Esquecendo-se completamente de onde estava, sonhando com a paisagem
verdejante da sua meninice e com o rio onde pescava com o pai, distraiu-se e foi
atraiçoado por um bocejo.
- Professor, vamos embora.
Gohan olhou para o aluno que se chamava Marco e que se sentava na
primeira mesa da fila do meio.
- Vamos embora – insistiu.
Os outros alunos aguardavam a resposta, canetas e lápis suspensos.
- Não vamos nada embora – disse Gohan endireitando-se na cadeira. – Continuem
a resolver esses exercícios.
- Estes exercícios são aborrecidos – disse o Miguel. – Nós já demos
esta matéria no ano passado, na cadeira do professor Duarte.
- Precisamente, estamos a rever a matéria do ano passado. E os
exercícios não são aborrecidos. São para serem resolvidos! – Culminou a última
frase engrossando a voz, procurando ser autoritário.
- E a aula vai ser só resolver exercícios?
O Miguel começava a irritá-lo. Pediu silêncio às filas de trás, onde
se juntava um grupo de alunas mais faladoras e reforçou:
- Quanto mais depressa acabarem os exercícios, mais depressa saem da
aula. Quero toda a gente a pensar em números e a resolver os problemas… Onegai shimass.
A plateia emudeceu. E Gohan corou.
Novo deslize. Estava demasiado distraído, havia duas noites que não
dormia em condições. Primeiro, tivera a impressão que sentira a Porta dos
Mundos a abrir-se. Na noite seguinte, não conseguira descansar com medo de
sentir o mesmo.
- O professor sabe falar japonês? – Perguntou a Susana.
- Sei – gaguejou. – Eu… sou japonês. Nasci no Japão, pode-se dizer.
- A sério? Não parece. Achas que o professor parece japonês, Sónia?
A Sónia negou com a cabeça.
- O que é que foi que disse em japonês, professor? – Perguntou o
Miguel.
Gohan suspirou. Uniu as mãos em cima da secretária.
- Pedi-vos que resolvam os problemas, por favor.
- Poderia falar um bocadinho mais em japonês? – Pediu a Susana
sorrindo.
- Porquê?
- Ah, é tão giro! Nunca
conheci ninguém que soubesse falar japonês, uma língua assim… diferente.
Por momentos, recordou-se da Ana.
Sentiu-se acanhado, mas concedeu. Seria talvez um pequeno preço a
pagar para ter os alunos novamente concentrados nos exercícios de matemática.
- Acredito que, depois de me ir
embora desta dimensão, vou sentir a vossa falta e gostaria muito de poder levar
uma recordação vossa para casa, pois apesar de não quererem fazer o que vos
peço, por minha culpa também, são alunos fantásticos, com um grande futuro.
Ninguém se moveu por longos segundos de silêncio. A Susana estava
boquiaberta e foi o Miguel que verbalizou o que todos estariam a pensar:
- O professor muda de voz quando fala em japonês.
Gohan apoiou a testa numa mão. Aquilo ia de mal a pior.
- Não querem continuar com os exercícios? – Murmurou.
A Susana recuperou a postura sorridente e disse:
- Ah, mas o professor quando fala em japonês é tão… é tão…
- Sexy? – Arriscou a Sónia.
Gohan meneou a cabeça, sentindo-se afundar na cadeira.
- É tão… fofinho! – Completou a Susana.
Gohan olhou para a aluna.
- Nani?
- Sim, muda de voz, é verdade. Mas fica com uma voz tão querida!
Ouviram-se gargalhadas.
- O professor conhece “Dragon Ball”?
A pergunta gelou-o. Vinha da última mesa, da fila da direita. Gohan
reparou no Paulo, que esticava a cabeça para se mostrar. Tentou manter-se
calmo.
- “Dragon Ball”? – Indagou fingindo-se admirado.
- Sim. São uns desenhos animados japoneses muita fixes – explicou o Paulo.
A Susana disse logo:
- E achas que o professor vê desenhos animados?
- E depois? Até pode ver! O pai de um amigo meu vê esses desenhos
animados. E como o professor vem do Japão pode conhecer, aquilo lá foi muita famoso. Conhece as aventuras de
Son Goku?
Gohan levantou-se da cadeira e anunciou esganiçado:
- A aula terminou! Acabaram-se os exercícios! Podem ir para casa!
As mãos tremiam quando fechou o livro de matemática que tinha aberto
em cima da secretária.
O Miguel foi o primeiro a sair da sala. Os outros alunos ainda
demoraram alguns minutos a perceber que era mesmo a sério. Começaram a arrumar os
cadernos devagar, à espera que o professor se lembrasse que aquilo tinha sido
um mero devaneio e que os mandasse regressar aos exercícios aborrecidos, mas
convenceram-se que a aula terminara quando o viram a recolher os livros e os
papéis fotocopiados para dentro da mala de cabedal castanha. Saíram em
silêncio. O último a abandonar a sala foi o Paulo que se aproximou dele.
- Disse alguma coisa que não devia, professor?
Gohan sorriu.
- Não, Paulo.
- É que pareceu… Por causa daquela história dos desenhos animados.
- Descansa, está tudo bem. Resolve os exercícios em casa. Na próxima
aula, vamos corrigi-los.
- Mas é mesmo verdade que vem do Japão?
Gohan acenou que sim.
- Então, agora que não está mais ninguém aqui…
- Queres saber do “Dragon Ball”?
O rapaz encolheu os ombros.
- Eh… Se não for nenhum segredo.
- Por acaso…
Gohan agarrou na mala e saiu da sala, com o Paulo.
- Acaba por ser – completou e a lembrança do pai, dentro do rio, a
exibir um peixe enorme nos braços, arrancou-lhe um sorriso rasgado, os óculos
descaíram para o nariz.
- O quê?
- Um segredo.
Desceram as escadas juntos.
- Não estou a perceber, professor. É segredo que vem do Japão?
- O que queres saber sobre “Dragon Ball”?
- Conhece?
Chegaram à porta do edifício da faculdade. Divertiu-se a imaginar qual
seria a reação do Paulo se soubesse que o professor de matemática era o filho
de Son Goku.
- Conheço melhor do que julgas – disse Gohan, ajeitando os óculos na
cara.
- Ah… Conhece alguém que participou na série?
- Hai. Podemos dizer…
- Quem?
- Ouve, Paulo. “Dragon Ball” é apenas… um mundo normal. Igual ao teu.
O Paulo riu-se.
- Igual ao meu? Aqui não temos saiya-jin!
- Olha que podes estar enganado.
Piscou-lhe o olho e despediu-se, deixando o pobre rapaz intrigado com
aquela resposta. Saboreou a pequena maldade, uma experiência mínima mas que lhe
deu uma alegria tremenda. Dirigiu-se ao parque de estacionamento, onde deixara
a bicicleta. Apetecia-lhe continuar a prolongar aquela satisfação e decidiu que
iria dar uma volta à praia antes de voltar para casa, para se rir para os céus
e dizer, em voz alta, em japonês, gritar aos ventos que era filho de um saiya-jin e que se chamava Son…
- Gohan!
A alegria escoou-se por um ralo pequeno e estreito.
Estacou, como se o tivessem atravessado com uma lança.
- Gohan!
Era uma voz conhecida, porém, que o chamava com descontração. Voltou-se
e encontrou o pai sorridente que se encaminhava na sua direção. A imagem da
lembrança anterior, no rio, o peixe exibido, materializava-se diante dos olhos,
com os contornos nítidos da Dimensão Real. Mas sem rio e sem peixe. Franziu o
rosto, irritado.
- Otousan! Tu não me podes
chamar pelo meu nome!
Goku disse acabrunhado:
- Gomen nasai, Gohan. Mas
não me lembro como é que te chamas na Dimensão Real. Eu nem me lembro como é
que eu me chamo!
- Chamo-me Gomano!
- Ah, pois… Gomano…
- E mesmo que não te lembrasses, podias evitar chamar por mim no meio
do parque de estacionamento da universidade. Não vês que está cheio de gente?
E abriu os braços como que a querer indicar todo o cenário que os
rodeava, animado com alunos, professores e funcionários que passavam de um lado
para o outro.
- Pois…
- O que é que queres…? – Parou a pergunta a meio ao reparar no olho
negro e nos arranhões na cara do pai. Fez outra pergunta: – O que foi que te
aconteceu?
- Nada. Estive a treinar-me com Vegeta. Foi agradável.
- Deve ter sido… A julgar pela tua cara.
- Vegeta está parecido. Não utilizámos todo o nosso poder, mas deu
para aquecer. Transformamo-nos em super
saiya-jin!
- Ah… Então foram vocês que andaram a provocar os sismos de há duas
noites atrás?
- Honto? – Goku abriu muito
os olhos. – Sentiste os tremores de terra?
- Eu e toda a gente da cidade e arredores, ‘tousan.
- Pois… Eu bem lhe disse para ter mais cuidado, mas Vegeta é teimoso. Não
interessa, já passou e ninguém se lembra mais disso.
- Se não existirem mais tremores de terra. Ou as pessoas daqui ficarão
a pensar que um vulcão estará prestes a explodir na serra. Temos de ser
discretos… Não foi isso que combinámos?
Goku imitou-lhe o gesto de há pouco. Abriu os braços e indicou todo o
cenário que os rodeava.
- Estar aqui não é ser discreto.
- ‘Tousan! – Corou com a
censura velada.
- Professor Gomano. Boa tarde.
Uma mulher juntava-se a eles, Gohan reconheceu-a. Era a professora
Teresa que se desfazia em mil e um sorrisos simpáticos e em mil e uma conversas
infindáveis quando o encontrava. Ultimamente, tinha a mania de lhe oferecer
lanches no bar da faculdade. Ele aceitava, porque não podia ser indelicado com
ela, não estava no seu feitio, mas tinha a impressão de que, ao fazê-lo,
alimentava um monstro guloso de mal-entendidos e de falsas expetativas. Gohan
sorriu sem vontade e disse entredentes:
- Boa tarde, professora Teresa.
- Ainda não o tinha visto hoje, professor Gomano.
- Tenho estado ocupado… Aulas.
- Por acaso, hoje também tenho estado muito ocupada. Reuniões de
científico, sabe como é.
- Pois… sim.
- Um aborrecimento pegado. E, ainda por cima, enganaram-me para
coligir a ata da reunião. Levo trabalho para casa.
- É realmente… um aborrecimento.
- Sentiu o tremor de terra de que se fala tanto?
Sem querer, Gohan deitou uma olhadela a Goku.
- Não – gaguejou. Acrescentou, passando a mala de uma mão para a
outra: – Ouvi no rádio que foi de noite.
- Sim, foi perto das zero horas.
E disse “zero horas” como se fosse muito diferente do vulgar
“meia-noite”.
- Estava a dormir
- Ah!... Deita-se cedo. Faz muito bem. Devemos fazer jus ao ditado,
não é verdade? Deitar cedo e cedo erguer…
Reparou em Goku e recuperou a postura correta e irrepreensível de
professora universitária. Estendeu-lhe a mão para o cumprimentar, mas Goku não
reagiu e olhou confuso para a mão estendida. Gohan deu-lhe uma cotovelada e,
para disfarçar, disse:
- É… É o meu pai.
- O seu pai?
- O que foi? – Perguntou Goku sem entender a cotovelada.
- Aperta-lhe a mão! – Ciciou
Gohan.
A professora Teresa percebeu que as palavras não saíram no habitual castelhano
e olhou-o admirada. Gohan sorriu como um pateta. Goku apertou a mão da
professora.
- Teresa. Muito prazer.
- Teresa?
- Ela chama-se Teresa – segredou-lhe Gohan.
- Ah! – Goku sacudiu o braço da mulher, compreendendo, por fim, o
gesto e as palavras dela. – Eu chamo-me Son Gok…
- Gonçalo! – Gritou Gohan.
A Teresa olhou-o embasbacada. E Gohan repetiu, sem gritos:
- Gonçalo. O meu pai chama-se Gonçalo.
- Ah.
Gohan fixou um olhar penetrante no pai. Goku encolheu os ombros, a
desculpar-se em silêncio que os nomes que Bulma arranjara eram muito difíceis
de decorar. A professora Teresa repartia a atenção pelos dois e descobriu as
marcas no rosto de Goku.
- Mas… o que foi que lhe aconteceu, senhor Gonçalo? – Perguntou a
torcer a cara numa careta de horror.
- Porquê? – Estranhou Goku.
Foi Gohan que adiantou uma explicação:
- O… o meu pai pratica artes marciais e esteve a treinar-se
recentemente.
- E os treinos são assim tão duros?
Goku riu-se de gosto.
- Se conhecesses o meu adversário…
- São, são duros – interrompeu Gohan com medo que o pai começasse a
falar em Vegeta e em super saiya-jin
e em sismos.
- Mas está a treinar-se para algum torneio?
- Um torneio?
- Sim. Uma competição…
- Não. Treino-me para me manter em forma e para derrotar os guerr…
- Para se manter em forma, só isso – tornou Gohan a interromper.
- Deve ter cuidado, senhor Gonçalo – advertiu a professora Teresa com
um sorriso sedutor. – Tem uma cara demasiado bonita para estragá-la com treinos
muito violentos.
- Ahn? – Goku piscou os olhos.
A professora Teresa lançou um olhar lânguido para Gohan dizendo:
- Já percebi onde foi buscar esses olhos encantadores. Tem os olhos do
seu pai, sabia?
- Acho que sim – respondeu e teve a impressão que não era ele quem
respondia.
A professora Teresa olhou para o relógio de pulso e concluiu:
- Bem, já se faz tarde e tenho muito trabalho à minha espera. – Acenou
discretamente com os dedos da mão esquerda. – Até amanhã, professor Gomano.
- Até amanhã
- Gostei muito de o conhecer, senhor Gonçalo. Espero ter o prazer de o
voltar a ver.
Goku sorriu. A professora Teresa afastou-se e Gohan suspirou de
alívio. Mudou novamente a pasta de cabedal de mão. No entanto, tinha o estranho
pressentimento que havia mais bombas para cair na tranquilidade da sua vida da
Dimensão Real.
- Gohan, aquela mulher sabe que és casado?
A pergunta deixou-o engasgado.
- Porquê?
- Pareceu-me muito interessada em ti.
- Impressão tua.
- Hum…
Viu a professora Teresa entrar num automóvel cinzento, a sentar-se
diante do volante, a compor o cabelo arruivado olhando-se ao espelho
retrovisor. O melhor seria começar a recusar um ou outro lanche…
Mudança de assunto, mudança radical, uma das especialidades de Goku.
Perguntou-lhe:
- Queria falar-te sobre a Porta dos Mundos, Gohan.
- Nan dá?
- Para além do tremor de terra, não sentiste mais nada?
- Hai. Uma impressão.
Acordou-me no meio da noite. E achas que foi a Porta dos Mundos?
- Tenho a certeza.
- Um de nós esteve quase a interagir? Quem?
- Trunks. E Vegeta está convencido que foi com aquela tua aluna. Como
é que ela se chama?
- A Ana? Como é que Vegeta sabe isso?
- Desconfia… Eu consigo dar-lhe razão. Devemos ter muito cuidado a
partir de agora. Nunca mais estiveste com a rapariga, pois não?
- Eh… – Gohan coçou a cabeça. – Depois daquela reunião estranha na
casa de Vegeta-san, em que me pediste para acabar com as aulas de japonês, não
vi a Ana durante duas semanas. Mas ela encontrou-me, na universidade, pediu-me
que retomasse as aulas e eu disse-lhe que sim.
- Gohan! Tinha-te pedido que terminasses com essas aulas.
- ‘Tousan, se interagir
fosse ensinar japonês à Ana, já tinha acontecido quando lhe dei a primeira
aula. No entanto, não existe motivo para preocupações. Não tem aparecido nestes
últimos dias, nunca mais a vi.
- Hum… Se ela voltar a aparecer, inventa uma desculpa e acaba outra
vez com as aulas.
Gohan torceu a boca. Concordou, relutante:
- Está bem.
- Se ela esteve afastada por duas semanas, afasta-a por mais duas.
Pode ser que Bulma entretanto termine a máquina das dimensões. Vais-te embora e
pronto. Então é que acabam as aulas de vez.
- Poderá acontecer assim – disse, ainda pouco convencido.
Goku olhou em volta, respirando fundo o aroma dos pinheiros.
- O sítio da tua universidade é bonito.
- Ah… Não é a minha
universidade.
- Ubo já está em casa e eu vou para lá – anunciou, concentrando-se no
horizonte. – Gostei de conversar contigo, Gohan. Não te esqueças, mantém-te
atento em relação a essa rapariga chamada Ana. Djá ná!
Gohan ficou azul ao vê-lo levar dois dedos à testa. Gritou, de braços
estendidos:
- Não, otousan! Espera!
Tarde demais. A Shunkan Idou
funcionou e Goku encontrou-se na sala da pequena e desconfortável casa de
madeira onde vivia, em frente a Ubo que se sentava à mesa. Descobriu os quatro
peixes de escamas prateadas numa vasilha e os olhos brilharam a antever o
banquete daquela noite.
O rapaz levantou-se assim que ele chegou.
- Ah! Que belos peixes!
A alegria evaporou-se quando Ubo lhe perguntou num só fôlego:
- Quem é Zephir, sensei?
Goku julgou que alguém o tivesse esmurrado.
- Na-nani? Quem é que te
falou de Zephir?
O aviso de Dende regressou aos seus ouvidos. “Ubo não pode sequer
saber da existência de Zephir”. Abanou a cabeça para o fazer desaparecer. Ubo
esperava uma resposta, sem uma expressão definida no rosto paralisado.
- Eu… eu não te podia falar de Zephir – explicou sufocado. Fora
apanhado na mentira e sabia que a relação de confiança que existia entre mestre
e pupilo tinha sido quebrada.
- Porquê?
- Porque… Disseram-me para não te falar de Zephir.
Ubo fez um esgar, estalou a língua, inclinou a cabeça para o lado
direito, mimando um trejeito odioso de Majin
Bu. Goku sentia as gotas de suor a nascer na orla do cabelo, a empapar a testa.
- Porque é que não me foste buscar para te ajudar a combater contra
Zephir no Templo da Lua?
- Já te expliquei.
- Podia ajudar-te. – Rasgou um sorriso trocista, insistindo em mimar Majin Bu. – Sou tão forte como tu.
- Proibiram-me de te levar comigo.
- Eu fiquei à espera… Uma noite inteira, sentado na praia. Depois,
quando o sol nasceu, senti os combates. Sempre à espera. Obediente… como um
cão.
- Ubo, por favor, escuta-me. Tu não te podes aproximar de Zephir.
O rapaz baixou a cabeça, colou o queixo ao peito com um suspiro
arranhado. Começou a respirar entre roncos, como se tivesse adormecido. Goku
arrepiou-se. Os gestos, as reações, eram os de Majin Bu, o espírito a revelar-se perigosamente e logo naquela
ocasião em que falavam do feiticeiro maldito que se servia da magia do Makai, a
mesma magia que um dia controlara Majin
Bu.
O aviso de Dende fazia mais sentido do que nunca.
Goku disse, controlando o medo:
- Tu és um excelente guerreiro. O melhor que a Terra terá no futuro,
quando os saiya-jin já não forem
suficientes para a proteger. Mas, nesta história, com Zephir e esse Templo da
Lua… Não é a tua aventura. Gomen nasai,
Ubo-kun.
Os roncos suspenderam-se.
Ubo olhou para ele com os olhos injetados de sangue.
- Não passas de um egoísta!
- Ahn?
- Não confio mais em ti. Acabou-se!
Goku tentou alcançá-lo, Ubo esquivou-se. Abriu a porta, o odor húmido
a maresia irrompeu pela casa adentro, as roupas colaram-se ao corpo, deixando
Goku ainda mais gelado.
- Eh! Para onde é que vais? Estamos num sítio estranho e tu não tens
para onde ir.
- Cá me arranjo… Provavelmente, vamos ficar neste sítio estranho para
sempre.
- Não vamos nada! Nós vamos voltar para derrotar Zephir.
- Nós? – Ubo riu-se com uma gargalhada estridente. – Eu não entro nessa
história. Como foi que disseste? Essa não é a minha aventura… Sayonara.
E saiu.
Goku deixou-se cair numa cadeira, escondeu a cara nas mãos. Magoado,
desejou que aquela conversa tivesse sido parte de um pesadelo. E desejou, acima
de tudo, com um travo amargo no coração, regressar imediatamente à Dimensão Z e
destruir Zephir para sempre. O maldito feiticeiro corrompia a sua vida e ele,
impotente, não o conseguia travar.
Regressar, mesmo que fosse interagindo com alguém.
E arrependeu-se de ter pedido o que pedira a Son Gohan.
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