O sol baixava no horizonte, atrás
das montanhas que de verde tinham passado a negro, e no céu espalhava-se um mar
cor de fogo. Com o fim do dia vinha um vento frio que me deixava ainda mais
enjoada e desconfortável.
Viajava pelos céus com
Trunks, ao nosso lado Son Goten.
No início, tinha sido
divertido. Deixara o Palácio Celestial a voar e nunca tinha voado na vida. Bem,
não considerava aquela vez com o demónio, porque aquilo fora mais uma queda do
que um voo, tinha desmaiado no início e não vira nada.
A primeira sensação fora
aflitiva, mas também de deslumbramento. A suprema liberdade. O rosto, batido
pelo vento agreste das alturas, enchendo-se de luz. O corpo em arrepios
incontrolados. A segunda sensação fora de um medo atroz. Estava em segurança, todavia,
tinha o braço de Trunks na minha cintura, cingindo-me contra si. Mas para me
sentir ainda mais segura, agarrei-me a ele com toda a força. Depois de ter
visto o interior do céu, escondi a cara na curva do ombro dele e fechei os
olhos.
A velocidade com que
voávamos calava qualquer tentativa de conversa e, por isso, não se falou nada.
Depois de alguns minutos em que parecíamos balas a trespassar o ar, abrandámos
e o voo tornou-se lento, quase como se estivéssemos a ser transportados pela
brisa. Deduzi, porque não cheguei a perguntar, que Trunks e Goten utilizavam
pouca energia para não sermos detetados. Afinal, iríamos para um local secreto.
Assim, o que começara como
uma viagem excitante de montanha russa, acabara por ser um acontecimento tão
monótono como uma travessia do deserto através de uma estrada esburacada, a
bordo de um autocarro apinhado de gente e sem ar condicionado.
O dia acabava e eu estava
moída, os braços e as pernas dormentes por estarem há horas na mesma posição.
Tinha a impressão que já devíamos ter chegado, mas que andávamos às voltas para
despistar qualquer tentativa de seguir o nosso rasto. Sobrevoávamos uma
floresta densa que cobria umas montanhas que pareciam infindáveis. Ou seriam as
mesmas montanhas de há três horas atrás. Ou seria eu que já não aguentava mais
estar ali pendurada em Trunks.
Quando o sol desapareceu e o
céu se tornou violeta, baixámos até à floresta. Goten aterrou suavemente e
Trunks aterrou logo atrás. Afrouxou o abraço e pousei aliviada os pés em chão
sólido.
Diante de nós estava uma
cabana pequena, encostada a duas árvores de troncos grossos. Na fachada tosca
recortava-se uma porta e uma janela. O telhado, pontiagudo, era feito de ramos
entrelaçados, coberto de folhagem.
- Chegámos – anunciou Goten.
- É isto? – Perguntou
Trunks.
- Hum-hum… Sei que tem um
aspeto horrível, mas é só uma moradia temporária.
Trunks abriu um rasgado
sorriso.
- É perfeita!
Avançou, Goten seguiu-o.
Olhei em redor, apertei os braços. Fazia frio nas montanhas. Estava uma
escuridão medonha e os animais noturnos começavam a movimentar-se, escutava-se
um restolhar distante, pios e guinchos. Fui atrás dos dois rapazes, entrei na
cabana.
Tinha apenas um
compartimento, decorado com um baú poeirento, um par de prateleiras por cima
deste e um colchão, fino e largo, tapado com diversos cobertores. Havia ainda
uma bacia junto ao colchão.
- Bem, espero que seja do
vosso agrado, caros hóspedes – começou Trunks zombeteiro, sorrindo.
- Devia ser eu a dizer isso,
não? Afinal, a casa é do meu pai.
- Concordo. Então, meu caro
anfitrião – prosseguiu no mesmo tom, a voz cómica, voltando-se para Goten –, o
que tens para nos oferecer?
- Eh… Dormida?
Goten apontou para o
colchão. Acrescentou, o dedo apontando para o baú:
- Ali estão roupas que
pudemos usar Eu irei precisar, de certeza. Tenho o dogi todo rasgado.
- E comida?
- Teremos de nos alimentar
com o que existe na montanha. Frutos silvestres… Sei que há macieiras
selvagens.
- Ótimo! Estou cheio de
fome. Não tens fome?
Os olhos de Goten brilharam
na penumbra.
- Hai, Trunks-kun! Também precisava comer qualquer coisa.
- Também tens fome, Ana?
Era a primeira vez que
Trunks falava comigo. Foi estranho, diferente, quase trivial. A película
daquela dimensão que nos transformava em animações insufladas de vida filtrava
os acontecimentos, como se fosse tudo novo, como se o que já tivesse acontecido
não importasse. Senti a distância entre mim e Trunks como algo sólido.
Respondi:
- Hai, também tenho fome…
- Goten, vamos buscar
qualquer coisa para comer.
- E a Ana?
- Ela fica aqui.
- Não a devíamos deixar
sozinha, Trunks-kun.
- Apenas alguns minutos…
Seremos mais rápidos se formos só os dois. – Olhou para mim. – Não te importas,
pois não? De ficar aqui alguns minutos?
Abanei a cabeça.
- Não.
Teria a viagem entre as
dimensões apagado a memória? Ou os sentimentos e as promessas? A dúvida
incomodou-me, como uma picada de um bicho.
- Vamos, Goten. Quanto mais
depressa formos, mais depressa regressamos.
- Hai.
Encostaram a porta depois de
saírem. Escureceu dentro da cabana.
- Estou a ouvir o teu
estômago a roncar.
- É que estou mesmo com
fome, Trunks-kun!
- Mas não estiveste a
curar-te, estes dias todos?
- Estive.
- Então, não devias ter
fome. As tuas energias foram repostas na totalidade.
- Talvez tivesse sido da
viagem.
- O que é que sugeres,
anfitrião? Que iguarias nos reservas para o banquete desta noite?
- Não brinques, Trunks-kun.
Não conheço assim tão bem este sítio… Só estive cá uma vez! Vamos ver o que é
que conseguimos encontrar.
- E sem tropeçar em nenhum
animal…
- Com a fome que tenho, até
me apetecia tropeçar num animal. Um javali ou coisa do género.
- Terias de o comer cru. Não
podemos atear fogo, ou seremos descobertos.
- Cru?! Nem penses!
Gargalhadas. As vozes deles perderam-se
ao longe, levadas por uma rajada de vento.
Sentei-me no colchão.
Atirei-me para trás, braços estirados ao longo da cabeça. Estava escuro e havia
silêncio. Perfeito. Fechei os olhos. Cansada, adormeci pouco depois.
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