A escuridão coloriu-se
de cinzento, primeiro um tom mais carregado que foi mudando gradualmente para tonalidades
mais claras, até ser quase branco, até despertar.
Doía-me a
cabeça mas fiz um esforço para abrir os olhos. Aquele dia estava a ser pródigo
em despertares inusitados. Não sabia muito bem onde me encontrava, se no meu
sofá depois de um duche, se no carro do Tiago, se na minha cama depois de ter sonhado
em que tinha passado a noite a dormir no banco de trás do carro do Tiago, se em
frente à minha casa com Trunks em forma de rapaz, se noutro lugar qualquer.
Percebi que
estava deitada.
Definitivamente,
a última hipótese: noutro lugar qualquer.
As pálpebras
pesavam-me uma tonelada, mas consegui entreabri-las.
Estava num
quarto, deitada numa cama feita, apalpei uma colcha debaixo de mim. As
persianas da janela estavam corridas, passava luz pelos buraquinhos. Nas
sombras, não reconheci a mobília, os recantos.
Encontrei uma
miúda a olhar para mim, debruçada sobre a cama. Não consegui assustar-me,
estava dormente.
A voz saiu-me
rouca:
- Quem… quem
és tu?
A miúda era
bonita. Loira, olhos azuis, uma cara redonda, um vestido a combinar com o laço
que lhe prendia o cabelo.
Lembrei-me
dela. A miúda estava no hospital, naquela noite em que soubera da notícia do
acidente do Tiago.
A cabeça
encheu-se das memórias dos últimos instantes antes de ter desmaiado. O Tiago
dizia que se chamava… E se ele se chamava… então, aquela miúda era a irmã dele
e chamava-se…
- Bra –
murmurei.
Ela reagiu.
Correu para a porta, mas não chegou a sair. Falou em japonês para alguém que se
aproximava:
- Okaasan, ela já acordou.
- Vai para baixo. Estamos quase a começar a almoçar.
Venho ver se a nossa convidada já está em condições para ir comer.
- Hai!
A miúda desapareceu
e entrou uma mulher. Também a reconheci, também estava no hospital.
- Estás
acordada? – Perguntou em castelhano, inclinando-se sobre o meu rosto. – Já te
sentes melhor?
Era a mãe
dele e se ele se chamava… então a mãe dele chamava-se Bulma. O nome atordoou-me
e fechei os olhos.
- Sentes-te melhor?
- Insistiu preocupada.
Respondi a
gaguejar:
- Sim.
- Consegues
levantar-te?
- Eu… acho
que preciso de um banho.
- Queres
tomar banho? Este quarto tem casa de banho privativa. Arranjo-te roupa e uma
toalha.
- Se não se
importar…
- Não me
importo nada. Se não te importares de usar a minha roupa.
- Eu? –
Soltei um risinho nervoso. – Usar a sua roupa? Essa é boa!
- Podes
tratar-me por tu.
Ela foi até à
janela dizendo:
- Vou
levantar as persianas, para deixar entrar um pouco de luz no quarto. Bem, tomas
banho e depois vens almoçar connosco. Concordas?
Fiquei tensa.
- Almoçar
aqui?
- Hai.
A claridade
do dia que inundou o quarto encandeou-me e tapei os olhos com os braços.
- Gomen nasai.
- Não faz mal.
Tenho de me levantar e deixar de ser piegas, certo?
- Vou
trazer-te o que precisas. Ah… Só uma coisa.
A cabeça
parecia um carrossel. Pisquei os olhos, espreitei-a por entre os braços, era
ainda mais esquisito do que quando a vira no hospital, agora que sabia quem ela
era.
- Como é que
te chamas, querida?
- Ana –
respondi.
- Ana… Gosto
do nome.
Saiu do
quarto.
E apeteceu-me
desmaiar outra vez.
***
O aroma
saboroso de comida acabada de fazer vinha até mim, saindo, invisível e
tentador, pela porta da cozinha. A sandes de queijo e o leite achocolatado do
início da manhã há muito que tinham sido digeridos e estava outra vez com fome.
Parei, a
tomar coragem.
Belisquei-me.
A dor dos meus dedos a apertar a pele foi bem real e eu acreditei que não
estava a dormir.
Entrei na
cozinha. Era espaçosa, quadrada, com eletrodomésticos brancos e brilhantes,
bancadas de madeira clara, os azulejos e as cortinas em tons de amarelo. Junto
à parede, debaixo de um candeeiro quadrado cromado, estava uma mesa de seis
lugares, com três cadeiras ocupadas. O pai à cabeceira, a filha e o filho de
cada lado. Disse os nomes deles mentalmente. Vegeta, Bra e Trunks.
Não conseguia
avançar. Era como penetrar num sonho alheio.
- Senta-te ao
pé de Trunks, Ana – indicou a mãe.
Disse o nome
dela mentalmente. Bulma.
Respirei
fundo e dirigi-me para o lugar que me tinha indicado. Puxei a cadeira com
cuidado para não arrastá-la pelo chão. Sentei-me sem fazer qualquer ruído. Era
um fantasma a entrar no mundo dos vivos. Ou então, o contrário, um ser vivente
a visitar o mundo etéreo. Deixei as mãos no colo, debaixo da mesa. Não
conseguia olhar para ele, que se sentava ao meu lado direito.
Bulma
guarneceu a mesa de diversas travessas onde fumegava arroz, legumes variados,
pedaços de carne envolvidos em molho espesso. Pousou ainda um jarro de água e
dois pacotes de sumo. Começou a servir os pratos, começou por Vegeta.
Tomei coragem
e levantei os olhos. Estremeci aflita com o que descobri.
- Tiago, o
que foi que te aconteceu? Tens a boca rebentada.
Ele olhou
primeiro para o pai. Respondeu:
- Não foi
nada… E podes parar de chamar-me Tiago. Já sabes que o meu nome não é esse.
- Ah…
Desculpa, não me apercebi.
Bulma acabou
de servir os pratos.
- Ana-san,
podes começar a comer. - Voltou-se para a filha. - Bra, para de olhar para a
nossa convidada e olha para o teu prato.
A miúda
agarrou imediatamente no garfo a dizer:
- Gomen nasai, ‘kaasan.
O almoço
começou em silêncio. Apesar da simpatia de Bulma, o ambiente estava longe de
ser simpático. Agarrei também no meu garfo. A comida parecia apetitosa, mas
perdera inexplicavelmente o apetite. Espreitei Trunks, mais a sua boca
rebentada. Tragava garfadas de legumes e de arroz como se não comesse há três
dias e agora, conhecendo a sua identidade, já percebia por que comia ele tão
esganado, fosse uma sandes de queijo, um gelado ou legumes com arroz. Sorri.
Sem querer, o meu olhar desviou-se para Vegeta e descobri que tinha um olho
negro, a testa arranhada, um grande penso na face direita. Teriam andado a
lutar os dois, pai e filho? Outra vez?
- Passa-se
alguma coisa? – Perguntou-me aborrecido, batendo com os talheres no prato.
- Não, nada.
- E mergulhei os olhos no meu prato.
- Vegeta
esteve a treinar-se ontem à noite - explicou Bulma.
Vegeta tornou
a bater com os talheres no prato, em sinal de protesto.
- E apesar de
não me ter dito, aposto que foi com Son-kun.
- Quem?
- Goku.
- Com… com
Goku? - Gaguejei.
Bra olhava
para mim com um sobrolho franzido.
Trunks não
reagia e continuava a comer, como se o mundo fosse acabar dali a dois minutos.
Bulma
perguntou-me:
- Estás a
gostar do almoço?
Acenei que
sim.
- Não estás a
comer, querida.
- Ah… Ainda
me dói a cabeça.
- Faz um
esforço, deves alimentar-te. Estás muito pálida.
Acenei outra
vez que sim e enfiei um garfo cheio de arroz na boca.
- Eu sei que
não sou uma excelente cozinheira, mas esforcei-me para que hoje saísse tudo
bem. Nunca gostei muito de cozinhar, admito. Agora, se quiseres provar comida
divinal, feita com todos os preceitos, terás de ir visitar Chi-Chi.
Vegeta levantou-se
de repente. Encolhi-me.
- Onde vais?
- Perguntou Bulma.
- Já
terminei. - E saiu da cozinha, com as mãos enfiadas nos bolsos. O prato estava
cheio de comida.
Bra seguiu o
pai com o olhar, enquanto mastigava devagarinho. Trunks terminava a sua refeição
e arrumava os talheres no prato, colocando-os lado a lado, com tanto cuidado
que nem sequer retiniram. A minha deixa. Arrumei também os meus talheres,
limpei a boca no guardanapo. Agradeci o almoço e disse a Bulma que teria de me
ir embora. Tinha gente preocupada comigo por não saberem do meu paradeiro e
estava a faltar ao emprego. Ela concordou comigo e pediu ao filho que me
levasse à cidade. Trunks levantou-se e saiu da cozinha. Despedi-me à pressa e
segui-o, não queria perder a minha boleia.
***
O Toyota
branco deixou a urbanização de Gambelas numa marcha regular, nada condizente
com o condutor que havia afirmado que gostava de acelerar. Possivelmente, de
noite transformava-se.
O silêncio
continuava a imperar, mas não me achei no direito de o quebrar. Sentia-me
constrangida com aquela situação e esperava que ele não tivesse mesmo de me
matar, depois de ter revelado os seus segredos, mesmo que a ameaça se
revestisse agora de um ligeiro toque cómico.
Foi ele que
acabou por falar:
- Deves ter
muitas perguntas que queres fazer.
Concedia
espaço à minha curiosidade, queria revelar-se, totalmente despido de toda e
qualquer máscara que o tinha resguardado dos perigos do meu mundo.
Sim, tinha
muitas perguntas, todas atropelando-se, querendo ser a primeira, porque era a
mais importante, a pergunta que responderia, de uma assentada só, a muitas
perguntas, mas o que comecei por perguntar foi:
- Onde está o
Toyota vermelho?
- Ficou
destruído no acidente.
- Sempre
tiveste… um acidente?
- Hai. Estive quase a morrer, mas um
feijão senzu salvou-me.
- Claro! Um
feijão senzu! – E desatei a rir pois aquilo
soava de uma maneira tão fantástica. Lembrei-me do mestre que tinha a forma de
um grande felino branco e estranhei: – Quer dizer que Karin está aqui? Mas
onde?
- Não sei.
Num qualquer lugar misterioso, para ocidente. Todos aqueles que estão ligados a
Son Goku estão aqui.
Processei
aquela informação devagar.
- Todos
mesmo?
- Hai, todos. Já conheces alguns…
Lembrei-me e
comecei a tremer.
- Gohan. –
Olhei para ele e perguntei: – Eu tenho aulas de japonês com Son Gohan?
Ele também
olhou para mim.
- Se quiseres
continuar com as aulas.
- Que coisa…
tão… espetacular. – Perguntei a seguir: - E que fazem aqui, em Portugal? Por
que é que não estão no Japão?
- Escolhas.
- De quem?
- Ana, mesmo
que te tenha revelado o meu nome verdadeiro, continua a haver segredos que não
vejo necessidade de os conheceres – sentenciou com uma voz dura.
- Porquê?
- Pergunta
outra coisa.
- E por que é
que não falam em português?
- Ainda não
temos uma voz portuguesa. Falamos apenas as línguas que nos foram atribuídas na
tua dimensão.
- Ah…
Compreendo. Conseguem falar os idiomas para os quais “Dragon Ball” foi dobrado.
Estou certa?
- Se é assim
que o entendes, acho que está certo.
- Por que é
que não gostas de “Dragon Ball”? Se tu és… quem dizes que és?
Sorriu pela
primeira vez.
- Para nós,
ver a forma como existimos nesta dimensão é mortal. Se for exposto ao teu
precioso “Dragon Ball”, perco a vida.
- Oh… Não
sabia… E falei-te tantas vezes de…
- Não o poderias
saber.
Entrávamos na
cidade. O Toyota parou num semáforo fechado, atrás de uma fila de automóveis.
-
Conheces-nos demasiado bem, não conheces?
- Conheço.
Ele olhava-me
com uns olhos azuis profundos e agora entendia a beleza transcendental do rosto
dele. Apaixonei-me por ele na curta duração daquele olhar que não pertencia ao
meu mundo. Eu tocava no impossível, no universo dos sonhos, noutra dimensão.
Ele aguardava
que eu respondesse mais qualquer coisa.
O semáforo
abriu.
- Já vi o teu
pai chorar.
O Toyota
arrancou atrás dos outros automóveis.
- Gostei da
resposta – disse lacónico.
Comecei a
divagar:
- Isto parece
uma coisa dos “Ficheiros Secretos”!
Ele levantou
um sobrolho, numa expressão admirada.
- Conheces? “Expediente X”? É uma série de televisão.
- Nós não
vemos televisão, para não termos dissabores.
- Hum…
Percebo, por causa de “Dragon Ball”. Bem, então eu conto-te a cena. Estás a
ver, “Ficheiros Secretos”, dois investigadores do FBI. Aparecia o Fox “Spooky”
Mulder, com aquele estilo muito compenetrado, mostrava-me as suas credenciais e
dizia-me: “Bom dia!… ou Boa tarde! Agente Mulder, do FBI. E esta é a minha
colega, a agente Scully”. A Dana Scully vinha atrás dele, olhos claros, cabelo
ruivo, também compenetrada, enfiada nos seus fatos de duas peças, de saia
travada. O Mulder começava com as perguntas, que nunca são diretas: “É verdade
que conheceu um rapaz chamado Tiago, num dos bares da cidade, no mês de agosto?”;
“É verdade que conheceu o pai do Tiago nessa mesma noite?”; “Não conheceu mais ninguém
relacionado com o Tiago? Amigos da família?”; “Nunca achou nada estranho no
Tiago?”. Então, eu começava a ficar preocupada… A Scully analisava as minhas
reações com o seu olhar científico… As perguntas do Mulder não eram diretas,
porque o que ele queria averiguar era a presença dos heróis de “Dragon Ball” em
carne e osso, na minha… como foi que tu chamaste? Na minha dimensão. E, ao
mesmo tempo, provava a sua teoria da existência de muitos universos e da
existência de vida extraterrestre, pois, no fim de contas, vocês são extraterrestres.
Ele riu-se e
eu ri-me com ele.
O Toyota
estacionou na rua do meu prédio.
- É verdade,
não é? Vocês são mesmo extraterrestres?
Trunks
desligou o motor do automóvel.
- Meio saiya-jin.
Arrepiei-me,
sorri.
Como já era
habitual, as despedidas eram sempre difíceis e longas.
- Bem… - Não
consegui dizer o nome dele, era tudo demasiado recente, precisava de absorver
aquelas informações todas no seu tempo devido. – Obrigada por tudo.
- Eu também
te agradeço. Por teres ficado e por teres escutado.
- Qualquer
dia… Terás de me traduzir o que me disseste.
- Qualquer
dia – concordou triste.
Abri a porta
do carro.
- Vamo-nos
vendo por aí.
- Se o meu
pai deixar.
- Vegeta não
gosta muito de mim. Porquê?
- Tem medo de
ti.
Desatei a rir.
- O quê? Mas
isso é impossível! Vegeta tem medo de…?
- Acredita
que é verdade. Djá ná, Ana.
Sempre pensei
que ele me fosse beijar, mesmo com a boca rebentada. Gostaria de curá-la com os
meus beijos, mas ele agarrou-se ao volante e afastou a possibilidade dessa
cura. Rodou a chave, o motor começou a trabalhar.
Fechei a
porta do automóvel. Olhei desolada para a minha casa. Saía da dimensão dos
sonhos, reentrava na realidade pardacenta. A janela do Toyota estava aberta e
espreitei por esta.
- Espera!
Quero perguntar-te uma coisa… Lembrei-me agora.
Trunks olhou
para mim.
- Onde está
Son Goten?
Empalideceu,
gaguejou:
- Na-nani?
- Vocês são
amigos, não são? Mas nunca te vi com ele. Tu disseste que tinham vindo todos
para a minha dimensão. Onde está Son Goten?
O motor do
Toyota roncou quando ele carregou no acelerador, com a mudança engatada e sem
soltar a embraiagem. Larguei a janela.
- Desculpa
Ana, mas tenho mesmo de me ir embora.
- Está bem…
E o condutor
que gostava de acelerar revelou-se, mesmo à luz do dia, o Toyota branco desapareceu
voando pela rua afora. Fiquei intrigada com aquela reação.
Entrei em
casa mole e abatida. Não estava doente, apesar de ter sido essa a desculpa que
inventei para não me aborrecerem com as inevitáveis perguntas, sendo a
principal “mas por onde tens andado, desde ontem à noite?”. Estava esmagada com
uma realidade que me parecera fantástica quando a descobrira, mas que agora se
revestia de um peso monstruoso que eu não sabia se seria capaz de suportar.
E, no meio de
tudo aquilo, qual era o lugar do André?
E o meu
lugar?
Sem comentários:
Enviar um comentário