- Pan-chan!!!
A miúda congelou os movimentos, parando a meio de uma passada.
- Onde é que te meteste para vires nesse estado?
Videl estava zangada e, sobretudo, atónita. A filha voltou-se, baixou
a perna e forçou um sorriso, mostrando a dentadura branca, querendo claramente
comprá-la com o ar mais angelical que amanhara à pressa.
- ‘Kaasan…
- Pan-chan, começa a falar.
Vestida com o dogi, suja de
lodo, de areia e de manchas de água salgada, os cabelos despenteados e
peganhentos de suor, sangue seco no canto da boca, era evidente o que Pan tinha
andado a fazer, mas Videl queria ouvi-la confessar a desobediência, porque Pan
sabia muito bem que as ordens eram para nunca, mas mesmo nunca, sair de casa.
Pan apagou o sorriso, empinou o nariz que sempre fora empinado, e
Videl sabia que naquela característica saía indubitavelmente à mãe, e contou:
- Estive a treinar… Na praia… Com Bra-chan.
- Nani?! Com toda a gente a
ver?
- Não. Fomos para uma ilhota afastada de todas as ilhotas, para que
ninguém visse.
- E como é que foram para a ilhota afastada?
- Saltando…
- Saltando?!!
Pan limpou o ouvido direito com um dedo.
- ‘Kaasan, estás a gritar
muito.
A porta da rua abriu-se e Gohan entrou em casa.
- Koniichi-wa!
Mas a alegria do cumprimento diluiu-se ao ver que a cena na sala se
coloria de um tenebroso cinzento, porque Videl estava muito zangada e porque
Pan encolhia-se diante da figura autoritária da mãe, apesar de empinar o nariz.
- O que é que se passa aqui? – Indagou aproximando-se cauteloso,
apertando a mala de cabedal, como se a pudesse utilizar como escudo caso a cena
resvalasse de cinzento para preto.
- A tua filha esteve a treinar-se, na praia, com Bra-chan. Não vês o
estado em que ela está?
Gohan analisou Pan, espreitando por cima dos óculos.
- Precisas de um banho.
Videl indignou-se:
- Precisa de um castigo!
A miúda reagiu:
- Nós não estávamos sozinhas. Ubo-san estava lá connosco, a vigiar os
nossos treinos e a cuidar de nós.
- Ela esteve a treinar com quem? – Perguntou Gohan.
- Com Bra – respondeu Videl.
- Hum…
- Gohan-san, esta menina merece um castigo.
Os olhos de Pan entristeceram. Olhou para o pai e para a mãe, Gohan
percebeu que tentava desesperadamente encontrar uma saída para aquela situação.
Videl prosseguiu irritada:
- Desobedeceu-me, anda a treinar-se contra a nossa vontade, tentou
esconder de mim o que andou a fazer esta tarde, desencaminha a Bra, que é uma
menina amorosa.
- A Bra-chan conheceu a Ana-san – murmurou Pan.
- Não se vai escapar desta. Acho até que ela levou a minha scooter para essa aventurazinha na
praia, não a encontrei esta tarde quando fui até à garagem. Até pensei que
tivesses sido tu e que finalmente tinhas posto de lado essa bicicleta velha e
escolhido ir para a universidade de uma maneira mais…
- Espera, Videl! – Cortou Gohan. Ajoelhou-se, agarrou nos braços da
filha, encarou-a e pediu: – O que foi que disseste?
Pan encontrara a saída. Corou ligeiramente, assimilando o triunfo, e
repetiu assertiva:
- A Bra-chan conheceu a Ana-san.
- Como?
- O que é que ela está a dizer? – Perguntou Videl admirada.
- A Ana-san esteve a almoçar ontem na casa de Bulma-san. Foi assim que
a Bra conheceu a Ana-san.
Videl levou as mãos à cabeça e guinchou:
- Nani? Bulma-san
enlouqueceu?!
- Tens a certeza que a Bra conheceu a Ana, Pan?
- Hai, ‘tousan. A Ana é amiga de Trunks-san.
Gohan pôs-se de pé.
- Mas o que é que se está a passar aqui? – Indagou Videl em pânico, os
dedos emaranhados no cabelo, cotovelos espetados.
- Não sei, mas é muito estranho. Hoje, o meu pai esteve comigo na
universidade para me avisar que deveria ter cuidado com a Ana.
- Goku-san? Ele também te falou dessa rapariga? Mas porquê?!
- Acalma-te, Videl.
Voltou-se para a filha.
- Vai tomar banho e trocar de roupa. Preciso falar com a mãe, está
bem?
- Hai.
Pan correu escadas acima, sem nunca olhar para trás.
Com muito cuidado, Gohan puxou pelos braços da mulher para separá-los
da cabeça. Videl deixou-o manejá-la, libertou os cabelos negros e revoltos,
olhava-o transida de medo. Ele agarrou-lhe nas mãos que tremiam.
- O que é que essa rapariga quer de nós? Por que é que insiste em
misturar-se connosco? Será que ela foi enviada… – Baixou a voz. – Pelo
feiticeiro?
- Não. Ela conhece-nos, é só isso.
- Como?
- Através de “Dragon Ball”, que é o nome pelo qual conhecem a Dimensão
Z. Hoje até estive a falar com um aluno meu sobre “Dragon Ball”
- Outro intrometido?
- Calma. “Dragon Ball”, ao que parece, é muito famoso e há bastante
gente que já viu, que sabe o que isso é. É normal que tropecemos, de vez em
quando, em alguém que nos conheça. Sabendo isso agora, creio que o feiticeiro
fez-nos um grande favor em não nos enviar para o Japão. Acho até que ele
mencionou isso antes de fazer o feitiço da Porta dos Mundos… Intriga-me por que
razão nos concedeu essa vantagem.
- E que interessa essa vantagem se até neste país, onde era suposto
passarmos despercebidos, somos reconhecidos?
- Talvez faça parte do jogo.
- Tenho medo, Gohan.
- Não tenhas.
- Há duas noites, senti uma impressão. Tu também a sentiste, percebi
que despertaste ao mesmo tempo que eu. O que foi isso?
- Interagir…
Videl gritou. Gohan abraçou-a.
- O meu pai e Vegeta-san estão convencidos que foi Trunks com a
Ana-san – explicou ele, massajando-lhe as costas.
- Não a quero nunca mais na minha casa.
- Ela nunca mais veio.
- E se vier?
- O meu pai disse-me para mandá-la embora.
- E desta vez vais fazer o que o teu pai te pede, não vais?
Hesitou. Mas respondeu, desfazendo o abraço.
- Hai.
- Não percebo como essa rapariga, que deverá ser assim tão perigosa,
acaba a almoçar na casa de Bulma-san. – Rangeu os dentes. – Ah! Aquele Vegeta!
Sempre disponível para nos pregar sermões e, no fim de contas, as transgressões
mais graves nascem ou acontecem na sua casa. Estou capaz de o desfazer!
Gohan sorriu. Preferia ter a mulher furiosa, do que amedrontada.
- Trunks está interessado na Ana.
- Nani? Isso não tem futuro.
Encolheu os ombros.
Agarrou na mala de cabedal, afrouxou o nó da gravata, soprando.
Disse-lhe que iria despir-se, tomar banho, preparar-se para o jantar. Disse-lhe
também que aquele assunto da rapariga da Dimensão Real estava encerrado.
Disse-lhe ainda que queria passar um serão agradável em família, sem
sobressaltos.
Videl olhou para cima, como se lhe fosse possível ver através do
estuque e do cimento o que se passava no primeiro andar da vivenda. No
silêncio, escutaram o ruído de um chuveiro. Era a filha deles.
- Com esta história toda, esqueci-me do castigo de Pan…
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