Aconcheguei-me num canto
escuro e pus-me a contar os segundos, que eram demorados como minutos,
infinitos. Talvez me deixasse dormir, entretanto, e esquecesse, nesse curto
sono, que estava metida numa enorme trapalhada, por não ter escutado os
conselhos de Gohan e de ter insistido em encontrar-me com Trunks.
A lembrança arrancou-me um
sorriso. As minhas atribulações na Dimensão Real pareciam longínquas e irrelevantes
naquele canto escuro, naquela minha existência de desenho animado.
No exterior, estava tudo
calmo. Sem tremores de terra, sem explosões, sem grunhidos de bichos, sem
passos no meu encalço. Apesar do terror, não conseguia adormecer e insisti na
contagem dos segundos. Transformei-os em carneiros. Quando se contavam
carneiros, saltando sebes e cercas, o sono vinha, assim diziam.
Escutei passos, os carneiros
e os números sumiram-se, como bolhas de sabão rebentando. Puf, puf, puf. O
demónio continuava à minha procura. Encolhi-me, a gemer.
Um pedregulho que cobria
parte da entrada do meu esconderijo foi afastada, um vulto recortou-se na
claridade.
Reagi, agarrei numa pedra,
ia lançá-la, mas ele agarrou-me no pulso. Gritei.
- Shss – pediu em surdina. –
Ana-san, sou eu.
- Quem?
- Goku.
Puxou-me, saímos do canto
escuro. Estávamos nas ruínas do salão magnífico, havia labaredas, muito fumo e
uma quietude artificial.
Colocou um dedo sobre os
lábios, pedindo-me novamente pouco barulho, sussurrou:
- Estamos em território
inimigo. Escuta… Vamos agora fazer uma viagem muito rápida. Quero que feches os
olhos. Quando os abrires, estaremos a salvo.
Era a quarta vez que o via,
a segunda que estávamos próximos um do outro. Estremeci emocionada. Segurava-me
no pulso. Tinha um toque suave, mas decidido, transmitia segurança e calor.
Acenei que sim e fiz como ele me pedia. Fechei os olhos.
A sensação foi como um
lançamento abrupto para a estratosfera por meio do elástico gigantesco de uma
fisga, nada sob os pés, em queda livre, sem gravidade. Durou o tempo de um
pestanejar, pois abri os olhos com a aflição e quando o berro nascia nas cordas
vocais descobri que estava no Palácio Celestial. Goku soltou-me o pulso
anunciando com um sorriso:
- Tal como prometido, uma
viagem muito rápida.
Uma pequena comitiva
aguardava-nos. Para além de Dende e de Mr. Popo, de Toynara e de Ten Shin Han,
totalmente recuperados do recontro com o demónio, certamente com a ajuda dos
dotes curativos de deus, estavam Piccolo, com a sua estatura gigantesca que me
impressionou e Vegeta. Ligeiramente afastados, Goten e Trunks.
Era a primeira vez que via Trunks
na sua aparência normal, como era na realidade, com os traços fisionómicos peculiares
conferidos pela Dimensão Z. Resumindo, em desenho animado, com aquela impressão
estranha de ser de três dimensões ao toque e de apenas duas dimensões à vista,
mas mais real do que alguma vez tinha sido no meu mundo. Nítido, perfeito,
único. O meu coração começou a bater como um tambor.
Ele olhou para mim e eu
olhei para ele. Quando ia atirar-me num abraço que mitigasse a falta que sentia
dele, saber se o cheiro era igual ao que me lembrava, saber se aquilo que
tínhamos partilhado no quarto da vivenda tinha algum peso agora que ele havia
regressado a casa, Dende aproximou-se de nós e disse a Goku que lhe iria repor
as energias, tal como já tinha feito com os outros. Provavelmente, não seria
muito apropriado eu abraçar-me a Trunks, já que a assistência impunha respeito,
a começar por Vegeta. Olhava-me de lado, continuava a não gostar de mim.
Dende recolheu os braços,
Goku agradeceu com uma vénia. Mr. Popo devolveu-lhe o bordão de madeira e com
uma pancada breve no chão marmóreo indicou que a reunião iria começar.
- Meus amigos, devemos
pensar no que iremos fazer a seguir para combater Zephir e os seus planos
maléficos para conquistar o Universo. Por enquanto, a guerra foi suspensa. O
feiticeiro ficou devastado com a destruição que aconteceu no Templo da Lua…
Vi Toynara torcer-se,
camuflando ferreamente as emoções que se revolviam dentro dele, comoção e
irritação. A destruição do templo também o tinha afetado e perguntei-me se
culparia Zephir ou Goku do facto. Mr. Popo posicionara-se estrategicamente
junto a ele, como se o vigiasse fingindo que o acompanhava.
- …E ordenou aos guerreiros
que lutam por ele que retirassem – prosseguiu Dende sério. - Mas, acredito,
será uma suspensão temporária, muito temporária. Zephir é calculista, irá
planear o que fazer a seguir. Temos connosco a rapariga da Dimensão Real, mas
ele tem a primeira metade do Medalhão de Mu, indispensável para a sua aspiração
de se transformar num deus. O medalhão está dividido em duas partes, a segunda
encontra-se algures neste planeta.
- Então, Zephir irá procurar
pela segunda metade do medalhão de Mu.
- Hai, Ten Shin Han. Também julgo que é exatamente isso que Zephir
fará a seguir.
- Nós também podemos
procurar pela segunda metade do Medalhão de Mu. Se a encontrarmos antes de
Zephir, impediremos que o medalhão fique completo e ficaremos em vantagem sobre
o feiticeiro.
- Mas a Terra é muito grande
– observou Goku. – Por onde iremos começar a procurar?
- Não sejas idiota, Kakaroto
– disse Vegeta, de braços cruzados. – Se queremos essa metade desse medalhão,
vamos reunir as sete bolas de dragão e pedi-la a Shenron.
- Eh, Vegeta! Que ideia
fantástica! – Exclamou Goku.
Vegeta fungou.
Dende disse:
- Concordo. Devemos ter
connosco uma das metades do Medalhão de Mu.
- E devemos proteger a
rapariga da Dimensão Real – acrescentou Piccolo e o vozeirão do guerreiro namekusei-jin a falar de mim causou-me
calafrios. – Ela não pode voltar a cair nas mãos de Zephir.
- Hai! – Goku olhou para mim, depois para Trunks e para Goten.
Chamou-os: – Rapazes. Vocês ficarão a cuidar da Ana-san. Levem-na para as
montanhas, para o sítio onde me costumo treinar com Ubo. É relativamente
secreto, longe de tudo. Existe uma cabana com as comodidades mínimas para
passar lá uma curta temporada. A rapariga deverá ficar longe do alcance de
Zephir e dos seus guerreiros, que certamente a irão procurar nos próximos dias.
Trunks e Goten
entreolharam-se. Aceitaram a incumbência, acenando com a cabeça em simultâneo.
- Hai.
- Eu vou procurar pelas
bolas de dragão – prosseguiu Goku.
- Eu também vou – disse
Vegeta.
- Estás a falar a sério? Mas
isso seria muito bom! Agradeço-te a ajuda, Vegeta.
- Dois a procurarem pelas
bolas de dragão encontram-nas mais depressa. Devemos ir até à Capsule
Corporation para buscar o radar do dragão e pedir a Bulma que fabrique um
segundo radar.
- Depois de termos a segunda
metade do medalhão, teremos de definir uma nova estratégia para eliminar Zephir
– disse Dende apertando o bordão com ambas as mãos. – Tendo em conta as
características singulares dos seus guerreiros. Vi o que aconteceu nas últimas
horas no Templo da Lua. Os demónios são imortais, Keilo atinge o nível três dos
super saiya-jin.
- Uma etapa de cada vez, kami-sama – alertou Mr. Popo. –
Primeiro, o Medalhão de Mu. Segundo, proteger a rapariga da Dimensão Real. Só
depois, devemos pensar em eliminar o feiticeiro e restaurar o Templo da Lua
para Toynara.
O jovem feiticeiro
mostrou-se surpreendido com aquela declaração.
- Tens razão, Mr. Popo. Uma
etapa de cada vez.
- Piccolo? Ten? – Indagou
Goku. – Se quiserem também nos poderão ajudar com as bolas de dragão.
- Ficarei aqui, a vigiar a
vossa retaguarda – replicou Piccolo sorrindo.
Ten Shin Han negou com a cabeça.
- Bastam dois saiya-jin para procurarem pelas bolas de
dragão. E também julgo que não vão precisar de mim nos próximos combates. No
entanto, se necessitarem da minha ajuda, estarei pronto. Regresso a casa.
Goku rematou:
- Está decidido.
A conversa terminava, havia
um novo rumo, cada um seguiria caminhos distintos. Agradou-me a perspetiva de
passar uns dias com Trunks e Goten, nas montanhas, num sítio secreto e
inacessível.
Inesperadamente, Goku
despediu-se de mim, piscando-me o olho:
- Djá ná, Ana-san.
- Djá ná – devolvi atrapalhada.
Era curioso pois as vozes
deles eram as originais, o timbre inconfundível, perfeitas como as suas imagens
coloridas, mas eu entendia tudo o que diziam apesar de ser, e parecia-me mesmo
que o era, em japonês. Também eu falava em japonês e era tudo tão esquisito que
me fazia dor de cabeça e recusei-me a pensar mais naquilo.
Goku perguntou:
- Estás pronto, Vegeta?
- Sempre. Nem precisas
perguntar.
Trunks passou um braço pela
minha cintura. Arrepiei-me com o toque. Igual, igualzinho. Iríamos partir para
as montanhas com Son Goten, voando.
Goku teletransportava-se com
Vegeta para a Capsule Corporation.
A aventura mais louca da
minha vida iria começar.
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