16 de dezembro de 2012

Capítulo X - X.4 A dança do destino.


O mar estava sossegado, manso como um lago. Um tapete cinzento a refletir o céu da mesma cor, as duas realidades, mar e céu, unindo-se no horizonte longínquo num abraço indistinto. Observava o mar e fazia-o há muito tempo, horas a fio, naquela tarde de sábado. Depois de ter tentado comer uma sandes, a fingir que era o almoço, estacionara o automóvel no parque da praia, junto ao pequeno muro onde começava a areia e deixara-me ficar hipnotizada pelo mar, as ondas preguiçosas a estenderem-se pelo areal, largando conchas e pedras redondas como recordações efémeras, roubadas pela onda seguinte, invejosa e destruidora.
Sentia-me vazia, incompleta e culpada por aquilo que tinha acontecido na noite anterior entre mim e o André. Não fora capaz de me despedir com uma explicação, deixara-me simplesmente ficar especada no passeio à espera de nada. Acabara com ele de uma maneira reles, criando entre nós um abismo cheio de equívocos e de mágoas. Devia ter contado a verdade, revelado que estava apaixonada por outro. E o André haveria de me perguntar, “eu conheço?”, eu responderia envergonhada “só se conheceres Dragon Ball” e ele haveria de exclamar “um desenho animado?” e eu haveria de corar e de tentar refutar com “mas ele existe, ele está aqui” e ele haveria de se rir na minha cara e eu haveria de sair da vida dele para sempre e jurar que nunca mais o queria ver e o resultado haveria de ser o mesmo, na praia, a ver o mar cinzento durante um tempo infinito. Só que sem o abismo de equívocos e de mágoas.
Naquele momento, tomei uma decisão. Era um desenho animado, certo, mas enquanto existisse no mesmo plano físico, quer se chamasse Tiago, espanhol, Trunks ou outra coisa qualquer, eu haveria de viver aquela fantasia até ao fim, absorvendo todas as pequenas dádivas, efémeras como as conchas e as pedras redondas trazidas pelas ondas. Cheia de coragem, mas com a mão a tremer, rodei a chave e liguei o motor do automóvel. Abandonei o mar e a sensação de vazio que me dava, amplificando o abismo dos equívocos e das mágoas, e dirigi-me para a urbanização das Gambelas. Estacionei o automóvel. O coração batia no peito e na cabeça, o som de um lado ecoando no outro. Fiquei sentada mais de dez minutos, a decidir-me se iria sair, se deveria sair, se conseguiria sair, se sairia mesmo.
Saí. Abri a cancela baixa, percorri o curto caminho empedrado que cortava o jardim, subi os degraus, parei, olhei para o botão dourado da campainha. O silêncio envolvia-me, acalmando o coração, o som e o eco. Mais alguns minutos se passaram.
Num impulso, agi e pressionei o botão dourado. Calquei-o o tempo suficiente para a campainha soar durante três segundos, com o timbre de um sino. Passei a mão pelos cabelos, puxei as fraldas da camisa por cima das calças de ganga, abri e fechei as mãos. Estava nervosa.
Soaram passos no interior. A porta abriu-se. Fiquei muito direita, igual a uma estátua. Apareceu o rosto de Trunks na nesga de espaço formada entre a ombreira e a porta.
- Koniichi-wa… Trunks.
- Koniichi-wa, Ana.
Manteve a nesga, tão estreita que só cabia parte do rosto, um olho e metade do outro, a boca crispada, avaliando a minha presença ali, se deveria conceder-me passagem ou não, debatendo-se num dilema quase irresolúvel.
Recuei um passo.
- Desculpa. Não devia ter vindo.
- Espera!
Escancarou a porta.
- Entra.
Hesitei. Pela sua expressão tensa percebi que o dilema continuava irresolúvel, mas que tinha tomado uma decisão. Reparei no hematoma roxo em redor do olho esquerdo, consequência do murro que tinha levado na noite anterior. E como se lesse os meus pensamentos, explicou:
- Não te preocupes. O meu pai não está em casa.
Gracejei, sentindo uma pedra no estômago:
- Mas eu não tenho medo do teu pai, é ele que tem medo de mim. Lembras-te?
Vi-o esforçar-se para reagir à minha piada com um sorriso, só que o dilema irresolúvel impedia-o de quebrar a máscara afivelada àquele rosto angelical. Mas se ele estava tenso, eu também estava. Se me perguntasse o que fazia eu ali, não lhe saberia responder e fiquei aliviada por ele não ter feito a pergunta.
Fechou a porta atrás de mim e pediu-me que o seguisse. Reparei que estava sem sapatos, calçava meias escuras, vestia umas calças de fato de treino e uma sweat azul decorada com letras garrafais em tons de verde. Ele reforçou a afirmação de há pouco, para me tranquilizar:
- Só estou eu em casa. Saíram todos, foram passear até à cidade. Ficaremos à vontade.
- Está bem.
Subiu a escadaria que levava ao primeiro piso da vivenda, subi atrás dele. No corredor comecei a escutar o som de uma canção abafado pelas paredes e ele explicou quando alcançámos a entrada do quarto dele:
- Estava a descansar enquanto ouvia música. Nunca pensaste que passasse uma tarde de sábado de uma forma tão aborrecida, pois não?
- Ouvir música não é uma coisa aborrecida.
- Tendo em consideração a minha reputação…
- Que reputação?
Ele disse satisfeito:
- Ainda bem que me tens em alta estima.
- Desde que deixaste de ser “o espanhol”… sabes muito bem que sim.
Entrámos no quarto dele. Sentei-me na ponta da cama, ele sentou-se no chão junto à aparelhagem posta num canto, entre a esquina de uma parede onde se acumulavam revistas e uma estante desorganizada. Um mar de cassetes áudio coloridas espalhava-se perto da aparelhagem. Noutra parede reparei na cómoda desconjuntada.
- Estavas zangado?
- Hum?
Apontei timidamente para a cómoda.
- Ah… Aquilo. Sim, muito zangado.
- E costumas descarregar na mobília?
- Quando não o posso fazer em alguém…
Olhou para mim por cima do ombro, pela primeira vez com um sorriso genuíno. A música tinha terminado.
- Admirada?
- Não. Afinal, tens sangue saiya-jin.
Voltou-se para a aparelhagem, agarrou numa cassete, abriu e fechou a caixa.
- É estranho ouvir-te dizer isso.
- É estranho estar aqui contigo, a ouvir…
Começou outra música. Desatei a rir.
- O que foi? – Perguntou admirado.
- Essa música.
- O que é que tem?
- É música dos anos sessenta! – Exclamei divertida.
- Não gostas?
As paredes do quarto vibravam com um rock ‘n roll de Chuck Berry chamado “Sweet Little Sixteen”.
- Gosto… Gosto bastante. Mas não imaginava que ouvisses este tipo de música. Pelo teu estilo, és mais… Quando usavas o cabelo comprido, apostava mais num rapaz do grunge.
Voltou-se para mim, com um sobrolho franzido.
- Não estás a perceber o que te estou a dizer, pois não?
- Não… As minhas referências são diferentes das tuas. Somos de mundos diferentes.
A lembrança de que tudo não passava de uma fantasia atingiu-me inesperadamente. Inspirei fundo, querendo prolongar aquele instante em que estava no quarto dele, a ouvir música que não tinha nada a ver com o estilo dele, ou o que quer que ele era no meu mundo.
O timbre jovial da voz de Chuck Berry regenerava, lentamente, o ambiente entre nós.
- Pois… - escutei-me a dizer, sem saber bem o que devia dizer a seguir.
Ele percebeu o meu embaraço.
- Estas cassetes eram, supostamente, da minha mãe. Encontrei-as na arrecadação da casa, arrumadas numa caixa. Fiquei curioso e pus-me a ouvi-las. – Acrescentou com simpatia, queria agradar-me: – Também gosto desta música.
- Acho que faz algum sentido as cassetes serem da tua mãe. Nos anos sessenta, Bulma seria uma rapariga nova. – Meneei a cabeça. – Não a consigo imaginar a gravar estas músicas nas cassetes, a ouvi-las, no meio do flower power e tudo isso.
Voltou a franzir o sobrolho. Estava a fazer figura de idiota e calei-me.
Parou a cassete que estava a tocar, interrompendo o refrão de Chuck Berry. Retirou a cassete, colocou outra. A música mudou para sonoridades mais suaves e românticas. Senti um arrepio. Tentava seduzir-me, ou escolhera aleatoriamente. Fiquei-me pela segunda hipótese, afinal ele não conhecia o conteúdo das cassetes, nunca as escutara, não saberia distingui-las pelos títulos.
As Shirelles cantavam “Will You Still Love Me Tomorrow”. Ele sentou-se na cama, ao meu lado, de costas para mim.

Is this a lasting treasure
Or just a moment’s pleasure?
Can I believe the magic of your sights?

Os ombros dele tremiam. Esforçava-se por superar o nó na garganta que impedia a voz de surgir, as palavras de aparecer. Começou num sussurro:
- Son Goten…
Aguardei no curto silêncio melodioso das Shirelles.
- Queres saber por que razão Son Goten não está na tua dimensão? Ele não veio connosco… Não podia. Eu matei-o.
A revelação foi como uma bofetada.
- O quê? O que foi que disseste?
- Eu matei Son Goten, Ana… Matei o meu melhor amigo.
Os ombros dele continuavam a tremer. Começou a fungar. Chorava, como naquela noite no carro dele, no meio da serra e compreendi que me contava exatamente a mesma coisa, mas agora de maneira que eu o percebesse. Agarrei-lhe nos ombros, encostei a cabeça nas costas dele, abracei-o toscamente para tentar consolá-lo. Sentia a angústia em cada lágrima, a dor esmagadora e corrosiva que o desfazia por dentro.
- De certeza que foi um acidente – disse eu.
- Mesmo que tivesse sido um acidente… O mal está feito. Derramei o sangue de Son Goten e amaldiçoei-nos a todos.
- Haverá uma maneira de desfazer o mal.
- Talvez…
- As bolas de dragão poderão devolver a vida a Son Goten.
- As bolas de dragão estão na Dimensão Z.
- E tu vais regressar à Dimensão Z. Não acreditas nisso?
Ele abanou a cabeça. Eu estreitei o abraço.
A canção das Shirelles terminou e entraram as Ronettes, com “Be My Baby”.

The night we met
I knew I needed you so.
And if I ever had the chance
I’d never let you go

- Deves acreditar.
- Porquê?
- Mesmo que o inimigo pareça demasiado poderoso, Son Goku consegue sempre derrotá-lo. Devias saber isso, sem qualquer sombra de dúvida.
- E tu devias saber isso? – Limpou o nariz com a mão.
- “Dragon Ball” – respondi.
- As bolas de dragão – traduziu.
- Sim, são a resposta. 
Inclinou a cabeça para trás, encostou-a na minha. Deixei-me ficar na delícia daquela proximidade, abraçada a ele, a ouvir as Ronettes a cantar:

Be my baby now
My one and only baby

- Então, assim, já conheço os teus segredos. Espero que não me mates a seguir, como sempre me disseste que o farias se me contasses os teus segredos.
- Acho que, desta vez, irei atingir a estante, para descarregar a minha fúria.
- Estás a falar a sério?
- Nem penses que conheces todos os meus segredos.
- Há mais?
- Hai… - Hesitou. Revelou acanhado: – Quando era mais pequeno, fazia xixi na cama.
- Estás a falar a sério? – Tornei.
- Bem, agora sim. Conheces todos os meus segredos.
Um encantamento perigoso, um feitiço de contornos esbatidos. O jogo estava escondido de propósito, para que a armadilha não fosse inteiramente visível. Mas eu não queria saber de mais nada a não ser do calor dele, de como era real e de como estava comigo, numa tarde inesquecível de sábado que começara com a contemplação de um mar cinzento, onde afogava, um por um, os equívocos, onde mergulhava, uma por uma, as mágoas.
O intervalo mudo entre as canções fez-me estremecer. Entraram os Beatles a cantar “This Boy”. Trunks encarou-me sério.
- Ensinas-me a dançar?
Agarrou-me na mão e levantámo-nos. Concordei, inclinando a cabeça ao de leve.
Se estávamos a ouvir músicas dos anos sessenta, iríamos dançar decentemente, como se estivéssemos nos anos sessenta. Ajeitei o braço dele na minha cintura, levantei o outro braço onde apoiei a minha mão direita, abri espaço entre nós. Olhei para ele e começámos a arrastar os pés pelo chão, ao ritmo da canção, embalando-nos mutuamente, fingindo que dançávamos.
Trunks colou a cara à minha, sentia a respiração dele no meu ouvido. Acabou com o espaço que existia entre nós, encostou-se ao meu corpo e continuámos a dançar.

“Oh!, and this boy would be happy
Just to love you”

Nos braços de Trunks, acreditei piamente na voz rouca de John Lennon. E aquele pedaço de tempo foi eterno.
O cheiro dele entontecia-me, o calor dele derretia-me. Rendia-me incondicionalmente e entregava-me sem qualquer dúvida.
A canção terminou, mas continuámos a dançar, mesmo no intervalo mudo entre as canções.
- Ana-san – arfou no meu ouvido.
- S-sim…?
De repente, ele parou e eu também. Começou outra canção. Não consegui escutá-la. O nariz de Trunks roçou no meu, senti um sopro do hálito dele, a tentar-me para viajar para planetas inexplorados. Já não podia voltar atrás, não queria. Concentrava-me nos lábios húmidos, perto dos meus. Abri ligeiramente a boca. Beijou-me.
Explodi num fogo-de-artifício colorido!
Deitou-me na cama, beijando-me sempre. Não me conseguia mexer, estava paralisada de terror porque não fazia ideia de como reagir perante aquela situação inédita. Puxou-me a camisa, abriu-a com um safanão. Ouvi os botões saltitarem no soalho de madeira envernizada. A minha pele arrepiou-se. As mãos dele apalparam-me os seios e sustive a respiração.
Por todos os santos e por todos os demónios, aquilo estava mesmo a acontecer!
Começou a beijar-me a barriga, gemendo suavemente, disparando choques elétricos por todo o meu corpo. As mãos mantinham-se nos meus seios, o tecido do soutien não era barreira que valesse para disfarçar o calor das mãos dele. Depois dos beijos, era agora a língua que me explorava a derme, enchendo-a de saliva e de arrepios. Fiquei tensa, endurecendo todos os músculos, petrificada como se tivesse sido atingida pelo olhar mortífero da mitológica Medusa.
Parou de me lamber a barriga. Através da franja desalinhada, olhou para mim, inclinando ligeiramente a cabeça para a esquerda. Perguntou:
- O que é que se passa?
Gaguejei acanhada:
- Eu não… Nunca… Eu nunca estive… Não…
Ele deitou o corpo musculado sobre o meu, o peso dele deixou-me ofegante. Fixou aqueles belos olhos azuis no meu rosto.
- É a tua primeira vez?
- Sim. Estou um bocado nervosa, pois isto é uma grande nov…
 Colou os lábios aos meus para me calar.
- Chiu.
Sorriu com candura.
- Confias em mim?
Entre duas inspirações, respondi:
- Sim.
- Então, não tenhas medo. Cuidarei bem de ti.
Depois, beijou-me docemente, saboreando a minha boca, deixando que me perdesse na boca dele. Sentou-se, puxou por mim e sentei-me de frente para ele. Despiu a sweat e ao vê-lo despido, um corpo perfeitamente desenhado, fez-me corar. Agarrou nas minhas mãos, pousou-as no seu peito. Começou a beijar-me o pescoço e fiquei tonta. Tentou desapertar-me o soutien, mas os dedos, ágeis em calcar nos meus pontos sensíveis, não conseguiram dar com a maneira de abrir o fecho.
- Ajuda-me aqui…
Ri-me. Levei as mãos às costas, desapertei o soutien. Ele olhava-me com uma paixão irradiante. Trocámos mais beijos, ele segurava na minha nuca. Adorei sentir a sua mão na minha nuca.
Suspirei o nome dele:
- Trunks… 

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