O mar estava sossegado,
manso como um lago. Um tapete cinzento a refletir o céu da mesma cor, as duas
realidades, mar e céu, unindo-se no horizonte longínquo num abraço indistinto.
Observava o mar e fazia-o há muito tempo, horas a fio, naquela tarde de sábado.
Depois de ter tentado comer uma sandes, a fingir que era o almoço, estacionara
o automóvel no parque da praia, junto ao pequeno muro onde começava a areia e
deixara-me ficar hipnotizada pelo mar, as ondas preguiçosas a estenderem-se
pelo areal, largando conchas e pedras redondas como recordações efémeras,
roubadas pela onda seguinte, invejosa e destruidora.
Sentia-me
vazia, incompleta e culpada por aquilo que tinha acontecido na noite anterior
entre mim e o André. Não fora capaz de me despedir com uma explicação,
deixara-me simplesmente ficar especada no passeio à espera de nada. Acabara com
ele de uma maneira reles, criando entre nós um abismo cheio de equívocos e de
mágoas. Devia ter contado a verdade, revelado que estava apaixonada por outro.
E o André haveria de me perguntar, “eu conheço?”, eu responderia envergonhada
“só se conheceres Dragon Ball” e ele haveria de exclamar “um desenho animado?”
e eu haveria de corar e de tentar refutar com “mas ele existe, ele está aqui” e
ele haveria de se rir na minha cara e eu haveria de sair da vida dele para
sempre e jurar que nunca mais o queria ver e o resultado haveria de ser o
mesmo, na praia, a ver o mar cinzento durante um tempo infinito. Só que sem o
abismo de equívocos e de mágoas.
Naquele
momento, tomei uma decisão. Era um desenho animado, certo, mas enquanto
existisse no mesmo plano físico, quer se chamasse Tiago, espanhol, Trunks ou
outra coisa qualquer, eu haveria de viver aquela fantasia até ao fim,
absorvendo todas as pequenas dádivas, efémeras como as conchas e as pedras
redondas trazidas pelas ondas. Cheia de coragem, mas com a mão a tremer, rodei
a chave e liguei o motor do automóvel. Abandonei o mar e a sensação de vazio
que me dava, amplificando o abismo dos equívocos e das mágoas, e dirigi-me para
a urbanização das Gambelas. Estacionei o automóvel. O coração batia no peito e
na cabeça, o som de um lado ecoando no outro. Fiquei sentada mais de dez
minutos, a decidir-me se iria sair, se deveria sair, se conseguiria sair, se
sairia mesmo.
Saí. Abri a
cancela baixa, percorri o curto caminho empedrado que cortava o jardim, subi os
degraus, parei, olhei para o botão dourado da campainha. O silêncio
envolvia-me, acalmando o coração, o som e o eco. Mais alguns minutos se
passaram.
Num impulso,
agi e pressionei o botão dourado. Calquei-o o tempo suficiente para a campainha
soar durante três segundos, com o timbre de um sino. Passei a mão pelos cabelos,
puxei as fraldas da camisa por cima das calças de ganga, abri e fechei as mãos.
Estava nervosa.
Soaram passos
no interior. A porta abriu-se. Fiquei muito direita, igual a uma estátua. Apareceu
o rosto de Trunks na nesga de espaço formada entre a ombreira e a porta.
- Koniichi-wa… Trunks.
- Koniichi-wa, Ana.
Manteve a
nesga, tão estreita que só cabia parte do rosto, um olho e metade do outro, a
boca crispada, avaliando a minha presença ali, se deveria conceder-me passagem
ou não, debatendo-se num dilema quase irresolúvel.
Recuei um
passo.
- Desculpa.
Não devia ter vindo.
- Espera!
Escancarou a
porta.
- Entra.
Hesitei. Pela
sua expressão tensa percebi que o dilema continuava irresolúvel, mas que tinha
tomado uma decisão. Reparei no hematoma roxo em redor do olho esquerdo,
consequência do murro que tinha levado na noite anterior. E como se lesse os
meus pensamentos, explicou:
- Não te
preocupes. O meu pai não está em casa.
Gracejei,
sentindo uma pedra no estômago:
- Mas eu não
tenho medo do teu pai, é ele que tem medo de mim. Lembras-te?
Vi-o
esforçar-se para reagir à minha piada com um sorriso, só que o dilema
irresolúvel impedia-o de quebrar a máscara afivelada àquele rosto angelical.
Mas se ele estava tenso, eu também estava. Se me perguntasse o que fazia eu
ali, não lhe saberia responder e fiquei aliviada por ele não ter feito a
pergunta.
Fechou a
porta atrás de mim e pediu-me que o seguisse. Reparei que estava sem sapatos,
calçava meias escuras, vestia umas calças de fato de treino e uma sweat azul decorada com letras garrafais
em tons de verde. Ele reforçou a afirmação de há pouco, para me tranquilizar:
- Só estou eu
em casa. Saíram todos, foram passear até à cidade. Ficaremos à vontade.
- Está bem.
Subiu a
escadaria que levava ao primeiro piso da vivenda, subi atrás dele. No corredor
comecei a escutar o som de uma canção abafado pelas paredes e ele explicou
quando alcançámos a entrada do quarto dele:
- Estava a
descansar enquanto ouvia música. Nunca pensaste que passasse uma tarde de
sábado de uma forma tão aborrecida, pois não?
- Ouvir
música não é uma coisa aborrecida.
- Tendo em
consideração a minha reputação…
- Que
reputação?
Ele disse
satisfeito:
- Ainda bem
que me tens em alta estima.
- Desde que
deixaste de ser “o espanhol”… sabes muito bem que sim.
Entrámos no
quarto dele. Sentei-me na ponta da cama, ele sentou-se no chão junto à
aparelhagem posta num canto, entre a esquina de uma parede onde se acumulavam
revistas e uma estante desorganizada. Um mar de cassetes áudio coloridas
espalhava-se perto da aparelhagem. Noutra parede reparei na cómoda
desconjuntada.
- Estavas
zangado?
- Hum?
Apontei
timidamente para a cómoda.
- Ah… Aquilo.
Sim, muito zangado.
- E costumas
descarregar na mobília?
- Quando não
o posso fazer em alguém…
Olhou para
mim por cima do ombro, pela primeira vez com um sorriso genuíno. A música tinha
terminado.
- Admirada?
- Não.
Afinal, tens sangue saiya-jin.
Voltou-se
para a aparelhagem, agarrou numa cassete, abriu e fechou a caixa.
- É estranho
ouvir-te dizer isso.
- É estranho estar
aqui contigo, a ouvir…
Começou outra
música. Desatei a rir.
- O que foi? –
Perguntou admirado.
- Essa
música.
- O que é que
tem?
- É música
dos anos sessenta! – Exclamei divertida.
- Não gostas?
As paredes do
quarto vibravam com um rock ‘n roll
de Chuck Berry chamado “Sweet Little Sixteen”.
- Gosto…
Gosto bastante. Mas não imaginava que ouvisses este tipo de música. Pelo teu
estilo, és mais… Quando usavas o cabelo comprido, apostava mais num rapaz do grunge.
Voltou-se
para mim, com um sobrolho franzido.
- Não estás a
perceber o que te estou a dizer, pois não?
- Não… As
minhas referências são diferentes das tuas. Somos de mundos diferentes.
A lembrança
de que tudo não passava de uma fantasia atingiu-me inesperadamente. Inspirei
fundo, querendo prolongar aquele instante em que estava no quarto dele, a ouvir
música que não tinha nada a ver com o estilo dele, ou o que quer que ele era no
meu mundo.
O timbre
jovial da voz de Chuck Berry regenerava, lentamente, o ambiente entre nós.
- Pois… -
escutei-me a dizer, sem saber bem o que devia dizer a seguir.
Ele percebeu
o meu embaraço.
- Estas
cassetes eram, supostamente, da minha mãe. Encontrei-as na arrecadação da casa,
arrumadas numa caixa. Fiquei curioso e pus-me a ouvi-las. – Acrescentou com
simpatia, queria agradar-me: – Também gosto desta música.
- Acho que
faz algum sentido as cassetes serem da tua mãe. Nos anos sessenta, Bulma seria
uma rapariga nova. – Meneei a cabeça. – Não a consigo imaginar a gravar estas
músicas nas cassetes, a ouvi-las, no meio do flower power e tudo isso.
Voltou a
franzir o sobrolho. Estava a fazer figura de idiota e calei-me.
Parou a
cassete que estava a tocar, interrompendo o refrão de Chuck Berry. Retirou a
cassete, colocou outra. A música mudou para sonoridades mais suaves e românticas.
Senti um arrepio. Tentava seduzir-me, ou escolhera aleatoriamente. Fiquei-me
pela segunda hipótese, afinal ele não conhecia o conteúdo das cassetes, nunca
as escutara, não saberia distingui-las pelos títulos.
As Shirelles cantavam “Will You Still Love Me
Tomorrow”. Ele
sentou-se na cama, ao meu lado, de costas para mim.
“Is this a
lasting treasure
Or
just a moment’s pleasure?
Can
I believe the magic of your sights?”
Os ombros
dele tremiam. Esforçava-se por superar o nó na garganta que impedia a voz de
surgir, as palavras de aparecer. Começou num sussurro:
- Son Goten…
Aguardei no
curto silêncio melodioso das Shirelles.
- Queres
saber por que razão Son Goten não está na tua dimensão? Ele não veio connosco…
Não podia. Eu matei-o.
A revelação
foi como uma bofetada.
- O quê? O
que foi que disseste?
- Eu matei
Son Goten, Ana… Matei o meu melhor amigo.
Os ombros
dele continuavam a tremer. Começou a fungar. Chorava, como naquela noite no
carro dele, no meio da serra e compreendi que me contava exatamente a mesma
coisa, mas agora de maneira que eu o percebesse. Agarrei-lhe nos ombros,
encostei a cabeça nas costas dele, abracei-o toscamente para tentar consolá-lo.
Sentia a angústia em cada lágrima, a dor esmagadora e corrosiva que o desfazia
por dentro.
- De certeza
que foi um acidente – disse eu.
- Mesmo que
tivesse sido um acidente… O mal está feito. Derramei o sangue de Son Goten e
amaldiçoei-nos a todos.
- Haverá uma
maneira de desfazer o mal.
- Talvez…
- As bolas de
dragão poderão devolver a vida a Son Goten.
- As bolas de
dragão estão na Dimensão Z.
- E tu vais
regressar à Dimensão Z. Não acreditas nisso?
Ele abanou a
cabeça. Eu estreitei o abraço.
A canção das
Shirelles terminou e entraram as Ronettes, com “Be My Baby”.
“The night we
met
I knew
I needed you so.
And
if I ever had the chance
I’d
never let you go”
- Deves
acreditar.
- Porquê?
- Mesmo que o
inimigo pareça demasiado poderoso, Son Goku consegue sempre derrotá-lo. Devias
saber isso, sem qualquer sombra de dúvida.
- E tu devias
saber isso? – Limpou o nariz com a mão.
- “Dragon
Ball” – respondi.
- As bolas de
dragão – traduziu.
- Sim, são a
resposta.
Inclinou a
cabeça para trás, encostou-a na minha. Deixei-me ficar na delícia daquela
proximidade, abraçada a ele, a ouvir as Ronettes a cantar:
“Be my baby now
My
one and only baby”
- Então,
assim, já conheço os teus segredos. Espero que não me mates a seguir, como
sempre me disseste que o farias se me contasses os teus segredos.
- Acho que,
desta vez, irei atingir a estante, para descarregar a minha fúria.
- Estás a
falar a sério?
- Nem penses
que conheces todos os meus segredos.
- Há mais?
- Hai… - Hesitou. Revelou acanhado: –
Quando era mais pequeno, fazia xixi na cama.
- Estás a
falar a sério? – Tornei.
- Bem, agora
sim. Conheces todos os meus segredos.
Um encantamento
perigoso, um feitiço de contornos esbatidos. O jogo estava escondido de
propósito, para que a armadilha não fosse inteiramente visível. Mas eu não
queria saber de mais nada a não ser do calor dele, de como era real e de como estava
comigo, numa tarde inesquecível de sábado que começara com a contemplação de um
mar cinzento, onde afogava, um por um, os equívocos, onde mergulhava, uma por
uma, as mágoas.
O intervalo
mudo entre as canções fez-me estremecer. Entraram os Beatles a cantar “This
Boy”. Trunks encarou-me sério.
- Ensinas-me
a dançar?
Agarrou-me na
mão e levantámo-nos. Concordei, inclinando a cabeça ao de leve.
Se estávamos
a ouvir músicas dos anos sessenta, iríamos dançar decentemente, como se
estivéssemos nos anos sessenta. Ajeitei o braço dele na minha cintura, levantei
o outro braço onde apoiei a minha mão direita, abri espaço entre nós. Olhei
para ele e começámos a arrastar os pés pelo chão, ao ritmo da canção,
embalando-nos mutuamente, fingindo que dançávamos.
Trunks colou
a cara à minha, sentia a respiração dele no meu ouvido. Acabou com o espaço que
existia entre nós, encostou-se ao meu corpo e continuámos a dançar.
“Oh!,
and this boy would be happy
Just to love you”
Nos braços de
Trunks, acreditei piamente na voz rouca de John Lennon. E aquele pedaço de
tempo foi eterno.
O cheiro dele
entontecia-me, o calor dele derretia-me. Rendia-me incondicionalmente e
entregava-me sem qualquer dúvida.
A canção
terminou, mas continuámos a dançar, mesmo no intervalo mudo entre as canções.
- Ana-san –
arfou no meu ouvido.
- S-sim…?
De repente,
ele parou e eu também. Começou outra canção. Não consegui escutá-la. O nariz de
Trunks roçou no meu, senti um sopro do hálito dele, a tentar-me para viajar
para planetas inexplorados. Já não podia voltar atrás, não queria.
Concentrava-me nos lábios húmidos, perto dos meus. Abri ligeiramente a boca. Beijou-me.
Explodi num
fogo-de-artifício colorido!
Deitou-me na
cama, beijando-me sempre. Não me conseguia mexer, estava paralisada de terror
porque não fazia ideia de como reagir perante aquela situação inédita. Puxou-me
a camisa, abriu-a com um safanão. Ouvi os botões saltitarem no soalho de
madeira envernizada. A minha pele arrepiou-se. As mãos dele apalparam-me os
seios e sustive a respiração.
Por todos os
santos e por todos os demónios, aquilo estava mesmo a acontecer!
Começou a
beijar-me a barriga, gemendo suavemente, disparando choques elétricos por todo
o meu corpo. As mãos mantinham-se nos meus seios, o tecido do soutien não era barreira que valesse
para disfarçar o calor das mãos dele. Depois dos beijos, era agora a língua que
me explorava a derme, enchendo-a de saliva e de arrepios. Fiquei tensa,
endurecendo todos os músculos, petrificada como se tivesse sido atingida pelo
olhar mortífero da mitológica Medusa.
Parou de me
lamber a barriga. Através da franja desalinhada, olhou para mim, inclinando ligeiramente
a cabeça para a esquerda. Perguntou:
- O que é que
se passa?
Gaguejei
acanhada:
- Eu não…
Nunca… Eu nunca estive… Não…
Ele deitou o corpo
musculado sobre o meu, o peso dele deixou-me ofegante. Fixou aqueles belos olhos
azuis no meu rosto.
- É a tua
primeira vez?
- Sim. Estou
um bocado nervosa, pois isto é uma grande nov…
Colou os lábios aos meus para me calar.
- Chiu.
Sorriu com
candura.
- Confias em
mim?
Entre duas
inspirações, respondi:
- Sim.
- Então, não
tenhas medo. Cuidarei bem de ti.
Depois,
beijou-me docemente, saboreando a minha boca, deixando que me perdesse na boca
dele. Sentou-se, puxou por mim e sentei-me de frente para ele. Despiu a sweat e ao vê-lo despido, um corpo
perfeitamente desenhado, fez-me corar. Agarrou nas minhas mãos, pousou-as no seu
peito. Começou a beijar-me o pescoço e fiquei tonta. Tentou desapertar-me o soutien, mas os dedos, ágeis em calcar
nos meus pontos sensíveis, não conseguiram dar com a maneira de abrir o fecho.
- Ajuda-me
aqui…
Ri-me. Levei
as mãos às costas, desapertei o soutien.
Ele olhava-me com uma paixão irradiante. Trocámos mais beijos, ele segurava na
minha nuca. Adorei sentir a sua mão na minha nuca.
Suspirei o
nome dele:
- Trunks…
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