13 de dezembro de 2012

Capítulo IX - IX.5 Despindo a falsa pele.


Em cima do balcão fumegava uma chávena de café. Trunks olhava hipnotizado para o remoinho no centro do líquido negro onde despejara dois pacotes de açúcar. O empregado do sítio, o Sousa, que o conhecia como o rapaz que bebia uns copos de aguardente antes do café, estranhou o pedido de apenas um café. Encostou-se ao balcão, atirando para o ombro esquerdo o pano branco com que limpava os copos e perguntou, em jeito de confidência:
- O que contas? É uma mulher?
Trunks olhou para o Sousa.
- Sim. E um acidente.
- Eh, pá… Tiveste algum acidente?
- Bati com a cabeça – respondeu apontando para a testa.
- E cortaste o cabelo.
- Também.
- Deve ter sido uma grande pancada, espanholito.
- Dá-me outro pacote de açúcar.
O Sousa também lhe conhecia aquela mania e já tinha o pacote guardado na mão. Atirou-o para cima do balcão. Trunks meteu-o no bolso do blusão. Gostava de colecionar os pequenos pacotes de açúcar como uma recordação da Dimensão Real. Não sabia se os levaria consigo quando regressasse à sua dimensão, mas recolhia-os à mesma.
Olhou para o relógio de pulso. Quase dez horas da noite. Tarde demais.
O Sousa afastou-se.
Sorveu um pouco de café, queimou-lhe a língua. Baixou a chávena lentamente, pousou-a no pires. Continuava a sentir-se vazio, incompleto, insatisfeito. Queria desesperadamente regressar a casa. Apertou os punhos em cima do balcão, ladeando a minúscula chávena. Nada a fazer, era mesmo tarde demais.
Apeteceu-lhe ver a Ana, contar-lhe mais pormenores sobre a sua atribulada existência na Dimensão Real. O motivo já não tinha que ver com interagir, provocar o pai, experimentar os limites proibidos. Queria apenas vê-la, estar com ela. Olhar para ela, cheirar-lhe os cabelos, como tinha feito na manhã de quarta-feira, quando tinham despertado juntos, dentro do automóvel dele.
Uma palmada nas costas fê-lo esquecer esses pensamentos complicados.
- Espanhol!
O João sentou-se no banco alto ao lado do dele, encostou-se ao balcão.
- Tens andado desaparecido, meu.
- O verão acabou e só me dou bem com o sol.
- Tipo vampiro e merdas dessas? Vá, não me gozes… Tens alguma gaja nova e não me queres contar?
O café estava a arrefecer. Trunks bebeu outro gole, sentiu o doce do açúcar acender-lhe o palato.
- Não há gaja nenhuma – murmurou.
- Ainda bem, porque a Manuela está cá em baixo e anda à tua procura. Chegou ontem do Norte e perguntou por ti.
- Quem?
- Porra, espanhol. Aquela gaja morena muita boa que vem do Porto. Já não te lembras? Foste à “Kadoc” com ela. Naquela noite em que desapareceste… E depois houve aquela história que tinhas tido um acidente.
Trunks espreitou o Sousa que tirava um par de cafés da máquina.
- Ah, essa…
- Sim, essa. Não sei o que lhe fizeste mas a gaja está mesmo caidinha por ti. Deves encontrá-la junto ao “Académico” ou por lá perto, esta noite.
- Eu não te tinha dito que podias ficar com ela?
- Pfff… E achas que não tentei? Mas a gaja só fala em ti. Não quero estar com uma gaja que passa o tempo todo a perguntar por ti.
Trunks rodou o banco, assentou os cotovelos no balcão. Fora o João que lhe falara daquele lugar, o “Aliança”, onde poderia encontrar raparigas descomprometidas e com vontade de se divertirem, onde poderia beber uma aguardente saborosa, uma excelente base para partirem para os voos noturnos vertiginosos. Era um estabelecimento veterano da cidade, que mantinha uma decoração antiquada, por tradição ou simplesmente por desleixo. Naquela sexta-feira à noite estava pouco frequentado, quatro mesas ocupadas, o balcão vazio, apenas ele e o João. O verão tinha, de facto, terminado.
E ele também tinha terminado. Vazio como um balão, incomodado por saber que era tarde demais.
O Luís entrou no “Aliança”, cumprimentou o João. Vinha de Lisboa, contava. Chegara a casa, um duche rápido, mudara de roupa, um pouco de perfume e ali estava ele, preparado para curtir a noite. Tinha ainda o cabelo molhado, notou Trunks. Falou a seguir da universidade, as aulas tinham começado, que agora não viria tantas vezes ao Algarve, aquele fim-de-semana tinha sido uma exceção, o combustível estava caro e os pais acharam que ele tinha derretido muito dinheiro no último verão. Disse que não tinha um cartão de crédito ilimitado como certos meninos ricos. Trunks fez que não ouvira o comentário. O Luís perguntou pelo Pedro. O João ficou muito sério. Agarrou no ombro de Trunks para chamar-lhe a atenção, mas falou para o Luís:
- Eh, pá! Vocês nem sabem o que aconteceu com o Pedro.
O Sousa cumprimentou o Luís, depois o João. Pediram dois cafés e o João acrescentou que queria o mesmo que o espanhol estava a beber, ao que o Sousa respondeu com um ar de quem conhecia um segredo tenebroso:
- O espanholito hoje não está a beber nada.
- Não? Espanhol, o que é que se passa, pá? ‘Tás doente?
Trunks respondeu enfastiado:
- Não.
O João sacudiu-o e disse-lhe:
- Anima-te! Vais encontrar hoje a Manuela do Porto e vais ter uma noite, no mínimo, trabalhosa.
O Luís sorriu. Confirmou o pedido de apenas dois cafés e o Sousa dirigiu-se para a máquina. Disse:
- Mas conta lá, João… Que merda aconteceu com o Pedro?
O João fez novamente uma cara séria.
- O gajo está super assustado. Diz que não vai sair de casa nos próximos tempos, tal foi o cagaço que apanhou.
- Também me estás a deixar acagaçado. Conta lá.
O João fez uma pausa, para dar mais ênfase às próximas palavras, ou simplesmente para reunir todo o vocabulário que conhecia para poder contar a história com algum acerto, de modo a que fosse perceptível. Começou, olhando alternadamente para o Luís e para Trunks:
- Bem, ele ainda está no Algarve. Diz que só vai para Lisboa quando resolver alguns assuntos que tem pendurados. Gajas, tipo isso… ‘Tão a ver. Acho que as aulas da universidade também já começaram, mas ele diz que as aulas podem esperar. Logo apanha a matéria depois, no início não é muito importante, tem para lá uma gaja qualquer que lhe passa os apontamentos. Bem, telefonei-lhe esta tarde para combinarmos sair esta noite. Encontramo-nos no “Aliança”, disse-lhe eu. Ele disse logo que não vinha.
Segunda pausa, ganhava fôlego.
- Ontem à noite, teve a merda de um encontro com uma gaja…
- Com quem?
- Eh, Luís… Sei lá! Ele disse-me o nome, mas não fixei. Bem, tu nem imaginas como está o Pedro. Gritava comigo. Disse-me que não me podia contar pelo telefone e então fui até à casa dele. Está passado, completamente maluquinho. Levou-me até ao quarto, tinha a persiana fechada, estava tudo escuro, não quis acender a luz, tremia por todos os lados. Quer contar às autoridades o que tinha acontecido, tipo polícia, governo e cenas dessas. Mas também estava cheio de medo.
- Porra, conta de uma vez!
- Imagina esta, Luís… Tiago...
Era raro o João trata-lo pelo nome inventado e Trunks olhou intrigado para o João. O que acontecera com o Pedro teria sido mesmo grave e prestou mais atenção ao relato.
- O Pedro saiu com uma gaja, levou-a para a serra… Para comer a gaja, ‘tão a ver? E disse-me que, na serra, foi atacado.
- Foi assaltado? – Perguntou o Luís.
O Sousa deixou os dois cafés e ficou também a ouvir a história.
- Não. Foi atacado – reforçou, sublinhando a palavra. Repetiu: – Atacado.
- Por um animal?
- Não… Por um extraterrestre!
O silêncio caiu. Trunks susteve a respiração.
- Como? – Estranhou o Luís.
- Um extraterrestre. Arrancou-lhe a porta do carro, quando ele estava a comer a gaja e atacou-o, mais à gaja.
- Oh, Joãozinho… Explica lá melhor isso – pediu o Sousa desconfiado.
O João abriu os braços.
- O Pedro disse que era um extraterrestre e eu acredito. Disse que era um gajo verde com dois metros de altura.
Trunks baixou a cabeça, tapou a boca para esconder o sorriso.
- Um gajo verde? – Indagou o Luís.
- Verde, como? – Insistiu o Sousa.
- Verde! Verde é verde – respondeu o João. – Se o Pedro diz que é verde, eu acredito. O gajo está cheio de medo, vi-o esta tarde.
- Estava escuro – disse o Luís. – O Pedro pode ter visto mal.
- Era verde, tinha dentes de vampiro, orelhas pontiagudas e antenas na testa.
- Isso foi o que o Pedro contou? – Perguntou o Sousa cético. – Ele tinha fumado o quê, para ver coisas dessas?
- Eh, pá! Eu acredito no Pedro – defendeu o João ofendido.
Trunks soltou uma gargalhada. Olharam-no como se ele tivesse enlouquecido. Não conseguia parar de rir, só de imaginar a cena. O Pedro a levar uma rapariga para um qualquer lugar escondido da serra, a excitação a crescer, quase a chegar ao momento crítico, a porta do automóvel arrancada e Piccolo a enfiar a cabeça lá dentro e a pregar um susto de morte ao Pedro e à pobre rapariga.
- ‘Tás-te a rir? – Perguntou o João indignado. – Não acreditas que o Pedro tenha sido atacado por um extraterrestre? Olha que eu vi o taco de baseball que o extraterrestre desfez só com uma mão.
Trunks limpou os olhos lacrimejantes. Respondeu, a rir-se:
- Acredito. Claro que acredito.
- Então, por que é que te estás a rir?
- O espanholito bateu com a cabeça – revelou o Sousa, ajeitando o pano branco no ombro. – Não deve estar com o juízo completo. Hoje está esquisito.
O Luís despejou o pacote de açúcar no seu café. O João esperava uma resposta. Trunks saltou do banco alto, voltou-se para os dois amigos, para o empregado. Observou-os, estranhou-os. Viu-os do outro lado da jaula, as grades interpunham-se entre ele e aqueles que o tinham acompanhado naqueles quase nove meses. Contudo, era ele que estava encerrado, os outros observavam-no em liberdade. Pareceu vê-los condoídos pela sua situação de prisioneiro, impotentes pois não o conseguiam libertar, mas não hesitariam em fugir dessa responsabilidade, para não mancharem as mãos. Trunks sorriu, fechou os punhos.
Tinha chegado o fim.
Tarde demais.
- Consigo provocar tremores de terra – anunciou, sempre a sorrir.
O Sousa suspirou.
- Eu não vos disse? O espanholito hoje está esquisito.
O João fez um esgar.
- Ahn?
- Querem ver?
- Oh, Tiago… Para com isso – pediu o Luís desdenhoso. – Queres chamar a atenção, ou quê? Pareces um puto de cinco anos.
Trunks concentrou o ki, uma porção quase insignificante, uma gota de luz no meio do negrume do seu espírito. Sorria ainda.
- Quero agradecer-vos – disse. – Fizeram-me companhia e mostraram-me o vosso mundo. Mas já não há mais nada para ver. No entanto, quero que saibam que gostei da viagem.
O Luís, o João e o Sousa olhavam para ele admirado.
Trunks respirou fundo, reteve o ar no peito. Fechou os olhos.
Sim, definitivamente tarde demais.
Gritou, o ki irradiou do seu corpo, como raios de uma estrela explodindo. O poder reunido desprendeu-se numa onda que varreu o interior da loja, destruindo tudo onde tocou com a sua mão invisível. Voltou cadeiras e mesas, estilhaçou espelhos, partiu loiça, encheu tudo de pó e de gritos.
A terra tremeu, sacudindo os destroços da explosão.
Trunks libertou o ar que retivera, os músculos relaxaram. Abriu os punhos.
Olhou para os amigos, para o empregado.
O Sousa tinha um olhar esbugalhado. Fora projetado de encontro à parede dos fundos e pregava-se aí, como se a solidez dos tijolos o pudesse defender do fenómeno. A máquina dos cafés libertava vapor, um alarme tocava dentro dos arrumos, por cima da porta piscava uma lâmpada vermelha.
O João e o Luís estavam mortificados e pálidos, encostados ao balcão, onde se agarravam um ao outro para não caírem. Os bancos altos estavam tombados aos seus pés, oscilando sobre cacos e pedaços de estuque.
Alguém tossiu ao fundo. Alguém gemeu.
Trunks sorriu. Dobrou as costas numa curta vénia, sem nunca desfitar os amigos, e saboreando cada sílaba, mais doce que o açúcar do café que bebera, disse:
- Sayonara… miná.
E saiu.

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