As minhas passadas eram
refletidas nas paredes e no teto daqueles corredores solitários, mesmo calçando
sapatos de pano, ecoando sinistramente e mentindo-me, pois faziam-me crer que
bastavam as passadas para me colocar fora de perigo.
Cansada parei, concedendo a
mim mesma uma curta pausa. Conciliei a respiração acelerada, limpei o suor da
testa. A sweat azul agasalhava-me
demasiado naquele ambiente abafado e lúgubre.
Fiz como Goten me tinha
aconselhado. Sempre que pudera, tinha subido e, quanto mais subia, mais me
afastava dos grunhidos dos bichos negros.
Espaçadamente, tudo tremia e
escutava o som abafado de explosões, sinal de que se combatia no exterior e eu
enchia-me de receios. Não podia ficar ali dentro, senão era apanhada pelos
bichos ou pelo demónio que me tinha raptado. Mas se fosse para o exterior
poderia ser apanhada pelo fogo cruzado dos guerreiros.
Já não conseguia correr mais
e pus-me simplesmente a andar. Por sorte, divisei uma escadaria encaracolada,
dissimulada atrás de um reposteiro. Subi galgando dois e três degraus, afastei
um segundo reposteiro agitando uma nuvem de pó e tive de tapar os olhos com uma
mão, encandeada pela luz do sol. Tinha conseguido sair dos subterrâneos e o meu
coração bateu de felicidade.
Estava num pequeno pátio
quadrangular. Vi o céu azul, vi que no centro havia um pedestal com uma estátua
negra enfeitada com um colar de flores brancas murchas. Representava uma figura
feminina distorcida, que parecia bela a um primeiro olhar e repulsiva se a
fixássemos mais do que cinco segundos. Apartei o olhar, arrepiada.
De repente, tapei os ouvidos
porque soou um grito enorme que parecia querer rasgar o mundo apenas com o
poder do som. A terra voltou a tremer. Caí, aos pés da estátua negra. Esperei
que o terramoto terminasse e depois levantei-me, escapulindo-me pela arcada
oposta àquela de onde tinha saído. Quando corria fui empurrada por um segundo
terramoto contra uma parede e acabei sentada no chão, agarrada às costas
magoadas. Segundo grito, segunda tentativa para rasgar o mundo. Que era bem
resistente, o mundo, pois continuou inteiro e a girar quando o segundo grito se
calou.
Levantei-me, corri a mancar,
tinha uma perna dorida, as costas estalavam, os pulmões gritavam sem fôlego,
estava mortalmente exausta. Encontrei uma porta dupla entreaberta. Não me fiz
rogada e entrei.
Senti um arrepio de emoção,
detive-me perante aquela revelação.
- Que maravilha – suspirei.
O salão onde me encontrava era
uma autêntica obra de arte. Era lindíssimo, um local sublime, amplo, que nos
esmagava numa beleza luminosa, elaborada num imaculado e celestial branco. Era
cortado por um tapete vermelho que levava até um palco onde repousava um trono
imponente. As colunas finas bordavam as orlas do salão e os vitrais do teto,
que coavam a luminosidade do exterior, eram um esplendor inigualável. A
tranquilidade do salão fazia com que parecesse impossível que fizesse parte do
medonho Templo da Lua e julguei ter penetrado noutra dimensão, um recanto resguardado
da loucura dos feiticeiros.
A luz branca ganhou
intensidade. Semicerrei os olhos. A claridade aumentou tanto que se tornou
insuportável. Os desenhos dos vitrais esbateram-se, passaram de branco para
amarelo e a seguir para laranja. Vermelho… Fogo! Compreendi que aquilo iria
rebentar.
Gritei, atirei-me para o
lado. O abanão que sacudiu o salão antes do momento final empurrou-me para a
galeria colunada.
A explosão foi pavorosa e o
estrondo foi aterrador.
Desesperada, cobri a cabeça
com os braços.
O que era sólido
liquefez-se. As colunas ruíram, os alicerces derrubaram-se, o pavimento rachou,
o teto de vitrais quebrou-se. A beleza irreal daquele salão perdia-se para
sempre.
Um grande pedaço de parede
tombou à minha frente, inclinou-se sobre mim. Fiquei entalada entre esse pedaço
e a parede onde me encostava. Foi o que me salvou. O calor da explosão penetrou
de chofre nos escombros do salão queimando tudo à sua passagem. Os destroços
caíram numa chuva mortal e violenta que soterrou tudo, pedras caindo,
martelando, resvalando.
A calma regressou segundos depois.
Tremia, mas estava bem, sem nenhum ferimento a registar, a não ser alguns
arranhões, talvez um punhado de nódoas negras, a mesma dor nas costas e na
perna. Estava viva e era um milagre estar viva.
Descobri uma tira de luz no
fundo do buraco onde me enfiava. Rastejei até à luz, espreitei. Vi outra vez o
céu, no seu esplendoroso azul, distante da comoção que agitava a terra.
Vi também duas silhuetas
douradas, suspensas entre as nuvens. Eram acompanhados por faíscas e tinham
longos cabelos loiros. Reconheci um deles apesar de, assim à distância, serem
iguais, como falsos gémeos, nascidos da mesma raça mas de progenitores
diferentes.
- Goku…
Dois super saiya-jin, nível três. Recolhi-me.
O combate prosseguia e
haveriam de surgir mais ataques flamejantes. Seria mais seguro ficar ali,
escondida debaixo daquela parede tombada que já me tinha salvado uma vez.
Devagarinho, abracei-me às
pernas fletidas, encostei a testa aos joelhos e esperei enterrada entre aquelas
ruínas escuras e fumegantes.
Sem comentários:
Enviar um comentário