Entrou na garagem confiante, pois aquele haveria de ser um dia de
triunfo.
Bulma olhava para a máquina das dimensões, as mãos enluvadas apoiadas nas
ancas, um boné nos cabelos penteados num rabo-de-cavalo, vestida com um
fato-de-macaco azul. Estava pronta para atacar o mostrengo, como ela lhe
chamava agora.
Ao contrário do que era habitual naquela dimensão, conseguira dormir uma
noite despida de pesadelos. Despertara apenas uma vez, com a impressão de estar
a cair para um remoinho. Algo como um estalido na alma… Mas a impressão passou
depressa, deitara a cabeça no travesseiro e voltara a adormecer profundamente.
De manhã acordara com aquela ideia e amaldiçoara-se por não se ter
lembrado daquilo antes. Preparara leite e uma tigela de cereais para Bra e correra
para a garagem, ansiosa por pô-la em prática.
Era uma quarta-feira de finais de setembro. Dali a cerca de uma semana
faria nove meses que tinham chegado à Dimensão Real. Riscou mais um dia no
calendário, onde contabilizava o tempo que mediava até à catástrofe. Antes de
começar a trabalhar, ligou o rádio. Em vez de música, surgiu a voz do locutor a
relatar uma notícia:
-“Foi sentido um sismo na região do Algarve, perto das zero horas de
ontem, que atingiu a magnitude de quatro vírgula um na escala de Richter. O sismo
foi seguido por várias réplicas, com magnitudes mais baixas. Apesar de ter sido
relativamente fraco, o sismo assustou alguns habitantes da cidade de Faro e
arredores. Os bombeiros reportaram vários telefonemas de moradores assustados.
No entanto, não há vítimas a lamentar, nem estragos materiais relevantes. O
epicentro, segundo o centro regional de Meteorologia e Geofísica, situou-se na
serra do Caldeirão…”
Pensou no sismo e achou que o tinha sentido, mas não se recordava bem
porque dormira realmente muito bem na noite anterior. Provavelmente, não fora
nenhum sismo, mas um saiya-jin
teimoso e insatisfeito a treinar-se para não sucumbir à monotonia da vida numa
dimensão que odiava. Sorriu. Sentiu falta dos abraços dele e sem querer os
olhos ficaram húmidos. Respirou fundo, limpou o nariz com a ponta dos dedos, agarrou
numa chave-de-fendas.
O radar do dragão saiu do bolso do fato-de-macaco. Sentou-se e pousou-o
na mesa, voltando o mostrador verde-escuro para baixo. Agarrou na
chave-de-fendas e preparou-se para desaparafusar a parte de trás.
Aquele aparelho redondo, prático, que cabia numa mão e que detetava as
bolas de dragão, tinha no seu interior a mais fina tecnologia da Dimensão Z e,
por conseguinte, peças únicas e componentes eletrónicos especiais, que iriam
ajudá-la a superar as dificuldades que a máquina das dimensões apresentava, por
estar a ser construída com base numa tecnologia que ela não conhecia totalmente
e que era claramente menos evoluída.
Abriu em esfusiante sorriso, considerando-se um perfeito génio, mas
amaldiçoando-se a seguir por não ter tido aquela ideia mais cedo.
O tampo da mesa tinha pouco espaço, pejada de placas e de ferramentas.
A arrumação nunca fora o seu forte e sempre sentira um especial prazer em
trabalhar no caos. Afastou o que estava a atrapalhar, para criar mais espaço no
tampo, mas a manga encalhou no radar e este caiu no chão, juntamente com as
placas. Levou as mãos à cabeça. Era só que lhe faltava ter partido o maldito
radar, agora que lhe tinha arranjado utilidade! Agarrou neste com cuidado, viu
que estava ligado pelo bipe-bipe que emitia.
Bipe-bipe?
Intrigada, passou os dedos pelo mostrador do radar para limpá-lo. Como
podia haver bipe-bipe sem bolas de dragão? Em cima, para noroeste, brilhava um
pontinho branco na esquadria perfeita do radar, com um número quatro.
- Nani? A bola de dragão de
quatro estrelas?
Pressionou várias vezes o botão do radar, mas o pontinho não
desapareceu. Franziu a testa, a pensar se com a queda não teria avariado qualquer
coisa… Ou teria consertado. Lembrava-se de o ter acionado uns meses depois de ter
chegado à Dimensão Real e no mostrador não havia pontinho nenhum.
E se agora havia pontinho, significava que alguém ligado a Son-kun
tinha com ele uma bola de dragão no momento da viagem. Pressionou o botão,
diminuindo o raio de ação do radar e não apareceu mais nenhum pontinho a
piscar. Era, realmente, só uma bola de dragão. Encolheu os ombros. Com, ou sem
bola de dragão, o radar iria mesmo ser desmontado.
O portão da garagem abriu-se. Não se voltou. Talvez fosse Kuririn para
mais uma das suas visitas de auditoria.
- ’Kaasan?
Era a voz de Trunks e largou imediatamente a chave-de-fendas e o
radar. Levantou-se. Reparou que o filho tinha alguém nos braços. Estreitou os
olhos. Trunks desceu a pequena rampa e percebeu que era uma rapariga
inconsciente.
- Quem é ela?
- Uma amiga…
- O que foi que lhe aconteceu?
- Contei-lhe uma coisa. Ela não deve ter aguentado a emoção e desmaiou.
Não ia deixá-la caída no meio da rua e resolvi trazê-la para cá.
- O que foi que lhe contaste?
- Para onde a levo? Para a sala?
- Trunks-kun! O que foi que lhe contaste? – Insistiu zangada.
Trunks mostrou um sorriso enviesado e ela estremeceu.
- O que andaste tu a fazer agora?
- Contei-lhe que não me chamo…
Uma presença silenciosa, que se impunha pelo seu silêncio, chamou-lhes
a atenção. Bulma e Trunks olharam ao mesmo tempo para a entrada da garagem e
descobriram uma silhueta distinta na contraluz.
- Vegeta? – Disse Bulma.
Quando viu que o filho não estava sozinho, Vegeta desceu a rampa a coxear
e a berrar:
- Que raios é isso que tens aí contigo? Kuso!!
Bulma arrepiou-se ao ver que ele estava ferido. Tinha arranhões e
hematomas pelos braços, a cara amassada, as roupas rasgadas.
Vegeta estacou. Empalideceu como se estivesse a contemplar um
fantasma. Depois, a cara ficou vermelha, apontou um dedo esfolado à rapariga e
vociferou:
- O que é que essa intrometida está aqui a fazer?
- Ela tem nome, ‘tousan –
disse Trunks com o seu sorriso enviesado.
- Leva-a daqui! Imediatamente!
- Mas quem é essa intrometida? – Perguntou Bulma confusa.
- É uma amiga do teu filho e do idiota do filho do Kakaroto!
Bulma recordou-se e indagou, ainda mais confusa:
- Aquela que esteve no jardim da nossa casa a espreitar-nos?
- Hai!
Trunks também ficou confuso.
- Ela esteve aqui? Quando?
- Quando regressaste do hospital – explicou Bulma.
- Honto?
- Como vês – Vegeta avançou um par de passos até se colar ao filho –,
essa intrometida não hesita em meter o nariz onde não é chamada. Leva-a daqui!
Não a quero na minha casa!
- Espera, Vegeta – intrometeu-se Bulma. – Não vês que ela está
desmaiada?
- Pois ele que a acorde e que a leve daqui. Ou então que a leve para o
hospital, se está doente!
- Parece-me que também precisas de ir ao hospital – observou Bulma com
um esgar.
Vegeta voltou-se furioso.
- Nani?
- Onde é que tens andado para vires nesse estado?
Trunks aproveitou a interrupção no fio da conversa e foi deitar a
rapariga num sofá velho que se encostava à parede dos fundos da garagem. Mas
não conseguiu respirar fundo, o berro de Vegeta trouxe-o de novo para a arena.
- Leva-a daqui!
Ele enfiou as mãos nos bolsos das calças.
- ‘Tousan, deixa-a dormir um
bocadinho. Não passou uma noite muito descansada.
- Estiveste com ela, esta noite?
Voltou-se para Bulma.
- Hai, ‘kaasan. Mas não
aconteceu nada entre nós.
- Então, por que é que ela desmaiou? O que foi que lhe contaste,
afinal?
Vegeta perguntou irado:
- Foste tu que a fizeste
desmaiar?
- Hai. Contei-lhe que me
chamo Trunks.
O rosto de Vegeta ficou de todas as cores – vermelho, roxo, azul,
branco, amarelo, cinzento. As veias na testa pulsaram, Os olhos quiseram
saltar-lhe das órbitas. Começou a espumar da boca. Bulma juntou as mãos, como
numa prece.
- Trunks-kun, tu sabes o que acabaste de fazer? Colocaste-nos em
perigo!
- Não sejas dramática, ‘kaasan.
Contei-lhe, e depois? Não aconteceu nada, como vês. Continuamos nesta dimensão.
Somos dois casos perdidos, já to tinha dito. Tu não consegues terminar a tua
máquina, eu não consigo interagir. Apesar dos esforços…
E quando se voltou para o pai, para ver que cara punha desta vez, não
conseguiu evitar o choque. Vegeta atirou-se ao seu pescoço. Os dois rebolaram
pelo chão sujo da garagem.
Trunks afastou Vegeta com uma cabeçada e um soco. Uma ferida antiga
abriu-se e sangrou. Vegeta irritou-se ao ver o próprio sangue. Aparou um segundo
soco e atingiu o filho com um pontapé no peito, derrubando-o. Agarrou-o pela
gola, esmurrou-o na boca.
Bulma puxou-lhe pelo braço.
- Vegeta, não!
- Solta-me!
O safanão foi tremendo e Bulma foi atirada de encontro à mesa. Vegeta
desferiu outro murro, Trunks gemeu, com a boca cheia de sangue. Bulma atirou-se
a Vegeta, agarrou-o pela cintura, puxou-o com toda a força, separou-o do filho.
- Para, por favor! – Gritou-lhe.
O cansaço devia estar a vencê-lo e só havia essa explicação para
Vegeta não se libertar dos braços dela. Mas ordenou-lhe rugindo:
- Solta-me, mulher!
Bulma voltou-se para o filho.
- Levanta-te. Sai daqui e leva a rapariga para o quarto dos hóspedes.
Trunks abanou a cabeça, a tossir engasgado.
- Despacha-te! E vai-te limpar, tens a cara numa lástima.
A custo, pôs-se em pé. Esfregou os olhos, dirigiu-se para o sofá.
Vacilou, tremia das pernas, notou Bulma. Vegeta tinha desistido, fixava o filho
com uma raiva surda, mordendo cada gesto, mas mantinha-se nos braços dela,
aceitando a sua ingerência.
Trunks tomou a rapariga nos braços, subiu as escadas interiores e
desapareceu pela porta que conduzia até ao rés-do-chão da vivenda. Só nessa
altura é que Bulma aligeirou o abraço. Vegeta rastejou para longe dela.
Sentou-se, encostou-se à parede, a tentar conciliar a respiração. Estava zangado.
Bulma sentou-se em frente a ele, também ofegante.
Ele disse:
- Não gosto que te metas nos meus assuntos!
As palavras contrariavam a sua atitude. Bulma não queria mais
discussões. Estava a perder tempo, tinha de terminar a máquina das dimensões,
abrir o radar do dragão, avançar mais qualquer coisa naquela tarefa impossível.
- Trunks é o meu assunto.
Tínhamos combinado isso depois do acidente.
- Humpf!
Ele limpava o sangue da cara atabalhoadamente.
- E bater em Trunks não adianta nada, Vegeta.
- Ele merece uma boa tareia.
- Essa tareia não ia adiantar nada. Trunks passava uma longa temporada
na cama, ficava a odiar-nos um pouco mais…
- Ele odeia-me?
- Ele tem sangue saiya-jin.
Vegeta riu-se.
Bulma levantou-se, sacudiu a poeira das calças. Disse sem olhar para
ele:
- Tu também, vai-te limpar. O que foi que andaste a fazer, nestes dias
que estiveste fora? A caçar animais selvagens?
- Cala-te, mulher.
Ele olhava para as escadas e para a porta entreaberta que Trunks utilizara.
Coxeou, colocou um pé no primeiro degrau, mas retirou-o a seguir. Resmungou
inconformado:
- Aquela intrometida está dentro da minha casa.
- Ela não nos vai fazer mal nenhum.
Bulma agarrou novamente na chave-de-fendas, mas pousou-a na mesa, ao
lado do radar. Tinha uma convidada e deveria ir tratar do almoço. Não iria
mandar a rapariga embora, assim que acordasse, era contra as regras da
boa-educação. Suspirou, detestava cozinhar.
- Não sentiste?
- Hum?
Vegeta continuava parado no início das escadas, a olhar para a porta.
- Esta noite. A Porta dos Mundos esteve quase a abrir-se.
Bulma recordou que algo estranho a despertara no meio da noite.
Mentiu:
- Não. Não senti.
- Foi o teu filho e com aquela intrometida. Ele esteve quase a
interagir, eu sei. E se não ponho um travão nisto…
- Não vai acontecer – cortou ela, amedrontada. Não por causa do
feiticeiro, do Universo, mas porque temia estar a abrir-se dentro da sua
família uma chaga impossível de curar.
- Tenho um mau pressentimento. – Mostrou-lhe um punho fechado. –
Bulma, a partir de hoje, Trunks passa novamente a ser assunto meu! E não vais
interferir.
- Mas…
- Não há “mas”. A discussão terminou.
- Como queiras!
Atirou a chave-de-fendas contra a máquina das dimensões. A ferramenta
fez ricochete na chapa que ficou a vibrar com um zumbido metálico. Vegeta subiu
as escadas a coxear.
Bulma deixou-se cair numa cadeira, encostou a cabeça na mão, a
suspirar.
Outro dia de trabalho perdido.
O calendário não mentia. Faltavam quase três meses para a catástrofe.
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