Nos aposentos
do Sumo-sacerdote, a atmosfera estava pesada.
- Devia
dar-vos um castigo exemplar para que aprendam a não ignorarem as minhas ordens,
bando de incompetentes!
Como sempre a
voz era monótona, sem pingo de entoação, mas os olhos raiados de Zephir cuspiam
o mais elementar dos ódios. O colar dourado que usava refulgia com a luz das
velas que ardiam nos castiçais de prata. A túnica vermelha caía-lhe
desajeitadamente sobre o corpo magro, o que não impedia a nobreza orgulhosa e
sombria do porte.
Kumis
respeitava o mestre. Julep também o respeitava, mas não chegava aos exageros do
irmão gémeo, que parecia mais temê-lo que respeitá-lo. Mas Keilo, o saiya-jin, vindo de um mundo aparte, desprezava-o
e nem procurava escondê-lo.
- Julguei que
tivesse sido claro. Nada de combates dentro do templo. E o que foi que sucedeu
hoje? Combateram dentro do templo!
Destruíram o centro do Universo, a glória da minha primeira conquista.
Irritaram-me!... E vocês não queiram ver-me irritado.
- É
impossível para um guerreiro controlar-se quando luta num potencial tão
elevado. Existem… danos colaterais.
Zephir
voltou-se para Keilo que falara. Encostava-se à parede, braços cruzados, um
joelho fletido, queixo sobre o peito, olhos fechados.
- A destruição
do Salão da Luz é mais que um dano colateral… – E cuspiu a palavra: – Saiya-jin!
Voltou-se
depois para os demónios, apontou-os com um dedo esquelético.
- Vocês são
os meus guerreiros. Servem-me,
incondicionalmente. São utilizados por mim, criei-vos. Devem-me obediência,
submissão. Devem-me a própria vida! Se não me servem, acabo com vocês… Mesmo
sendo imortais, conheço o vosso ponto fraco, Julep e Kumis. E tu, saiya-jin, não passas de um reles
feitiço, mesmo com todo esse poder que gostas de exibir. Não passas… de uma
miserável lenda, poeira dos tempos, lembrança de uma raça extinta. Vives porque
eu quero. E se eu quiser, acabo contigo.
Keilo
encarou-o. Ameaçou com um sorriso torto, exibindo os dentes.
- Sim, fá-lo,
feiticeiro. Acaba comigo… Depois serás tu
a enfrentar sozinho Kakaroto… Será digno de se contemplar. Apenas com uma mão,
ele vai conseguir partir esse teu pescoço raquítico. E o ambicioso feiticeiro
que se serve de um livro mágico de um espírito do Outro Mundo e da sabedoria de
um templo vazio para conquistar o Universo… deixa de existir.
A ameaça foi
intolerável, apesar de Zephir ter apreciado a ousadia. Utilizar um saiya-jin era perigoso, mas compensador,
em determinados momentos. Haveria de ser o seu garante da vitória total.
Era-lhe demasiado precioso, apesar de o odiar. Mas também o dominava e isso era
o que lhe dava mais prazer, domar o indomável, anular o rebelde.
Elevou um
braço, encurvou os dedos da mão, como uma garra. Keilo ajoelhou-se com um
grito, agarrou-se à cabeça. Tremia em convulsões dolorosas, berrando. Os dois
demónios não se mexiam.
- Volto a
afirmar, saiya-jin. Vives porque eu quero. Se eu desejar, voltas à poeira
dos tempos, à lembrança… E, pelo que tenho visto, talvez deixes de ser uma
lenda. Procurarei outra… Existem milhentas pelo Universo fora. Basta um feitiço
e terei comigo outro guerreiro poderoso… Submisso. Um guerreiro que lute por
mim…
Keilo urrava,
babando-se, tentando escapar-se da garra que o manietava.
- E sabes, saiya-jin? Irei ser o Senhor do
Universo… Um deus. Muito em breve. E não faltarão guerreiros que lutem por mim,
os melhores, os invencíveis. As lendas!... Nessa altura, não precisarei de os
inventar com os meus feitiços, eles virão. Tão reais quanto eu.
Baixou o
braço. Keilo calou-se com um ronco. Quedou-se ajoelhado, a arfar.
- Tem
cuidado. Repito: não queiram ver-me irritado.
Com um
estalar de dedos, fez a pedra de cristal voar de um nicho e aterrar numa mesa
de mármore branco, finamente esculpida, situada no centro dos aposentos.
Assentou as mãos no tampo, a pedra de cristal luziu, iluminando-lhe a cara
sinistra.
- Aquilo que
fizeram ao Templo da Lua foi abominável. Devia castigar-vos, mas só iria perder
tempo e dispender esforços desnecessários. O que está feito, feito está. Não se
pode voltar ao passado e remediar erros para consertar o presente.
Engoliu
devagar.
- Estou
desagradado com o correr dos acontecimentos. Son Goku e os seus companheiros
adiantam-se. Graças à vossa incompetência, levaram a rapariga da Dimensão Real
e levaram também o jovem saiya-jin
que estava a curar para lutar ao vosso lado. Enfim, contratempos que estou
disposto a relevar, pois sei que o pêndulo da vitória ainda dança do meu lado.
Chamei-vos, não apenas para vos avisar que não tolerarei mais desobediências,
mas também para incumbir-vos de uma nova tarefa. Que confio que será cumprida
com acerto.
Os dois
demónios nem pestanejaram quando Zephir depositou neles um olhar frio e
incisivo. Anunciou:
- Quero que
vocês procurem pelas bolas de dragão.
- Bolas de
dragão? – Indagou Julep.
O cofre
prateado que estava em cima da mesa abriu-se e uma pequena esfera
cor-de-laranja transparente, com uma estrela vermelha no interior, flutuou no
ar.
- Isto é uma
bola de dragão – explicou Zephir a controlar a bola com o seu poder mental. –
Existem sete no total. Quero que procurem pelas seis bolas de dragão que faltam
e que mas tragam.
- E onde estão
as outras seis bolas de dragão, sensei?
– Perguntou Kumis.
- Estão
espalhadas pelo planeta.
A bola de
dragão regressou ao cofre prateado. Continuou:
- A pedra de
cristal irá dar a sua localização. A seguir, irei imprimir no vosso cérebro
essa informação através da magia. Julep, tu irás procurar três bolas de dragão
e Kumis, tu irás procurar as restantes três. Aproximem-se!
Os demónios
obedeceram.
A luz da
pedra de cristal aumentou e começou a cintilar. Zephir roçou as mãos pela sua superfície
áspera, como que a absorver o brilho. Os lábios começaram a mover-se, a
murmurar o conjuro necessário. A pedra encheu-se de imagens intermitentes, a
tremer debaixo das suas mãos. Cintilou um pouco mais e, a seguir a um clarão
mais intenso, apagou-se. Zephir alçou os braços e depositou as mãos na testa
dos demónios, sobre o “M” negro. Deu-lhes o conhecimento que eles precisavam e
adiantou:
- Assim que
encontrarem uma bola de dragão, quero que a tragam imediatamente para o Templo
da Lua. A seguir, saem para procurar as restantes.
Julep e Kumis
inclinaram-se numa vénia e responderam:
- Hai, sensei.
- Já conhecem
a localização das seis bolas de dragão. Agora, partam!
- Hai.
- E não me
dececionem.
Os demónios
saíram dos aposentos.
Zephir afagou
a pedra de cristal que voltava a luzir timidamente e olhou para Keilo que se
levantava, roncando ao de leve. Havia um odor incómodo a pele queimada. A boca
arrepanhou-se-lhe numa espécie de sorriso. Dera-lhe uma excelente lição, que
haveria de durar até à próxima tentativa de rebelião. Que iria ocorrer, ele não
tinha dúvidas. Keilo era um desafio constante à sua autoridade. Um teste ao
grande Senhor do Universo.
- Saiya-jin, tu ficas para proteger o
Templo da Lua, caso Son Goku regresse para me tentar destruir.
Keilo
endireitou-se, tremendo, os músculos tensos.
- Ouviste a
minha ordem?
- Hai… sensei – respondeu a custo, a voz
rouca.
E também saiu dos aposentos.
Quando se
achou sozinho, Zephir atirou-se para um banco, fatigado, sem energias. Pensou
no Salão da Luz, transformado num monte informe de escombros. A boca
amargou-lhe, o coração ficou ainda mais seco.
Sabia que
iria ter um caminho espinhoso até à glória, tinha-o lido nos livros da Sala
Sagrada.
“A Terra está
protegida… por poderosos guerreiros das estrelas”.
Mas nunca
julgara que fosse assim tão espinhoso. Aquele maldito Son Goku estava a ser um
adversário formidável, pior do que antecipara.
Concentrou-se
noutro pensamento… Algo importante, fundamental, que não se podia dar ao luxo
de ignorar. Cravou os olhos vermelhos na pedra de cristal. E lembrou o que não
devia nunca esquecer: Toynara estava vivo!
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