Olhou-se ao espelho pela milésima vez, penteou a franja com os dedos, mas a melena
era rebelde e por muito que tentasse, teimava em descair para os olhos. O que
não era mau de todo, bem vistas as coisas, pois sempre lhe disfarçava a
cicatriz. Yamucha ajeitou a gola do blusão, levantando-a, para lhe dar mais
estilo.
- Que tal estou?
- Se mexeres mais, estragas a perfeição – respondeu Puar enjoado.
O gato azul estava com ciúmes, Yamucha sorriu. Era compreensível. Puar
era um prisioneiro, enquanto ele voava livre, experimentando os prazeres
ínfimos e cuidadosamente selecionados da Dimensão Real.
Esperava pela Dedé, para mais um encontro romântico. O primeiro tinha
acontecido na terça-feira passada e terminara da melhor maneira. Tinham vindo
para a casa dele, beberam vinho gelado, trocaram um par de beijos, ela
enfiara-se na cama dele e só saíra na manhã seguinte.
Tinha sido uma noite selvagem e inesquecível, ao ponto de, num momento
de maior excitação, ele ter jurado sentir que a Porta dos Mundos se tinha
entreaberto e tudo por culpa dele, que se entregava àquela mulher mais despido
de alma, do que de corpo, quase transparente, carente, um coração solitário a
bater na presença de uma companhia eternamente aguardada.
A noite anterior, a de quarta-feira, tivera a mesma dose de loucura.
Bebera demais, falara de dimensões e de feiticeiros, confessara-se apaixonado.
A Dedé, que também tinha bebido, ria-se com ele, dizia-lhe que teria ali uma
companheira disposta a escutá-lo, dizia-lhe:
- Senhor Eduardo, está bêbado, mas eu estou a adorar.
Ele gostava quando ela dizia o nome inventado dele depois do “senhor”.
Seduzia-o e ele despia-se outra vez, primeiro a alma, depois o corpo. Amavam-se
desenfreadamente, inventando que tinha sido sempre assim, o Eduardo e a Dedé, o
casal perfeito.
Ela percebia que ele gostava quando o chamava de “senhor”. Insistia no
tratamento, reforçando-o, adotando tons diferentes, consoante as ocasiões.
Casual, desinteressado, caloroso, suspirado, suado. O senhor Eduardo
derretia-se como manteiga e ela derretia-se atrás, os fluidos misturando-se.
Puar sofria com aquele enlace, porque quando ele aparecia com a Dedé,
tinha de se refugiar no exterior, na varanda estreita do pequeno quarto.
Passava as noites ao relento, enregelado e, de manhã, quando ela se ia embora e
ele podia finalmente regressar ao interior da casa, vinha mais azul do que já
era, resfriado e amuado. Yamucha tentava fazê-lo perceber, era só uma aventura.
Uma pequena transgressão. Puar fulminava-o com o olhar e dizia-lhe:
- Se interagires com ela, és um homem morto. E eu não te vou defender
de Vegeta-san.
A campainha tocou, duas vezes. Yamucha enxotou o gato azul. Puar escapou-se
para o quarto, enfiou-se logo na varanda, resmungando e praguejando. Yamucha
abriu a porta. A Dedé sorriu-lhe, resplandecendo com todos os seus anéis e
colares, cheirosa como uma flor dos trópicos, vestida de um vermelho que o encandeou.
Também lhe sorriu, antecipando o final da noite, quando ele haveria de a despojar
de todos os panos, dos anéis e dos colares e ficaria apenas o perfume a perigo
de flor dos trópicos.
- Boa noite, senhor Eduardo.
- Boa noite, Dedé. Quer entrar e beber alguma coisa, antes de irmos
jantar?
- Obrigada pelo amável convite, senhor Eduardo. Mas podemos ir
andando, se não se importa.
- Não me importo nada. Vamos.
Agarrou nas chaves do carro, atirou-as, apanhou-as no ar.
Outro detalhe sedutor era que não se tratavam por tu. Mantinham uma
distância polida que era como atear fogo a um rastilho quando brincavam entre
os lençóis.
Yamucha fechou a porta do apartamento, passou um braço pela cintura da
mulher, que colou a anca ao corpo dele, esfregando-se languidamente e
começando, dessa maneira descarada, o jogo de sedução daquela noite.
Adorava estar com a Dedé. Era como se estivesse outra vez com Bulma.
Fechava os olhos e embarcava na fantasia, com uma alegria de outros tempos.
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