A claridade
incomodava-me, mas recusava-me a abrir os olhos, dormitando naquele limbo entre
o sono profundo e a espertina. Sentia-me cansada, com uma dor que me moía o
fundo das costas. Gemi, quis afastar a claridade, encontrar outra posição que
fosse menos incómoda.
Passado uns
minutos, rendi-me e perdi a guerra com o sol. Pisquei os olhos, tentando
situar-me. Tinha vontade de urinar, a boca sabia-me mal.
Vi um vidro
embaciado, um espelho retrovisor. Vi o painel de instrumentos e uma luz acesa
de onde saía música. Pareceu-me um carro… Mas o que fazia eu num carro, de
madrugada?
Lembrei-me de
repente e abri os olhos. O Tiago dormia, encostado à janela da porta. Tapei a
boca com as mãos. Tinha passado a noite com ele, a dormir no banco de trás de
um carro, no meio de nenhures.
Ele roncava
ligeiramente, apesar de toda aquela luz a entrar pelo carro adentro. Como
conseguia ele dormir como se estivesse numa cama, era um mistério, porque eu
tinha a sensação que não tinha dormido nada. Os ossos estalaram quando me espreguicei.
Encolhi-me
com um arrepio. Estava com frio. Tentei abrir a porta e verifiquei que estava
trancada. Sim, o Tiago tinha trancado as portas para aquela viagem. Rastejei
até ao assento do condutor, carreguei no botão do fecho centralizado situado na
porta desse lado. Quando regressei ao banco traseiro, encontrei o Tiago a
esfregar os olhos. Notei que tinha rastos brancos na cara, onde as lágrimas
tinham corrido. Adorei esse detalhe e a boca, que já me sabia mal, ficou seca
como um cato.
- Ohayo, Ana.
- Ohayo.
- Hum… Que
horas são?
- Não sei,
mas deve ser muito cedo.
- Então,
podemos dormir mais um pouco.
- Sim.
Puxei o
manípulo, abri a porta, uma aragem fresca entrou no habitáculo.
- Onde vais?
- Vou fazer
xi… Vou… Tenho de ir lá fora.
- Ah, eu
também quero.
- Eh… Eu vou
sozinha!
Ele riu-se.
- Está bem,
vai lá primeiro.
Quando
regressei vinha enregelada. Encolhi-me no banco. Ele saiu pela outra porta, mas
não se afastou tanto como eu. Voltou-se para uma árvore perto do carro. Eu
corei e desviei o olhar. Aquela intimidade confundia-me.
Enrosquei-me
num canto, estava cheia de frio. Quando ele entrou, enroscou-se em mim e eu
fiquei imóvel, deixei de conseguir reagir normalmente. Aquilo não era suposto
estar a acontecer, certamente, mas também não queria que ele me soltasse.
Naquela posição, com ele a abraçar-me por trás, aquecia-me e confortava-me.
- É mesmo
muito cedo – disse-me.
- O sol
nasceu…
- Hum… A
noite de ontem já acabou.
Estava tão
fatigada que adormeci pouco depois, com ele a respirar para cima dos meus
cabelos.
Despertei
estremunhada. Sacudi-o.
- Tiago, que
horas são?
Ele também
tinha adormecido. Resmungou, de olhos fechados.
- Estás a
ouvir-me? Temos de ir embora! Hoje é dia de semana, tenho de ir trabalhar.
Ele levantou
uma pálpebra.
- Trabalhar?
- Tiago,
acorda. Leva-me para casa.
- Ainda é
cedo…
- Estou com
fome e quero ir tomar banho e tenho de ir trabalhar.
Ele
concordou, de olhos fechados.
- Hum… Fome.
Também tenho fome.
Esperei. Mas
ele não se mexia. Sacudi-o outra vez.
- Para com
isso, nena. Estás a deixar-me tonto.
- Tiago, vá
lá. Vamos embora!
Contrariado,
abriu os olhos. Bocejou com espalhafato, espreguiçou-se ocupando a parte de
trás do carro com os braços abertos, obrigando a baixar-me. Passou
vagarosamente para o assento do condutor.
- Primeiro,
vamos comer. Existe um lugarejo aqui perto. Vou buscar qualquer coisa para
trincarmos.
Não o
contestei. Naquela altura já me tinha entregado incondicionalmente nas suas
mãos.
Subimos um
pouco mais na serra. Eu olhava para a cidade pelo espelho lateral, quando esta
ficava visível entre as encostas, junto à faixa de mar que era azul forte
àquela hora da manhã. Estávamos a afastar-nos, mas não me importei, porque
significava que ficava mais uns minutos com ele.
Estacionou o
Toyota à porta de um café de uma aldeia que se constituía por casas de um lado
e do outro da estrada que subia. Entrou e passado um pouco trouxe três sandes
de queijo, um leite achocolatado e um sumo de laranja. Levou o Toyota até outro
refúgio, colado a um enorme penhasco recortado num cerro e foi aí que comemos.
Antes de eu conseguir chegar a metade da minha sandes, já ele tinha devorado as
suas duas sandes e amolgava o pacote do sumo de laranja. Ele comia realmente
muito depressa.
Olhou para
mim e o leite ficou-me atravessado na garganta.
- Vamos
embora – anunciou e começámos a descer a serra, em direção à cidade e ao mar.
Fizemos a
viagem calados.
Espreitei o
relógio digital do carro, situado por cima do autorrádio. Eram quase dez horas,
a manhã de trabalho estava perdida. Achei que o dia inteiro também. Não me
conseguiria concentrar e fazer o que quer que fosse depois de uma noite como
aquelas, tão mal dormida. Espreitei-o. E passada com o Tiago. Apesar de não ter
acontecido as coisas normais que acontecem entre duas pessoas que se gostam,
fora inédito e especial ter partilhado sono, baba e fazer xixi de manhã com
ele. Sorri.
De repente,
empalideci. Lembrei-me do André.
Estava metida
numa grande trapalhada! O que diria ao André? Não, o André não poderia saber
daquela noite. E iria eu mentir ao meu namorado? Comecei a roer as unhas.
O Toyota
branco estacionou em frente ao meu prédio. O Tiago desligou o motor do carro.
- Bem, espero
que os meus pais não me façam muitas perguntas.
- Foi a
primeira noite que passaste fora de casa?
- Não. Mas
foi a primeira vez que não disse para onde ia.
- Diz-lhes
que foste raptada.
Ri-me.
- Quem diz a
verdade, não merece castigo. Não é?
- Acho que
sim, nena.
Saí do carro,
fechei a porta. Ele abriu a janela, a convidar-me para a despedida formal, para
umas últimas palavras. Enfiei a cabeça pela janela e disse-lhe:
- Até
qualquer dia, Tiago.
- O meu nome
não é Tiago.
- Mas eu não
sei o teu nome verdadeiro. Lembras-te?
- Chamo-me
Trunks.
- Trunks?
- Hai.
Desenfiei a
cabeça da janela, endireitei as costas.
A boca
sabia-me mal, precisava desesperadamente de um banho. Um duche morno para me
acalmar, para me limpar, para me envolver num relaxamento que me atirasse para
o sofá onde levaria o dia inteiro a relembrar a noite anterior.
Ele tinha-me
contado como se chamava e eu nada, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Pois, era apenas um nome…
Lembrei-me do
pai dele, que tantas vezes me tinha baralhado o raciocínio e evitado uma
conclusão lógica, mas que agora parecia-me absolutamente fundamental para
quebrar o último selo.
O pai do
Tiago era um homem de estatura baixa, de cenho franzido, cabelos muito pretos
espetados para cima, dono de uma força impressionante, sabia lutar. O pai do
Tiago, não. O pai de…
Um relâmpago
cruzou-me a mente.
“Dragon Ball”.
O professor
Gomano tinha uns olhos negros que sorriam atrás dos óculos e tinha um rosto
simpático e tinha uma biblioteca recheada de livros e tinha uma filha que se chamava
Paula. Não! Chamava-se… Pan!
As imagens
passavam com a velocidade de balas no meu cérebro entontecido. A cabeça estalou
e comecei a ver tudo enevoado.
O homem
vestido de vermelho, a atirar para o laranja. Aqueles cabelos negros espetados em
dois tufos e a cara… Aquela cara inocente, terna, admirada, a olhar para mim.
E, quando o vira,
balbuciara:
- Goku…
“Dragon
Ball”.
E Trunks e
Pan e, muito provavelmente, Gohan e Videl e Vegeta e…
E eu a cair
no passeio, engolida por uma náusea.
Desmaiei.
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