Pousei o
auscultador devagar, fixei o telefone.
Tinha acabado
de recusar um convite do André que queria encontrar-se comigo naquela
quinta-feira à noite. Mentira-lhe, dissera-lhe que estava cansada, tinha sido
um dia arrasador no trabalho e queria descansar. Ele aceitara, convencendo-se
que eu estava a preparar-me para o fim-de-semana. Recordara-me que sexta-feira
era já no dia seguinte e que iria mesmo conseguir a chave do apartamento do
primo de Évora. Eu concordara com a charada, sim, descansava para sexta-feira,
haveria de ter a mala pronta e iríamos passar o famoso fim-de-semana juntos, os
dias e as noites.
Mas eu estava
cheia de dúvidas.
Olhei para a
palma da mão esquerda, onde tinha o papel com o endereço e o telefone do
professor. Agarrei no auscultador, mas não o tirei do descanso. Não conseguia,
era como se o tivesse colado ali com a mentira, quando desligara o telefonema
do André.
Não sabia
classificar a minha relação com o André, quando tinha o coração cheio de um
sentimento esquisito, paixão misturada com ternura e arrebatamento, pelo anjo
dos olhos azuis que, descobrira-o maravilhada, era mesmo alguém de outro mundo,
não celestial, mas de lá perto. E quando o André antecipava um fim-de-semana
especial e eu não sabia como lhe dizer que não e desconfiava que não lhe iria
dizer que não.
Respirei
fundo.
Não era capaz
de telefonar ao professor, não sabia o que dizer ao telefone se ele me
atendesse, escutar-lhe a voz com pronúncia castelhana, tratá-lo pelo seu
verdadeiro nome e dizer-lhe que iria aparecer na casa dele, porque, apesar do
interregno de uma semana, eu gostaria imenso de continuar a aprender japonês,
agora ainda mais sabendo que ele era filho de quem era.
Doía-me só de
pensar no André. Na desilusão dele, na minha desilusão. Na mala que eu teria de
fazer, no fim-de-semana longo e inacabado, pleno de enganos.
Amarrotei o
papel, enfiei-o no bolso das calças. Voltei costas ao telefone. Agarrei no
caderno dos apontamentos e saí de casa.
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