A esfera protetora
que criara para lhe envolver o corpo sumiu-se com um silvo. Os últimos raios
amarelos de Keilo desfizeram-se inofensivos na atmosfera. Uma vitória insignificante,
mas que fez Goku sorrir. Keilo cansara-se. Baixava os braços, recuperando a
postura, apelando às suas reservas de energia, fingindo que não ficara afetado.
O combate
estava a ser interessante, diferente da primeira vez que se tinham encontrado.
Goku começava a conhecer as manhas de Keilo, os pequenos truques que lhe davam
a supremacia. Movia-se com cautela, deixava o outro atacar, quando atacava
tinha a defesa preparada, analisava os erros, tentava prever as situações,
antecipava as decisões do outro, não desperdiçava energia em exibições,
prosseguia calculista, retraindo-se, provocando, mostrando o jogo e
escondendo-o a seguir.
Outra
vantagem conseguida tinha sido a temporada que passara a habituar-se ao corpo
pesado da Dimensão Real. Dera-lhe força, agilidade, confiança, paciência. Keilo
estava confuso, porque esperava o mesmo Goku que tinha encontrado antes.
O saiya-jin deitou a cabeça para trás a
rir-se. Goku apagou o sorriso.
- O que foi?
- Pensas que
podes acabar comigo facilmente, Kakaroto? Estás tão iludido!
- Tu também
tens ilusões a meu respeito.
- Não estou a
lutar com todo o meu poder. – Apontou-lhe um dedo e acrescentou agastado: – Nem
tu me mostraste todo o teu poder! Do que é que estás à espera?
Não o queria
desinteressado no combate, pensou Goku. Poderia tornar-se demasiado
imprevisível e irascível, pois no temperamento impaciente fazia lembrar o
Vegeta dos tempos antigos. Então, dispôs-se a realizar uma pequena exibição.
Criou uma
bola branca com uma mão, que elevou acima da cabeça. Esta faiscou e, quando
ganhou o volume adequado, desprendeu-se e voou a deixar um rasto brilhante, a
sibilar como um foguete de feira. Keilo desapareceu e foi aparecer mais em cima,
fintando a bola.
- Esse
ataque? Isso é coisa de principiante!
A bola
descreveu uma curva. Keilo rangeu os dentes, concentrando energia, percebendo
que o ataque não fora tão ingénuo como parecera. Saiu disparado, voando em
linhas retas, descrevendo ângulos apertados, para escapar da bola que o
perseguia sem abrandar a velocidade. Goku contemplava o voo estonteante do saiya-jin e da bola que comandava com o
seu ki, os dois, presa e predador,
ziguezagueando entre as nuvens. Por vezes, a distância encurtava, quase tocando-se,
quase a rebentar nesse toque. Outras vezes, ficavam tão apartados que havia a
impressão que a bola iria desorientar-se e perder-se no vazio.
Keilo parou e
enfrentou a bola, que assobiava rápida e mortífera na sua direção. No instante
em que o embate parecia inevitável, sumiu-se. A bola continuou a direito,
travou, fez o percurso inverso. Keilo apareceu mais acima, esquivou outra vez o
ataque energético.
Seguiu-se uma
sucessão de aparecimentos e de desaparecimentos, o saiya-jin tentando, desta maneira, enganar a bola, a bola nunca
desistindo de o caçar, alimentada pela perseverança de Goku. Quando percebeu um
movimento hesitante, por apenas um centésimo de segundo, aproveitou-o. Utilizou
a Shunkan Idou, surpreendeu Keilo ao
colar-se nas costas dele. Este voltou-se, espantado por vê-lo ali perto, quase
à mercê da própria bola que comandava.
- Nani?!
Goku
pontapeou Keilo, precipitou-o para cima da bola de energia. A explosão engoliu
tudo numa nuvem de brilho e de fumo.
Depois, veio
a calma, um silêncio artificial, os sons emudecidos porque ficavam do outro
lado da tela onde se projetava o filme daquele combate. Keilo lançou um berro,
abrindo braços e pernas, fazendo tremer a terra e vergar as copas das árvores
da floresta próxima. Tinha perdido bastante energia com aquele ataque e não
gostara. Goku inspirou uma grande porção de ar fresco, preparando-se para a
retaliação.
Que não
tardou. Keilo atingiu-o com um violento soco, que veio tão rápido e inesperado
que não conseguiu evitá-lo. Goku engasgou-se com a dor, o sangue encheu-lhe a
boca. Apanhou com uma sucessão de golpes que lhe massacrou o corpo, com a
persistência de um martelo pneumático. Quando sentiu uma nesga de alívio, olhou
para cima e só teve tempo de se proteger com os braços, recebendo em cheio com
um raio vermelho que lhe explodiu em cima.
O combate
recrudescia. Goku atacou, Keilo também atacou. Trocaram disparos energéticos,
murros e pontapés. A energia de ambos diminuía, mas nenhum queria desistir,
apesar de sentirem as mesmas dores, apesar de estarem os dois a sangrar e de
terem os músculos estirados, os ossos fatigados.
Embrulharam-se
numa luta corpo-a-corpo. Golpes faiscando, ressoando, descrevendo um bailado
mortífero na atmosfera. Separaram-se repentinamente. Keilo riu-se alto,
disfarçando o cansaço e a frustração.
- Kakaroto!
Gosto de lutar contigo. Divertes-me.
Goku riu-se
também, apesar de estar agoniado. Tinha perdido muita energia.
- E como
estás a divertir-me, vou mostrar-te o meu verdadeiro poder.
O estômago de
Goku deu um nó, mas não deixou de sorrir e atirou:
- Estou
ansioso para ver esse teu poder lendário.
Os dois saiya-jin entreolharam-se, suspensos no vazio,
por cima do lago.
Keilo limpou
a boca com as costas da mão. Respirou fundo, fechou os olhos.
Um ruído surdo
cresceu nas entranhas da terra. Rolando, como uma avalancha nas profundezas,
foi aumentando de tom, de forma, revelando-se num monstro. Um sismo gigantesco
estendeu-se daquele lugar até ao planeta inteiro. Tudo tremia, chão, ar,
firmamento, água. No centro do cataclismo estava Keilo, o corpo encolhido,
concentrando poder, atraindo a si a energia do mundo, como um íman gigantesco.
Soltou um bramido ensurdecedor, potente,
infinito.
Gritava sem
parar, fundindo o grito com o sismo.
O planeta
continuava a tremer e Keilo reunia um ki
monumental. As veias na testa e no pescoço pulsando, os punhos ferozmente
apertados. Atirou a cabeça para trás, como se o peso fosse insuportável. Os
cabelos começaram a crescer, compactos, volumosos.
Um relâmpago fendeu
o cenário. Goku protegeu o rosto com os braços.
Depois,
terminava o sismo, terminava o grito.
Goku destapou
o rosto.
O corpo de
Keilo cintilava com toda a energia acumulada. Os cabelos loiros caíam em
grandes cachos pelas costas, as feições estavam esbatidas, mais graves.
Goku
gaguejou:
- Ma… sa… ka.
Ouviu-lhe a
voz profunda:
-
Surpreendido, Kakaroto?
Keilo tinha
acabado de se transformar em super
saiya-jin, nível três.
Goku engoliu
em seco, todo ele se arrepanhou com um calafrio. Keilo exibia-se mais altivo,
mais poderoso, mais assustador que nunca. Keilo, o super saiya-jin, nível três.
- O jogo
terminou. Chegou a tua última hora, Kakaroto.
De facto, o
jogo tinha terminado. Nada de dissimulações, a verdade nua e crua deveria subir
à tona. E a certeza que teria de o eliminar, tal como havia dito a Vegeta na
Dimensão Real, ganhou ainda mais solidez.
Espreitou o
Templo da Lua. Vegeta ainda ali estava, lutando contra Julep. E também Piccolo,
que se desfazia de kucris, Kumis rondando-o. Havia mais alguém a combater esses
bichos, estremeceu ao reconhecer a aura. E Trunks vinha a caminho.
Nada de
distrações. Por todos eles e por todo o Universo, muniu-se de toda a sua
concentração e também se transformou em super
saiya-jin, nível três. A comoção que provocou foi similar, mas não se
deteve em detalhes. Nem sequer se interessou em ver que cara punha o seu
adversário. Não estava ali para o surpreender, somente para o eliminar.
Goku calou o
grito, sossegou o interior inquieto pela força tremenda que o inundava. E
entregou-se, mais uma vez, sem dúvidas ou receios, ao combate.
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