No meio de um
demorado e escandaloso beijo, a mão dele resvalou para um sítio escabroso e eu
reagi como se me tivesse picado. Ele recuou imediatamente, afastando-se.
- Bolas, Ana!
Já não somos dois adolescentes – protestou, voltando-se para a janela.
Estávamos os
dois dentro do carro, estacionado em frente ao prédio onde eu morava. Voltávamos
do cinema, depois de termos ido jantar juntos e ele trazia-me de volta a casa.
A despedida estava a ser demorada e ele estava a ser insistente.
O André
mordia a unha do polegar esquerdo. Ficara aborrecido comigo.
- Tens razão
– concordei, envergonhada. – Mas ainda não me sinto preparada.
Escutei o
suspiro dele que me incomodou.
- É uma coisa
normal, entre duas pessoas que gostam uma da outra – disse-me, a olhar para a
janela.
Reparei que
agitava a perna direita, para se acalmar.
Estava
demasiado longe de mim, refugiado no assento do condutor, demarcando o seu
espaço, que não se podia fundir no meu porque eu rejeitara os seus avanços, que
eram normais entre duas pessoas que se gostam e estranhei por estar a repetir
as palavras dele, a tentar que fossem minhas, pensadas por mim.
Encurtou um
pouco a distância, pousando a mão na minha face direita. Sussurrou:
- Adorava
fazer amor contigo.
Corei.
- Tu também
gostavas, não gostavas?
Tentei falar,
mas o meu lábio inferior limitou-se a um espasmo. O André sorriu-me.
- Olha,
fazemos o seguinte: o meu primo de Évora já se foi embora e posso conseguir a
chave do apartamento dele. Passamos lá o próximo fim-de-semana, sossegadinhos.
Só nós os dois… Hum? O que é que achas?
Acenei que
sim, timidamente.
- Vamos ter
todo o tempo do mundo e podemos ir com calma. Eu não te quero forçar a nada. E
até sexta-feira, vais preparando as coisas, no teu ritmo.
O André
beijou-me.
Apesar de
aterrorizada, concordei:
- Está bem.
Saí do carro
a tremer.
Fiz-lhe
adeus, fingindo um sorriso. Fiquei especada no passeio até que o carro do André
desapareceu na esquina e percebi que ficara sozinha, de noite, na rua silenciosa.
Enfiei a mão na mala à procura do porta-chaves.
Não sabia o
que fazer e o fim-de-semana estava próximo, mais três dias e estávamos nessa
sexta-feira, o dia que eu iria passar a noite no apartamento do primo de Évora
do André e com o André. Os dois sozinhos, na mesma casa, no mesmo quarto. A
fazer as coisas normais que as pessoas que se gostam fazem.
Tentei
respirar, mas o diafragma estava bloqueado.
Ouvi o motor
de um automóvel aproximar-se. Encontrei o porta-chaves e quando ia voltar-me
para a porta de alumínio vi um Toyota branco entrar na rua. Os pneus chiaram no
asfalto com a travagem brusca. A porta do condutor abriu-se e apareceu o Tiago.
- Quero falar
contigo. Entra no carro.
Quedei-me
imóvel e boquiaberta.
Aquilo não me
estava a acontecer…
O diafragma
voltou a funcionar e respondi:
- Já te disse
que não temos nada para falar.
Enfiei a
chave na fechadura, girei o pulso para a direita. Um estalido, destranquei a
porta de alumínio.
O Tiago
surgiu no patamar, ao meu lado.
- Mas eu
preciso falar contigo.
Assustei-me.
Mas como fora ele parar ali em cima tão depressa? Empurrei a porta com o braço
direito, a segurar o porta-chaves na mesma mão.
- Boa noite,
Tiago.
Senti um
puxão e os meus pés levantaram-se do chão. Gritei, agitei os braços para me equilibrar
e para me soltar, sem nunca largar o porta-chaves, nem a mala.
O Tiago
carregava comigo, enrolando um braço na minha cintura e parecia não estar a
fazer esforço nenhum. Mas ele teria assim tanta força? Com o braço livre abriu
a porta do Toyota branco e atirou-me lá para dentro. Aterrei de qualquer
maneira, pernas ao alto, costas enroladas, bati com a nuca na manete das
mudanças.
Tirei os
cabelos da cara, enquanto tentava colocar-me numa posição em que me fosse
possível sair daquele automóvel sem ser de gatas, mas quando consegui tatear a
porta e encontrar o manípulo que a abria, o Tiago ocupava o lugar do condutor e
acionava o fecho centralizado, trancando-nos ali dentro.
Reagi com um
grito indignado.
Tirei as
pernas do painel de instrumentos, puxei o manípulo mesmo sabendo que as portas estavam
trancadas.
- O que raios
estás tu a fazer?
Um solavanco
colou-me ao assento e o Toyota arrancou com uma chiadeira de pneus semelhante à
que fizera quando parara. O Tiago girou o volante e começou a carregar no
acelerador.
- Para! –
Exigi – Para imediatamente este carro e deixa-me sair!
Ele não me
respondeu.
- Sabes o que
é que estás a fazer?
Olhei em
pânico pelo vidro dianteiro. Pelo caminho que seguia, estávamos a sair da
cidade.
- Estás a
raptar-me, palerma!
Continuava
sem me responder.
Endireitei-me
no assento, a dividir o olhar entre o vidro dianteiro e o vidro da porta.
Disse-lhe
irritada:
- Assim que
sair deste carro, vou direitinha à polícia. Ouviste-me? Vou fazer queixa de ti.
Tu não me podes levar contra vontade, tu não me podes fazer isto.
- É melhor
pores o cinto.
A voz dele
era calma.
- O quê?
- Gosto de
acelerar.
- O quê?!
Coloquei o
cinto de segurança.
Entrámos numa
estrada que levava até à serra. Não me atrevi a insistir nas minhas exigências.
Por um lado, ele não me iria escutar. Se não o fizera quando estávamos na
cidade e perto da minha casa, o local lógico para me deixar e acabar com aquela
loucura, não fazia sentido ouvir-me agora pois iria largar-me no meio de
nenhures e eu não queria ser largada tão longe de um sítio seguro e conhecido.
Por outro lado, porque o automóvel voava literalmente na estrada, a mais de
cento e oitenta quilómetros por hora, consegui ler no velocímetro, e não o
queria perturbar ou corríamos o risco de uma distração fatal e ainda acontecia
um acidente e eu não queria voltar a casa toda partida, ou não voltar nunca.
Fechei os
olhos e instalou-se o silêncio.
Estava cheia
de medo, mas jurei a mim mesma não vacilar. Não queria que o Tiago pensasse que
me afetava com aquele rapto. Estava decidida em ir falar com a polícia, assim
que regressasse à cidade, esperando regressar inteira à cidade.
Ficava cada
vez mais escuro, a estrada era velha, a subir, com muitas curvas que se
acentuavam por causa da velocidade. Estávamos já na serra, a galgar um dos seus
montes. Abrandámos a marcha. Abri os olhos, espreitei pelo vidro da porta. Não
consegui perceber onde estava e fiquei apreensiva. Só via mato e sombras.
O Toyota
parou num refúgio, à beira da estrada, camuflando-se entre algumas árvores
antigas, de troncos grossos. Era uma espécie de miradouro natural, numa encosta
de um cerro e de onde se conseguia ver as luzes da cidade lá em baixo, na
lonjura, e a faixa negra do mar. Um sítio ideal para duas pessoas fazerem as
coisas normais que as pessoas que se gostam costumam fazer.
O Tiago rodou
a chave, desligou o motor, as luzes do Toyota apagaram-se e ficou muito escuro.
Escutava-se claramente a minha respiração e a respiração dele. Com uma mão
ligou o autorrádio, com a outra desapertou o cinto de segurança. Eu fiz o
mesmo, também desapertei o meu cinto de segurança. O volume da música estava
baixo, mas o suficiente para se conseguir distinguir as canções que iam
tocando.
- Estás
zangada comigo, não estás?
A voz dele
causou-me um arrepio.
- Estou –
respondi.
- Eu também
estaria, no teu lugar.
- Não se
raptam as pessoas no meio da noite e espera-se que elas estejam muito contentes
com isso.
- Estou a
falar de Vilamoura.
- Ah…
Não o
encarava, não conseguia. Tinha diante de mim a visão magnífica da cidade
desfeita em luzinhas, brilhando como uma joia. Era ali que estava a minha casa,
o meu quarto, o André. Baixei os olhos, esfreguei os braços com as mãos, senti
frio.
Ah…
Vilamoura.
Podia dizer
que sim e mostrava que me importava com o que ele me fazia. Podia dizer que não
e não tinha garantias de regressar a casa.
Ele esperava
a minha resposta, com uma paciência que me confundia e me irritava. Eu não
queria ter mais nada a ver com ele. Nunca tinha tido na realidade, mas seria
melhor terminar com aquela invenção, pois eu, naquele momento, tinha outros
compromissos, outras responsabilidades.
No entanto,
apesar de ele conseguir ser falso comigo, eu não conseguia sê-lo com ele e
respondi:
- Sim, estou
zangada contigo.
Acrescentei
com relutância:
- E não te
quero ver mais, Tiago.
Ele
recostou-se no banco, de olhos fechados. Ficou assim durante algum tempo.
- Sabes
porque é que eu te fui procurar esta tarde, Ana? Para te pedir desculpa.
Sustive a
respiração.
- Tens razão.
Tenho sido um palerma contigo. Tu não mereces isso. És uma rapariga… importante
para mim. Contigo, falo em japonês. Lembras-te? És a única pessoa daqui com
quem falo em japonês.
Ele passou
para o banco de trás, tão de repente que me sobressaltou. Estendeu uma mão
entre os dois assentos, eu olhei para a mão dele.
- Vem cá.
Olhei para a
cidade iluminada. Engoli a saliva, respirei fundo.
Que se
danasse! Eu já estava danada, de qualquer forma.
Aceitei a mão
dele e fui para o banco de trás do Toyota branco. Os olhos azuis do Tiago brilhavam
e a minha alma quebrou-se em mil estilhaços de cristal.
Tornei a
engolir, à espera.
- Não me
deixes agora que preciso de ti, Ana… onegai
shimass.
- Tiago…
- Eu não sou…
-
Desprezível? Eu sei que não és desprezível. E também tenho que te pedir desculpa.
Também te tratei mal, esta tarde. Mas estava tão zangada contigo.
- Não, nena. Eu não sou…
Ele susteve
as palavras numa grande golfada de ar.
- Os meus segredos, queria revelar-te os meus
segredos. Mas está a ser mais difícil do que eu esperava.
O japonês
dele aturdiu-me.
- O quê?
Porque é que estás a falar comigo em japonês? Assim, não te consigo perceber.
- Existe tanta coisa que se pode perder. Mas
eu também perdi o que nunca quis perder. E já não sei onde está o futuro e até
se existe um futuro.
Ele baixou a
cabeça, apertou os punhos, roendo-se com uma dor qualquer que começou a sentir
e que subia à superfície, rasgando-lhe a pele e ele lutava contra essa dor. O
seu orgulho desfazia-se também em estilhaços de cristal.
Soluçou.
- Quando eu tive o acidente, tu também estavas
lá, nos meus sonhos. Tinhas um sorriso tão bonito e sorrias para mim. E
estávamos todos juntos. Eu e tu, Maron e… e o meu amigo, como se fosse possível
nós estarmos juntos. Tenho saudades dele e já não aguento mais. Tenho saudades
dele…
Levantou os
olhos onde duas lágrimas se tinham acabado de soltar. Eu comecei a chorar com
ele.
- Estamos aqui por causa de mim e eu não quero
estar aqui. Ser quem sou hoje, esse Tiago espanhol, é devido ao sangue que
derramei com as minhas mãos.
Abriu as mãos
e pôs-se a olhar para elas.
- Ao crime que cometi.
Funguei,
limpei a cara. Não conseguia parar de chorar e o Tiago também não.
- Eu matei-o. Eu matei o meu melhor amigo.
De súbito,
abraçou-me. Assustou-me, porque foi um abraço compulsivo, violento. Apertou-me
com tanta força que fiquei sem ar. Tossi.
Ele
continuava a chorar, abraçado a mim.
Enterrei as
mãos nos cabelos dele, prateados e azuis, como um raio de luar. Segredei-lhe
que estava tudo bem, mas era uma frase automática, demasiado gasta. Repetia-lhe
isso, como se fosse uma gravação, sem verdadeiramente sentir o que dizia,
porque simplesmente não sabia o que mais poderia dizer. Queria ficar assim
abraçada, porque o calor do corpo do Tiago era a coisa mais deliciosa que
experimentara na vida. Mesmo que fosse num momento extremo, mesmo que ele
estivesse a chorar e mesmo que eu chorasse com ele. Mesmo que não significasse
nada mais do que um ato desesperado de alguém carente.
- Sou culpado de um crime que não tem perdão,
nem castigo. Pensei que inventando outra identidade, anulando a anterior,
renegando a minha vida verdadeira, fosse castigo suficiente, mas descobri que
não é. Não há nada que apague o que fiz. Eu matei Son Goten, o meu melhor
amigo.
Nisto,
acalmou-se, deixou de tremer entre os meus braços. Eu não queria que ele se
soltasse de mim. Entrelacei os dedos nas madeixas do cabelo dele, como se assim
me conseguisse prender eternamente àquele calor.
- Nunca disse isto a ninguém. Julguei que não
era necessário. Mas agora percebo que o era… Precisava de desabafar, dizê-lo
com a minha voz. Mesmo que não me sinta melhor, mesmo que o peso ainda continue
aqui dentro. Mas fazê-lo contigo, nesta língua a que chamas japonês, foi como…
uma espécie de solução.
Encarou-me,
encostou a testa dele à minha, a ponta dos nossos narizes roçaram-se.
- É esse o meu segredo, o maior de todos.
Já não
chorava e eu também não.
Aguardei mais
palavras, mas ele teria terminado e ficou em silêncio, a respirar para cima da
minha boca.
Então,
afastou-se.
Encostou-se
no banco, cobrindo a cara com as mãos.
- Tiago, eu…
Eu não entendi nada do que acabaste de me dizer.
- São os meus
segredos – respondeu-me.
No autorrádio,
a música continuava. Ouvi Billy Corgan, dos
Smashing Pumpkins, a entoar:
“Believe
in me as I believe in you
Tonight…
Tonight…”
Resolvi não insistir.
Deitou a
cabeça no meu colo, respirando lentamente. Depois do pranto, aliviado, buscava
sossego. Acariciei-lhe os cabelos com toda a ternura.
Pouco depois,
adormeceu.
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