Maron afastou uma madeixa de cabelo dos olhos, apoiou as mãos na
cintura. No outro extremo daquela clareira, número 17 estava de gatas, enquanto
esfregava o queixo dorido.
Tinha sido derrubado por um soco limpo e preciso, pensou Maron
orgulhosa.
Número 17 levantou-se.
- Não estava à espera desse ataque.
- Nunca se deve baixar a guarda.
- Hum… A menina quer dar-me lições.
O combate tinha começado e Maron não perdera tempo. Não se queria
alongar em jogos dissimulados, queria mostrar depressa ao tio, que tinha vindo
visitar em segredo, do que era capaz. Pretendia deixar uma excelente impressão,
para que ele a tornasse a convidar.
Não fora fácil dar com a casa dele, que ficava escondida na serra,
mas, no fim de muitas voltas e de perguntar a algumas pessoas, dera com o
sítio. Recebera-a na porta da casa, seguira-se logo o convite para combater e
ela aceitara sem hesitar.
Número 17 perguntou:
- Continuamos?
- Quando quiseres.
Das mãos do humano artificial saiu um raio de energia. Maron saltou
para evitar o raio que se desfez na erva. Ela ergueu imediatamente uma mão.
- Não, número 17! Ataques flamejantes, não.
- Porquê?
- Os ataques flamejantes dão muito nas vistas e não devemos dar nas
vistas.
Ele encolheu os ombros.
- Está bem… Aceito essa regra.
Atacou, de seguida. Maron desviou-se dos punhos e dos pontapés que
sibilavam junto ao corpo. Concentrou-se, a analisar cuidadosamente a técnica do
adversário, procurando um ponto fraco.
O androide saltou para trás. Maron estava em posição de defesa.
- Sabias que a minha principal característica é a velocidade? – Disse-lhe
ele.
- Estes corpos da Dimensão Real não nos deixam ser muito rápidos. São
muito pesados.
- É a tua sorte.
Maron gritou-lhe:
- Não me subestimes! Já lutei contra um super saiya-jin e saí-me bem.
Ele sorriu.
- Ganhaste?
- Terminou empatado. – Acrescentou: – Não perdi!
O sorriso de número 17 era enigmático.
No céu, as nuvens moviam-se mansamente, espalhando sombras pela
clareira. O vento soprou entre os dois.
O ataque estava iminente. Maron crispou o rosto.
E, de repente, número 17 evaporou-se.
Ele podia ser rápido, como tinha apregoado, mas não seria tão rápido
como na Dimensão Z. Maron focou o ki,
à procura dele. Depois, emendou-se, ele não tinha ki, como a mãe, era um humano artificial. Teria de utilizar o truque que ela lhe ensinara. Fácil. Assim que
sentiu a leve deslocação do ar, baixou-se, o pontapé dele roçou-lhe os cabelos
loiros.
Voltou-se, estendeu um braço, o soco apontava à cara de número 17, mas
a cara de número 17 já não estava ali. Deixara uma imagem, uma técnica tão
antiga quanto o próprio tempo, ingénua, mas ela caíra nela. Apanhou com uma
cotovelada no peito e caiu. O golpe teve alguma força e ela levantou-se com
dificuldade. Mas não deu a entender como se magoara e sorriu.
- Eu disse-te que era rápido – rematou número 17.
- Apanhaste-me. Nunca pensei que conseguisses ser tão rápido, mesmo
nesta dimensão.
Ele riu-se.
O combate prosseguiu. Maron e número 17 repartiam as iniciativas de
ataque e os golpes certeiros que derrubavam o adversário. Mas tanto Maron, como
número 17, sabiam que não era um combate a sério. Eram apenas treinos e também
uma luta para avaliarem até onde chegava o potencial do outro. Movia-os a
curiosidade e cada um tinha a plena consciência disso, porque quando se entreolhavam
a medir os estragos, sorriam.
O sol descia rapidamente no horizonte, a temperatura baixava, mas
Maron estava a suar. Ao contrário de número 17 que parecia fresco, como no
início, e depois lembrou-se que era como a sua mãe, com energia infinita, um
ser artificial, meio máquina, meio humano.
Ele tentou cabeceá-la, ela agachou-se, lançou um uppercut. Ele recuou, o braço dela falhou o alvo, ele derrubou-a com
uma rasteira. Elevou-se com um salto, fez aparecer uma esfera azul. Ela cerrou
os dentes, reuniu o ki numa mão,
fechou os dedos, sentiu o calor nascer.
Número 17 soltou uma gargalhada e enviou a esfera azul. Ela disparou a
sua esfera de energia. As duas esferas chocaram e transformaram-se numa
explosão brilhante de luz.
De seguida, investiu contra número 17. Ele ainda se ria, mas conseguiu
aparar o primeiro soco. O segundo atingiu-o na face direita e ele irritou-se.
A luta era no ar. Maron gostou de o ter irritado, mas depois
arrependeu-se pois não foi capaz de suster o avanço do androide. Com um pontapé
à meia volta, foi derrubada, estalando o solo com a queda.
Duas gotas de sangue caíram-lhe do nariz e ela sentiu o ardor
entrar-lhe pelas narinas. Número 17 disse-lhe num tom neutro:
- Estás a sangrar.
- Não é nada – replicou Maron e pôs-se de pé. Limpou depressa o nariz
e colocou-se novamente em posição de defesa.
O último raio de sol sumiu-se atrás dos montes e caiu uma escuridão
azulada. Número 17 anunciou no mesmo tom:
- Os treinos terminaram.
- Eu ainda posso continuar.
- Anda tratar desse nariz.
- Tens medo de continuar?
Número 17 admirou-a durante algum tempo, em silêncio.
- Não gostavas de lutar comigo outra vez? Se apareces em casa com o nariz
inchado e se o teu pai descobre que fui eu, nunca mais me vês.
Maron baixou os braços, convencida com aquele argumento simples.
- Ah…
Seguiu número 17 e entraram os dois em casa, um sítio acanhado, com
uma única divisão que fazia as vezes de sala, de quarto e de cozinha. A casa de
banho era um anexo, situado no exterior, com uma porta independente. Ele calcou
num interruptor e acendeu-se uma lâmpada que balançava num fio por cima de uma velha
mesa quadrada de madeira. Maron sentou-se numa cadeira. Número 17 trouxe uma
bacia com água e estendeu-lhe uma toalha pequena. Ela começou a limpar o
sangue. Trouxe-lhe depois dois cubos de gelo dentro de um saco de plástico
transparente fechado com um nó. Ela encostou o saco plástico ao nariz. O gelo
causou-lhe impressão e alívio.
- Queres jantar comigo? Cacei umas lebres, esta tarde.
- Não posso. Ninguém sabe que estou aqui, na serra. A minha mãe pensa
que fui à cidade, fazer compras.
- Não me pareces menina de andar a comprar roupa.
Maron franziu um sobrolho.
- Gosto de fazer compras!
- A tua mãe também. Conheces o passado da tua mãe?
- Conheço… Algumas coisas. Quando era mais pequena, o meu pai
contava-me as histórias das suas aventuras. Serviam para que eu adormecesse.
- Histórias estranhas para fazer dormir uma criança.
- Que sabes tu! – Replicou ela irritada com a censura que fizera ao
pai.
- Miúda, não me interpretes mal. Mas nunca gostei de Son Goku e dos
amigos dele. E o teu pai é um amigo de Son Goku.
Maron deixou o saco plástico do gelo em cima da mesa. Levantou-se,
arrastando a cadeira que arranhou o chão poeirento.
- A tua sobrinha é filha de um dos amigos de Son Goku.
- Continua a ser o meu inimigo.
A declaração era deslocada e ela observou:
- Mesmo depois de todos estes anos?
- Estou programado assim, miúda. Não passo de um androide comandado
por um computador, não pelo coração.
Por momentos, teve dúvidas se número 17 lhe estava a pedir que
sentisse compaixão da sua situação solitária e proscrita. Mas ele era irmão
gémeo da mãe, número 18 odiava sentimentos piegas e esqueceu essa ideia.
- Problema teu.
- Fria como a mãe.
- Incomoda-te?
- Não. Faz-me recordar tempos antigos. Tempos bons!
- Pensava que eras comandado por um computador e não pelo coração.
Número 17 também se levantou. Piscou-lhe o olho.
- És uma rebelde!
Maron sorriu.
- Como a minha mãe?
Ele apontou para o nariz dela.
- Não queres pôr mais gelo? Continua inchado.
- Pois… Esse é problema meu. Não deixes o teu computador preocupado
com isso. Pode ter um curto-circuito, ou coisa assim.
Ele mudou de assunto.
- Antes de te ires embora, queria mostrar-te uma coisa.
Maron desconfiou:
- O quê?
- É uma coisa que veio comigo da Dimensão Z. Encontrei-a há alguns
anos na floresta, quando estava a caçar e ainda não consegui descobrir o que é.
Mostrei-a a várias pessoas, mas ninguém soube esclarecer-me.
- E como posso eu saber?
- Por causa das histórias que o teu pai te contava.
- O que é?
- É uma bola. Houve um velho que me disse que era uma bola mágica, mas
não conseguiu adiantar-me mais nada. Tenho-a guardada. Às vezes, tiro-a para
fora, gosto de admirá-la. Espera aqui, vou buscá-la.
Número 17 trouxe um lenço branco volumoso e depositou-o na mesa. Abriu
cuidadosamente as dobras deste, como se ali guardasse uma joia. E se não era
uma pedra preciosa parecia, porque brilhou como tal assim que a luz da lâmpada
acesa incidiu na sua superfície.
- Sabes o que é isto, Maron?
Ela negou com a cabeça, respondendo num sopro:
- Não.
Admirou aquela pequena bola cor-de-laranja, brilhante e translúcida,
que número 17 lhe mostrava entre os dedos. Espreitou a bola e descobriu que
tinha algo lá dentro, fixo, suspenso no cristal.
Eram quatro estrelas vermelhas.
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