A máquina das dimensões estava na Dimensão Z.
Bulma ficou boquiaberta ao entrar na oficina
da Capsule Corporation onde trabalhava habitualmente. Porque teria vindo? Uma
resposta provável seria que ficara, de alguma forma, ligada a esta.
Observou a estrutura incompleta, os fios
pendurados, os interruptores desligados, as placas eletrónicas soltas. Era um
testemunho incómodo de uma longa e dolorosa derrota de oito meses. Dera o
melhor de si para pôr a máquina a funcionar, mas todos os seus esforços foram
inglórios. Nada correra bem naquele projeto.
A máquina das dimensões… O mostrengo,
corrigiu.
Afinal, nem tinham precisado da máquina,
pensou, pois Trunks acabara por interagir e estavam de volta a casa. Talvez
tivesse sido a solução mais fácil e também mais perigosa, mas fora certamente a
única maneira de conseguir dormir descansada dali para a frente. Aquela máquina
inacabada e o peso de ter de a acabar dentro de um prazo que ela sabia ser
impossível de cumprir, estavam a dar-lhe cabo dos nervos.
- Foi melhor assim – murmurou convencida do
que dizia.
O feiticeiro podia ser um deus, mas Goku e
Vegeta e os outros guerreiros logo imaginariam uma qualquer ideia mirabolante
para se desfazerem dele para sempre e a paz haveria de regressar. Goku sempre
soubera o que fazer para salvar a Terra.
Cruzou os braços, a pensar que destino daria
àquele esqueleto de chapa preta, amarela e azul. Iria desmanchá-la, decidiu.
Não havia outra coisa que pudesse fazer. Sabia que a podia terminar com a
tecnologia da Dimensão Z, mas não estava interessada naquele projeto, que
haveria de lhe trazer más memórias e novamente noites mal dormidas.
Escutou um silvo nas costas, o ar moveu-se e
voltou-se. Exclamou admirada:
- Vegeta!... Goku!...
- Yo,
Bulma – cumprimentou Goku e, de seguida, foi direto ao assunto: – Precisamos do
radar do dragão.
- Mais
devagar…
Reparou nas roupas desfeitas dos dois
guerreiros, no sangue seco. Franziu o sobrolho, corando irritada:
- E por onde andaram para se apresentarem nesse
estado?
- Estivemos no Templo da Lua para salvar a
rapariga da Dimensão Real e acabámos a lutar contra os guerreiros de Zephir.
Escuta, agora não temos tempo para…
- Que rapariga?
- A namorada de Trunks.
- Ahn?
Olhou para Vegeta que tinha um ar enfastiado.
- Não temos mesmo tempo para grandes
histórias, Bulma – disse o príncipe.
- Faz-me um resumo rápido.
- Mas, Bulma… – protestou Goku.
Ela espetou-lhe um dedo na cara, exigindo:
- Contem-me! É o preço do radar do dragão.
Querem o radar, digam-me o que é que se está a passar!
Vegeta contou, com o mesmo ar enfastiado:
- Quando o teu filho interagiu com a
intrometida da Dimensão Real, transportou-a para a Dimensão Z.
- A intrometida? A rapariga que se chama Ana,
certo? Aquela que almoçou connosco, depois de ter desmaiado por saber quem nós
éramos?
- Essa…
Goku perguntou rasgando um sorriso:
- Já ganhámos o radar do dragão?
Vegeta prosseguiu, sabendo que a curiosidade
dela ainda não estava satisfeita:
- O feiticeiro precisa da intrometida para
unir um medalhão que está dividido em duas partes para se tornar num deus.
Fomos até ao Templo da Lua resgatá-la, tivemos de lutar, daí este estado. Ela
está, neste momento, com o teu filho e com o filho de Kakaroto, escondida nas
montanhas para não ser novamente apanhada pelo feiticeiro.
- Por que é que Son Gohan está com Trunks a
proteger a rapariga?
- É Son Goten.
- Na-nani?!
– Gritou Bulma.
- Não tinha morrido, apenas fora ferido com
gravidade. Nestes nove dias em que estivemos na Dimensão Real, foi curado pelo
feiticeiro.
- Não posso crer – balbuciou Bulma, a
recordar todo a angústia, todo o receio, tudo o que se perdera por causa desse
evento que, no final de contas, nunca tinha acontecido. Mas Trunks estava com
Goten e haveria de fazer a sua própria cura. E aquilo que estava perdido teria
de ser recuperado, o mal esquecido e enterrado, a memória purificada.
Vegeta concluiu:
- O feiticeiro, entretanto, já tem uma das
metades do medalhão que necessita para se transformar num deus. Nós vamos
procurar pelas bolas de dragão para pedir a Shenron a outra metade e ganharmos
alguma vantagem e tempo sobre esse maldito feiticeiro que tem a lutar por ele
dois demónios imortais e um super saiya-jin
de nível três.
- E como é que sabem de tudo isso?
- O sacerdote do Templo da Lua que está com
Dende sabia da existência da Dimensão Real e do medalhão.
- Aquele que Ten Shin Han salvou?
- Esse…
- Já ganhámos o radar do dragão? – Insistiu
Goku.
Bulma abriu uma gaveta da bancada que forrava
uma das paredes. Meteu a mão lá dentro e disse:
- Enquanto estava na Dimensão Real,
desmanchei o radar do dragão para utilizar as peças na máquina das dimensões. Graças
a estas, consegui progressos significativos. Fabriquei um temporizador e concluí
o processador principal, que reconhecia as dimensões. O que quer dizer que, ao
desmanchá-lo, acabei com o radar do dragão.
Goku alarmou-se:
- E não podes fabricar outro?
Bulma exibiu o radar. Era apenas uma caixa redonda,
vazia e inútil, o mostrador verde apagado. Anunciou:
- Claro que posso!
- Tens de fabricar dois radares, Bulma –
acrescentou Vegeta. – Eu também vou procurar pelas bolas de dragão. Iremos os
dois, separados, para as encontrarmos mais depressa.
- Muito bem. Fabricarei dois radares, irei
começar já. Leva-me metade de um dia para fazer um, pelo que só amanhã terei os
dois aparelhos prontos. Fabricarei o primeiro para ti, Vegeta. O que quer dizer
que, Son-kun, tens um dia inteiro por tua conta. Podes ir ter com Chi-Chi.
Goku indagou confuso:
- Para quê?
Ela explodiu:
- Baka!!
Ela já sabe que Son Goten está vivo?
Ele explicou recuando um passo, com medo da
fúria dela.
- Mas se eu acabei de o saber!...
- E do que é que estás à espera para ires
encontrar-te com a tua mulher e contar-lhe essa magnífica novidade? Chi-Chi vai
ficar radiante por saber que Son Goten está vivo, ela que sofreu tanto por
pensar que o tinha perdido. Por que é que estás a perder tempo a olhar para mim
com essa cara de idiota? Vá, despacha-te!! Utiliza essa tua Shunkan Idou e some-te daqui! Não te
quero a espreitar por cima do meu ombro enquanto fabrico o radar do dragão.
- Está bem, eu vou...
- Vai já! É uma ordem, Son-kun!
Goku descaiu os ombros, rendido à fúria dela.
Uniu os dois dedos na testa e disse:
- Djá
ná… Amanhã, estarei de volta.
Sumiu-se com outro silvo.
- A maneira como vocês, saiya-jin, desprezam as mulheres…
- Nós não desprezamos as mulheres –
defendeu-se Vegeta surpreendido.
Ela assentou as mãos na cintura.
- Honto?
Ele não a entendeu. Mudou o assunto, dizendo:
- Não queres começar a fabricar esse primeiro
radar do dragão? Todos os minutos contam.
Ela mirou-o de cima a baixo, franzindo a
cara. Acrescentou no mesmo tom presunçoso e ligeiramente irado que utilizara
com Goku:
- E se não queria Son-kun a espreitar por
cima do meu ombro, também não te quero a ti. Vai-te daqui. Consigo trabalhar
melhor sozinha.
- Com muito gosto. Ver-te trabalhar,
aborrece-me.
- Ainda bem. E vai trocar de roupa… Pareces…
um mendigo.
As calças de ganga rasgadas nos joelhos e
desfiada nos tornozelos, a camisa feita em farrapos davam, contudo, um aspeto
sedutor ao príncipe dos saiya-jin, a
exibição selvagem do seu espírito guerreiro. Bulma tentou não desmanchar a pose
autoritária.
- Tu é que insististe naquele estúpido
passeio e fizeste-me vestir isto – queixou-se ele irritado.
- Nunca pensei que um passeio de
fim-de-semana na Dimensão Real acabasse assim.
Ele deu meia volta.
- Afinal… O que é interagir? – Quis saber
ela.
Ele parou, enfiou as mãos nos bolsos das
calças.
- Trunks foi para a cama com a intrometida.
Ela corou, apertou os lábios.
- Vegeta, não sejas grosseiro.
- Mas foi o que aconteceu.
- De certeza que Trunks também o fez com
outras raparigas da Dimensão Real e nunca chegou a interagir com nenhuma. Será
mais qualquer coisa…
- E o que interessa isso? Voltámos, certo?
- E o feiticeiro ainda não é um deus. Por aquilo que acabaste de me contar, o que
Zephir pretendia ao enviar-nos para a Dimensão Real era alguém desse lugar para
unir o medalhão que o irá transformar num deus. Fez-nos sofrer na Dimensão
Real… Fez parte do castigo. Quis quebrar o nosso espírito.
Um curto silêncio. Mesmo de costas, Bulma sabia
que ele sorria quando disse:
- Fez-nos mais fortes. Mais determinados.
- Iremos vencer… Acredito.
- Precisamos do radar do dragão, para
começar.
- Claro.
Bulma puxou uma cadeira de rodízios,
sentou-se. Empurrando com os pés aproximou-se da bancada. Abriu outra gaveta e
retirou uma chave de fendas. Voltou a caixa redonda com o mostrador para baixo
e começou a desaparafusar a parte de trás. Estranhou o silêncio, a ausência dos
passos que o levariam para fora da oficina, mesmo que ele fosse sempre silencioso
a caminhar. Fez a cadeira rodopiar. Descobriu-o, de braços cruzados, a observar
com curiosidade a máquina das dimensões. Ela explicou:
- Sim, é a máquina das dimensões. Deve ter
vindo agarrada a mim quando viajámos entre dimensões, por alguma razão que
desconheço totalmente.
- O que é que vais fazer com a máquina?
- Vou desmantelá-la e aproveitar os seus
componentes que são especiais, visto que vêm de outra dimensão. Já não
precisamos da máquina para nada.
- Não…
Bulma apertou a chave de fendas.
- Não, o quê?
- Não a desmanteles. Deves terminá-la e o
mais cedo possível.
- Nani?
– Levantou-se e postou-se ao lado dele, olhando também para a máquina. – Para
quê terminar a máquina das dimensões? Recordo-te que, da forma como está
concebida, só permite fazer viagens unilaterais. Se estamos agora na Dimensão
Z, irá possibilitar uma viagem de ida para a Dimensão Real. Sem retorno.
- Precisamente.
- E quem há de querer regressar, para sempre,
à Dimensão Real?
- A intrometida.
- A rapariga? Porquê?
Vegeta encarou-a. O olhar era duro, negro.
- O feiticeiro precisa dela para ser um deus.
Pode chegar o momento em que a situação esteja tão desesperada que não nos
reste outra alternativa senão apenas sabotar os planos ambiciosos do
feiticeiro. Como? Tirando-lhe a pessoa da Dimensão Real que pode utilizar o
medalhão que o fará divino.
- Ele pode tornar a enviar alguém para a
Dimensão Real com a ajuda do mesmo feitiço.
- Já não cairemos na mesma armadilha.
- E Trunks?
- O que é que tem Trunks?
Bulma gaguejou:
- Ele e a rapariga têm… uma relação. Os dois.
- A relação de Trunks com essa intrometida é
o que menos interessa. Termina a máquina, Bulma. Acredito que o farás
rapidamente, com a tecnologia da nossa dimensão. A máquina está quase
terminada, não está?
Não estava a gostar do que ele lhe pedia, no
que lhe dizia, apesar de compreender a lógica, a necessidade, a realidade
indiscutível. Mas para além da razão, havia o coração. Sentimentos fortes
embrulhando tudo, numa malha apertada mas frágil, o significado profundo de
interagir, a felicidade do filho, o enlevo da rapariga, os dois cimentando um
futuro construído sobre nuvens, sobre nada.
Ela insistiu, sabendo que estava derrotada, à
partida:
- Devemos, primeiro, falar com Trunks… e com
a Ana.
Mas o olhar de Vegeta permanecia duro, negro,
e quando assim era ela sabia que ele nunca abdicaria da sua posição, a razão
assistia-o, repisava o coração mesmo que, no fim, chorasse lágrimas de sangue.
- Escuta-me, Bulma. A intrometida não está
aqui por causa de Trunks. Ela veio para a Dimensão Z por causa do feiticeiro. E deve regressar para o raio da sua
dimensão por dois motivos. Primeiro: se nós tínhamos condições para estar na
Dimensão Real, acredito que ela também as tenha para estar na Dimensão Z. Não
poderá ficar aqui para sempre. Segundo: a presença dela coloca-nos a todos em perigo.
O Universo inteiro!
O olhar dele, tão negro, tão duro, magoava-a.
Baixou a cabeça.
- Escutaste-me?
- Demasiado bem, Vegeta.
- Então, termina a máquina das dimensões. Mas
antes, termina o radar do dragão.
- Estás a ser cruel.
- Estou a ser realista! – Rematou e saiu
finalmente da oficina.
O eco da voz dele ficou a vibrar-lhe no
peito, sinistramente. Bulma sabia que Vegeta estava certo, mas havia algo de
profundamente errado em tudo aquilo e não desejava que o filho tornasse ao
martírio interior que experimentara na Dimensão Real.
Regressou à cadeira, entregou-se ao trabalho
para esquecer o que acabara de ouvir. Se pensasse naquilo tudo entristecia,
porque, interiormente, concordava com o que Vegeta dissera.
Retirou a tampa do radar do dragão, pousou-a
com cuidado na bancada.
Teriam de combater Zephir com todas as armas.
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