- Está quieto, não te mexas! Como é que queres que te trate dessa
cara?
Bulma irritou-se. Vegeta soltou um suspiro cansado, agitando-se
impaciente na cadeira. Ela carregou com força no algodão embebido em água
oxigenada e Vegeta gritou com o ardor que lhe entrou pelo ferimento adentro.
- Não preciso dos teus cuidados, mulher!
Sempre que se sentia encurralado, tratava-a daquela maneira rude,
trazendo à superfície as raízes incivilizadas dos da sua raça. Bulma agarrou
num penso que retirou da caixa de primeiros-socorros.
- Não te quero no meio da rua com ar de quem anda a travar combates
clandestinos noturnos.
- Eu estive a combater ontem
à noite. E não quero estar no meio da rua.
- Mas vais estar!
Bulma aplicou-lhe o penso com uma chapada e Vegeta cerrou os dentes,
esforçando-se para não voltar a gritar. Ela não mostrou uma gota de
sensibilidade. Fechou a tampa da caixa de primeiros-socorros com uma palmada e
saiu da cozinha. Ele deixou-se ficar sentado, descansando um braço dorido na
mesa. Noutra cadeira, Bra observara a cena dos curativos calada como um
ratinho. Ele perguntou-lhe:
- Este passeio é ideia tua?
A filha negou com a cabeça.
- Hum-hum… Foi ideia da ‘kaasan.
Ele suspirou aborrecido, fechando os olhos.
- É sábado e a ´kaasan diz
que está um dia muito bonito para passear.
Bulma regressou à cozinha, compondo a alça da mala no ombro.
- Vamos?
E a voz dela tinha um toque jovial, como se fosse a coisa mais natural
do mundo, dar um passeio em família naquela dimensão. Vegeta não estava com
disposição para discussões e levantou-se da cadeira, enfiando as mãos nos
bolsos das calças, amuado, concentrando-se no ardor do ferimento que tinha na
cara. Pelo menos, era algo a que estava habituado, aguentar a dor, fintá-la,
esquecê-la, até que a chaga se fechasse e estaria pronto para outro combate.
Sentou-se no lugar do pendura, fechou a porta do automóvel. Bulma
ajudou Bra a colocar o cinto, no banco de trás e tomou o lugar ao volante.
- Não te quero com esse ar de condenado ao pé de mim.
- E Trunks?
- Ele não quer vir. Deixa-o. Não me apetece arruinar a minha boa
disposição desta tarde.
- Ele não quer vir e não vem. Eu, pelo contrário… – resmungou.
Bulma rodou a chave, ligando o motor. Ajustou o volume do autorrádio,
baixando-o, para permitir uma conversa, sem que deixassem de ter música
ambiente para acompanhar as palavras.
- Acontece que acho que precisas de te distrair – explicou ela,
conduzindo o automóvel para a estrada. – Andas demasiado tenso.
- Não devias estar a terminar a máquina das dimensões?
- E eu também preciso de me distrair. Uma pausa, Vegeta, nas nossas
atribulações.
Espreitou a filha pelo espelho retrovisor. Bra estava radiante com
aquele passeio e, olhando pela janela, absorvia com genuína felicidade todos os
detalhes daquela curta viagem. Bulma sorriu.
Chegaram à cidade, dirigiram-se ao centro, Bulma estacionou o
automóvel no parque de estacionamento situado à entrada da rua das lojas.
Entrelaçou-se no braço de Vegeta que insistia no amuo, mas ela não se importou.
Apesar de o céu se mostrar ameaçador, pejado de nuvens cinzentas, não estava
frio e havia uma luminosidade preguiçosa a acentuar cada detalhe. Admirou
algumas montras e anunciou, ao chegar junto à entrada do centro comercial,
próximo da Gardy, a pastelaria mais afamada daquela rua:
- Vamos parar aqui para tomar um café.
Vegeta não esboçou qualquer sinal, de aprovação ou de recusa.
Deixava-se, simplesmente, comandar pelos caprichos dela, fechado em si mesmo,
ruminando a dor do ferimento da face direita, uma fina agulha enfiada na carne,
insignificante, quase motivo de escárnio, porque o príncipe dos saiya-jin não se incomodava com aquelas
ninharias. Mas a insignificância era bem-vinda, salvava-o de uma situação
ingrata e não se queria irritar durante aquele estúpido passeio.
Bra apontou para uma mesa do fundo e exclamou:
- Olha quem está ali, ‘kaasan.
É Kuririn-san!
- Oh, que surpresa agradável. Vamos ter companhia para o café.
Aproximaram-se da mesa onde se sentavam Kuririn, número 18 e Maron,
entretidos com os cafés, o leite, as águas e os bolos. Bulma disse:
- Parece que hoje toda a gente teve a mesma ideia.
Kuririn devolveu o sorriso a Bulma. Levantou-se atrapalhado, arrastou
uma cadeira de uma mesa próxima e convidou-a a sentar-se, juntamente com Vegeta
e com Bra, dizendo de rajada que haveria lugar para eles, gostaria muito que
partilhassem o lanche. Ficara nervoso por ter sido descoberto na rua mais
concorrida da cidade, num sábado à tarde, como se pertencessem ali, como se
fosse coisa normal lancharem na esplanada de um café da Dimensão Real. Mas
Bulma não quis comentar, porque também ela estava de passeio com a família e Vegeta
decidira laconicamente ignorar o ambiente externo.
Bra sentou-se ao lado de Maron, enquanto Bulma e número 18 trocavam um
cumprimento cortês. Kuririn perguntou, ao reparar no grande penso na cara de
Vegeta:
- E o que foi que te aconteceu?
Bulma respondeu por ele:
- Vegeta andou a lutar com Goku, ontem à noite. Por causa de Trunks,
consegui saber. E sabes onde andaram a lutar?
- Onde?
- Aqui, na cidade. Numa rua, mais abaixo desta, onde se situam os
locais de diversão noturna.
- Honto?
Pelo canto do olho, Vegeta viu número 18 esconder um sorriso com a
chávena do café com leite.
- Tiveram assistência, alertaram a polícia. Felizmente, conseguiram fugir
a tempo e desapareceram antes de serem apanhados pelas autoridades. Espero que,
enquanto estivermos aqui, não apareça ninguém que esteve a assistir ao combate.
Se o reconhecerem, vai ser um problema.
- Tu é que insististe neste passeio – retorquiu Vegeta.
- Por acaso, não tiveram nada a ver com a destruição daquela loja do
final da rua, um café antigo que se chama “Aliança”? Quando passámos por ali,
ouvimos comentar que colocaram ontem uma bomba nessa loja.
- Vegeta? Sabes alguma coisa?
- Talvez tenha sido Trunks – respondeu. – O ki dele aumentou de repente e desapareceu no início da noite. Foi
assim que descobri que andava por estes lados e vim atrás dele.
- Por que razão iria Trunks destruir o interior de uma loja?
- Por que é que não perguntas ao teu filho?
Bulma não gostou da resposta. Kuririn interveio, para evitar a
discussão:
- O que é que Trunks andava a fazer ontem à noite para motivar uma
luta entre Vegeta e Goku? Para além de, supostamente, andar a destruir lojas…
- Estava com uma rapariga.
Maron pousou a chávena que tinha entre as mãos. Bulma explicou:
- A mesma rapariga que estava a espiar-nos, no dia seguinte à nossa
aventura no hospital. Aquela que tinha aulas de japonês com Gohan-kun. No
início desta semana, essa rapariga esteve quase a interagir com Trunks.
Vegeta cruzou os braços e o seu rosto mudou de aborrecido para
zangado.
Kuririn empalideceu:
- Então, o que senti não fez parte de um pesadelo? Foi mesmo a Porta
dos Mundos?
- Hai.
- E o que fizeram os dois, para que interagir estivesse quase a acontecer?
- Era de noite, estavam os dois sozinhos, no meio da serra. Podemos
imaginar…
- Muito bem. Já percebi! – Cortou Kuririn aflito, a deitar olhadelas à
filha que, com apenas dezasseis anos, não podia ouvir certas conversas.
- Depois Trunks contou à rapariga quem nós somos, apresentou-nos com
os nomes verdadeiros. Como a rapariga conhece a forma que temos nesta dimensão,
passou a saber da nossa estadia temporária aqui. Assim, significa que não pode
ter qualquer contacto connosco.
- As aulas de Gohan-kun já tinham terminado, certo?
- Julgo que sim.
- Então, só Trunks é que continua a encontrar-se com ela.
- Esses encontros terão de terminar também – afirmou número 18 séria.
- Não te preocupes – resmungou Vegeta. – Eu asseguro-me que Trunks
nunca mais se vai encontrar com essa intrometida.
Uma novidade, Vegeta a concordar com número 18 e Bulma olhou admirada
para ele.
- E o que é que acontece, se Trunks e a rapariga se encontrarem outra
vez? – Perguntou Kuririn.
- Interagir – respondeu número 18 num tom neutro.
- Não vai acontecer – replicou Vegeta.
- Como é que tens tantas certezas? – Perguntou Kuririn.
O saiya-jin sorriu, Maron
encolheu-se.
- Trunks sabe que terá de me enfrentar.
Bulma sentiu o sangue fugir-lhe.
- Nani? Tu ameaçaste o teu
próprio filho?
Apareceu um empregado desfolhando um pequeno bloco de notas, com um
lápis entalado entre os dedos.
- Boa tarde. Os senhores desejam alguma coisa?
A interrupção do empregado rasgou a tensão, como um trapo a ser lentamente
dividido ao meio. A seguir, o silêncio, o empregado especado, aguardando a
resposta à sua pergunta, esperando que fosse Bulma a responder-lhe. Kuririn deu
um toque ao de leve no braço da amiga que desistiu de fulminar Vegeta com um olhar
imperioso, exigindo uma resposta que ela, apesar de tudo, já conhecia. Ele
tinha ameaçado o filho. Respondeu à pergunta do empregado e fez o pedido. Dois
cafés, um sumo e um bolo para Bra.
***
Na geladaria Gardy próxima dali, pertença do mesmo dono e, por isso, com
o mesmo nome do café em cuja esplanada, e sem que o suspeitasse, estavam os
seus amigos, Gohan esperava o seu turno no balcão com uma nota de mil escudos
na mão. Depois do par de namorados, seria atendido. Naquele sábado à tarde
tinha vindo passear até à cidade com a família.
A empregada, de vestido verde-escuro coberto por um avental branco,
cumprimentou-o com um sorriso cordial.
- Boa tarde.
Gohan pediu três cones com dois sabores, menta e chocolate. O verão já
tinha acabado, mas o dia, apesar de velado por um manto de nuvens pardas, não
estava especialmente fresco e Pan adorara a ideia de comer um gelado com os
pais. Enquanto esperava que a empregada terminasse de compor os cones que
pedira, alguém colocou-se ao seu lado.
- Veja lá! Tem de ter cuidado com a garganta.
Gohan voltou-se e encontrou a professora Teresa.
- Já entramos no outono – acrescentou a sorrir-lhe abertamente.
Era a última pessoa que queria ver, naquela tarde que dedicava à
família, numa tentativa de pôr cobro às batalhas surdas que travara nos últimos
tempos com Videl. Não devia ser indelicado, contudo, e saudou-a com simpatia.
- Boa tarde, professora Teresa.
- Boa tarde, professor Gomano. Resolveu passear hoje?
- Sim.
- Nunca o tinha encontrado por estes sítios.
- Não costumo vir até à cidade…
- É verdade. Nunca o encontrei fora da universidade. É uma pessoa
muito caseira?
- Sim, sou uma pessoa muito caseira – concordou inquieto. Não gostava
da excessiva proximidade da professora e daquele sorriso melado.
- Posso perguntar-lhe o que faz em casa, dias e dias a fio?
- Estudo… na minha biblioteca.
- Ah! É uma pessoa dedicada ao trabalho, então. Não o julgava uma
pessoa assim. – Pediu a uma segunda empregada: – Um cone de baunilha e ananás,
se faz favor.
- Não me julgava uma pessoa assim, como?
- Uma pessoa tão responsável em relação àquilo que faz. Se fica em
casa a estudar na sua biblioteca, presumo que prepara as suas aulas na
universidade e aprofunda a sua sabedoria nas matérias que leciona. Engano-me?
- Realmente, não se engana.
- Quem olha para si, não diria que é tão… estudioso. Compreende-me?
- Não.
- Você é jovem, Gomano. Muito jovem. Vai para a universidade de
bicicleta, corre com desenvoltura. Tem um corpo atlético, bem proporcionado.
Muito bem desenhado.
E pousou a mão no peito dele. Usava dois anéis prateados, no dedo
indicador e no dedo do meio, cada um com uma enorme pedra laranja. As unhas
compridas estavam tratadas com uma fina camada de verniz incolor.
- Não tem o aspeto físico de um rato de biblioteca – concluiu ela,
sorrindo de través. – Deve fazer algo mais… do que passar os dias a estudar.
A mão dela estava quente, sobre o coração dele. Sentia-o bater, de
certeza, mas Gohan não se deixou perturbar e as batidas cardíacas mantiveram um
ritmo normal.
- Costumava treinar artes marciais com o meu pai – explicou lacónico.
– Quando era mais jovem. Mantenho a forma física, fazendo alguns exercícios,
mas agora passo a maior parte dos meus dias a estudar.
Ela retirou a mão, ele sentiu-se mais aliviado. A empregada deixava
dois cones no suporte metálico posto em cima do balcão. Menta e chocolate. A
segunda empregada deixava o gelado de baunilha e ananás no mesmo suporte
metálico.
- Com o seu pai?
- Sim… Com o meu pai.
- Hum… E chegava a magoar a sua cara daquela forma tão brutal?
- Às vezes.
- Bem, teve sorte. – Aproximou-se, lançando uma baforada para cima da
boca dele. – Não tem cicatrizes assinaláveis.
- Sempre recuperei depressa.
- E lutava bem?
Gohan inclinou a cabeça para trás, para fugir do alcance das
respirações da professora.
- O meu pai dizia que sim. Mas eu nunca gostei de lutar. Sempre que o
fiz, foi para… defender o que achava correto.
- Defender? – Estranhou ela.
A empregada deixou o terceiro gelado de menta e chocolate no suporte
metálico. Gohan entregou a nota de mil escudos, disse à empregada que pagava os
quatro gelados e que não queria troco. A empregada sorriu e agradeceu.
A professora agarrou no gelado de baunilha e ananás.
- Muito obrigada, Gomano, pelo seu gesto tão amável.
Era a primeira vez que o tratava só pelo nome, deixando cair o
professor. Ele agarrou nos três gelados.
- São para os seus amigos?
- Não. São para a minha mulher e para a minha filha.
O sorriso da professora Teresa diluiu-se. Perguntou azeda:
- Nunca me disse que é casado.
- Nunca me perguntou.
- Um detalhe interessante. É um poço de surpresas, senhor professor.
Ele sorriu-lhe, mas ela olhou
para o relógio de pulso, escapando-se do alcance daquele sorriso inocente.
- Não gostaria de conhecer a minha mulher e a minha filha? Elas estão
ali fora.
- Senhor professor, estou atrasada.
Virou-lhe as costas, enfiando o gelado de baunilha e ananás no balde
do lixo vermelho que estava junto à entrada da geladaria. A tampa articulada
ficou a abanar.
- Vemo-nos na universidade, professora Teresa.
Mas ela não lhe respondeu.
Saiu, carregando os três gelados nas duas mãos. Pan agarrou
entusiasmada num cone e Videl, quando recebeu o seu, observou desconfiada:
- Demoraste muito tempo lá dentro.
- Encontrei uma colega da universidade.
- Uma colega? Não seria
aquela mulher que saiu uns segundos antes de ti?
- Provavelmente.
- Parecia zangada. Conversaram sobre o quê, para ela ficar daquela
maneira?
Ele lambeu a bola com sabor a menta. Encolheu os ombros.
- Coisas sem importância.
- Hum… Gohan-san, não gostei daquela mulher. Ela estará interessada em
ti?
- Porque é que dizes isso?
O grito de Pan salvou-o.
- ’Tousan! Olha quem está
ali!
Olharam para onde a filha apontava com tanto alarido e descobriram,
numa mesa da esplanada do café que se colava à geladaria, Kuririn e Bulma com
as respetivas famílias. Bra também reconheceu a amiga e lançou outro grito:
- Pan-chan!
Aproximaram-se. Pan arrastou uma cadeira pela calçada e sentou-se ao
lado de Bra que bateu palmas, recebendo-a com risadinhas de alegria. Kuririn
cumprimentou-os, convidou-os a juntarem-se ao lanche. Depois, viu a cara cómica
da filha, a boca aberta, o recheio de ovos-moles do croissant a escorrer pelos dedos e repreendeu-a:
- Maron-san! Comporta-te. É apenas Gohan-kun.
Mas ela não olhava para Son Gohan. Balbuciou, fixando o olhar vítreo
mais adiante:
- Aquele que vem ali… Não é Yamucha-san?
- Nani?
Kuririn voltou-se na cadeira, Bulma parou de mexer o açúcar do café
enquanto esticava o pescoço.
Descendo a rua das lojas, vinha um homem e uma mulher, abraçados,
roçando-se, com o passo sincronizado, trocando beijos e lamechices, delambidos
como um parzinho novo de namorados. Mas aquele homem e aquela mulher não eram
jovens, tinham o ar pesadão conferido pela meia-idade retocada para emular a
juventude distante e já perdida.
Alcançavam a esplanada e, se dúvidas houvera relativamente à
identidade do homem, a proximidade desfizera-as todas. Vegeta rosnou, as duas
meninas, Bra e Pan, estavam emudecidas porque adivinhavam sarilho. Bulma levantou-se
da cadeira e chamou-o:
- Yamucha.
Assim, pelo seu verdadeiro nome, em plena Dimensão Real, para que ele
soubesse quem o chamava e estremecesse de terror, como se tivesse diante dele o
próprio Zephir.
O par parou, ele ficou vermelho como um semáforo. Gaguejou:
- Bulma?!
Assim, o nome verdadeiro dela, em plena Dimensão Real, e ele a estremecer
de terror, como se ela fosse um enviado do próprio Zephir.
Os olhos de todos colavam-se no par, agora não tão agarrado e nem tão
enamorado. A mulher perguntou:
- Senhor Eduardo, passa-se alguma coisa?
Bulma foi direta.
- Quem é esta?
A mulher ofendeu-se.
- Esta?!
- É… uma amiga minha – explicou Yamucha.
- Parece-me mais do que só uma amiga.
Bulma torceu o nariz à mulher que ainda era mais pirosa do que
parecera à distância – cabelo pintado e armado em caracóis fantasiosos,
maquilhagem berrante, colares e pulseiras e anéis em doses exageradas, um
decote escandaloso e uma saia demasiado curta, a mostrar umas coxas musculadas.
A mulher defendeu-se.
- E sou mais do que uma
amiga. Sou a companheira do senhor
Eduardo!
- Apresento-te a Dedé – murmurou Yamucha. E acrescentou inquieto, pois
não tinha a certeza se deveria chamá-la pelo nome – Bulma.
- Dedé? – Disse Kuririn. – Não sabia que alguém se poderia chamar
dessa maneira.
A mulher puxou pelo braço de Yamucha.
- Mas quem é esta gente tão grosseira, senhor Eduardo? E quem é esta
senhora de tão baixo nível?
- Ela não está a falar de mim, pois não? – Perguntou Bulma.
Yamucha negou com a cabeça.
- Senhor Eduardo? Quem é esta gente?
- São amigos.
- Olhe, pois, se não se importa, senhor Eduardo, não pretendo tomar o nosso cafézinho na
mesma esplanada desta gente grosseira, mesmo que sejam seus amigos. Que horror!
A Gardy, tão mal frequentada.
- Onde é que a encontraste? – Perguntou Kuririn.
- No ginásio…
- Tu frequentas um ginásio?
Yamucha tentou explicar:
- Era para me distrair. Dois dias por semana… Não falava com ninguém.
Entrar e sair, sem dar muita confiança. Nunca falei com ninguém.
- Mas arranjaste uma amiga… que parece muito íntima – observou Kuririn
semicerrando os olhos.
- Livra-te dessa mulher. Já! – Ordenou Bulma.
A mulher indignou-se.
- Senhor Eduardo, não vai deixar que me falem assim, pois não?
Yamucha deixou de respirar.
- Ouviste o que eu te disse?
E era o mesmo tom de voz que Bulma utilizava quando discutiam e quando
lhe exigia vassalagem ou o namoro terminaria no segundo seguinte. Tantas vezes
utilizara aquele expediente que houve, realmente, um dia, em que terminou para
sempre.
Vegeta levantou-se, Gohan levantou-se atrás, vigiando-lhe os
movimentos.
- Senhor Eduardo, acho que aquela senhora tem algum problema com a
nossa relação. Acho mesmo que está com ciúmes.
Continuava sem respirar, mas Yamucha conseguiu fazer passar as
palavras pela glote:
- Dedé… lamento. Mas é melhor ir embora.
O silêncio caiu. A mulher inchou como um pavão, corou e apertou os
punhos. Mas quando todos apostavam que ia desatar numa gritaria capaz de varrer
a rua das lojas de uma ponta à outra como uma enxurrada, controlou-se e disse
num tom de voz cerrado:
- Está bem, vou-me embora. Só que fique bem esclarecido: não vou
porque me está a pedir. Vou porque não aprecio escândalos com gente grosseira e
de reputação duvidosa. Mas eu logo lhe telefono para esclarecer toda esta
situação, senhor Eduardo. Nós os dois vamos ter uma grande conversa.
Girou sobre os calcanhares e afastou-se num andar afetado, Yamucha
conseguiu respirar novamente. Encurvou as costas, cansado, como se tivesse
acabado de livrar um combate complicado num torneio de artes marciais. Bulma
censurou-o, para rematar a cena:
- O que é que tinhas na cabeça para arranjares uma namorada na Dimensão
Real? Continuas a não conseguir resistir a um rabo de saia… Nem mesmo aqui. Que
vergonha, Yamucha-san!
Se dissesse a Bulma que estava com a Dedé porque a achava parecida com
ela, era um homem morto e guardou esse comentário. Perguntou se podia sentar-se
com eles e Kuririn respondeu-lhe que sim. Estalou os dedos para chamar a
atenção do empregado e pediu uma água gaseificada.
- Nunca pensaste que podias interagir com essa Dedé? – Indagou
Kuririn.
Antes de responder, Yamucha olhou para Vegeta que fingia ignorá-lo.
- Bem… na realidade, não – mentiu. Acrescentou atrapalhado: – Não
aconteceu, certo? Não interagi com ela. Esqueçam a Dedé.
- Se tu também a esqueceres – atirou Bulma provando o café que tinha
arrefecido. Pô-lo de lado.
Yamucha não soube como responder. Aquela relação não teria
consequência, mas era divertido fingir que a Dedé era Bulma e que era assim que
poderia ter sido se tivessem continuado juntos.
Pan e Bra brincavam uma com a outra, trocando segredos, gelado e bolo,
totalmente alheadas à confusão dos adultos. Maron vigiava-as, sorrindo com a
alegria delas.
Gohan disse:
- Vegeta-san… Reparei quando cheguei, mas não tive oportunidade de
dizer nada, porque, entretanto, tivemos o pequeno percalço com Yamucha-san… O
que foi que aconteceu com a tua cara?
- Andou a lutar com o teu pai, ontem à noite – explicou Bulma
acendendo um cigarro. Soprou o fumo para o lado. Número 18 franziu a cara, não
gostava de vê-la a fumar ao pé da filha.
- Porquê?
- Por causa de Trunks e da tua aluna.
Vegeta olhou para ele.
- A Ana-san já não é minha aluna – explicou Gohan, devolvendo o olhar.
- Honto? Mas tinha ouvido
que as aulas tinham recomeçado, apesar de terem sido canceladas logo após o
acidente de Trunks…
- Concordei em receber a Ana-san quando ela me apareceu à porta, nesta
quinta-feira à noite – explicou a Bulma. – Não iria mandá-la embora, seria tão
indelicado da minha parte.
Videl resmungou qualquer coisa.
- Falámos sobre nós…
- Sobre nós? – Indagou Kuririn.
Gohan sorriu e disse:
- Falámos sobre Namek. Não, não é nada estranho porque ela sabe quem
nós somos, conhece o nosso passado. As nossas aventuras! – E deu uma entoação
dramática a essa frase. Deixou de sorrir, quando o dramatismo se escoou na
expetativa dos rostos que tinha voltados para ele, como numa sala de aula. –
Foi a desculpa perfeita. Nós estamos a braços com outra, digamos… aventura, para simplificar. Disse-lhe
que não nos poderia voltar a ver, especialmente Trunks. Eu também senti a Porta
dos Mundos a querer abrir-se no início da semana, soube que foi ela com o teu
filho, Bulma-san. Não lhe expliquei
porque é que não nos podia voltar a ver, não lhe falei sobre interagir…
Pedi-lhe apenas que se afastasse e a Ana-san compreendeu as razões que
invoquei. E tenho a certeza que vai acatar o meu pedido.
Sem comentários:
Enviar um comentário