Os kucris
desfizeram-se em baforadas fedorentas de fumo entre grunhidos aflitos. Goten
respirou fundo, aliviando a tensão dos músculos, verificando satisfeito que o
corredor estava totalmente limpo daquelas criaturas horrorosas. Começou a andar
com cautela, limpando as mãos na túnica rasgada, vigiando as sombras esquivas
do lugar.
Continuou
sozinho por alguns metros, pensando no que tinha acabado de acontecer.
Encontrara uma rapariga estranha que sabia o nome dele, estava todo coberto de
uma papa verde, caminhava no interior do Templo da Lua, quando já tinha saído
daqueles subterrâneos.
Encolheu-se
subitamente com aquela memória. Tinha combatido contra Trunks até à morte. Ou
quase… Não sabia precisar. O certo era que terminara com a sua derrota, um raio
a atravessá-lo, a dor funda nas entranhas, perdera o conhecimento.
No fim
daquele corredor havia um poço fundo e escuro. Goten espreitou-o. Para baixo
não era caminho. Levantou um braço e disparou um raio. Passou pelo buraco que
abrira e descobriu-se noutro corredor, mais arejado, menos sombrio.
E se acordava
recomposto, dentro daquele emaranhado de passagens, quando fora tão gravemente
ferido, só queria dizer uma coisa. Zephir curara-o. Com que intenção, por que
motivo, era um mistério, tão ou mais intrincado que a presença daquela rapariga
que o conhecia e que, bem vistas as coisas, o tinha retirado da caixa negra
onde estivera a restabelecer as forças.
Focou a sua
atenção no local, reconhecendo as auras do pai, de Vegeta, de Piccolo. Eles
continuavam todos ali, deviam ter passado apenas algumas horas, as suficientes
para que ele se curasse. O que, outra vez bem vistas as coisas, fora um golpe
inesperado de sorte, pois assim ele podia regressar ao combate e eliminar o
maldito feiticeiro.
Subiu uma
rampa, viu uma moldura de luz mais adiante e sorriu. Escutou passos nos
corredores, os kucris reagrupavam-se. Quando eram derrotados, os que integravam
as fileiras mais recuadas desapareciam, camuflavam a sua presença. Mas depois
ressurgiam com redobrada agressividade e atacavam com uma ferocidade cega.
Goten não os
queria encontrar novamente nos subterrâneos e correu para a moldura de luz. Mas
de um corredor, que entroncava naquele, apareceu alguém a correr. Parou,
derrapando no chão rochoso. Estava tão distraído com a luz e com a ideia de
escapar finalmente daquele pesadelo de escuridão, que não se apercebeu da sua
aproximação.
Colocou-se em
posição de defesa. Lera primeiro a sua força, descomunal, um adversário de uma
têmpera diferente dos kucris, talvez um dos demónios. Depois, reconheceu-o e
sentiu a garganta secar.
A memória
regressou, como um relâmpago a fender aquele corredor. Voltou a encolher-se.
O outro
também tinha parado, ao encontrar quem parecia perseguir e que quisera
intercetar naquele cruzamento. Adotara também uma posição defensiva
instantaneamente.
Mas algo na
imagem que via lhe era estranha, os pormenores não estavam corretos. Gaguejou,
baixando a guarda:
- Trunks?...
O tempo
parara naquele instante, quando os dois se reconheciam na escuridão.
Recordou,
enfurecido, que não devia aligeirar a sua posição. O amigo estava enfeitiçado e
tinha-lhe furado as tripas com a intenção de o matar. A dor lancinante e o
calor fervente, a memória que o fazia encolher-se regressou e colou-se às
traseiras do cérebro, numa amálgama indistinta. Goten atirou-se para cima de
Trunks, esmagou-o contra a parede, onde uma tocha ardia. Prendeu-lhe o pescoço
com o braço, estrangulando-o, para o observar melhor. E conseguiu ver, com a
ajuda do fogo aceso perto do rosto do amigo, que os olhos já não eram
vermelhos. Eram azuis… e estavam embaciados.
- Goten-kun…
És tu?
O amigo
chamava-o pelo nome. Aligeirou a pressão do braço.
- E tu és
Trunks-kun?
- Tu estás
mesmo aqui?... Vivo? Não és nenhum feitiço?
- Estás a
brincar comigo, baka? Tu é que
estavas enfeitiçado!
Afastou-se,
soltando-lhe o pescoço. Mirou-o confuso, os pormenores continuavam a não estar
corretos. Os olhos já não eram vermelhos, claro, mas o cabelo, a roupa, os sapatos,
a atitude. Goten recuou, apertando os lábios, sentindo-se gelar. Os pormenores
eram importantes e ele não estava a sonhar. Então, pela lógica, aquele não era
quem ele julgava que era.
Não conseguiu
afastar-se mais, Trunks atirou-se para cima dele, esganando-o num abraço.
- Goten-kun.
Tu estás… vivo!
- Hai, estou vivo… Solta-me.
Empurrou-o,
quase em pânico.
- Tu não és o
meu amigo – rematou.
Foi apanhado
pela túnica. Goten sacudiu os ombros, soltou-se, recuou, tentando escapar-se daquela
ilusão.
- Espera,
Goten! Sou eu, sim… O que é que se passa?
- Como é que
podes ser o meu amigo? Tens o cabelo curto e estás vestido com esses calções…
Onde está o teu dogi?
- Ora, para
ti podem só ter passado nove dias, mas para mim e para os outros passaram nove
meses.
- Nani?
- É uma
história muito comprida. Não queres que ta conte aqui e agora, pois não? Não
temos tempo a perder.
A rispidez
com que lhe disse aquilo, com uma pitada de presunção, foi-lhe familiar. Só
Trunks é que lhe falava daquele modo. Franziu o sobrolho direito, arqueou o
esquerdo, dividido entre a dúvida e a crença.
- Como é que
quebraste o feitiço?
- Foi depois
de te ter atingido – explicou Trunks e encolheu-se, como se sentisse a mesma
dor daquela memória que incomodava tanto Goten. – E tu, como é que
ressuscitaste?
- Acho que
nunca cheguei a perder a vida. Fui curado.
Abriu os
braços, exibiu o rasgão da túnica, a pele imaculada, os músculos abdominais bem
vincados.
- Nani? Estás no Templo da Lua. Quem é que
te curou?
- Provavelmente…
Zephir?
Trunks negou
com a cabeça, parecendo assustado.
- Isso não
faz qualquer sentido.
- Pois não.
Mas estou aqui, não estou?
Um movimento
nas profundezas deixou-os alerta.
- Kumis
aproxima-se – disse Trunks.
- Hai. É melhor sair daqui. Ouve… Vais contar-me
essa história comprida, não vais? Como é que dizes que se passaram nove meses e
continuam aqui todos? O meu pai, o teu, Piccolo-san…
Trunks
entremostrou um sorriso.
- Claro que
ta vou contar, podes contar com isso.
Mas o
sorriso, que era tão frágil, desfez-se como se nunca tivesse existido. Trunks
acrescentou com a voz embargada:
- Gomen nasai, Goten.
E foi a vez
de Goten sorrir.
- Ei… Está
tudo bem. Eu estou vivo e tu já não estás enfeitiçado.
Os olhos de
Trunks tremeluziram e duas lágrimas escorreram pelas faces, como duas pérolas
transparentes, iluminadas de vermelho pela tocha que dava luz à cena. Goten
sentiu o coração trespassado pela angústia de estar a ver o amigo a chorar. A
sua curiosidade agudizou-se sobre o que tinha acontecido naqueles nove dias,
que tinham sido nove meses de distância, em que dormira nos subterrâneos do
Templo da Lua.
Um ronco
manso e preciso rolou nas profundezas. O chão entrou em convulsão e começou a
tremer. As paredes abriram rachas e começou a chover pó. Trunks limpou a cara e
disse:
- Isto vai
desmoronar-se. Vamos embora daqui.
- Hai!
Os dois
desataram a correr para a moldura de luz que se esbatia, como se nunca tivesse
estado ali de verdade. Com uma sacudidela mais forte, sumiu-se de vez, ficando
tapada por escombros do teto acabado de desmoronar. Trunks travou, puxando
Goten pela túnica.
- Isto é uma
estupidez. Por que é que estamos a correr?
- Não sei.
Afastou-se,
para dar espaço ao amigo que esticava um braço. Com um berro, Trunks enviou um
disparo de energia que rasgou tijolo, terra e alicerces até ao exterior. Os
dois rapazes impulsionaram-se pelo buraco e quando sentiram o vento frio no
rosto rejubilaram. Sorriram, respiraram fundo, bateram punho com punho, como
costumavam fazer quando eram meninos e conseguiam fazer alguma façanha na raia
do impossível.
O tremor de
terra continuava. Olharam em volta, estavam num pátio, ainda dentro do
perímetro do templo, delimitado por colunas grossas, no centro havia uma fonte
de onde saía um fio de água.
- É o saiya-jin de Zephir – observou Goten a
concentrar-se nas vibrações que sentia. – Está a convocar um enorme poder.
- Está a
lutar com Goku-san – concordou Trunks, também concentrado. – O saiya-jin de Zephir está a transformar-se
em…
- … Super saiya-jin, nível três! – Exclamou
Goten.
- Hai!
O tremor de
terra terminou e calou-se um grito potente que certamente ecoara por todo o
planeta.
- O meu pai
também se vai transformar em super
saiya-jin, nível três.
- Goku-san está
à altura do saiya-jin do feiticeiro,
não vai ter problemas em derrotá-lo. Vamos, Goten. Temos de encontrar
Piccolo-san e o meu pai.
O pátio foi
inundado de passos, grunhidos e rosnadelas. Trunks e Goten esqueceram os
lutadores do céu. Colaram costas com costas e encararam os próximos
adversários. Os kucris juntavam-se, a rodeá-los rápida e perigosamente, a
ocuparem diversas posições para lançarem um ataque em força.
- Estes
bichos irritam-me! – Confessou Trunks.
- Não têm energia
suficiente para nos derrotarem, mas atrapalham-nos por serem tantos.
- Preparado?
- Hai, Trunks-kun!
No momento em
que começava o segundo tremor de terra, quando também Son Goku lançava um grito
que vibrava por todos os cantos do planeta e se transformava em super saiya-jin, nível três, os kucris
atacaram em magote, garras em riste.
O combate
começou. Trunks e Goten varriam a maré negra com pontapés, socos, disparos
ocasionais de energia, sem apurar demasiado a técnica. Qualquer que fosse a
forma utilizada, o resultado seria sempre igual: os kucris desfaziam-se em
fumo, empestando o pátio de um cheiro acre a enxofre. Demasiado fácil, sem
preocupações, quase que poderiam derrotar as criaturas de olhos vendados e com
um braço atado.
Trunks acabou
com três bichos, Goten acabava com cinco. Vinham mais três a caminho,
grunhindo, exibindo as presas amarelas e as garras curvadas.
Uma explosão
retumbou no interior e abanou os alicerces do templo. Rolos de pó irromperam de
uma porta que dava acesso ao pátio e atrás do pó entrou novo bando de kucris
que fugiam frenéticos. Ouviu-se, a seguir, um berro intimidador e, na porta, apareceu
a figura imponente e arfante de Piccolo.
O namekusei-jin gritou:
- Cuidado!
Trunks
voltou-se mas o kucri estava demasiado perto. As garras arranharam-lhe a face
direita.
A dor daquela
ferida foi inédita. Deixou-o dormente, azuado e, sobretudo, irritado. Matou o
kucri que o tinha atingido com um murro que o furou de lado a lado, o sangue
peganhento e as tripas moles do bicho a escorrerem-lhe pelo braço. Um instante
de raiva pura, de invencibilidade. O kucri fez-se em fumo, assim como o sangue
e as tripas. Enxofre e nada.
Endireitou-se,
limpou a cara. Os dedos ficaram sujos de sangue. Sentia-se tonto.
Piccolo
investiu para ele, a rugir ameaçadoramente. Não percebeu a reação, lembrou-se
de um feitiço, Zephir a voltá-los um contra os outros, o raio a atravessar
Goten, o sangue de amizade. Abriu as pernas, ia defender-se, mas sentiu-se
fraquejar. Um joelho foi ao chão. A tontura foi insuportável, apoiou também uma
mão no chão.
Trunks tentou
fugir de Piccolo, mas estava zonzo, as imagens da Dimensão Real a deixar-lhe a
cabeça lotada de memórias que o entonteciam ainda mais. Piccolo agarrou-o pela t-shirt, arrastou-o até a fonte do
centro do pátio, enquanto matava alguns kucris. Fechou os olhos. Sentiu a mão
fria e molhada do namekusei-jin nos
lábios.
- Bebe água.
Depressa!
Abriu um
olho.
- Porquê?...
- Foste
ferido pelos kucris. Se não beberes água imediatamente, morrerás.
Esticou um
braço, encheu a mão em concha de um pouco de água que saía irregular da bica.
Bebeu algumas gotas, sentiu as forças regressarem, as tonturas a levarem a
confusão. Meteu a boca na bica, bebeu três grandes goles. Apalpou a face
direita. Já não tinha nada, sangue, dor, nem sequer uma nervura na pele, um
leve indício de cicatriz. Piccolo soltou-lhe a t-shirt, repreendeu-o:
- Não te
deixes ferir pelos kucris. Se não tiveres água por perto, será o teu fim.
- E como
sabias isso, Piccolo-san?
Piccolo voltou-se
para quem o interpelara. Gritou de espanto.
- Goten-kun!
- Sim, ele
está vivo – contou Trunks, esfregando a face direita, para se certificar que a
cicatriz não existia. – Nunca chegou a perder a vida e Zephir curou-o.
- Nani?
- Não me
perguntes, sei tanto como tu. E Goten também não sabe de nada, afinal passou
estes últimos nove dias inconsciente.
E antes que
Piccolo fizesse a pergunta seguinte, concluiu:
- É mesmo
ele, não é nenhum feitiço. O ki não
mente.
- Estranho…
- Concordo.
Mas temo-lo de volta e é o mais importante. Logo deslindaremos o mistério mais
tarde. Mas voltemos à pergunta inicial: como sabias que a água cura as feridas
mortais dos kucris?
E assim que
terminou a pergunta verificou, pelo canto do olho, que os bichos escapuliam-se
dali, limpando o pátio da sua horrorosa presença. Goten também via o mesmo e
ficava tenso.
- Fui em
tempos o príncipe das trevas, conheço todas as criaturas que vivem nesse mundo.
Oiçam, rapazes: não devemos perder tempo. Vamos procurar pelo feiticeiro e
acabar com isto de uma vez por todas.
- Primeiro,
terão de passar por mim!
Kumis soltou
uma gargalhada ao perceber como os tinha surpreendido.
Nisto, o ar
vibrou em ondas quentes. O demónio olhou para cima. Piccolo, Goten e Trunks
imitaram-no.
O choque de
duas forças colossais nos céus gerou uma explosão avassaladora, uma vaga
luminosa que submergiu tudo. Uma chuva de destroços descambou sobre o pátio.
Kumis, Piccolo, Trunks e Goten abrigaram-se debaixo do pórtico.
Quando a
calma regressou, o pátio estava parcialmente coberto de entulho. Trunks saiu do
abrigo, Goten também.
- O que raios
acabou de acontecer?
- Acho que
metade do templo foi pelos ares.
Kumis empurrou
dois enormes blocos de pedra que o tinham soterrado, sacudindo a cabeça.
Piccolo juntou-se aos dois rapazes e avisou, fixando o demónio:
- Este fica
para mim. Quero que entrem no templo e que procurem pelo feiticeiro.
Compreendido?
- E consegues
dar conta do recado?
A observação de
Trunks ofendeu-o. Piccolo retorquiu entre dentes:
- Antes de vocês
os dois nascerem, já combatia piores adversários que este demoniozinho.
Afastem-se! Kumis é meu.
Goten
segredou:
- Não devias
ter dito aquilo, Trunks-kun.
Encolheu os
ombros.
- Saiu-me…
O corpo do
demónio brilhou com toda a energia que se alojou nos seus músculos. Era
incrível como tinha estado debaixo de pedregulhos e não exibia qualquer
ferimento, mas Piccolo não se deixou impressionar. Arqueou as costas, também
concentrou energia nos músculos, gritou com o súbito aumento de poder.
- Vamos
embora, Trunks-kun?
- Espera… Deixa isto começar. Quero ver como é que o nosso príncipe das trevas se sai. E depois, podemos ir.
- Espera… Deixa isto começar. Quero ver como é que o nosso príncipe das trevas se sai. E depois, podemos ir.
O combate
entre Piccolo e Kumis começou.
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