Um ar morno afugentou o
torpor que me tolhia o corpo. Amolecida, deixei-me embalar pela sensação
agradável de estar dentro de um sonho, até que as memórias apareceram. Boas e
más e foram estas últimas que me fizeram abrir os olhos. Especialmente a dor da
garra a estrangular-me e a levar-me para dentro de um remoinho escuro.
A sombra de umas mãos
esguias desviou-se de mim. Não reconheci o que via, um céu violeta, artificial.
O calor sumiu-se e ficou o frio do chão de mármore onde me deitava. Voltei a
cabeça para o lado direito, para o dono das mãos que me tinham feito sombra.
Gritei. Era alguém verde. Verde
como uma alface! Mas o que me causou perplexidade foi o facto de eu o conhecer.
- Dende?! – Exclamei.
Sentei-me. Olhei para as minhas
mãos e para os meus braços e gritei outra vez, horrorizada. As calças de ganga,
a sweat azul, os braços, as mãos,
iguais ao céu. Artificiais. Pus-me de pé com um salto aos gritos:
- Sou um desenho animado!
- Acalma-te, Ana-san… onegai shimass.
Dende, em desenho animado,
falava comigo. Voltei o pescoço, da esquerda para a direita. Estava tudo
desenhado, com cores berrantes, sem profundidade, como se o mundo fosse apenas
a duas dimensões. Apertei os braços, o toque era familiar, contudo. De olhos fechados,
era tudo igual.
- Ana-san!
Dende sabia o meu nome.
Calei os gritos.
O corpo estava diferente.
Estava mais leve e tinha a sensação que se me pusesse aos pulos começava a
voar. Tinha ainda um peso esquisito no peito que me tirava o ar. Acho que era medo…
Medo do que podia ter acontecido para me ter transformado num desenho animado.
Medo também de olhar-me a um espelho.
- Compreendo que deves estar
confusa, mas existe uma explicação para estares aqui, connosco.
Abri os olhos, Dende tentava
acalmar-me com um sorriso.
- Onde… é que eu estou?
- Na Dimensão Z.
A minha mente paralisou.
- Sabes o que é a Dimensão
Z? – Perguntou-me.
- “Dragon Ball” – respondi.
Senti-me agoniada e apertei
a barriga. Dende inclinou-se, preocupado. Gracejei:
- Tens de ter paciência
comigo, Dende. Não é todos os dias que me transformo em desenho animado.
Ele não encontrou piada
naquela minha observação.
Então, notei outro pormenor.
Tapei a boca, falei através dos dedos:
- Que língua é esta que
estou a falar? É japonês? Mas eu não sei
falar japonês! E estou a perceber tudo o que me estão a dizer e tudo o que
estou eu a dizer! O que é que se
passa aqui?
- Fizeste uma viagem entre
dimensões. É uma experiência…
- Estranha?
- Violenta. Falo com
conhecimento de causa.
Recordei as palavras de
Gohan a dizer-me que estar no meu mundo era um castigo. Apertei os lábios,
fechei os olhos com força. O sonho não terminava, o que queria dizer que era
real, eu estava mesmo ali, em desenho animado. Leve e confusa e estupidamente
nervosa.
Dende acrescentou:
- Tu conheces-nos a todos,
não é assim?
A voz era calma, suave como
um bálsamo. Queria ajudar-me naquela experiência que classificara de violenta.
- E conheces este sítio –
acrescentou, indicando o lugar com o braço.
Os meus olhos fizeram uma
breve passagem pelos recantos harmoniosos do Palácio Celestial. Era um lugar
encantador, envolvido numa paz absoluta, onde apenas o vento cortava o silêncio
sublime.
Concordei, acenando com a
cabeça.
- Conheces-me a mim, a ele…
- Apontou com um dedo para uma figura parada, ligeiramente atrás de si. Ainda
não me tinha apercebido da presença dele.
- Mr. Popo - balbuciei.
- Mas não conheces aquele
que ali está… pois não?
O dedo passou para um rapaz
que se postava distante. Demarcava-se da cena, afirmando categoricamente que
não pertencia ali. Não exatamente àquele recinto, mas àquela história. Era
jovem, tinha um olhar opaco, uma barreira que o separava dos outros e que o
salvava da contaminação da vulgaridade do mundo. A altivez dele era ofensiva, a
solidão era evidente, a mágoa escondia-se algures naquela alma que se retorcia
inquieta. Fascinou-me, mas infundiu-me receio. Haveria de estabelecer a mesma
distância entre mim e ele que fazia questão de estender entre ele e os outros.
Dende apresentou-mo.
- Chama-se Toynara e é um
sacerdote do Templo da Lua.
- Lua? – Admirei-me. –
Existe um templo dedicado à lua na Dimensão Z? Mas a lua já não existe.
O rapaz irritou-se com a
minha observação. O olhar opaco disparou chispas na minha direção.
- O mestre dele é agora o nosso
maior inimigo e é contra ele que estamos a combater – revelou Dende. – Chama-se
Zephir e é um poderoso feiticeiro. Foi ele que te trouxe para a Dimensão Z.
- O que quer esse feiticeiro
de mim?
- Zephir precisa de ti,
Ana-san.
O meu medo aumentou.
- O… quê?
- E tu precisas de fugir de
Zephir. A magia negra do feiticeiro quer aprisionar-te, fazer de ti uma fiel
servidora do mal. Se isso acontecer, o Universo estará condenado.
A seguir, Dende resumiu o
que estava a acontecer na Dimensão Z e que, a dada altura, se estendeu à minha
dimensão. Haveria de se estender a todas as outras dimensões possíveis, ao
Universo inteiro, se Son Goku não saísse vitorioso. Contou-me que eu fizera a
viagem até à Dimensão Z quando interagira com Trunks, o que me deixara a cara a
arder de tão corada. Contou-me também que contava comigo para lutar contra o
feiticeiro e eu disse que sim, sem saber muito bem com o que concordava, porque
eu não sabia lutar e nem sabia o que podia fazer contra um feiticeiro.
- Onde está Trunks? – Perguntei.
- Depois de te ter deixado
aqui, voltou para o Templo da Lua.
- Foi Trunks que me salvou?
- Hai.
- Ele vai combater?
- Muito provavelmente. –
Sorriu para tranquilizar-me. – Não te preocupes, Ana-san. Ele é um saiya-jin.
- Os saiya-jin também são derrotados. Também…
Não consegui completar.
Morrem, pensei. Dende reforçou o sorriso.
- Vai correr tudo bem.
O vento soprou e mexeu-me
com os cabelos. Encolhi-me com um arrepio de frio. Mr. Popo entregou-me um par
de sapatos de pano e só então reparei que estava só de meias. As minhas
sapatilhas tinham ficado na minha dimensão, recordei. Calcei os sapatos
sorrindo um agradecimento. Mr. Popo perguntou-me se desejava mais alguma coisa.
Abanei a cabeça, respondi que não.
Dende foi até ao bordo do
recinto circular e daí pôs-se a contemplar o mundo, numa pose divina que me
impressionou. Era gentil no trato, mas exibia a dignidade própria de um deus
quando era preciso. Prometi a mim mesma que deixaria de o tratar pelo nome. Soava
a desrespeito. Passaria a tratá-lo por kami-sama,
o ser todo-poderoso daquele mundo. Deus.
Mr. Popo entretinha-se a
jardinar. Percorria os canteiros floridos com um regador, dando água à terra,
sorrindo placidamente.
Olhei para Toynara.
Descobri-o a cismar com as copas das palmeiras que ornamentavam os limites do
recinto. Ao sentir o meu olhar, encarou-me. Não tinha nenhuma expressão no
rosto e fiquei perturbada.
Tinha de dizer alguma coisa.
Perguntei-lhe:
- Estás aqui há muito tempo?
- Nove dias e algumas horas.
- Ah… Contabilizas o tempo
com precisão?
- É importante conhecer o
tempo, o passado e o futuro. Gosto de saber quanto tempo irá passar até voltar
para casa.
- A tua casa é o Templo da
Lua?
- Julgo que o kami-sama já revelou tudo o que
precisavas saber.
- Desculpa se te estou a incomodar.
Pensava que podíamos conversar… Pareces ter a mesma idade que eu. Vinte e dois,
vinte e três?
Não me respondeu.
- És um feiticeiro como
Zephir, não és?
- Julgo que o kami-sama já revelou…
- Muito bem! – Cortei
exasperada. - Já percebi que não queres conversar comigo.
Ignorava-me pomposamente com
o seu silêncio. Fugi dele, afastei-me o mais que pude. Sentei-me no rebordo de
um dos canteiros. Aborrecida, quase amuada e resolvi esquecer os maus modos do
sacerdote importante, porque ele não merecia que me importasse uma pevide com
ele. Entretive-me a ver Mr. Popo e o seu regador. Segui-lhe os movimentos
meticulosos, a leveza com que se deslocava, o amor que dispensava às flores, as
gotas de água que lhes ofertava com enlevo. De vez em quando, pássaros pousavam-lhe
nos ombros.
Nisto, Dende alarmou-se.
- Não!
Mr. Popo perdeu o sorriso
plácido. Pousou o regador no chão, junto ao último canteiro que regara e
aproximou-se de Dende.
- Kami-sama, o que é que se passa?
Dende recuou. Mr. Popo
espreitou as nuvens. O bordão de madeira do Todo-Poderoso foi espetado na minha
direção e o grito fez-me estremecer:
- Toynara, leva-a a contigo
para o Palácio. Rápido!
E foi realmente rápido. Toynara
agarrou-me no braço, com tanta força que me estrangulou a circulação sanguínea.
Correu e eu tentei correr com ele, tropeçando nas pernas, entrámos no edifício.
Consegui reagir, sacudi o braço e ele soltou-me.
- Espera! O que é que está a
acontecer?
- Um dos demónios de Zephir
aproxima-se. Vem por ti.
Gaguejei:
- De-demónios?
- Temos de nos esconder. Vem
comigo.
Segui Toynara, apreensiva.
O interior do Palácio
Celestial era sombrio, mas fresco e incrivelmente sereno. O soalho estava
polido e brilhava como um espelho, colunas esguias sustinham um teto alto e
abobadado. Os salões eram gigantescos e as galerias eram amplas, escondiam nos
recessos mistérios e belezas que não me atrevi a querer conhecer naquela fuga
dramática. Atrás de Toynara escalei uma escadaria de degraus brancos, que se
enrolava até um patamar aberto onde assobiava o vento.
- Sabes por onde estás a ir?
Parou, voltou-se para mim
irritado.
- Estou a proteger-te. Não
me questiones!
Não gostei daquela reação
bruta. Aliás, não gostava daquele Toynara, feiticeiro e sacerdote do Templo da
Lua. Pensei naquilo que realmente o diferenciava de Zephir. Se seria a vontade,
o desejo oculto de se vingar de um mestre que o desiludira, uma genuína alma
boa ou apenas as circunstâncias que o faziam prisioneiro do Palácio Celestial
e, no final de contas, de Son Goku.
Com um gesto seco, mandou-me
parar, antes do patamar.
- Baixa-te, para que não te
vejam.
Agachou-se, agachei-me atrás
dele. Rastejámos pelo patamar, mas a curiosidade mordeu-me. Respirei fundo e
antes que me arrependesse, apoiei as mãos no parapeito colunado e espreitei lá
para baixo.
- O que é que estás a fazer?
– Censurou-me Toynara.
- Quero ver esse demónio –
expliquei a tremer.
Com a cabeça entre duas
colunas vi o que se desenrolava mais adiante, com arrepios, terror, apreensão, sem
apartar o olhar. Um ser monstruoso e gigantesco, de cabelo cor de fogo e pele
transparente, interpelava Dende, com os braços cruzados sobre o peito de
músculos salientes e ameaçadores. Mr. Popo colocava-se ligeiramente atrás de
Dende.
O vento assobiava,
transportava as palavras até mim, trazendo-as fragmentadas, mas perfeitamente
audíveis e estremeci ao perceber que o demónio procurava, efetivamente, por
mim. Escutei:
- …a rapariga? Venho buscar
o que pertence ao meu mestre.
Dende respondeu, mas não
entendi nada, a rajada seguinte levou a voz dele para longe. O demónio riu-se.
Mais palavras.
- …dificultes as coisas. Não
queria destruir esta tua bela casinha para levar a rapariga comigo.
O vento era caprichoso.
Deixava-me ouvir o demónio, calava a voz de deus. Mais uma vez, Dende respondeu
e eu não percebi nada do que ele disse. O demónio ria-se. Toynara insistiu:
- Vamos embora.
Concordei, acenando com a
cabeça. Soltei o parapeito, mas um berro inesperado, fez-me espreitar novamente
entre as duas colunas.
- Mais devagar, demónio!
Exclamei:
- Ten Shin Han!
Toynara reagiu pela primeira
vez como um rapaz normal. O seu espanto era genuíno quando disse:
- Nani? Ele está aqui?
- Conheces Ten Shin Han?
Recompôs-se, pigarreou.
Revelou com relutância:
- Hai. Ele ajudou-me, depois de eu ter lutado contra Zephir.
O demónio voltou-se para Ten
Shin Han, que o enfrentava sem qualquer receio. Sempre fora um lutador
impressionante e admirei-o durante alguns segundos, até que perguntei a
Toynara:
- Lutaste contra Zephir?
- Hai. O resultado dessa
luta é evidente, se estou aqui. Vamos embora. Se o demónio te descobre, é o
fim.
- Mas Zephir é muito
poderoso… Se perdeste…
Toynara zangou-se.
- Eu também sou um
feiticeiro muito poderoso. E hei de conseguir derrotá-lo, com ou sem a ajuda de
Son Goku.
- Com a ajuda dele, vencerás
de certeza.
Mas o auxílio e o sacrifício
de Son Goku e dos seus amigos era um espinho cravado no orgulho daquele jovem
feiticeiro. Não gostei de conhecer mais esse detalhe sobre Toynara, aumentava a
minha descrença e a minha desilusão. Ele puxou-me pela sweat.
- Vamos! Já nos demorámos demasiado
aqui.
O patamar tremeu quando Ten
Shin Han atacou o demónio com um disparo invisível de ki. Fui projetada de encontro à parede oposta do patamar. Toynara
caiu junto às minhas pernas. O combate entre o demónio e Ten Shin Han começava.
Escutei alguns golpes, outro ataque de ki
e o patamar tornou a tremer. Uma luz branca e intensa entrou na galeria e
cegou-me. Tapei os olhos para os proteger. Ainda cega, rastejei até ao outro
extremo do patamar, tentando alcançar a saída. Ouvi Toynara tossir atrás de mim
e depois ouvi-o gritar.
Abri as pálpebras. Havia
pontinhos de todas as cores, como fogo-de-artifício, à medida que a minha visão
estabilizava. Vi um vulto erguido diante de mim, espalmei as omoplatas na
parede. Toynara enfrentava o demónio que tinha entrado no patamar naquele
momento, estraçalhando um punhado de colunas. Havia poeira, lascas de estuque e
pedaços de mármore por todo o lado. Espalmei as omoplatas com mais força,
sustendo a respiração.
Ten Shin Han tinha sido
ultrapassado, Dende não conseguira fazer nada e agora era Toynara quem se enfrentava
ao demónio. Devia ser realmente muito importante que eu não caísse nas mãos de
Zephir. Teria de fugir, mesmo que também Toynara fosse ultrapassado e não
conseguisse fazer nada. Mas Toynara enfrentava o demónio com uma dignidade e
uma coragem incomuns.
O demónio inclinou
ligeiramente a cabeça, descobriu-me atrás de Toynara, sorriu-me. O meu estômago
embrulhou-se. Tateando a parede, buscando apoio nesta, pus-me de pé a tremer.
Alguns momentos de silêncio,
enquanto a poeira assentava, enquanto os adversários se preparavam, enquanto eu
me acalmava. Depois, o demónio ergueu um punho fechado, mas o golpe foi travado
a meio por um feitiço lançado por Toynara.
Olhei para o fim do patamar,
à minha direita, uma abertura arredondada em cima que levava ao interior do
Palácio Celestial. Tentei correr para lá, mas um rugido do demónio travou-me a
corrida.
- Para com essas magias,
feiticeiro! Não me atingem… Sou uma criatura das trevas.
Toynara recuou. Um fumo
negro em fiapos desfez-se a partir dos seus dedos. Eu também recuei. O demónio
desferiu um murro em Toynara que o lançou contra a parede. Gemeu ao cair no
chão do patamar, calou-se, quedou-se inerte, numa posição estranha, como um
monte de trapos.
- Toynara! – Gritei.
O demónio avançou, a sorrir
vitorioso.
- És minha.
Julgo que empalideci de
horror.
Puxou-me pelo pulso do braço
direito. Gritei e ele soltou uma casquinada estrepitosa. Escutei os passos de
Dende a correr pela escadaria acima.
- Ana-san!
O demónio saltou para o
vazio, puxando-me com ele. Por momentos, flutuei no ar, totalmente desamparada,
caindo, o vento assobiando, as gargalhadas do meu captor escarnecendo dos meus
gritos.
O braço grosso do demónio apertou-me
o estômago. Descíamos em queda livre, a atravessar as nuvens negras que
amparavam o Palácio Celestial nos céus. Não aguentei a violência da descida. Sufocada
naquele abraço que me raptava, perdi todas as forças e desmaiei.
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