partidos e com a cara inchada durante dias. A ti também te
acontece o mesmo?
Vegeta sorriu.
- Ainda bem que estás mais frágil, Kakaroto. Apetece-me ver sangue e
ver o teu será perfeito.
Goku também sorriu.
- Começo eu ou começas tu?
Vegeta atacou, punho em riste. Não tinha a rapidez da Dimensão Z mas
era suficientemente rápido para surpreender. Goku estava atento e apanhou-lhe o
punho com a mão direita.
- Até onde chega o poder de Keilo?
O combate tinha começado. Vegeta tentou libertar-se, Goku soltou-o
para abrir uma brecha na defesa. Foi para atingi-lo, mas Vegeta desviou-se e
esmurrou Goku nos queixos.
- Já te tinha dito, Kakaroto – gritou Vegeta a recuar, unindo as mãos
por cima da cabeça para novo golpe.
Goku esquivou-se, alçou a perna numa tentativa de pontapé que roçou a
cara de Vegeta.
- Eu não sei nada sobre
Keilo!
O príncipe atacou novamente, com uma rajada de murros dos quais Goku
se desviou com relativa facilidade. Optou por não ripostar a nenhum, analisando
atentamente os movimentos do oponente.
Vegeta afastou-se de repente, voando às arrecuas.
- Só sei que é o super saiya-jin
lendário. Até vê-lo no Templo da Lua…
As palavras afastaram-se com ele.
A energia de Vegeta subiu descontroladamente e, numa fração de
segundo, o seu corpo brilhou numa explosão de luz. Os músculos tornaram-se mais
tensos. Dobrou os braços pelos cotovelos, fechou os punhos e soltou um brado
que ecoou como um trovão. A onda energética que se soltou, a emitir calor e
faíscas, fez tremer a terra. Vegeta estava no nível dois dos super saiya-jin. Ao experimentar o seu
enorme poder, sorriu.
Goku abriu muito os olhos, escandalizado.
- Vegeta! Estás a provocar tremores de terra! Os nossos treinos devem
ser secretos! Não achas que estás a…?
A frase não foi terminada. Vegeta aproximou-se, com uma rapidez estonteante,
e quando lhe conseguiu sentir o hálito atingiu-o com um murro nos queixos, tão
potente que Goku caiu desamparado. Viu-o desaparecer pelo meio das árvores escuras
e seguiu-o.
Vegeta pousou devagar. Perscrutou a paisagem, procurando pelo outro.
Não o encontrou nem com os olhos, nem com o espírito. A aura de Goku tinha-se sumido,
o que queria dizer que preparava uma resposta.
Concentrou-se, focou os sentidos. Acalmou ligeiramente a ânsia
guerreira do super saiya-jin que lhe
incendiava a alma.
Na retaguarda! Escutou-o primeiro, sentiu-o depois. Mas foi tudo mais
rápido do que antecipara. Sentiu um impacto doloroso na nuca e caiu para a
frente. Mas assim que bateu com a cara na terra levantou-se, voltando-se
imediatamente para o adversário.
Ficou pasmado com o estado de Goku. A túnica verde estava feita em
farrapos, no braço esquerdo tinha uma ferida junto ao ombro. O sangue escorria
do nariz e da boca. Estava também transformado em super saiya-jin, nível dois, o que equilibrava as probabilidades entre
eles. Tinha-se transformado antes de o ter atacado, naquele ínfimo de segundo
em que se revelara, antes do golpe. Continuava a ser um génio a combater,
pensou com um laivo de inveja.
- Acabámos de ter uma conversa sobre os nossos corpos da Dimensão Real
que são pouco resistentes e fazes-me uma coisa destas? – Disse Goku a sorrir.
Vegeta sorriu com ele.
De seguida, ficou muito sério e completou a frase que tinha deixado
suspensa:
- Até ver Keilo no Templo da Lua, nunca tinha acreditado
verdadeiramente na sua existência.
Goku limpou o sangue do nariz e da boca, fixou em Vegeta os olhos
esverdeados. O cabelo alaranjado revolvia-se entre faíscas. Notou que o
príncipe lhe fazia a cortesia de aguardar pelo seu ataque.
- Se Keilo chegar ao nível três do super
saiya-jin, estimo que as forças dele sejam o triplo das forças desse nível.
Tentou um murro, mas Vegeta defendeu-se com um braço. Os dois saiya-jin entreolharam-se.
- O seu poder é o dobro do normal quando está no nível dois – explicou
Goku.
- O que significa… – rugiu Vegeta furioso e atacou com uma chuva de
murros, que Goku aparou com os braços e com as mãos.
O combate corpo-a-corpo estava a empurrá-lo para trás, mas Goku só se
apercebeu quando sentiu o tronco de uma árvore a arranhar-lhe as costas. O
punho de Vegeta desfez a árvore, pois desviou-se à justa, no último
milissegundo necessário para evitar que este lhe desfizesse o nariz.
- O que significa que eu não
o consigo derrotar!
- Não o podemos deixar chegar a esse nível. Temos de o eliminar antes.
Esticou os dois braços, lançou uma vaga invisível de energia, Vegeta
caiu com um urro de raiva por se ter distraído. Goku gritou, fez tremer o chão.
Lançou uma bola amarela que explodiu onde Vegeta estava – onde estaria, não
fosse a rapidez do príncipe tê-lo arrancado da posição vulnerável e assim
conseguir escapar da explosão.
Vegeta também sangrava da boca. Disse:
- Já terminou a tua preocupação com os tremores de terra?
Goku expirou o ar que tinha guardado no peito, aligeirando a rigidez
da posição, tentando perceber as exigências e os limites daquele corpo estranho.
Era a primeira vez que se transformava em super
saiya-jin e sabia que, com Vegeta, se passava o mesmo.
- Estava farto de levar. Também gosto de dar – respondeu.
- Isto começa a ficar interessante.
Aproximaram-se, para mais uma ronda.
Vegeta tentou rasteirá-lo, Goku saltou. Enleou-se nos ramos das
árvores, atrapalhou-se. Vegeta puxou-lhe pelas pernas, atirou-o com toda a
força para o chão. Ao tentar pontapeá-lo, Goku rebolou, pôs-se de pé, evitou o
ataque, atacou, por sua vez. Socou Vegeta. A cabeça dele foi lançada para trás,
seguida de um arco de gotas de sangue. O golpe acabou por ser mais doloroso do
que esperava, Vegeta gemeu. Goku parou, apertou os dedos, enchendo a mão de
força. Vegeta abanou a cabeça, para recuperar da tontura. Cerrou os dentes.
Investiu e apesar de os murros terem falhado o alvo, conseguiu derrubar Goku
com um pontapé.
Concentrou energia, a terra voltou a tremer. Goku levantou-se,
limpando a testa que sangrava.
- Queres eliminar Keilo? – Perguntou Vegeta marcando-lhe os
movimentos. – Essa é nova! Pensei que não gostavas de eliminar os teus
adversários.
- Não temos outra alternativa… Ele é uma coisa maligna.
Goku também concentrou a sua energia e também fez a terra tremer.
- Como chegaste a dizer, Vegeta, não passa de um feitiço. Alimenta-se
da magia do Makai.
Regressaram aos céus.
- Finalmente, falas como um saiya-jin,
Kakaroto – provocou Vegeta.
- Não é que me agrade muito, mas Keilo tem de desaparecer.
Uma rajada de vento passou entre eles, varrendo as serranias abaixo,
trazendo um silêncio pesado, enquanto resumiam as forças e preparavam nova
sessão de treinos.
Vegeta exclamou, subitamente animado:
- Vamos iluminar a noite, Kakaroto!
- Ahn?
Nas suas mãos tremeram duas esferas de luz branca e cintilante. Goku agitou
um braço.
- Espera! Devemos evitar ataques energéticos!
A ferida junto ao ombro ardeu-lhe e baixou o braço, com uma careta de
dor.
- Passemos a coisas sérias! Queres eliminar Keilo, ou não?
- Quero.
- Então, temos de combater a sério com este maldito corpo que eu
odeio.
As duas esferas brancas cruzaram o ar e Goku utilizou a
supervelocidade, desaparecendo para deixar as esferas passar, aparecendo de
seguida, no mesmo lugar. As esferas atingiram as árvores em baixo,
desfazendo-se em múltiplas centelhas num rebentamento que ficou a reverberar
pelos vales.
- Vegeta!
- E odeio ainda mais o teu
corpo!
A cara de espanto de Goku arrancou a Vegeta uma gargalhada.
- E agora, Kakaroto, defende esta!
Uniu as duas mãos, os dedos curvaram-se, fez surgir um halo amarelo que
depressa se materializou em algo mais volumoso. O rosto crispou-se e berrou,
convocando a sua energia vital, canalizando-a:
- Final Flash!!!!
O ataque de Vegeta iria atingi-lo em cheio, se não reagisse da mesma
maneira radical e insensata. Goku disparou:
- Kamehame-ha!!!!!
Os dois raios, um amarelo, outro azul, chocaram na noite.
Iluminaram-na e aqueceram-na como um cometa que acabava de atravessar a
atmosfera, faiscando na tresloucada e suicida viagem. A terra foi sacudida
pelas forças gigantescas dos dois super
saiya-jin que se enfrentavam sem restrições.
A não ser a dos seus odiosos corpos, matéria de uma dimensão alheia à
sua.
Uma explosão brilhante engoliu tudo. A comoção dissipou-se, a calma
aparente e a escuridão violeta regressaram às serranias.
Goku, ofegante, procurou por Vegeta. ´
Defendeu um soco com os dois braços cruzados sobre a cara.
Vegeta riu-se. E Goku também começou a rir.
O sabor do sangue era estimulante.
Iria ser uma noite muito longa e muito agitada.
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