Se dissesse
que não tinha ficado ligeiramente desiludido, mentia. Zephir nunca julgara que
a pessoa que viesse da Dimensão Real fosse uma vulgar rapariga. Contemplou-a
com a minúcia de quem observa uma obra de arte, decorando-lhe os pormenores, a
habituar-se à ideia de que, apesar de ser uma vulgar rapariga, seria ela quem
lhe daria a glória e o triunfo eternos.
A rapariga
estava inconsciente, suspensa no ar, envolvida numa teia prateada que descia do
teto até ao chão, construída pela sua magia, numa das muitas câmaras sombrias
dos subterrâneos do templo. A cabeça pendia entre os ombros, tinha os braços
levantados, as pernas ligeiramente afastadas.
Zephir ergueu
um braço. A mão esquelética percorreu o espaço diante dela, acariciando o ar. Analisava-a,
enquanto se debatia com um dilema. Iria despertar a prisioneira ou não? Talvez
não… A rapariga estava ligada a Son Goku e aos seus amigos, interagira com um
deles, ser-lhes-ia leal, haveria de combatê-lo, de lhe frustrar os desejos. Semicerrou
os olhos.
- Hum!… Devo ter
cuidado com esta rapariguinha. Não posso permitir que se volte contra mim.
Tenho de pensar num feitiço para que me obedeça cegamente… Preciso do Makai.
Quero ver-te, minha linda, com um M nessa bonita testa e assim já não haverá
dúvidas a quem deves lealdade.
A dúvida de
conseguir enfeitiçar um ser da Dimensão Real fê-lo baixar o braço com um
estremeção. Não tinha a certeza se a sua magia atuaria nela, por isso, o mais
ajuizado seria não correr riscos e mantê-la a dormir, enrolada na teia
prateada, até chegar o momento de utilizar o Medalhão de Mu.
Não conseguia
desviar o olhar da rapariga, contudo. Intrigava-o o que significava interagir e
sabia que ela tinha a resposta. Aproximou-se, fazendo-se acompanhar dos
espíritos da magia. E então, descobriu.
O seu rosto
pálido ganhou alguma cor, quando sorriu, deslumbrado por ter deslindado o mistério.
E a solução era tão simples! Zephir presenciava naquela rapariga a união entre
duas dimensões, entre dois mundos. Do grande se faz pequeno… Do pequeno se faz
grande… A junção de duas células, minúsculas partículas do Universo. A comunhão
de dois lugares distintos, unidos pelo acaso do destino, num ser que começava
timidamente a existir e que haveria de vingar e de crescer.
Isso era
interagir. Dentro dela, palpitava uma nova vida.
- Sensei?
A voz de
Julep acordou-o para a realidade. Encarou o demónio, com altivez, sepultando as
emoções na tumba fria que era o seu coração, exibindo a pose imaculada do Sumo-sacerdote
do templo. Kumis juntou-se ao irmão. Os dois fizeram uma vénia.
-
Chamaste-nos, sensei?
- Hai.
Os kucris
saltitavam pelos subterrâneos, nos seus roncos surdos, a preencher cada canto
do Templo da Lua com a sua medonha presença. Entravam e logo saíam daquela
câmara. O feiticeiro não se incomodava por tê-los perto. O mesmo não se podia
dizer de Julep, que rosnou quando um dos kucris lhe roçou as pernas.
- Onde está
Keilo?
- Foi
treinar-se – respondeu Julep.
O demónio
reparou na teia e, inevitavelmente, na rapariga.
- Sentes
curiosidade em relação a ela?
- Sinto. –
Sorriu com maldade. – Gostaria de saber se sangra como nós.
- Claro que
sangra. Mas não a poderás fazer sangrar, a não ser que eu to ordene.
- Terá medo
de mim?
- Muito
provavelmente.
- Se ela está
aqui, significa que Son Goku voltou.
A câmara
encheu-se. A luz das tochas penduradas na parede tremeu.
- Hai, voltei.
Se ficou
surpreendido, o feiticeiro não o demonstrou. Encarou Goku com naturalidade, com
um laivo de superioridade e de uma incomensurável indiferença. Julep girou sobre
os calcanhares e encontrou-os. Goku, acompanhado de Vegeta, de Trunks e de
Piccolo. Kumis não quis voltar-se. Cruzou os braços, baixou a cabeça e sorriu,
aguçando os sentidos para sentir-lhes os movimentos.
- O que é que
fazes aqui? – Perguntou Julep.
- Venho
acabar o que comecei. – Goku olhou para o feiticeiro. – Disse-te que voltava, Zephir.
Disse-te que a vitória seria sempre minha e nunca tua. Venho cumprir o que
disse.
Trunks descobriu
o que se escondia no meio das sombras, num emaranhado prateado.
- Ana!
Vegeta
agarrou-lhe num braço.
- Não te
precipites – avisou-o.
Zephir respondeu:
- A tua
confiança diverte-me, Son Goku.
Goku sorriu:
- Conhecemos
o que pretendes. E estou aqui para impedir-te que prossigas com os teus planos.
Viemos buscar a rapariga da Dimensão Real.
- E julgas
que vou abrir mão dela, assim tão facilmente? – E soltou uma gargalhada
Piccolo
virava-se para a entrada da câmara, a vigiar a retaguarda. Os kucris
juntavam-se aos magotes nos corredores, guinchando. Preparavam um ataque.
Zephir
indicou a teia prateada, a manga do hábito cinzento ondulou fantasmagoricamente.
- Se dizes
que conheces os meus planos, então saberás o que pretendo fazer com ela… Mas
ela é minha, Son Goku. Minha! E ninguém ma vai tirar.
- Isso é o
que vamos ver! – Berrou Trunks e avançou um passo.
Vegeta
barrou-lhe o caminho.
- Fica
quieto!
Zephir
reparou em Trunks. Lembrou-se do que tinha descoberto sobre interagir, percebeu
que tinha sido o rapaz saiya-jin que
o fizera. Mais um ponto fraco revelado.
- Os kucris
estão a aproximar-se – anunciou Piccolo, a observar os bichos negros que
entupiam a saída e as galerias.
Zephir
completou:
- Para
levares a rapariga, terás de passar pelos meus guerreiros, Son Goku. E depois, por
mim.
- Os teus
guerreiros não me assustam.
A voz de Goku
vibrou na câmara.
Caiu o
silêncio, assentando devagar como um cobertor pesado, preenchendo todos os
cantos, espaços e buracos. Chegava a ser sufocante, juntamente com o calor que
se sentia nos subterrâneos. O feiticeiro escondeu as mãos nas mangas largas e
fixou os olhos terríveis e profundos no seu maior inimigo. Goku arrepiou-se ao
escutar um uivo que vinha das profundezas das rochas que forravam as paredes
daquele lugar.
Os demónios
estavam parados, aguardavam a ordem. Julep voltava-se para eles, Kumis de
costas, a inflar-se de energia.
Vegeta
fartou-se.
- Kuso! Do que é que estamos à espera?
E investiu
contra Julep como se fosse um aríete, esmagando-o contra uma parede. O demónio
grunhiu, não esperava o ataque. Goku disse para Trunks:
- Vai buscar
a rapariga. Rápido!
- Hai!
Piccolo
arremessava a sua pesada capa contra três kucris mais audazes que se tinham
lançado contra ele. Vegeta pontapeou Julep, desfazendo a parede, abrindo um
rombo por onde desapareceram. Goku ergueu um braço, dirigia um disparo para
Zephir, mas a mão de Kumis, que subitamente entrava na contenda, susteve-o.
- Tu vais
ver-te comigo!
Goku sorriu.
- Muito bem,
se assim o queres.
Defendeu os
primeiros golpes do demónio. Um punho de Kumis entrou pela parede adentro,
fazendo saltar rocha e poeira. Goku esgueirou-se pelo rombo por onde tinham
saído Vegeta e Julep e o demónio seguiu-o.
Piccolo
desfez os três kucris com um raio certeiro.
Instintivamente,
Trunks transformou-se em super saiya-jin.
A câmara tremeu com o seu poder. Ficou frente ao feiticeiro que continuava
imóvel, imperturbável, assistindo aos confrontos como se não estivesse a ver
nada, como se dormisse de olhos abertos.
Uma explosão
abanou os subterrâneos. Piccolo envolvia-se numa luta renhida com os kucris,
evitando que os bichos entrassem na câmara, protegendo a eventual via de fuga.
Trunks
enfrentava Zephir sozinho. Cerrou os dentes, sentiu o pulsar do sangue na
testa. Aquele ente maligno já o tinha comandado uma vez e odiava-o por esse
facto que o envergonhava. O feiticeiro não se mexia e a sua apatia era
assustadora, era como se ali não estivesse um ser vivo, mas um espírito informe
do Outro Mundo vestindo aquele hábito cinzento.
Atrás do
feiticeiro estava o emaranhado de fios brancos e brilhantes e, no meio dos
fios, a Ana, sem sentidos, indefesa, alheia ao perigo que corria. Trunks não
podia falhar. Concentrou-se, envolveu-se pela luz da sua própria energia, a
câmara voltou a tremer. E depois, atacou.
- Estava a
tentar recordar-me de ti… Agora, já sei quem tu és.
A voz
monótona de Zephir fê-lo travar o ataque.
- Tu já foste
meu, saiya-jin.
Um arrepio
gelado desceu-lhe pela espinha.
- Foste tu que me deste o sangue de amizade.
Enfureceu-se,
fechou o punho, as faíscas saltaram entre os dedos fechados.
- E deste-me
também a rapariga da Dimensão Real. Foste tu
que interagiste com ela. A tua ajuda tem sido preciosa e julgo que te devo um
agradecimento pelos teus préstimos.
- Cála-te!
Piccolo
gritou, desfazendo um bando de kucris com um raio amarelo que lhe saiu de ambas
as mãos.
O feiticeiro
sorriu.
- Se já foste
meu… poderás voltar a sê-lo.
- Não irei
cair novamente nas tuas estúpidas armadilhas.
- Veremos!
Com um gesto
brusco, Zephir ergueu os dois braços. Trunks recuou um passo. Um tremor de
terra sacudia tudo em redor, lançando pó e fazendo chover pequenas pedras,
caídas do teto rochoso que se fendia. Aquela câmara estava a ficar demasiado
instável e ameaçava desmoronar-se. Não podia perder mais tempo. Utilizaria a
supervelocidade para salvá-la. Antes de o feiticeiro perceber o que tinha
acontecido, já ele estaria no exterior, com a Ana nos braços.
Uma
gargalhada de Zephir deixou-o estarrecido. Esfregou os olhos, para assegurar-se
que estava a ver bem. Em vez de uma teia prateada com uma Ana, havia milhares
de teias prateadas com milhares de Anas. A câmara tinha ganho abruptamente uma
fundura incrível e perdia-se na escuridão. As paredes rochosas estavam forradas
de teias com Anas. O feiticeiro desaparecera, entretanto, mas a sua voz
continuava ali.
- E agora, saiya-jin? Qual delas é a rapariga
verdadeira?
Arquejou, perplexo,
sem saber o que fazer a seguir, se correr, se andar. Correr para a primeira
teia e descobrir à bruta qual era a verdadeira ou andar pelo meio destas e
escolher com paciência a que correspondia à teia certa.
- O tempo
esgota-se, saiya-jin. E quando o
tempo se esgotar, vou-me embora e levo a rapariga comigo.
- Mas… eu não
sei…
Sentiu os
braços apertados entre duas mãos fortes que o abanaram, fazendo chocalhar o
cérebro dentro da cabeça. Sentiu a boca rebentar-se com um soco, o sangue entre
os dentes. Teve a sensação esquisita de regressar de muito longe, colar uma
cópia transparente, feita de acetato, ao corpo que estava naquela câmara dos
subterrâneos do Templo da Lua. Ouviu o berro de Piccolo nos ouvidos:
- Desperta, baka! Não te deixes enfeitiçar!
Empurrou
furioso o namekusei-jin.
- Eu não
estou enfeitiçado.
- Estás a
cair no jogo do feiticeiro e dizes-me que não estás enfeitiçado?
Piccolo
apanhou-lhe o queixo, apertou-o entre a manápula verde, sentiu as unhas
compridas a arranharem-lhe a cara.
- O que é que
estás a ver ali? Diz-me!
Trunks
respondeu entre dentes:
- A teia com
a rapariga da Dim…
- Quantas
teias? – Cortou Piccolo.
Relutante,
respondeu:
- Muitas…
Demasiadas.
- Esse é o jogo do feiticeiro. Não o
jogues… Mantém a mente lúcida.
Soltou-lhe o
queixo, Piccolo voltou-se novamente para a entrada da câmara onde mais kucris
se juntavam, enlouquecidos e ameaçadores, grunhindo antes de se agruparem em
pequenos bandos para atacarem.
Trunks estava
ofegante. As teias eram aos milhares.
- Procura
pela aura dela. De certeza que a conseguirás encontrar.
- Hai.
Limpou o fio
de sangue dos lábios, fixando a ilusão, decidido a quebrá-la.
As
gargalhadas de Zephir reverberavam pela câmara, sobrepondo-se numa cascata
insuportável, crescendo de tom, ondulando como se fossem uma maré de
gargalhadas. Trunks concentrava-se, procurava pela alma dela. Alcançá-la…
Tocá-la… Ela estava perto, sempre o estivera.
Zephir
reapareceu. Não apenas num canto obscuro, mas em todos os cantos. Milhares de
feiticeiros, como os milhares de teias, como os milhares de Anas. Trunks não se
deixou envolver no feitiço. Utilizou a sensação de há pouco de se ter unido a
si próprio. Descolou o acetato, enviou-o como escudo, entregou-o aos espíritos
famintos que o feiticeiro comandava e que o raptavam da realidade.
Com um salto
e um grito impregnados de raiva, estendeu os braços, alcançou uma teia
prateada. As mãos agarraram num corpo, sólido, morno. Um corpo que conhecia bem,
as curvas, os pequenos segredos. Fora apenas uma vez, mas depois dessa vez era
como se a tivesse conhecido desde sempre.
Olhou para
baixo, para o que segurava entre os braços. Encontrou o rosto adormecido dela. No
ar que os rodeava havia uma chuva prateada, a teia mágica que quebrara.
A escuridão
entremeada pela luz trémula das tochas regressou à câmara. As outras teias e as
outras Anas e os outros feiticeiros desfizeram-se em rolos de fumo cinzento. Trunks
apertou a Ana contra ele.
-
Piccolo-san. Já a tenho!
Piccolo
exibiu os dentes, num esgar.
- Ótimo! Leva-a
para o Palácio Celestial e depois volta para cá.
- Tenho de
voltar? Deveria ficar com ela e protegê-la. O feiticeiro quererá recuperá-la.
- Escuta,
miúdo. Vais ser mais útil aqui, acredita. Son e Vegeta estão a lutar contra os
dois demónios, eu estou entretido em fritar estes bichos irritantes, mas o saiya-jin de Zephir aproxima-se
rapidamente. E quando Keilo aparecer, vamos precisar de toda a ajuda possível.
Focou a sua
atenção nas sombras dos corredores. Mais kucris estavam a chegar.
- Vai
depressa para voltares depressa. Talvez consigamos resolver este assunto ainda
hoje.
Trunks acenou
que sim com a cabeça.
Com o corpo
inanimado da Ana entre os braços, saiu daquele lugar que detestava com a intenção
de voltar.
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