Trunks viu a Ana a ser levada pelo namorado, contrariada. Mesmo que
não fosse do seu agrado e que o ciúme o queimasse como ferro em brasa por
dentro, considerou que era o mais ajuizado. Ela não devia estar ali, sendo a
causa de toda a irritação. Desconfiava também que aquele combate de rua não
iria durar muito mais. Goku sangrava de um sobrolho e a ferida que Vegeta tinha
na face direita abrira e estava também a sangrar.
As palmas da pequena multidão entusiasmada chamaram-lhe a atenção.
Deixou a Ana ir embora e viu Goku a levar um soco no nariz, lançar a cabeça
para trás com o impacto, mais sangue. Ele respondeu rapidamente com uma
cabeçada, Vegeta recuou, as penas inseguras. Um murro derrubou-o.
Ouviram-se apupos e incentivos, continuava a chegar gente que se
acotovelava e punha-se em bicos de pés para espreitar o que acontecia no centro
da arena elíptica que se formara. A música dos bares continuava alta, vomitada
para o exterior, dando ao combate entre os dois saiya-jin um ambiente estranho de luta de videojogo.
Trunks ficou impaciente. Tentou intervir, mas Vegeta tornou a atacar
com uma sucessão de pontapés altos, que foram todos defendidos com os braços, que
Goku levantou como se improvisasse, o que arrancou risadas à assistência.
Depois, foi a vez de Goku atacar. Utilizou uma combinação de murros e de pontapés,
tão bem elaborada e com uma técnica tão perfeita, que a assistência irrompeu
numa ovação retumbante. Vegeta limpou a cara, olhando de esguelha as pessoas
que continuavam a bater palmas nas suas costas. Encarou o adversário.
O coração de Trunks deu um salto ao ver o pai enrijecer os músculos do
corpo, arquear as costas, fechar os punhos e concentrar o ki.
- ‘Tousan! Espera!
O sorriso de Vegeta também fez o coração de Goku dar um salto.
Colocou-se em posição de defesa, erguendo um braço, dobrando ligeiramente os
dedos.
Vegeta uniu as mãos à frente, apontando-as para Goku. Preparava-se
para disparar um ataque energético, no meio da rua da Dimensão Real. Trunks
berrou no idioma que se chamava japonês:
- ‘Tousan, para! Não o faças,
por favor!
Uma gargalhada brotou da garganta de Vegeta, ao mesmo tempo que um aro
dourado e brilhante surgia em redor das mãos unidas pelos pulsos.
A assistência calou-se. E, no silêncio, escutou-se o crepitar da
energia latente.
- ‘Tousan, por favor! Vais matar
esta gente toda e destruir metade da cidade!
Goku saltou, para atrair o ataque energético. Impulsionou-se com
alguma força, de modo a sobrevoar os telhados das casas daquela rua. Vegeta
levantou a cabeça.
Um grito de assombro perpassou por algumas bocas.
- O gajo está a voar!
A energia sumiu-se das mãos de Vegeta. Saltou, atrás de Goku. Trocaram
golpes e contragolpes, suspensos no ar, tão rápidos que era impossível
segui-los no cenário escuro do céu.
Mas Trunks não precisava dos olhos para acompanhar o desenrolar do
combate. Sentia os respetivos ki, percebia
que Goku se tinha irritado e que estava a dominar Vegeta. Com um par de murros
e uma cotovelada nas costas, anulou a defesa do adversário, fazendo-o
precipitar-se do alto. Vegeta caiu, abriu um buraco na calçada, fazendo saltar
pedras e areia.
A assistência gritou.
Goku aterrou suavemente.
- Está morto? Caiu de tão alto… O outro morreu?! – Exclamavam algumas
vozes alarmadas.
- Que luta, pá! Nunca tinha visto nada assim.
A cambalear, Vegeta levantou-se. Sacudiu a poeira da cabeleira, limpou
os olhos com um braço. A assistência tornou a emudecer, estremecendo de
assombro.
Vegeta começou a rir. Goku contestou:
- Não tem graça!
- Kakaroto, pensavas que ia
disparar o Final Flash?
Entreolharam-se. Vegeta sorria, Goku estava zangado.
Soaram passos numa corrida assanhada, um apito estridente sobrepôs-se
à música. Trunks subiu ligeiramente no ar para poder ver por cima do mar de
cabeças da multidão. Descobriu a polícia que irrompia pela rua, um grupo de
quatro, com a mão nervosa sobre o coldre da arma presa no cinto. Interpôs-se
entre os lutadores, travando um murro de Vegeta, bloqueando um murro de Goku.
- Nani?! Sai da minha frente,
baka!
- ‘Tousan, a polícia está a
chegar. Está na altura de desaparecermos.
A assistência, que se mantivera fiel ao combate, começou a debandar,
alertada pelo rumor da aproximação de forças policiais. As pessoas
desmobilizaram, desfazendo a arena que tinham formado, espalhando-se pela rua
em várias direções. Uma segunda apitadela indicou que a polícia estava muito próxima.
Trunks desatou a fugir. Goku e depois Vegeta seguiram-no, utilizando a
supervelocidade para ganharem distância rapidamente. Como estava mais habituado
às ruas da cidade, Trunks liderou-os. Esconderam-se na penumbra de uma ruela,
uma passagem estreita onde se acumulavam sacos do lixo e caixotes de papelão.
Um gato escapuliu-se miando, quando eles chegaram.
Desde a esquina, Goku pôs-se a espreitar.
- Parece que não vêm atrás de nós. Pararam no sítio onde estivemos a
lutar.
Trunks juntou-se a ele.
- Estão a abordar algumas pessoas… Irão pedir identificações, fazer
perguntas. Há um deles que está a olhar para o buraco do chão e está a chamar
por alguém… Estará a pedir explicações, de certeza. Vão fazer um inquérito, ou
coisa parecida.
- E o que é que acontece… depois desse inquérito?
- O mais provável, é não acontecer nada… Contando que não sejam
reconhecidos por alguém que esteve a assistir, quando andarem por aí.
Trunks afastou-se da esquina, Goku foi com ele. Acrescentou sarcástico:
- Para quem deve passar despercebido… Vocês os dois deram um belo
espetáculo esta noite.
- As pessoas estavam animadas, é verdade.
Num gesto brusco, Vegeta agarrou na gola da blusa de Trunks, puxou-o para
si. Rosnou a ameaça:
- Se te volto a encontrar com aquela intrometida, mato-vos aos dois.
Trunks cerrou os dentes. Ripostou:
- Eu sei defender-me.
- Não me faças rir! Não estás à minha altura.
- Poderás estar enganado.
- Tem cuidado, rapaz. – Vegeta soltou-o e empurrou-o com um safanão. A
voz tomou um tom sinistro: – Posso esquecer-me que és meu filho.
Desapareceu, riscando o céu noturno com um traço brilhante. O que
tinha o seu quinhão de imprudente, tendo em conta que a polícia andava por
perto, com uma curiosidade que, por não ser saciada, iria aumentar, na mesma
proporção da frustração de não conseguir obter as respostas devidas a todas as perguntas.
Mas, Trunks não evitava sentir-se aliviado por o pai se ter ido embora. Ajeitou
a gola da blusa.
- Vegeta está a falar a sério, sabes?
Olhou para Goku que, de braços cruzados, volvia a cabeça para o céu, a
seguir o ki do príncipe. Tinha a cara
num estado lamentável, com sangue seco colado à pele, arranhões, um olho
inchado.
- E eu poderei não estar por perto, da próxima vez que ele te
encontrar com a rapariga. Sabes o que isso pode significar? Poderás não
conseguir travar Vegeta.
Trunks gracejou:
- Sou um saiya-jin. Não me
renderei tão facilmente.
Mas Goku não estava para brincadeiras. Encarou-o com gravidade.
- O teu pai tem razão, Trunks. Arriscas demasiado ao insistir nessa
rebeldia. O que pensas ganhar? Regressar à Dimensão Z? E com que preço?
Escuta-me…
Aproximou-se, suavizou a voz, prosseguindo:
- Zephir é um feiticeiro muito poderoso, ajudado por uma magia maldita
que aumenta a sua maldade e ambição. Lutamos contra o mal, nunca te esqueças. O
feiticeiro tem guerreiros muito fortes ao seu lado… O saiya-jin, os dois demónios gémeos. Acredito que iremos conseguir
derrotá-los, mas, para isso, devemos manter-nos unidos. O feiticeiro, neste
momento, triunfa, a situação não se inverteu, continuamos no lado perdedor. Por
isso, não precisa de mais ajuda.
- E eu já o ajudei uma vez, certo?
A resposta foi imediata e curta:
- Hai.
Trunks enfiou as mãos nos bolsos do blusão, colou o queixo ao peito.
Sentiu vontade de gritar, limitou-se a cerrar os dentes, retendo o grito,
retendo a explosão.
Goku pousou-lhe uma mão no ombro.
- Sei que farás o que é mais acertado, independentemente daquilo que o
coração te diz.
Depois, partiu, na esteira de Vegeta, deixando o mesmo traço brilhante
no céu noturno.
O vento frio trouxe algumas gotas de chuva, pequenos borrifos gelados
que o batizavam com um sentimento de vácuo, de infinito. Tinha-se despedido dos
amigos daquela dimensão, não os poderia voltar a ver depois do que fizera na
loja. Não podia voltar a ver a Ana, pois iria colocá-la em perigo. Estava
isolado, caminhando solitário por um caminho desconhecido, tão diferente
daquele que tinha abandonado quando matara o Tiago. Ainda mais assustador.
Mas a chuva também acalmava a sua ansiedade. Voltava a ser ele próprio
e munido da sua verdadeira personalidade seria mais fácil enfrentar os
desafios, mesmo que fossem dolorosos, terríveis e até mortais.
Porém, a desesperança instalava-se. A máquina das dimensões nunca mais
estava pronta e interagir era impossível.
Trunks levantou voo e também riscou os céus com o seu, muito próprio,
traço brilhante.
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